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quinta-feira, 7 de abril de 2011

Massacre no Realengo: cultura da violência e fundamentalismo? (Ayala Gurgel)





Depois do minuto de silêncio, é hora de falar sobre o que aconteceu.





Hoje, dia 07 de abril de 2011, será um dia que entrará para a memória de muitas pessoas e será lembrado e relembrado por muitos cariocas, brasileiros e outros cidadãos espalhados pelo globo como o dia do Massacre do Realengo. Uma imitação, talvez, do que aconteceu em outros países como Alemanha, China, EUA.



Nesse dia, um jovem chamado Wellington Menezes de Oliveira, de apenas 24 anos, entrou na Escola Municipal Tasso da Silveira,
no bairro do Realengo, zona oeste da capital fluminense, dizendo ir proferir uma palestra aos alunos. Subiu por três andares, desacompanhado, e entrou em uma sala onde 40
alunos da nona série assistiam aula de português. Ali disparou contra os estudantes com idades entre 12 e 14 anos, tendo como alvo preferencial, meninas.



Os motivos dessa atitude são matéria para muitas especulações, assim como o fim trágico do próprio atirador. O fato é que ele tinha a clara intenção de matar, e o fez. Ao todo, 10 vítimas na hora e mais de 20 feridos. O número de enlutados, em uma situação como essas, se multiplica e muitos ficarão com medo de frequentar suas salas de aula e olharão, nos próximos dias, com temor para algum suspeito imitador.



As especulações começaram com várias elaborações teóricas em torno do estímulo discriminativo que pode levar alguém a cometer uma ação como essa, bem como sobre a sanidade do atirador. A carta deixada por ele, no local, alimenta algumas dessas teorias e rechaça outras. Outras informações virão à tona nos próximos dias, após a invasão da sua conta nas redes sociais, seu computador, suas coisas mais pessoais e restrito círculo de amigos (incluindo alguns meros conhecidos).



Muitas dessas teorias são meras especulações sensacionalistas e pretendem apenas segurar a audiência por alguns minutos a mais. Dentre essas destaco aquelas que buscam um culpado: a assistente social que lhe deu o resultado do exame soropositivo sem prestar a devida assistência, a família que não percebeu seu isolamento, vizinhos e amigos que supostamente sabiam dos planos e não denunciaram, o uso indiscriminado da internet, a ausência de vida social, o porteiro que deixou o cara entrar sem passar por uma revista, a falta de segurança na escola, a demora da polícia em chegar ao local, o traficante que vendeu a arma etc. Talvez não exista um culpado ou todos sejam culpados, pois a extensão dessa lista pode chegar a cada um de nós, como eleitores, cidadãos, consumidores de uma ideologia que alimenta e retroalimenta esses paradigmas comportamentais.



Não quero trabalhar com a análise da culpa, nesse momento, quero apenas pontuar algumas questões morais em torno desse ato:



1) Não se trata de um ato isolado. Uma ação dessas não existe sem que alguns elementos se cruzem, como mostram a análise dos casos anteriores nos países onde ocorreram:



a) fator psiquiátrico (que pode ser tanto um distúrbio quanto um transtorno - o que poderia ter sido percebido e auxiliado se nossa sociedade levasse a saúde mental mais a sério e compreendesse melhor os pedidos de socorro dessas pessoas);



b) fator sócio-cultural (que pode ser tanto uma ideologia religiosa - não raro existem posturas homofóbicas, proselitistas e fundamentalistas por trás - quanto uma atitude de busca da fama, fazer justiça ou provar algo para o grupo a que pertence reforçada pela exposição da ação em mídia nacional e internacional);



c) oportunidades técnicas e operacionais (a facilidade para conseguir armas e munição, treinar/ensaiar o ato, acessar o local da matança, disfarçar intenções e

executar a ação sem ser prontamente interompido);



d) fator agregador, que funciona como gatilho para que a operação seja realizada em tal dia, hora e lugar (como por exemplo, ter sido demitido ou terminar um namoro naquela semana).



2) Há, sem dúvidas, um reforçamento positivo pela exposição midiática gerando a possibilidade de que imitações surjam em um intervalo muito breve (alguns sites estão apelando para que os internautas enviem vídeos e fotos sobre o massacre). Isso faz com que a possibilidade de um imitador seja real e preocupante. O comportamento de imitação é comum entre jovens e muitos se sentem representados em uma atitude como essa.



3) Não há segurança isolada contra um acontecimento dessa natureza. Aconteceu em uma escola pública apenas pelo fator c, do item 1, e poderá acontecer em qualquer outro lugar, em especial que tenha publicidade.



4) A dignidade das pessoas envolvidas (e enlutadas) não precisa ser menosprezada em detrimento de uma audiência telvisiva, pois há muitos fatores complicadores que podem transformar esse processo de luto em algo bastante complicado e dolorido; o que certamente não será respeitado pelos canais de televisão.



