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domingo, 27 de janeiro de 2013
Luto e Solidariedade pelas vítimas de Santa Maria do Sul
Fomos todos assaltados por uma notícia inesperada, embora venha se tornando comum nos mais diversos ambientes (não só em boates, mas também em igrejas, escolas e residências) e lugares (não são apenas os países periféricos, mas também os capitalistas centrais, da américa à oceania): vidas sendo findadas em decorrência de acidentes perfeitamente evitáveis e causadores de muita dor, sofrimento e comoção.
O caso de Santa Maria do Sul não é único, mas nem por isso não pode ser pensado como se fosse, pois, nesse momento, a morte de cada um é única, a dor de cada amigo, parente, amado e amante é única. Contudo, mesmo sendo única, é coletiva, pois a solidariedade que nos move ao encontro de cada um, de cada uma, é de todos. É da humanidade que há em nós.
As responsabilidades precisam ser apuradas e os culpados punidos. Isso não trará ninguém de volta nem aliviará nenhuma dor, mas, certamente, a impunidade e o descaso continuado aumentará a dor dos enlutados e a geração de novas vítimas. Crimes (isso não foi uma catástrofe) como esse não podem ser tolerados nem passar em vão. Que aprendamos com o sofrimento e a morte de tantas pessoas. E, quem puder ajudar, faça algo. Quem não puder, por favor, não atrapalhe. O povo enlutado, gaúcho ou não, familiares ou desconhecidos, não precisam de piadinhas religiosas, racistas, políticas ou difamatória. Uma sociedade que não respeita os mortos é uma sociedade de abutres.
A comunidade gaúcha convoca a nossa solidariedade: psicólogos, bombeiros, médicos, enfermeiros, assistentes espirituais, assistentes sociais... homens e mulheres de boa vontade que estejam dispostos a ajudar. A simplesmente ajudar. E que saibam fazê-lo, não para a própria promoção, mas para ajudar aos que mais precisam.
Nosso blogue se solidariza com todas as pessoas enlutadas e abomina as piadas de quaisquer ordem contra o sofrimento alheio.
domingo, 6 de novembro de 2011
Dor x Esperança (Danielle Leite)
Leandro era um rapaz cujo os pais tinham acabado de se
separar. A mãe e as duas filhas foram morar no interior do Maranhão,
o pai com sua nova família permaneceu morando em São Luís.
A mãe recomeçou sua vida, em busca de dar o melhor
para seus filhos, Leandro então preferiu continuar morando em São
Luís para terminar seus estudos, na época vésperas de vestibular,
terceiro ano, foi morar na casa de uma tia. Mas sempre que podia
viajava para onde sua mãe até porque tinha muitos amigos na cidade
e era muito querido.
Era um rapaz muito divertido e adorava curtir a vida, às
vezes era muito inconseqüente. Sua mãe se chama Raimunda, ela se
preocupava muito com ele, principalmente quando tinha festas, shows
na cidade, pois Leandro sempre que estava na cidade ia e bebia muito,
não se preocupava que voltaria para casa pilotando a moto. Esta que
sua mãe com muito sacrifício comprou.
Um belo fim de semana Leandro liga para sua mãe
avisando que iria para onde ela, haveria no local um show do qual
todos os seus amigos já tinham o convidado. Ele chegou à cidade
logo pegou a moto e foi ao encontro dos amigos para conversar e
combinar sobre a festa de logo mais a noite.
A
noite chega, ele se arruma e a mãe pede com muita aflição para ele
se cuidar e não beber. Como todo adolescente acha que é exagero de
mãe. Ele passa na casa da namorada pega ela de moto e vai para a
praça da cidade encontrar os amigos para depois partirem juntos ao
local do show. Começaram a beber e depois foram para a festa. No
decorrer da mesma depois de muito beber Leandro discute com sua
namorada por ciúmes, ela sai e vai embora, ele começa tenta
provocar uma briga e é retirado do local pelos seguranças.
Ao
sair revoltado e em alta velocidade de moto, passou em uma avenida
movimentada da cidade e não parou. A moto caiu em um buraco ele
sacou e como estava sem capacete bateu com a cabeça em uma calçada.
Logo apareceu uma multidão e o levaram as pressas ao hospital da
cidade, mas logo despacharam para trazer para capital.
