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segunda-feira, 12 de março de 2012
Eutanásia e Morte (In)digna: Campanha Publicitária Transforma Candidatos Presidenciais em Moribundos (Erasmo Ruiz)
Na França existe uma combativa organização cuja sigla é ADMD (Associação pelo Direito de Morrer Dignamente), que defende a legaliização da prática da eutanásia. Nos últimos dias lançou uma campanha onde apresenta candidatos franceses a presidência da república em instigantes montagens fotográficas representados como pacientes moribundos. No anúncio uma pergunta é feita: "Senhor Candidato. Devemos coloca-lo em tal situação para que mude seu posicionamento sobre a eutanásia?". Os anúncios ainda instigam os franceses para que não sejam roubados em sua última expressão de liberdade.
O debate sobre a legalização da prática da eutanásia é interminável. No entanto, nas últimas décadas,parece ter ganho espaço a perspectiva de alguma forma de regulamentação de uma prática que se sabe existir com maior ou menor visibilidade em muitos serviços de saúde. Alias, este é um forte argumento para aqueles que defendem a regulamentação da eutanásia,qual seja, a ausência de regras claramente postas faz com que pacientes possam estar sendo mortos sem critério algum, de maneira clandestina e indigna.
Muitos defenderão a ideia de que o próprio ato da eutanásia é indigno por si mesmo pois o homem que e requer não seria em ultima instância proprietário de seu corpo e sua vida, seja porque pertenceria à alguma entidade metafísica, seja porque a vida individual deve se submeter aos ditames do interesse coletivo.
Outros defenderão o princípio da dignidade no sentido de fruição daquilo que a vida pode nos dar de bom e belo, nossa capacidade de fruir o gosto e o cheiro das coisas, nossa necessidade de apreciar um quadro de Monet ou um belo por de sol, nossa alegria em maximizar prazer e assim se afastar de toda dor e sofrimento. Por este argumento, a dor é sempre inimiga da beleza e diante das vicissitudes do sofrimento, seja físico e/ou psíquico, é correto abreviar o caminho, buscar um atalho e morrer longe de tudo o que causa desconforto.
Mas e se a dor e o sofrimento puderem ser manejados de forma adequada? E se existirem técnologias que possam trazer o máximo de conforto possível em situações onde isso pareceria improvável? Haveria a necessidade de garantir legislações para que as pessoas pudessem fugir dos tratamentos fúteis, dos terapeutas obstinados, dos labirintos indecifráveis de exames médicos desnecessários quando se está perto de sair de cena? Muitos paliativistas são contra a eutanásia por acharem que o cuidado paliativo é a resposta ao grito de desespero motivado pelo medo do sofrimento provocado por trabalhadores de saúde e familiares bem intencionados que podem não nos deixar morrer em paz.
Imaginando a história humana, as vezes a vejo como um túnel onde centenas de gerações marcham por um longo e árduo caminho que parece nos conduzir a uma luta feroz e até genocida em nome de um conceito abstrato aparecido pela primeira vez escrita em uma tábua de argila datada de mais de 5000 anos de idade: LIBERDADE!
Das pirâmides para as galés romanas passando pelas muralhas de Cosntantinopla às "plantations" de cana de açúcar e chegando à barbárie dos campos de concentração, os homens querem ser LIVRES! E para tal, afirmam o tempo todo que são humanos em suas múltiplas possibilidades e diferenças. Talvez em futuro próximo se descubra que o último espaço a ser conquistado são os limites insondáveis dos nossos corpos. Talvez assim se chegue a uma solução para a eutanásia. Caso sejamos de fato donos de nossas vidas, este seria um bem tão precioso que não pode ser reduzida a algo que se perde de forma tão banal mas que também deve ser mantida com prazer, alegria e dignidade.
Quando a publicidade da ADMD coloca as imagens de políticos a beira da morte não é apenas a busca de suas empatias com o tema que se acaba conquistando. Um olhar um pouco mais arguto também poderá se ver nessas imagens. Todos nós um dia poderemos estar em camas de hospitais a espera da morte. O quanto do nosso sofrimento será suportável? Teremos diante de nós possibilidades claramente asseguradas de que esse sofrimento poderá ser minimizado? Mas ainda assim não teríamos o direito de sair um pouco ante de cena já que o "filme" não agrada mais? Temos ou devemos ter a posse definitiva do que se convernciona chamar de vida pessoal? Caso a resposta seja sim, então poderemos disponibilizar de nossas vidas da foma como desejarmos.