5) O pior dos fundamentalismos é o do capitalismo; o fundamentalismo do lucro, que permite que uma cadeia de produção envolvendo o tráfico de drogas e de armas permita que cheguem às mãos de pessoas evidentemente problemáticas soluções mediadas pela violência em preterimento a soluções baseadas em solidariedade e humanismo.



6) Enquanto nossa sociedade não olhar para si mesmo e discutir o que significa a violência que ela mesmo pratica contra seus cidadãos, não haverá paz nas escolas, nos bairros, nos hospitais, no trânsito... nos convívios sociais. Enquanto nossa sociedade não quiser corrigir as suas falhas, outros disparos serão dados, outras manchetes aparecerão... não somos lobos do próprio homem porque tenhamos uma natureza lupina; somos o que somos porque a nossa sociedade tem nos feito assim, e nós a ela.



7) Wellington disparou o gatilho, mas quem atirou, de verdade, foram muitas pessoas, direta e indiretamente envolvidas com os reforçadores e facilitadores de ações como essas, contudo, não é de bom tom que todos sejam apontados como culpados... é melhor, como disse acima, deixar a culpa de lado.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Suicídio na Mídia: O caso Leila Lopes (Erasmo Ruiz)



O homem é um animal que busca significados para tudo o que faz. As coisas que aparentemente eram vazias de sentido hoje, podem ganhar novas percepções amanhã. Flores consideradas sem graça se transformam na pura encarnação da beleza se relacionadas ao amor que sentimos, por exemplo, se forem presenteadas por quem amamos. Quando olhamos a história percebemos que isso ocorre com a mais variada expressão de características e emoções humanas. O que é valorado por um grupo e/ou sociedade em determinado período poderá ser considerado algo pejorativo em outro momento histórico. Assim, o shuicídio a partir do devinir histórico será visto ora como gesto de brauvura e despreendimento, ora como afronta aos designios de Deus, ora como expressão de doença e/ou sifrimento mental. A depender como se configura o modo de produção de verdades, o que era um problema filosófico ou ético poderá se transformar em problemática sanitária. Recentemente a imprensa teve que lidar com a situação de Leila Lopes, uma bela atriz com a carreira em decadência e que certa vez esteve em evidência como atriz de telenovelas na Rede Globo. Recentemente "desceu" ao mais baixo nível que alguém no meio artístico pode chegar para buscar exposição: participou da produção de filmes pornográficos. Muitos de nós se lembrarão dela como a "Professorinha Lu" da novela "Renascer". O suicídio sempre foi tratado na imprensa de forma camuflada. Só ganha cores mais claras na medida em que se torne impossível esconder o fato. A desculpa recorrente é a idéia de que se o suicídio for noticiado isso criaria uma verdadeira "epidemia" motivando mais pessoas a cometerem suicídios. Creio que o elemento que determina essa visão "envergonhada" do suicídio diz mais respeito a nossa tradição religiosa. O suicida é antes de tudo um "criminoso" que atenta contra a vontade Deus, rouba-lhe a primazia de controlar a duração da vida. Por este ato blasfêmico, num passado não muito distante, era negado aos suicidas o sepultamento em igrejas ou em terrenos consagrados nos cemitérios. Caso ficasse demonstrado depois do sepultamento de alguém que esta pessoa havia cometido suicídio, o corpo poderia ser exumado, levado a uma sala de julgamento para a devida condenação. A situação extremamente mórbida era secundarizada diante da necessidade de regular uma afronta ao poder que era tradicionalmente explicado e legitimado com bases ideológicas de cunho religioso. Há relatos sobre cadáveres de suicidas que eram arrastados por cavalos. Óbvio dizer que a "pena" não atingia mais o morto mas objetivava disciplinar os vivos. Voltamos portanto ao caso de Leila Lopes. Foi impossível esconder o fato de que ela havia cometido suicídio. Vazaram informações iniciais da perícia que sinalizava para a presença de veneno de rato na comida ingerida pela atriz. Assim, isso colocava à imprensa a tarefa de falar sobre um assunto sobre o qual não estava acostumada e mais,, de oferecer um sentido a pergunta que a maioria das pessoas faria: "por que ela se matou?'. Uma rápida pesquisa pela internet mostrará que o conjunto das racionalizações caminha ora para explicações de base psicológica (estaria a atriz em crise depressiva), ora pelo próprio preconceito de classe social ( a atriz não teria suportado a perda de uma vida de luxo e riqueza e agora estar vivendo num padrão de classe média etc). Volta e meia visibiliza-se insinuações de que se tonar atriz de filmes pornográficos já seria um indício de que as coisas não andavam bem etc etc. Quase nenhuma palavra sobre sentidos existenciais que poderiam levar a atriz a fazer o que fez. Quase nenhuma palavra que informasse ao grande público sobre as dificuldades existentes hoje no campo da psicologia e da psiquiatria para buscar um acordo teórico mínimo que dê conta da complexidade da questão do suicídio. O jornalismo rasteiro e superficial se deu conta que tem que ser rasteiro e superficial para acompanhar um estilo de público ávido por informações rasteiras e superficiais porque aprendeu a absorver informações rasteiras e superficiais. Para "entendermos" alguma coisa da nossa realidade tornou-se lugar comum a imolação da verdade diante do altar da necessidade de informações tão profundas quanto um pires. Talvez estivesse certo Renato Russo em "Pais e Filhos": Estátuas e cofres E paredes pintadas Ninguém sabe o que aconteceu Ela se jogou da janela do quinto andar Nada fácil de entender Assim, uma posição minimamente honesta (se a honestidade pode ser delimitada em parâmetros) seria a busca de conjunto de informações que desse conta da complexidade dos gestos humanos e, ao mesmo tempo, da complexidade de visões e significações de quem produz e consome essas informações. Ler sobre o suicídio de qualquer ser humano é ler um pouco sobre nós mesmos, é avaliar nossas (im)possibilidades diante da vida que levamos, é inclusive questionar a necessidade que temos de bisbilhotar a vida alheia principalmente se o "alheio" for uma celebridade. Afinal de contas, para que saber do suicídio de Leila Lopes e especular sobre as razões que a levaram a esse caminho? Teríamos nos transformado em verdadeiros Sherlocks sem brilho a buscar indícios que "expliquem" superficialmente a complexidade da existência? Fecho os olhos e revejo a beleza de uma mulher que a partir da ingenuidade de seu personagem na novela buscava realizar as fantasias mais básicas dos telespectadores: amar, namorar, viver! Diante do suicídio da atriz, cabe a pergunta do quanto situações como essas não seriam formas sutis de homicídio social numa cultura que supervaloriza o "vencer na vida" onde a vitória é estar o tempo todo exposto aos olhos curiosos de milhões que gostariam de estar dentro da telinha. Mas cá estou eu cometendo o mesmo erro, reduzindo um gesto humano à banalidade superficial de uma explicação psicossociológica. Que fique vivo na memória o encantador sorriso da Professorinha Lu!