Ao
chegar aqui começou o sofrimento de sua mãe em ter que ver seu
filho lutar pela vida na UTI do Socorrão, vivendo através de
aparelhos, mas sempre confiante e com esperança que ele sairia
dessa. O fato chocou toda a cidade, ninguém conseguia acreditar que
um rapaz tão jovem, bonito e de boa família estava naquela
situação.
Enfim quase três meses se passaram até que certo dia
veio a noticia que ele havia falecido. Foi um desespero, Raimunda
quase enlouqueceu, sofreu muito, sua fisionomia era triste mesmo
depois de muitos anos do ocorrido. A cidade parou para sua despedida,
foi emocionante, todos sofreram com a família.
Hoje, após oito anos do ocorrido, já se pode observar
que a mãe está mais conformada e superou a depressão, mas ainda
sofre bastante quando fala dele. Sua filha mais nova teve um filho e
se chama Leandro em homenagem ao irmão, esse neto veio a preencher
um pouco do vazio que o filho deixou com sua ausência.
É
inexplicável esse fato, porque a gente sempre acha, ou prefere
acreditar que é uma coisa distante e que pode acontecer com todo
mundo menos conosco! È muito triste!
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Luto Virtual (Paula K Portugal)
Para
expressar os sentimentos surgidos com a perda de um ente querido, os
usuários encontram nas redes sociais mais um espaço de desabafo.
Aqui vale fazer álbuns de foto em homenagem àqueles que já se
foram, e/ou trocar a imagem do perfil por símbolos do luto, como a
fita do luto ou a rosa negra, e pela foto do falecido.
Poemas
e trechos de musicas como “Gostava
tanto de Você” de Tim Maia, também acabam sendo utilizados por
possuírem letras que se encaixam perfeitamente neste momento de
perda.
Nas mensagens postadas
pelos usuários percebe-se um turbilhão de emoções como, alivio
pelo parente ou amigo não estar mais sofrendo; esperança em um
paraíso e na existência de Deus; o enaltecimento do falecido, pois
como dizem, para ficar bom, basta morrer!; além de questionamento
como porque isso está acontecendo? Porque Deus levou aquela pessoa?
Todas estas manifestações
despertam uma rede de apoio e comoção de outros usuários, podendo
caracterizar-se assim como um pedido de apoio. São também um grito
de liberdade para o turbilhão de sentimentos despertados com o luto,
uma vez que o ciberespaço é um lugar sem limites para a expressão
daquilo que se sente, muitas vezes guarnecido pelo anonimato.
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
A Árvore – Cada qual com sua forma de superar a dor (Adriana Mendonça)
Título original: (L'Arbre)
Lançamento: 2010 (Austrália, França)
Direção: Julie Bertuccelli
Atores Principais: Charlotte Gainsbourg, Morgana Davies, Marton Csokas, Christian Byers.
Duração: 100 min
Gênero: Drama
O drama começa com a morte de um Pai (Aden Young), arrimo e chefe de uma família com quatro filhos. A filha menor, Simone (Morgana Davies), presencia tudo. Inicialmente, o sofrimento da família enlutada é representado de uma forma bem francesa, com o filme lento, arrastado, mas também muito bonito e dramático. Simone é a única menina entre os filhos e que com seus oito anos de idade acredita fielmente que o espírito de seu pai ficou na árvore ao lado da sua casa - e junto à qual seu pai morreu de um infarto fulminante enquanto dirigia, voltando de uma longa jornada de trabalho.
Naturalmente, cada um sofre a perda ao seu modo. A esposa fica depressiva, deixando a casa e os filhos de lado, perdida entre o mundo onírico e a realidade de conviver sem o marido, passando os dias inteiros em pesado sofrer. O filho mais velho, Tim, toma às rédeas da casa, tentando assim manter um pouco de ordem, o que se torna quase impossível. Enquanto isso a pequena Simone prefere subir à árvore e ficar horas no local, sentindo a presença do pai. Já o caçula não fala, emudecido em sua própria dor. A soma desses formas gera um ambiente deprimente, mas que se apóia mutuamente, confrontando com os demais problemas que aquela árvore vem trazendo para a estrutura da casa, uma vez que as raízes estavam destruindo os encanamentos, além de os galhos mortos caírem sobre o telhado.