São muitas perguntas. Temos a difícil tarefa de construir respostas que se transformem em ações práticas! E só faremos isso na medida em que formos mais empáticos com quem está morrendo, seja pela busca da legalização da eutanásia, seja pela difusão de práticas paliativistas.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Os Maiores Arrependimentos dos Moribundos (Erasmo Ruiz)
Uma enfermeira paliativista chamada Bronnie Ware, que faz aconselhamento com pessoas nos seus últimos meses de vida, escreveu recentemente um livro intitulado "The Top Five Regrets of the Dying". Bronnie afirma algo aparentemente óbvio mas que a maioria de nós - por não sabermos e/ou não querermos lidar com a morte - tendemos a passar ao largo: podemos aprender muito com as pessoas que estão morrendo pois elas apresentam precisa clareza de pensamento crítico sobre o que foi a sua vida e, o mais importante para quem fica, como essa vida poderia ter sido melhor vivida.
Em reportagem ao jornal "The Guardian" Bronnie afirma: "Quando questionados sobre desejos e arrependimentos, alguns temas comuns surgiam repetidamente". Foi com base nesses depoimentos que a enfermeira chegou ao seu "Top Five" do arrependimento. Vamos à lista:
1) Eu gostaria de viver a vida que eu quisesse e não a vida que as pessoas esperavam que eu vivesse. Esse foi o arrependimento mais comum. Bronnie encontra repetidamente nas falas coletadas a percepção de que quando chegamos ao final da vida e olhamos para trás percebemos uma lista de sonhos não vividos e que grande parte disso aconteceu em função de decisões que foram tomadas pelas próprias pessoas. Por ais que invoquemos as determinações sociais do que somos, em momentos chave podemos exercer nossas escolhas e assim seremos constituídos pelo peso de nossas decisões.
2) Eu gostaria de não tr tabalhado tanto. Fala detectada principalmente entre os homens que no final da vida perceberam que o tempo investido no trabalho lhes roubou maior contato com os filhos e parceiras. Em muitas circustãncias do cotidiano não podemos estar na escola para levar o trazer nossos filhos, não assisitmos o desenho animado favorito dele. Nãos nos lembramos de datas significativas como o casamento ou o aniversário de quem amamos. star no limiar da morte parece nos cobrar sobre tudo isso.
3)Eu queria ter tido a coragem de expressar meus sentimentos. O arrependimento centra-se na percepção de que para ficar em paz com os outros as pessoas optaram por não expressar com clareza seus sentimentos o que evou a uma existência medíocre, não se tornando de fato o que eles queriam ou poderiam ser. Bronnie identifica a constituição de percepções amarguradas da vida, o que pode ter sido a raiz de muitos problemas de saúde, incluso aqueles que estão levando a pessoa a morte.
4) Eu gostaria de ter ficado mais em contato com meus amigos. A percepção do final da vida trouxe em questão a importância dos velhos e fiéis amigos, do quanto o contato com eles era banalizado pelo cotidiano. Muitos dos que participaram dos depoimentos ficaram tão envolvidos com a própria vida que abandonaram suas amizades. Aqui fica clara a percepção do quanto a solidão pode tornar mais angustiante a perspectiva da morte.
5) Eu gostaria de ter me permitido ser mais feliz. Aqui Bronnie destaca que o problema central é a pessoa estar presa a velhos hábitos, ao conforto relativo de tudo o que parece ser familiar. Para ser feliz muitas vezes precisamos estar abertos a mudanças. O trágico é perceber isso no final da vida junto a constatação de que não há mais tempo para mudar as consequências de certas escolhas ou mesmo de na verdade não as ter feito.
Claro que inúmeras críticas poderiam se feitas a este trabalho. Por exempo, ele não traria a clara marca de uma sociedade que vivencia o extremos do desenvolvimento capitalista e toda suas consequências na criação de pessoas cada vez mais individualistas, que aprenderam que uma existência só pode ser significada a partir de tudo o que pode ser obtido no emprego/trabalho?
