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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Luto Virtual (Paula K Portugal)














 

Para
expressar os sentimentos surgidos com a perda de um ente querido, os
usuários encontram nas redes sociais mais um espaço de desabafo.
Aqui vale fazer álbuns de foto em homenagem àqueles que já se
foram, e/ou trocar a imagem do perfil por símbolos do luto, como a
fita do luto ou a rosa negra, e pela foto do falecido.


Poemas
e trechos de musicas como
“Gostava
tanto de Você” de Tim Maia, também acabam sendo utilizados por
possuírem letras que se encaixam perfeitamente neste momento de
perda.


Nas mensagens postadas
pelos usuários percebe-se um turbilhão de emoções como, alivio
pelo parente ou amigo não estar mais sofrendo; esperança em um
paraíso e na existência de Deus; o enaltecimento do falecido, pois
como dizem, para ficar bom, basta morrer!; além de questionamento
como porque isso está acontecendo? Porque Deus levou aquela pessoa?


Todas estas manifestações
despertam uma rede de apoio e comoção de outros usuários, podendo
caracterizar-se assim como um pedido de apoio. São também um grito
de liberdade para o turbilhão de sentimentos despertados com o luto,
uma vez que o ciberespaço é um lugar sem limites para a expressão
daquilo que se sente, muitas vezes guarnecido pelo anonimato.

domingo, 15 de maio de 2011

O Último Post: Blog Como Espaço de Memória (Thyciane Nunes*)

Derek Miller, 41, who died from colon cancer last week.
              Derek Miller



“Protegidas” pela tela do computador, as pessoas sentem-se instigadas a dividir com o mundo os aspectos mais íntimos de suas vivências. Até mesmo a morte, assunto constantemente evitado, tratado sempre com tanto receio, ganhou uma nova abordagem dentro das relações do universo virtual.



Apesar de extremamente expostos, os usuários de sites de relacionamentos sentem-se a vontade para expressar sua dor.  No Orkut,  é comum vermos manifestações de “luto” no status de quem sofre pela perda  de alguém. Além disso, por diversas vezes, o perfil do ente querido que partiu ainda é visto por aqueles que o amam e sentem saudades, como um meio de comunicação. Continuar enviando "scraps" para sua página pessoal é uma nova forma de manter viva a memória de quem se foi.



Essas ferramentas informacionais desempenham hoje um papel importante para a compreensão, aceitação e conforto perante a morte do próximo. Mas e quando somos colocados frente a perspectiva de nossa própria finitude?



Derek Miller, escritor canadense, encontrou na blogosfera um modo de lidar com esta questão. No dia 4 de maio, seu texto intitulado “The Last Post” (O Último Post), publicado por uma amiga, foi visualizado por aproximadamente 3 milhões de visitantes... somente na primeira hora. O texto não dá margem para sentimentalismos e começa com um sucinto “Aqui está ele. Estou morto, e este é o último post do meu blog”. Fala que instruiu os familiares e amigos para que a mensagem fosse publicada após seu falecimento para, em seguida, ele mesmo “anunciar” a sua morte no dia 3 de maio, aos 41 anos, de complicações do estágio 4 de câncer colorretal em metástase”. Enfatiza que esse desfecho já era esperado por todos e lamenta por sua família que este acontecimento tenha tornado-se “parte de suas vidas, infelizmente”.





É certo que a curiosidade acerca da “mensagem póstuma” trouxe notoriedade a história, mas a trajetória desta merece tanta atenção quanto seu desenlace.



Formado em Biologia Marinha, Derek Miller era conhecido no Canadá por conta de seu site, o Penmachine.com, quando em 2007 foi diagnosticado com câncer. A partir de então, pelos próximos 4 anos, assuntos corriqueiros comentados no blog passariam a dividir espaço com relatos sobre a nova rotina no tratamento contra a doença. 

Derek miller

Entretanto, no fim de 2010 o câncer atingiu a fase terminal e os leitores do blog puderam acompanhar gradativamente a piora significativa que Derek descrevia de seu estado de saúde. A deterioração física, marcada por tosses e dores abdominais constantes veio seguida pelo desgaste  psicológico, desencadeado pela necessidade de usar fraldas e a perda progressiva de sua mobilidade\e independência.