A cada conversa imaginária que Simone tem com seu pai "encarnado espiritualmente" na árvore, ela se torna cada vez mais dependente da Figueira. A mãe, aos poucos tenta refazer sua vida, começa a trabalhar numa loja e se envolve num relacionamento com o dono. Simone não aceita o namoro e ao mesmo tempo tudo se complica quando os vizinhos procuram uma forma de podar a árvore. É quando Simone se recusa a sair da Figueira até que todos resolvam que ela não deve ser retirada do seu local. A mãe cede às vontades da filha e passa a proteger o “amor” que ela sente pela planta, se envolvendo ela mesma também com essa forma de enfrentamento do luto (acreditar que o marido falecido fala com ela por meio da árvore). Essa convivência e forma de enfrentar o luto é não-autorizada e desperta as mais diversas críticas, do amante à vizinhança.
Mas, é a própria natureza que dá sinal de que algo deve mudar, quando chega um ciclone que coloca em cheque o apego que a família desenvolvera pela árvore e o lugar.
Percebe-se então a forma que essa criança tenta conviver com uma perda tão significativa pra ela, quanto para a família que quase se desestrutura com a morte do pai. O filme tenta retratar a vida como ela realmente é, ou como pode ser quando a perda traz uma necessidade de maturidade para prosseguir com a uma vida por mais dolorida que ela esteja.
Adriana Mendonça (aluna da Graduação em Enfermagem da UFMA)
Você pode assistir o trailer do filme aqui
http://www.youtube.com/watch?
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
Segredos do Tempo (Jacqueline Abrantes*)
Fim de tarde. Convite para um pouso sobre os versos de Alberto Caeiro: “É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol, uma nuvem passa a mão por cima da luz e corre um silêncio.”
O sol, antes de partir, derrama-se deixando atrás de si insuportável e triste beleza. Os pássaros se recolhem e o silêncio se espraia. Como se a dor embriagada de vermelho clamasse pelo vento da noite enquanto o corpo suplica para recolher-se ao som de triste melodia. Saudade. Triste lamento das rodas de um carro de boi pela estrada. Água corrente cansada de riacho. Vozes escutadas ao longe. Pavios acesos de lamparinas ao vento; lampejos na escuridão. Saudade sabor de sertão. Cheiro de mato. Rede vazia, parada. Vazio inconformado. “Ausência assimilada”, diria o poeta Drummond: “a ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim.”
Essa “ausência assimilada” e quieta da tarde convoca as lembranças dos que se foram. É possível ancorar a saudade no que está ainda vivo marcando corpo, gestos, palavras, sons, instantes...mãos de avó com cheiro de sabão feito em casa a passear pelos cabelos, avô fazendo contas “de cabeça”, cantigas entoadas noite a dentro.
Recentemente, a irmã de uma grande amiga se foi.
Na infância, seu corpo fora acometido por uma síndrome rara; negava-se a crescer. Não resistiu a uma pneumonia que se agravara. Em trinta e cinco anos vividos, permanecera pequena como uma criança. Sua irmã fora sua companhia até os últimos momentos. “Tenho direito à acompanhante. Sou especial.” Dissera à equipe do hospital no momento em que entrara na UTI.
Em seus escritos, fora encontrada uma linda história de uma menina que, repousando em uma nuvem, ansiava por descobrir os segredos do senhor tempo perguntando-lhe “quanto tempo o tempo tinha”.
Lembranças do tempo dela... na praia, nas festas entre os amigos, na cama rodeada por sobrinhos, brincando na cadeira de rodas ou passeando nos braços de alguém. Um sorriso era a sua marca em qualquer que fosse o tempo.
Naquela manhã, o sorriso permanecera iluminando seu rosto. Sobre o véu branco de bordas rendadas, um lírio repousava delicado no alto de suas pequenas mãos.
Nos olhos de sua mãe e dos amigos, nos abraços, nas palavras não pronunciadas, era possível sentir os instantes/tempos da vida que se tornam eternos: na dor que nos religa, na ternura que nos une, na confirmação dos nossos afetos, da nossa vulnerabilidade e força. Porque precisamos do outro para que ele nos faça viver. Precisamos do outro para sentir que cada ser é especial.
“Você nos tornou pessoas melhores”. Foram as palavras ternamente ditas pela irmã ao se despedir.