Vejo com nitidez aquilo que o psicanalista Erick Fromm identificou um dia lá pelos anos 50 e 60 como as consequências psicológicas da alienação no sentido marxista: vidas embasadas mais no "ter" do que no "ser", que vão construindo a apoteose da busca da riqueza financeira pela riqueza, exacerbando uma estética do individualismo e buscando sentido das coisas de uma forma externa a própria coisa. Ou seja, não importaria tantos o trabalho que se faz mas sim o dinheiro que se obtêm por ele. Não importa mais que eu sou mas sim o que posso comprar e consumir.
Entretanto, existiriam culturas onde esse arrependimento mudasse o seu prisma? Ou, melhor dizendo, o que entendemos como arrependimento mudaria no exame das muitas culturas ou mesmo nas inúmeras diferenças regionais, de classe social ou espaços urbanos? Existe aqui o velho problema de se reduzir fenômenos complexos ao reino das tipologias como se elas pudessem dar conta de explicar e entender os inúmeros projetos de hominização.
Mas pensando na minha própria experiência, de tudo que já presenciei, li e ouvi, creio que existe muito sentido nas falas reveladas pelo livro de Bronnie Ware. No final da vida, ao que parece, as pessoas sentem o peso insuportável de uma existência onde a liberdade de ser foi secundarizada ou mesmo tenha sido percebida como inexistente. E isso em sociedades que o tempo todo afirmam feito um mantra de que promovem a liberdade e que seus partícipes são livres.
Estar vivendo os momentos finais parece nos tornar mais sedentos de uma existência livre. Talvez por isso Montaigne tenha afirmado um dia que aquele que tenha perdido o medo de morrer tenha de fato perdido o medo de toda e qualquer sujeição. A consciência mais plena da morte nos alerta que existir é a árdua e prazerosa tarefa de sermos nós mesmos.
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Meu Mundo É Hoje (Wilson Batista)
Em algumas oportunidades estaremos deixando aqui músicas que nos façam refletir sobre a vida e a morte. Vamos começar então com essa pérola de Wilson Batista na interpretação de Paulino da Viola.
Meu Mundo É Hoje
Eu sou assim
Quem quiser gostar de mim eu sou assim
Eu sou assim
Quem quiser gostar de mim eu sou assim
Meu mundo é hoje
Não existe amanhã pra mim
E sou assim
Assim morrerei um dia
Não levarei arrependimentos
Nem o peso da hipocrisia
Eu sou assim...
Meu mundo é hoje...
Tenho pena daqueles
Que se agacham até o chão
Enganando a si mesmos
Com dinheiro, posição
Nunca tomei parte
Desse enorme batalhão
Pois sei que além de flores
Nada mais vai no caixão
(Wilson Batista)
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
A (I)Mortalidade de Steve Jobs
O mundo está bem mais próximo do que no passado. Maravilhas da ficção científica fazem parte do nosso cotidiano. Vemos a imagem das pessoas que amamos nos telefones, e conversamos com elas. Nossos gostos e sensações são transmitidos a milhares de quilômetros. Tocamos nas telas dos computadores e eles nos obedecem. Carregamos nossos livros, músicas e fotos em dispositivos móveis do tamanho e diâmetro de um cartão de crédito. Mais recentemente, nossos computadores ficaram reduzidos a uma tela brilhante de cristal líquido: os “tablets”. Em tudo isso e mais um pouco, habita a alma de Steve Jobs.
