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terça-feira, 7 de setembro de 2010

Busca da sabedoria de viver a própria morte com dignidade (Léo Pessini)





Nasce uma sabedoria baseada na reflexão, aceitação e assimilação do cuidado da vida humana no sofrimento do adeus final a partir de dois limites opostos: de um lado, a convicção profunda que brota das culturas das religiões de não matar ou abreviar a vida humana sofrida (eutanásia); de outro lado, a visão e o compromisso para não prolongar a dor, o sofrimento, a agonia, ou pura e simplesmente adiar a morte (distanásia, tratamento fútil, obstinação terapêutica). No não-matar e no não-agredir terapeuticamente está o amarás, isto é, o cuidado da dor e do sofrimento humanos, que em última instância aceita a morte e faz desta experiência o último momento de crescimento de vida, como revela todo o trabalho pioneiro da médica psiquiatra norte-americana, Elizabeth Kübler-Ross. É o ideal da ortotanásia.



Temos um grande desafio pela frente: precisamos aprender e vivenciar a dimensão do amor/cuidado para com o paciente em estado crítico, terminal, em estado vegetativo persistente ou do neonato concebido com sérias deficiências congênitas, sem exigir retorno, num contexto social em que tudo é medido pelo mérito, com a naturalidade e a gratuitidade com que se ama um bebê! Como fomos ajudados a nascer também precisamos ser ajudados a morrer. A solidariedade eficaz alia competência científica e humana a serviço da pessoa fragilizada. Isto é a garantia de dignidade no adeus à vida. Concluímos com um famoso adágio francês do século XV (atribuído por alguns ao médico Oliver Wendell Holmes) que, ao falar da missão da medicina, sintetiza de uma forma paradigmática com muita felicidade o ideal entrevisto ao longo deste trabalho em torno da distanásia. O objetivo último da medicina é "curar às vezes, aliviar frequentemente, confortar sempre". A implementação dessa visão na prática de cuidados na área da saúde vai garantir-nos a certeza de que poderemos, quando chegar o momento de dar adeus a este mundo, viver com dignidade a própria morte.

(PESSINI, L. Distanásia. São Paulo: São Camilo - Loyola, 2001, p.339)