O outro que se foi ainda está em nós. Tornou-nos alguém melhor. Fez-nos mergulhar com alegria e intensidade na beleza das coisas simples; nas coisas divinas do mundo das quais nos falava o poeta Vinícius: “a coisa mais divina que há no mundo é viver cada segundo como nunca mais..." Segundos vividos que de tão intensos duram uma eternidade; tornam-se “ausências assimiladas” dentro de nós.
Talvez este seja um dos segredos do tempo.
*Jacqueline Abrantes é Enfermeira da Estratégia de Saúde da Família no Município de Natal-RN
domingo, 5 de junho de 2011
Luto, ódio, vingança e perdão: ambivalências na trajetória de dor (Ayala Gurgel)
Nesse dia 05 de junho,
a jornalista Fernanda Aragão, do IG São Paulo, publicou uma
reportagem sobre a trajetória da dor de Massataka Ota, que teve o
filho de 8 anos assassinado durante um sequestro. A história dele
representa a de muitas outras pessoas, enlutadas por causa de uma
sociedade que despreza a vida humana em troca de muito pouco.
A história de dor e
sofrimento desse senhor começa com a notícia do sequestro do seu
filho e se acentua com a de sua morte. Morte que interditou muitos
sonhos de sua família e levou-o a uma realidade na qual o alcoolismo
e o desejo de vingança, longe do acompanhamento médico e
psicológico, foram os sintomas mais evidentes de que algo estava
errado, não só com a pessoa do sr. Ota, mas com toda a sociedade
que permitiu e reforça esse tipo de situação, além de exigir do
enlutado coerência onde falta sentido e retorno à normalidade onde
o normal é patológico.
A reportagem completa
pode ser acessada no site do IG:
http://saude.ig.com.br/minhasaude/bebia+meia+garrafa+de+uisque+por+dia+para+afogar+meu+odio/n1596998687969.html
O que quero destacar
aqui é que, casos como esses não são raros. As mais diversas
formas de violência, especialmente a violência armada motivada por
crimes contra o patrimônio e a vida, têm deixado órfãos e pais
enlutados por seus filhos (nota-se aqui que isso é tão estranho que
na nossa língua não há sequer uma palavra para designar esse
estado de luto – o do pai que perde o filho). E, junto com a dor e
sofrimento, o desejo de vingança, o ódio sendo alimentado por um
sistema inoperante, corrupto e pouco educador.
As perdas se somam e se
multiplicam quando observamos que as pessoas enlutadas vítimas de
violência não recebem a assistência devida e são pressionadas a
perdoar rapidamente, como se o perdão fosse a única terapêutica
viável (embora seja, em muitos casos, a única disponível) e manter
sentimentos como ódio e desejos como vingança fossem ainda mais
malévolos, e dessa vez, depondo não apenas contra a dor, mas também
contra o caráter do enlutado.
Ambivalências de
sentimentos e desejos são comuns e presentes em muitos enlutados.
Não há a dor pura quando se perde um filho dessa forma, logo, não
deve haver ortodoxia terapêutica nesses casos. Posicionamentos em
favor de determinados valores são meras valorações do terapeuta e
da sociedade que acabou de legitimar e favorecer a supressão da
pessoa amada. Voltar-se contra tudo o que aquela sociedade representa
não é somente uma atitude comum, mas até mesmo esperada. Assim,
sentimentos como ódio e desejos como vingança não devem depor
contra o enlutado, mas serem compreendidos como ambivalências desse
tipo de enlutamento.
E, se for verdade o que
Santo agostinho ensinava sobre o perdão (perdoar de verdade é
esquecer o motivo pelo qual se perdoou), podemos até dizer que não
se deve buscar, nesses casos, o perdão, mas apenas a remoção do
desejo de vingança.
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
"Fértil Cratera de Amor" - carta de adeus de uma mãe ao seu filho
Uma mãe, minha amiga, perdeu seu filho de uma forma trágica. A dor e o luto a inspiraram para escrever uma poesia com o intuito de homenagear o filho, que faria 28 anos, e ajudar a diminuir a dor das mães que venham a sentir a mesma dor pela qual ela passa: a morte prematura de um filho.