Ontem Jobs saiu de cena. Tentou manter-se ativo até muito próximo de seu fim. Lutou durante anos contra um câncer. Morreu como todo mundo tem que morrer um dia. Mas estava longe de ser uma pessoa comum. Seus “brinquedos” invadiram nossa vida de tal forma que não nos damos conta da sua importância, tal a trivialidade de um jovem ouvindo seu Ipod ou de alguém usando um Iphone
Ontem Jobs saiu de cena. Tentou manter-se ativo até muito próximo de seu fim. Lutou durante anos contra um câncer. Morreu como todo mundo tem que morrer um dia. Mas estava longe de ser uma pessoa comum. Seus “brinquedos” invadiram nossa vida de tal forma que não nos damos conta da sua importância, tal a trivialidade de um jovem ouvindo seu Ipod ou de alguém usando um Iphone
Mas quero destacar dois pontos com relação a morte de Steve Jobs, afinal, meu olhar teima em pensar a morte boa parte do tempo...claro...cumpro a assertiva de Norbert Elias quando afirmava que “a morte é um problema dos vivos”. Não deixa assim de chamar a atenção como os admiradores de Steve tem deixado mensagens usando seus perfis nas redes sociais. Podemos dizer sem medo de cometer equívoco que milhares e milhares de pessoas estão enlutadas porque Steve Jobs morreu.
A internet tornou-se um veículo natural para que expressemos nossas paixões, indignações, inclinações políticas, condutas sexuais, interesses de consumo. Com a percepção e elaboração da morte não é diferente. Volta e meia nos perfis das redes nos deparamos com mensagens de luto, com pessoas que trocam suas fotos por sinalizações de suas perdas, colocando a velha faixa que ficava presa na lapela agora estendida virtualmente nas imagens e mensagens. Qual o objetivo? Talvez o mesmo de antes. Expressar coletivamente a dor e receber apoio por isso, diminuir a sensação de solidão que a morte provoca afinal, morrer é a ação solitária mais coletiva que existe no campo de nossa experiência prática.
Outra coisa que chama a atenção nas homenagens a Steve Jobs é como seus inventos agora passam a ser utilizados como veículos de expressão da dor e da celebração da memória. Em muitos lugares foram deixados Iphones e Ipads com a imagem de Jobs ornada com flores reais e mensagens de pesar. Em passado próximo, usávamos imagens esculpidas do morto, depois desenhos ou fotos. Agora, estamos mesclando artefatos tecnológicos com símbolos tradicionais de pesar. Parece que algumas coisas mudam para permaneçam exaltando e satisfazendo as mesmas necessidades.
Mas quero destacar algo que passa desapercebido nas centenas de obituários de Jobs que teimam em destacar seu papel de gênio inventor e visionário mas que se omitem em conjecturar sobre os possíveis motivadores da tal genialidade de Jobs. Em 2005 Steve Jobs foi chamado para fazer um discurso na formatura de alunos da Universidade de Stanford. O discurso, (veja vídeo no final deste post), segue a linha tradicional dos discursos de formatura: fala de sacrifício, exorta os jovens a buscarem seus sonhos, compartilha da própria biografia como um fator motivador para quem vai começar a trilhar a própria estrada. Mas existe algo em sua fala que foge ao padrão. Em discursos de formatura não ouvimos ninguém falar sobre a morte. Pois foi justamente o que Jobs fez:
Aqui vemos o quanto pensar na morte parece meio que nos redirecionar para os sentidos que vamos dando ou construindo para nossas vidas. Trilhar a existência como se todo o dia fosse o último faz com que possamos nos questionar cotidianamente em busca de uma vida mais livre e plena, nos transforma em críticos mais severos do próprio caminho que vamos trilhando.
Impossível não pensar em Montaigne quando nos dizia que perder o medo da morte nos torna livre de toda a sujeição. Jobs alerta que diante da condição de finitude estamos nus. Com essa metáfora afirma nossa vulnerabildiade diante da vida e, se assim é, para que ter medo de coisas tão pequenas? Ter que morrer um dia deveria nos livrar do fardo das convenções. Elas simplesmente desaparecem diante de tudo o que a morte pode representar em nossas vidas pois lembrar diuturnamente que não mais estaremos aqui nos impulsiona a buscar as boas escolhas, percebendo o quanto o nosso tempo de fato é precioso!
