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domingo, 23 de outubro de 2011

A Má-Notícia e o exercício ilegal da profissão (Ayala Gurgel)







Já destaquei aqui várias vezes que a comunicação de más-notícias não é uma tarefa fácil ou agradável para a maioria das pessoas. Quero destacar também que os comportamentos de fuga e esquiva que permeiam essa questão podem incorrer em erros morais e jurídicos prejudicando os pacientes e profissionais.






Um desses erros mais comuns acontece quando o profissional delega a outro o anúncio da má notícia, não importando a razão para isso.





Ora, a responsabilidade do anúncio do conteúdo de um diagnóstico é de responsabilidade do profissional que o fez. É seu dever anunciá-lo e um direito do paciente querer ou não sabê-lo, em quantidade e qualidade. Se o diagnóstico é médico, é dever do médico anunciá-lo, se da enfermagem, dever do enfermeiro, se social, do assistente social e assim sucessivamente.





Acontece, porém, que ao se esquivar de anunciar os resultados de um diagnóstico porque seu conteúdo pode gerar desconforto ou outra reação aversiva a si mesmo ou ao paciente e delegar essa função a outro, o profissional que assim procede incorre em erro ético e legal. Ele deixa, por um lado, de exercer a sua obrigação profissional para com o paciente de cuidar dele até o final, de cede-lhe as informações importantes e necessárias para o seu cuidado e, quando não, quebra do sigilo profissional. Contudo, o mais grave, é que esse profissional, ao delegar a outro uma tarefa sua, está permitindo de forma ativa a exercício ilegal de sua profissão.





Nenhum médico pode delegar ao assistente social a cirurgia que tem que fazer, contudo, delega a esse mesmo assistente ter que anunciar o resultado dos procedimentos - quando não saiu de acordo com o desejado.





Tomo o médico como exemplo porque é a variável mais comuns nesses casos, chegando a ter esse comportamento legitimado por algumas instituições de saúde que já institucionalizaram o assistente social ou o psicólogo como o responsável por esse anúncio. Contudo, nenhum profissional pode delegar a outro uma função sua. isso incorre em exercício ilegal da profissão e pode trazer muitas complicações, tanto para o profissional que o faz quanto para o paciente. E, em nenhuma hipótese, a instituição tem poder para desfazer essa cláusula pétria da ética profissional: cabe somente ao profissional responder por sua atuação profissional.




Esse protecionismo ao médico e ingenuidade de muitos gestores corrompe a noção de trabalho em equipe e torna resistente a mudança de paradigmas comportamentais dentro das ações de saúde mais pactuados com uma ética humanizadora.

domingo, 11 de setembro de 2011

O 11 de setembro e os requintes perversos da morte como espetáculo (ERASMO RUIZ)














Passaram-se dez anos desde que naquela manhã de 11 de setembro de 2001 fomos surpreendidos pelas impactantes imagens do que foi considerado o maior atentado terrorista da história. Mais do que o desabamento do World Trade Center (WTC), reverberaram em nossas mentes as imagem dos mortos que rapidamente foram exibidos em seus aspectos biográficos.








E foi exatametne isso que nos aproximou de uma postura mais humana e dramática do 11 de setembro. Pela posição de importância e controle que a mídia estadunidense possui, até hoje somos bombardeados pelas pelas triviais histórias de vida daqueles que estavam ali trabalhando e passeando, dos heroicos bombeiros esmagados, dos desesperados que se atiraram pelas janelas, das últimas mensagems de amor mandadas pelos celulares.





O tempo vai passando e repentinamente parece que as vítimas do WTC começaram então a seguir o destino da maoria dos mortos: o esquecimento, embora ocorra a construção de memoriais e nomes sejam inscritos em bronze e mármore. Mais dias vão se passando e muitas pessoas se perguntam: quem eram aqueles?





Hoje li alguns textos críticos sobre a forma como a mídia superexplora o evento. Tudo é tendencioso na mídia e de certa maneira redutível aos objetivos de se ganhar dinheiro. Ainda assim, há que se pensar que estes gestos de marquetim e propaganda política não se esgotam neles mesmos. Reverberam sentimentos, tentam sedmentar emoções, suprem necessidades de se manter viva uma lembrança, mesmo que parte dela já adentre ao terreno do mito e da ilusão.



                                                  Hiroshima após a explosão




O que  me choca entretanto é uma certa postura, digamos, "estatística", eu diria até "desportiva" em se tratar desse tema. Muitas pessoas desgostosas dizem que os americanos mataram mais em Hiroshima e Nagazaqui, que patrocinaram golpes de estado por todo mundo ou que o atentado foi um resultado direto da forma como o Império conduz sua política externa, ou que Osama foi um filho dileto da CIA.





Tudo parece ficar meio que redundante, um placar onde acompanhamos números que comparam quantidade de mortos como se estivéssemos numa peleja de basquete. No plano da minha racionalidade eu posso até entender isso tudo e encontrar nexos empíricos nesses raciocínios. O problema é quando eles servem para promover um certo escudo de insensibilidade a dor e ao sofrimento e, neste sentido, podem se transformar em algo tão bárbaro quanto aquilo que querem criticar.





                                    Crânios de vítimas de massacre em Ruanda




Em Ruanda morreram 700.000 pessoas em massacres étnicos. A OTAN com seus bombardeios pode ser responsabilizada pela morte de centenas de líbios. A ingerência dos Estados Unidos em golpes de Estado pelo mundo todo pode ter determinado a morte de outros tantos milhares. Mas e o que aconteceu nas torres gêmeas? Pode ser um evento comparável com os massacres? Em que sentido dizer que a morte de 3.000 pessoas é um evento menor que a morte de 30.000 pessoas? É uma análise que se reduz ao critério quantitativo?





Do meu ponto de vista não podemos nunca reduzir a dor e o sofrimento a critérios quantitativos nem usar raciocínios tortuosos que ofereçam combustível à barbárie. O que aconteceu nas torres gêmeas é tão ultrajante quanto o que ocorreu em Hiroshima. Um evento não pode ser usado para minimizar o outro.





Quando um avião norteaamericano bombardeia por engano uma festa de casamento no Afeganistão e mata 60 civis inocentes não se pode buscar nos mortos do WTC uma justificativa que minimize essa barbárie, que torne lícito o fato que crianças tenham sido trucidadas pela mais "civilizada" tecnologia. Usar deste raciocínio é desrespeitar a memória dos mortos do WTC.





Sinalizar que em Hiroshima e Nagazaqui morreram muito mais pessoas do que no atentado às torres gêmeas é um argumento mostruoso e que desonra a memória dos mortos japoneses e toda a heróica tentativa dos atuais moradores destas cidades em transformar tanta destruição e barbárie em motivos para se construir as bases de uma nova e efetiva cultura de paz.





Lembrar que existem outras tragédias e  que elas precisam ser tematizadas SIM. Usar dessa lembrança para minimizar o que aconteceu no 11 de setembro JAMAIS!