Elementos importantes para a elaboração do luto, como apego religioso e espiritualidade, sinceridade e espontaneidade nas palavras, independente de se expor nas mais diversas formas, forte carga emocional e pouca habilidade socila para lidar com a questão estão presentes no texto. Como a autora, espero que ele seja útil, mas, o mais importante, é esperar que as pessoas que passam por isso possam ser acolhidas e atendidas de uma forma mais humana e profissional.
Elementos importantes para a elaboração do luto, como apego religioso e espiritualidade, sinceridade e espontaneidade nas palavras, independente de se expor nas mais diversas formas, forte carga emocional e pouca habilidade socila para lidar com a questão estão presentes no texto. Como a autora, espero que ele seja útil, mas, o mais importante, é esperar que as pessoas que passam por isso possam ser acolhidas e atendidas de uma forma mais humana e profissional.
Fértil Cratera de Amor
Querido filho,
Carne da minha carne,
Vida da minha vida,
Que saudade, meu amado!
Que saudade!
Querido, tenho sofrido e chorado tua ausência...
Sei que partiu, mas te sinto tão perto...
Tão dentro de mim...
Meus olhos não podem negar meu pranteado,
Mas meu coração não pode negar para ti que esse pranto é um lindo pranto na Paz, porquanto sou humana e divina, também!
Sofro em Cristo e com Cristo!
Querido, quero agradecer a Deus pelo presente que me ofertou durante esses vinte e sete amados anos...
Agradecer a Deus pelo anjo que dispôs na minha vida!
Tu foste e continua sendo este anjo amado de Deus!
A tua partida me levou à agonia do Monte das Oliveiras
A tua partida me levou ao abandono do Monte Calvário e lá, meu querido, eu bradei:
"Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?"
Mas lá, amado, eu também tive a oportunidade de dizer: Pai em tuas mãos eu entrego o espírito de meu filho, e o meu também!
Querido, compreendo que um servo não é maior que o seu Senhor, nem um servo é maior que sua senhora: Nossa Senhora!
E com ela permaneço aos pés da cruz, em pé, e não só com um, mas com muitos amados apóstolos de Cristo.
A tua partida; o emu nascimento espiritual!
Filho, sofri, morri, mas ressuscitei em Cristo, por ti!
A tua partida deixou em mim uma cratera que deveria ser preenchida tão somente por Deus!
E hoje, posso te dizer, meu amado, que o amor de Deus está jorrando dentro dessa fértil cratera de amor, deixada em mi por ti!
E quando ela transbordar de amor, então estarei como uma árvore frondosa, pronta para acolher os passarinhos nos seus galhos!
Um beijo, meu querido, minha carne, minha vida, meu amado espírito, no teu coração tão puro e meu!
Deus esteja com teu espírito. Amém!
Tua Nila
terça-feira, 27 de outubro de 2009
O luto por animais: a difícil tarefa do desapego (Mariana Farias)
Há algumas semanas quando assistia a um famoso talk show brasileiro, a entrevista de uma atriz provocou-me, ao mesmo tempo, gargalhadas e reflexões. Como que ela fez isso? Falando de morte!!
Em suma, sua entrevista consistiu em relatos sobre seus inúmeros animais de estimação e a forma, precoce ou não, em que se dava a separação: a morte. Relatou que sempre que o fatídico acontecia, enterrava os bichinhos no beiral de sua janela, com direito a cruzes e flores para o falecido. Até ai, tudo bem!
Eis que surge um certo periquito em sua vida. Ela cuida dele com todo carinho e dedicação, até este ter o mesmo destino que os demais bichanos, ou melhor, mesmo após ele ter esse mesmo destino. Pois este não ganha um simples jazido na janela com flores e cruzes, o que ela faz? Congela-o por CINCO ANOS, no freezer de sua casa, saindo só para ser empalhado. ‘De volta à vida’, participa das festas em família, da decoração e até das entrevistas.
Após algumas risadas, certas questões permeavam minha mente. Como explicar tal tipo de comportamento? Para entender a situação devemos saber com que se relaciona o processo do luto. Segundo estudos de Freud (1976), Worden (1998) e Bowlby (2004), está associado a muitos comportamentos e doenças com os quais o profissional de saúde (especialmente o de saúde mental) se depara. A forma como o luto é elaborado pode tanto estar associada à capacidade que o indivíduo tem para restabelecer a sua vida quanto a de não conseguir fazê-lo. Ou a outras questões, tais como, abuso do álcool e outras drogas, inclusive medicamentosas, exacerbação da morbidade e mortalidade etc.