Pessoas como Jobs sempre existiram. Outros virão. Mas talvez possamos ter encontrado um dos segredos que existe por detrás dos produtos tecnológicos que ele criou. O que está por trás da insistência, da perseverança? O que existe por trás da busca constante por excelência? Alguns diriam que pessoas como Jobs nunca deixam de ser crianças na medida em que ainda se vêem presos a uma forma de pensamento mágico que instila a fantasia e comete o atrevimento de torná-la em parte realidade. Mas, junto a essa “criança” existe algo mais. A morte, semelhante a lenda budista, pousava todos os dias nos ombros de Jobs e lhe perguntava se ele estava preparado para ouvir seu trinar. Como ele nos ensinou, isso pode ser o grande impulsionador não só para fazer tablets, mas também para sermos mais felizes!
sábado, 1 de outubro de 2011
Quando a idade significa proximidade da morte: um tempo limitado de prazeres? (Adriana Mendonça)
A morte não é a mesma para todos. Na velhice
ela é mais próxima, pois ao passar pela infância, adolescência,
idade adulta e um pouco da terceira idade, só há um final. No dia
primeiro de outubro comemora-se o dia internacional das pessoas
idosas. Essa data foi criada pela ONU (Organização das Nações
Unidas), então venho aqui nesse dia, refletir um pouco sobre a morte
para essas pessoas.
Por que quando o tempo for seu inimigo e as
linhas de expressão dominar sua face e sua vitalidade não for como
você gostaria, tudo que restará será bons momentos na memória? A
velhice é o fim? Ficará apenas a esperar o fatídico dia?
A morte do idoso começa com a memória, por
ser uma das primeiras coisas que sonda a morte, e traz aquele sentimento
de distância, de uma vida se esvaindo como um espiral se fechando.
Esse espiral é um símbolo recorrente para falar da morte na
terceira idade, pois é o “caminho” desde o nascimento até o
momento do fim, quando a espiral vai fechando e o caminho se
esgotando.
E a capacidade de escolha é influenciada pela
idade avançada? Não necessariamente precisa disso. Porém, hoje,
percebe-se que isso acontece com mais frequência que o contrário.
Pergunte-se por qual motivo um idoso não pode fazer uma escolha tão
radical quanto à de um jovem? Pelo fato de estar à espera da morte?
A boa morte vem daqueles que possuem uma boa vida, morrer faz parte
do viver. Chega um tempo em que a escolha é pequena, por exemplo,
escolher entre uma sopa ou um iogurte, ao mesmo tempo em que a morte
é a escolha que não se pode ter e quanto mais próximo dela se
parece estar, mais as demais escolhas não possuem mais aquela
importância.
A pessoa idosa muitas vezes é mal interpretada como depressiva pelo
fato de se negar a fazer coisas que antes adorava fazer ou que fazia
muito bem. O processo de despedida que pode ser confundido com
depressão. O estabelecimento das despedidas começa com a escolha do
distanciamento devido principalmente a lembrança que o mesmo traz.
Embora pareça cruel é assim que acontece e deve ser entendido como
um processo natural, simples e que é gerenciável. O que era um
estímulo em época que era recém-nascido parece uma despedida na
velhice. A pessoa nova procura conhecer, procurar aprender, procurar
criar a lembrança porque um dia ela vai se distanciar e vai lembrar.
Pessoas que chegam a uma idade mais avançada
ainda têm a chance de perder um ente querido que “deveria”
falecer após ela. Fica aquela dúvida no idoso: “Por que ele e não
eu?”, aquele sentimento de culpa por ter vivido mais e ainda estar
vivo enquanto comparado com a jovialidade do que partiu. É preciso
de força pra conseguir enxugar as lágrimas da saudade que vem bem
mais acentuada para quem não a aceita. É mais do que o vazio da
ausência, é o vazio de uma vida inteira se reduzindo a memórias.
Então grande maioria se deixa morrer.
Julga-se um tempo limitado de prazeres,
enquanto na realidade pode-se viver em qualquer idade, mesmo que as
lembranças estejam na frente dos olhos quase os cegando. E fica a
dúvida: O que é a morte? Apenas um desligar, um apagão? Outro
caminho? O fim de um sofrimento? O encontro com outro que já partiu?
terça-feira, 12 de julho de 2011
A Morte Abandonada nas Ruas (Erasmo Ruiz)

A morte em seu sentido absoluto é algo inevitável. Claro, podemos adia-la em muitas circunstancias, mas em algum momento teremos que paradoxalmente vivencia-la. O contexto é difícil de determinar e, de uma certa forma, só as pessoas que cometem suicídio possuem a "liberdade" de escolher hora e lugar para viver a própria morte.