sexta-feira, 1 de maio de 2009

A morte na Sociedade do Espetáculo (Ayala Gurgel)


A Sociedade Ocidental Industrializada tem como principal característica, no tocante à morte e ao morrer, desprovir o homem comum das habilidades sociais para conviver com a morte. Dois estratagemas são bastante usados para conseguir esse feito: a interdição e o escancaramento da morte.

A interdição consiste na retirada dos rituais públicos e domiciliares da morte do seio social e sua consequente transferência para locais privados, afastados do público, dentre os quais os hospitais são os preferidos. Trata-se de uma mercantilização da assistência ao moribundo e monopólio dos rituais tanáticos e fúnebres. A morte deixa de pertencer ao indivíduo e passa a pertencer ao Estado, sob a alegação de que aquela família enlutada (antecipatória ou póstuma) precisa de tempo para tocar sua vida, de que o Estado tem as melhores condições (geralmente tecnológicas) para fazer o "que há de melhor" por aquele moribundo.

Uma vez que o hábito tenha sido criado, o Estado passa a transferir paulatinamente esse papel para a empresa privada, fazendo com que familiares e moribundos paguem para não terem que conviver com a morte, graças à ausência de habilidades sociais que lhes foram alienadas.

Mas, um dia a morte precisará ser discutida. Não é possível escondê-la por muito tempo. Em algum momento alguém morrerá fora desse controle, sem tempo de ser levado às pressas, escondido por trás dos biombos, em público, como disse Chico Buarque, desafiando o tráfego e o trágico. Alguém amanhecerá morto embaixo de uma ponte, em um beco, em um acidente de carro.

Essa morte, como é inevitável e pública, foi elevada à categoria de espetáculo. Era a única forma de ela ser mostrada sem contradizer a lógica do sistema que nos inabilita para convivermos juntos.

O espetáculo pontencializa toda a normalidade, inclusive a emocional. Ele não se contenta com a emoção ordinária, precisa ser extraordinária; não se contenta com o mediano, precisa ser grande, o maior de todos, eterno mesmo quando efêmero.

Hoje, dia 01 de maio de 2009 é um exemplo de como essa morte foi devolvida ao público. Ao relembrar a cada ano a morte de Ayrton Senna, como poderia ser a morte de qualquer outro "herói", o elemento catártico é explorado na forma do oferecimento de um espetáculo. Podemos não só "ver" a morte (como um show de horrores no qual cada imagem precisa ser o mais impactante possível), como também expressar nossas emoções (o luto nacional se soprepõe ao luto pessoal, ou catalisa todas as nossas dores, afinal, com a morte do "herói", viramos órfãos).

O retorno da morte à Sociedade Industrial é mediada, portanto, pelo espetacular, pela morte escancarada, tal como aparece a cada dia nos jornais sensacionalistas, nos programas televisivos mais comprometidos com essa linguagem e, principalmente, na recusa de falar sobre a morte a partir de nossa banalidade, do dia a dia de cada um. Falar da morte de Ayrton Senna é a forma que encontramos para não falarmos da nossa morte, nós todos que andamos de carro e estamos sujeitos à mesma fatalidade... A nossa morte é apenas uma questão de tempo.