Uma palavra que descreve bem o comportamento da referida atriz é APEGO, para a qual Bowlby tem teoria com mesmo nome. A Teoria do Apego apresenta 13 generalizações que postulam o apego como criação de laços ou vínculos entre indivíduos para além da satisfação de certos instintos biológicos, como a alimentação e o sexual. O apego ocorre mesmo quando não há reforço dessas necessidades biogênicas. São, como
escreveu Worden (1998, p.19), oriundos da necessidade de segurança e proteção. Por isso, são formados bastante cedo e direcionados a poucas pessoas.
Na soma dessas generalizações tem-se que a teoria do apego é, conforme Worden (1998, p.19) escreveu: «(...) um meio de definir a tendência dos seres humanos de estabelecer fortes laços afetivos com outros, e uma forma de compreender a forte reação emocional que ocorre quando esses laços ficam ameaçados ou são rompidos». Tais laços são essenciais para se compreender a origem da dor e do sofrimento advindos da perda de algo ou alguém. Se alguém estabelece laços tão fortes com outros é porque existe a necessidade de segurança e proteção para a própria manutenção da sobrevivência. A ruptura desses laços é sempre vista como uma ameaça, não só à vida do indivíduo, mas à da espécie. O processo de luto, portanto, é um processo de luta de sobrevivência, tanto desse indivíduo quanto da espécie, que nele se recupera e garante a sua continuidade.
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
O luto virtual: negação ou novo espaço para elaboração do luto? (Ayala Gurgel)
A categoria luto virtual já existe. Ela apareceu pela primeira vez, provavelmente, em 02 de agosto de 1999, no Newsweek, por ocasião de um artigo escrito por Cose Ellis, chamado The Trouble With Virtual Grief: The pain that so many people feel for JFK Jr. should not be confused with the actual suffering of family and friends. Nesse texto, Ellis mostrava que a internet estava se tornando um espaço privilegiado para que anônimos e pessoas distantes pudessem partilhar de um mesmo processo de luto: o luto pelos vultos pátrios ou vultos heroicos.
Esse luto, que não podia ser usado para mensurar o luto real existente entre pessoas, mas, ganhava significado à medida que se tornava cada vez mais democrático e trazia de volta manifestações públicas e coletivas de rituais que vem sendo interditados na sociedade real. Nesse sentido, o luto virtual, era a manifestação coletiva de um sentimento de orfandade de uma nação.
Outros sentidos foram se somando ao uso desse termo. Primeiro, uma ampliação da manifestação coletiva do luto para além da indignação política ou sentimento de orfandade. A própria catarse passou a ser a orientação dessas manifestações, como nos casos da morte do inocente: o da menina Isabela Nardoni ou de Eloá podem ser exemplos disso.
Essa catarse vai se tornando cada vez mais privada e as pessoas passam a usar o mundo virtual como o espaço privilegiado para a manifestação de suas emoções, como ocorre em sites de relacionamentos, spans ou sites especializados. Nesses casos, é bastante comum o enlutado assumir-se virtualmente e anexar a seu perfil ou avatar algo que o identifique como enlutado.
Outro sentido está ligado à morte do próprio avatar, ou simplesmente ao seu sumiço. Ou seja, quando alguém passa muito tempo sem entrar nos sites que costuma frequentar, a sua identidade virtual – avatar – pode ser dada como inativa, o que gera preocupações por parte dos outros internautas que estão acostumados a interagir com esse avatar. Como esses internautas vivenciam uma perda dos laços afetivos que tinham sido criados com aquele avatar, essa emoção é vivenciada como um luto.
Contudo, do mesmo modo que existem carpideiras na vida real, existem pessoas que fingem sentimentos de luto por outras razões, como aqueles que entram em comunidades para enlutados ou em perfis de falecidos com outras intenções diferentes da elaboração da dor. Alguns com o intuito de denegrir e ofender a imagem do falecido, outros com a intenção de banalizar o luto, outros, ainda, com a intenção de proselitismo religioso, ou mesmo, com o simples intuito de chocar.