Em muitas circunstâncias podemos ser surpreendidos. É a morte pelo assassinato cruel nas periferias como acerto de conta de dívidas de drogas. É o enfarto de quem fazia uma simples caminhada. É o acidente de trânsito onde o motoqueiro é colhido pelo carro quando tinha a preferencial. As vezes os mortos não são encontrados apenas nos hospitais. Eles também podem se visibilizar de forma dramática nas ruas onde trafegamos absorvidos pelas coisas da vida.
Quando a morte acontece nas ruas, seja com evidentes sinais de violência, seja de maneira súbita e imprevista, um complexo conjunto de normas precisam ser respeitadas, circunstâncias apuradas, medidas legais tomadas. Não pode pairar nenhuma dúvida sobre o que aconteceu. Caso a mortee tenha sido reultado de dolo, culpados precisam ser encontrados e punidos.
Os cidadãos comuns raramente posseum a visibilidade dessas circunstâncias. Elas aparecem repentinamente no telejornal sensacionalista patrocinado por medicamentos que aliviam a dor de hemorróidas ou apregoam que seu ente querido irá parar de beber se o remédio for misturado a comida.
Os cadáveres aparecem desfocados pelas trucagens na ilha de edição de vídeo. O reporter com ar de investigador entrevista testemunhas e policiais mais ou menos ciente de seu importante papel para que a pomada contra hemorroidas desencalhe das prateleiras da farmácia.
No conjunto de atores que aparecem nessa novela sem beijo e pares românticos, eis que surge a figura do perito criminal. Mas não com o glamour dos seriados americanos. Não dispomos de tecnologia sofisticada. Muitos deles inclusive, movidos por suas consciências sociais, aparelham-se, compram boas câmeras fotográficas porque sabem que o Estado não considera uma função importante como sendo de fato importante, mesmo que nos discursos isso seja sempre negado.
Nesta semana que passou esse ator retirou-se de cena. Resolveu como qualquer outro trabalhador fazer greve. Os motivos são os de praxe, salários aviltados e falta de perspectiva de carreira. Numa cidade como Fortaleza que em sua região metropolitana ultrapassa os três milhões de habitantes, apenas uma equipe de peritos foi mantida em trabalho constante diante de uma situação que anteriormente já era precária. Antes da greve apenas três quipes não davam conta da verdadeira guerra urbana entre acertos de contas do tráfico, imprudência no trânsito ou simplesmente um arteroma que resolve mostrar-se ao mundo enquanto alguém fazia ginástica.
Com apenas uma equipe de peritos correndo pelas ruas, cadáveres esperavam até quase 9 horas para serem removidos..eu disse quase 9 horas. Mas um momento. Cadáveres não esperam. O papel de esperar não é dos mortos. pelo contrário. Talvez os mortos tenham deixado de esperar por tudo pois já descobriram (ou não) a resposta para a pergunta da existência. Quem espera na verdade são os vivos.
E os vivos esperaram. Mães velaram filhos envoltos a poças de sangue no meio fio das calçadas num sol tórrido. Filhos desesperados ficaram ao lado do cadáver de pais mortos em acidentes de trânsito. Os mortos abandonados nas ruas ao lado de vivos em meio ao abandono. Nessas horas é fácil culpar os peritos criminais por tamanha barbárie. Como tiveram o atrevimento de expor as pessoas a dor e sofrimento amplificados? Mas em meio ao trágico basta que se apure o olhar para percebermos o tamanho do abandono.
O poder público acha hoje mais importante investir na copa do mundo. Para isso, que se institucionalize de vez a corrupção ao transformar o orçamento de tais obras em "segredo de Estado". Em Fortaleza existem obras faraônicas sendo levantadas. Mas há que se ter responsabilidade administrativa quando se discute salários de funcionários públicos, aindam mais de peritos que ficam bisbilhotando os segredos da morte.
A maneira como lidamos com a morte diz respeito às formas como lidamos com a vida. Mortos e vivos estão abandonados nas ruas de Fortaleza!