Ciente de sua condição, Derek não poderia deixar de tocar no tema “medo”, e salienta que o que teme não é a morte por si só, mas o sofrimento presente no processo de morrer:“Não tive medo da morte - do momento em si - ou do que vem depois, que era (e é) nada. Ao longo do tempo, permaneci um tanto receoso do processo de morrer, da fraqueza e da fadiga crescentes, da dor, de se tornar menos e menos eu mesmo à medida que me aproximava dela.”.



Mas é importante sabermos que nem tudo se resumiu às angústias da doença. Várias postagens são repletas de declarações de amor apaixonadas à sua esposa Airdrie, com quem viveu 16 anos e às duas filhas do casal; Marina (13 anos) e Lauren (11 anos). A docilidade com que fala de sua família e o entusiasmo pela vida e tudo de bom que ela tem a oferecer são o verdadeiro legado de Derek no registro de sua luta diária.

 

"O mundo, na verdade todo o universo, é um lugar lindo, surpreendente, maravilhoso. Sempre há mais a se descobrir. Não olho para trás nem me arrependo de nada, e espero que minha família possa encontrar uma maneira de fazer o mesmo. O que é verdade é que as amei."



Airdri respeitará a vontade do marido e manterá o site funcionando como um memorial da vida de Derek.







*Thyciane Nunes é acadêmica do Curso de Serviço Social da Universidade Estadual do Ceará

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O luto virtual: negação ou novo espaço para elaboração do luto? (Ayala Gurgel)



A categoria luto virtual já existe. Ela apareceu pela primeira vez, provavelmente, em 02 de agosto de 1999, no Newsweek, por ocasião de um artigo escrito por Cose Ellis, chamado The Trouble With Virtual Grief: The pain that so many people feel for JFK Jr. should not be confused with the actual suffering of family and friends. Nesse texto, Ellis mostrava que a internet estava se tornando um espaço privilegiado para que anônimos e pessoas distantes pudessem partilhar de um mesmo processo de luto: o luto pelos vultos pátrios ou vultos heroicos.

Esse luto, que não podia ser usado para mensurar o luto real existente entre pessoas, mas, ganhava significado à medida que se tornava cada vez mais democrático e trazia de volta manifestações públicas e coletivas de rituais que vem sendo interditados na sociedade real. Nesse sentido, o luto virtual, era a manifestação coletiva de um sentimento de orfandade de uma nação.

Outros sentidos foram se somando ao uso desse termo. Primeiro, uma ampliação da manifestação coletiva do luto para além da indignação política ou sentimento de orfandade. A própria catarse passou a ser a orientação dessas manifestações, como nos casos da morte do inocente: o da menina Isabela Nardoni ou de Eloá podem ser exemplos disso.

Essa catarse vai se tornando cada vez mais privada e as pessoas passam a usar o mundo virtual como o espaço privilegiado para a manifestação de suas emoções, como ocorre em sites de relacionamentos, spans ou sites especializados. Nesses casos, é bastante comum o enlutado assumir-se virtualmente e anexar a seu perfil ou avatar algo que o identifique como enlutado.

Outro sentido está ligado à morte do próprio avatar, ou simplesmente ao seu sumiço. Ou seja, quando alguém passa muito tempo sem entrar nos sites que costuma frequentar, a sua identidade virtual – avatar – pode ser dada como inativa, o que gera preocupações por parte dos outros internautas que estão acostumados a interagir com esse avatar. Como esses internautas vivenciam uma perda dos laços afetivos que tinham sido criados com aquele avatar, essa emoção é vivenciada como um luto.

Contudo, do mesmo modo que existem carpideiras na vida real, existem pessoas que fingem sentimentos de luto por outras razões, como aqueles que entram em comunidades para enlutados ou em perfis de falecidos com outras intenções diferentes da elaboração da dor. Alguns com o intuito de denegrir e ofender a imagem do falecido, outros com a intenção de banalizar o luto, outros, ainda, com a intenção de proselitismo religioso, ou mesmo, com o simples intuito de chocar.