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Luto e Depressão (Ayala Gurgel)

Luto e depressão não são a mesma coisa. Embora Freud (Luto e Melancolia) não reconhecesse claramente essa distinção, também não admitia similaridade, pois, na sua época, as informações sobre o assunto para validar uma reflexão mais acabada eram insuficientes. Por isso, qualquer relação que ele estabelecesse entre as duas categorias (o luto e a melancolia) estariam, inevitavelmente, comprometidas com tais condições. A sua saída foi considerar a melancolia (que pode corresponder clinicamente a depressão) como uma espécie patológica de luto. Ou seja, ela tem todos os elementos do afeto normal do luto, mas acrescidos do impulso de raiva. Impulso esse ambivalente que se direciona contra a pessoa falecida e para o interior do próprio enlutado:
"O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante. Em algumas pessoas, as mesmas influências produzem melancolia em vez de luto; por conseguinte, suspeitamos que essas pessoas possuem uma disposição patológica. Também vale a pena notar que, embora o luto envolva graves afastamentos daquilo que constitui a atitude normal para com a vida, jamais nos ocorre considerá-lo como sendo uma condição patológica e submetê-lo a tratamento médico. Confiamos que seja superado após certo lapso de tempo, e julgamos inútil ou mesmo prejudicial qualquer interferência em relação a ele.
Os traços mentais distintivos da melancolia são um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando numa expectativa delirante de punição. Esse quadro torna-se um pouco mais inteligível quando consideramos que, com uma única exceção, os mesmos traços são encontrados no luto. A perturbação da auto-estima está ausente no luto; fora isso, porém, as características são as mesmas. O luto profundo, a reação à perda de alguém que se ama, encerra o mesmo estado de espírito penoso, a mesma perda de interesse pelo mundo externo na medida em que este não evoca esse alguém, a mesma perda da capacidade de adotar um novo objeto de amor (o que significaria substituí-lo) e o mesmo afastamento de toda e qualquer atividade que não esteja ligada a pensamentos sobre ele. É fácil constatar que essa inibição e circunscrição do ego é expressão de uma exclusiva devoção ao luto, devoção que nada deixa a outros propósitos ou a outros interesses. E, realmente, só porque sabemos explicá-la tão bem é que essa atitude não nos parece patológica" (Freud, Luto e Melancolia, 1976, p.261-262).
A depressão pode ter como fator desencadeador o luto, mas não é correto identificar uma com o outro. Na ótica de Worden (Terapia do Luto, 1998, p.45), os principais motivos que temos para não identificá-los são: na reação normal de luto não ocorre a perda da auto-estima, o que é bastante comum no quadro clínico de um depressivo. As outras características podem ser as mesmas: sintomas clássicos de distúrbios do sono, distúrbios de apetite e tristeza intensa. Isso é coerente com as teses de Freud, pois, a presença de auto-estima como elemento diferenciador entre o luto e a depressão já tinha sido proposto por ele quando observou que
"(...) O melancólico exibe ainda uma outra coisa que está ausente no luto, uma diminuição extraordinária de sua auto-estima, um empobrecimento de seu ego em grande escala. No luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, é o próprio ego" (Freud, Luto e Melancolia, 1976, p.263).
Nessa perspectiva, o enlutado com uma reação afetiva normal não se volta contra si mesmo, sua raiva ou culpa está associada, de certa forma, a algo que fez ou deixou de fazer no mundo; a algo que faça ou deixou de fazer sentido. Já o enlutado com um quadro depressivo é diferente. Sua referência ao mundo é nula, um vazio pleno, de onde podem decorrer ideações suicidas, prejuízo funcional mórbido, retardo psicomotor ou duração prolongada do luto (WORDEN, 1998, p.46). Isso porque, quando o próprio ego se esvazia, nada mais passa a fazer sentido.
Semelhança de raciocínio encontramos nos escritos de Heidegger (O que é Metafísica? 1999), quando discorreu sobre a angústia. Para ele, o homem angustiado perde toda e qualquer referência de sentido. Ele se sabe, mas não sabe o que o faz sentir o que sente:
"Na angústia – dizemos nós – 'a gente se sente estranho'. O que suscita tal estranheza e quem é por ela afetado? Não podemos dizer diante de que a gente se sente estranho. A gente se sente totalmente assim. Todas as coisas e nós mesmos afundamo-nos numa indiferença. Isto, entretanto, não no sentido de um simples desaparecer, mas em se afastando elas se voltam para nós. Este afastar-se do ente em sua totalidade, que nos assedia na angústia, nos oprime. Não resta nenhum apoio. Só resta e nos sobrevém – na fuga do ente – este 'nenhum' (Heideggeer, O que é Metafísica?, 1999, p.56-57)
Por essa razão, a sua conclusão é a de que a angústia é a manifestação do nada. Como manifestação do nada, a ausência de sentido deve prevalecer nas ações do homem angustiado. Ou melhor, a ausência de ações que, para ele, façam qualquer sentido. E isso inclui até mesmo querer morrer ou ter forças para fazê-lo quando o desejo existir.
Mas, não pensemos que haja uma passagem natural do luto normal para um quadro depressivo. Ao contrário, as pesquisas de Jacobs (apud Worden, Terapia do Luto, 1998, p.46) mostraram que as pessoas que apresentaram quadros depressivos decorrentes do processo de enlutamento já tinham história de depressão ou de algum outro transtorno de saúde mental. Nesse sentido, o enlutamento não foi considerado a causa da depressão, mas o seu gatilho, e isso pode voltar a se repetir.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Luto entre animais não humanos (Ayala Gurgel)
Pode ser mera interpretação, mas a sequência de fotos está associada a registros de luto entre animais não humanos, uma evidência que muitos especistas tentam negar.
A andorinha que estava em uma condição de voo desfavorável foi colhida por um carro. Agora ela se encontra ferida, no chão, sem possibilidades de voar e, provavelmente, sentindo dores:

A sua companheira percebe a sua condição e se aproxima com alimento, o que entre os animais é um gesto universal daquilo que, nós humanos, chamamos de afeto:

Tendo repetido algumas vezes esse mesmo gesto, ela se deparou com uma andorinha que não respondia mais aos seus estímulos. Em linguagem humana, digamos que ela ficou em estado de choque, o que fê-la produzir esforços físicos tentando mover a companheira moribunda:

Ela parece não aceitar a perda da companheira, especialmente da forma trágica como ocorreu:

A percepção da morte da companheira, contrariando toda tradição especista, provoca dores e ela "chora tristemente" a sua perda:

Finalmente, consciente de que ela não retornaria jamais, permaneceu ao lado de seu corpo com tristeza, vivenciando o seu luto:

As fotos são indicativos de que o especismo está errado. Os animais não humanos têm percepção da morte e emitem comportamentos de luto, tal como os humanos. Em alguns casos, esse luto é bastante complicado, mostrando comportamentos de fuga e esquiva bastante difícil de ser reprogramado. Acredito, portanto, que entender as formas de luto entre animais pode nos ajudar a compreender nossos próprios processos, sem precisar a recorrer aos recursos mágicos...
A andorinha que estava em uma condição de voo desfavorável foi colhida por um carro. Agora ela se encontra ferida, no chão, sem possibilidades de voar e, provavelmente, sentindo dores:

A sua companheira percebe a sua condição e se aproxima com alimento, o que entre os animais é um gesto universal daquilo que, nós humanos, chamamos de afeto:

Tendo repetido algumas vezes esse mesmo gesto, ela se deparou com uma andorinha que não respondia mais aos seus estímulos. Em linguagem humana, digamos que ela ficou em estado de choque, o que fê-la produzir esforços físicos tentando mover a companheira moribunda:

Ela parece não aceitar a perda da companheira, especialmente da forma trágica como ocorreu:

A percepção da morte da companheira, contrariando toda tradição especista, provoca dores e ela "chora tristemente" a sua perda:

Finalmente, consciente de que ela não retornaria jamais, permaneceu ao lado de seu corpo com tristeza, vivenciando o seu luto:

As fotos são indicativos de que o especismo está errado. Os animais não humanos têm percepção da morte e emitem comportamentos de luto, tal como os humanos. Em alguns casos, esse luto é bastante complicado, mostrando comportamentos de fuga e esquiva bastante difícil de ser reprogramado. Acredito, portanto, que entender as formas de luto entre animais pode nos ajudar a compreender nossos próprios processos, sem precisar a recorrer aos recursos mágicos...
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