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1009303
domingo, 10 de julho de 2011
O Mito de Aurora e os Moribundos: Até Quando Adiar a Morte? (Dario Junior*)
Ao nascermos temos por companheira inseparável a iminência da morte. Não vivemos pensando em como ela chegará, mas, um dia, ela sempre chega; não fazendo distinção entre ricos, pobres, brancos, negros, todos vão morrer.
Os avanços da medicina proporcionaram aos indivíduos o conhecimento de muitos dos processos que ocasionavam a morte, entretanto, ao passo que alguns dos segredos desta senhora são revelados sua presença é retirada da sociedade, um estranhamento que gestou um verdadeiro tabu. Não falamos sobre a morte, fingimos não saber que um dia ela irá chegar, colocamos nossa esperança em uma medicina que, algumas vezes, vende a vida e juventude eternas, tomando a morte como sua grande inimiga, tendo o mito de Asclépio como paradigma, pois este conseguia fazer as pessoas voltar do mundo dos mortos.
Muitos médicos tomam por incumbência lutar contra a morte, mesmo que esta se apresente de uma forma natural. Para que esta luta? O mito de Asclépio é utilizado de uma forma alegórica: da morte que pôde ser evitada. Contudo, tantos outros proporcionam uma visão sobre o processo de morrer: uma forma de fechamento, de conclusão necessária para os vivos.
Dente os mitos relacionados à morte temos o da deusa Aurora. Esta roga ao Pai dos deuses que conceda a seu amante a vida eterna. Pedido atendido pelo senhor do Olimpo. No entanto os anos passam, a deusa permanece bela e seu formoso amante apresenta um aspecto decrépito, não estando contente com sua virtual imortalidade.
Será que o amante ansiava tornar-se imortal, ou Aurora, para não ficar sem ele o amaldiçoou, tendo a melhor das intenções, com a imortalidade?
Durante a guerra de Tróia, Zeus, o senhor dos deuses, chora a morte de um de seus filhos na guerra, pois, nem ele, poderia mudar o destino que a moira traçou.
Muitos profissionais de saúde tomam Thanatos como grande inimigo. Contudo, será que quando agem assim pensam no que será melhor para seu paciente, ou, assim como Aurora, para não perder (falhar) com um paciente o impedimos de seu inevitável e, por vezes, desejoso encontro com Thanatos, em uma luta em que até o senhor mais poderoso do Olimpo não pode advogar, muitos profissionais advogam, não pelo bem de seus pacientes, mas neles personificados em troféus, o “senhor da vida”, que se esquece do detalhe de também ser mortal.
Ser um profissional de Saúde, não é empreender uma luta Sísifa, na qual lutaremos contra a morte a todo custo, mas lutaremos por uma vida que valha a pena ser vivida, pois, caso contrário, poderemos do mesmo feitio que Aurora proporcionar que as pessoas de que cuidamos consigam uma vida sem qualidade apenas para como uma resposta aos nossos anseios e questões a respeito da morte.
Se lutarmos pelo direito de viver, também deveremos lutar pelo direito de se morrer com dignidade.
*Dario Junior é Acadêmico de Psicologia da Universidade Estadual do Ceará (UECE)
terça-feira, 21 de junho de 2011
O Último Desejo É Inegável (Erasmo Ruiz)
Tantas e tantas pessoas morrerm sem realizar seus últimos desejos. Muitas nem sabem que estão morrendo. Tem suas autonomias cerceadas em nome do amor e do afeto, diagnósticos ocultados numa coonspiração entre profissionais de saúde e familiares. Mas será que não podemos roubar alguma coisa quando assim agimos?
Outras vezes não realizar o último desejo é uma opção, expressão melancólica do negar a própria morte, afinal, assumir que se realiza o último desejo é enfaticametne assumir a verdade da própria morte como algo que não pode ser evitado.
Outras vezes o último desejo nos coloca o desafio da "piscina de macarrão" de Patch Adans. Lembram-se do filme? Uma doce velhinha as portas da morte compartilha com todos a fantasia que sempre teve de mergulhar numa piscina de macarrão. Pois Patch não mede esforços para realizar a fantasia, radicalizando o princípio paliativista de cuidado que acolhe TODAS as necessidades do paciente.
O direito ao último desejo é consagrado inclusive aos criminosos condenados a morte. A marioria das legislações no coidente lhes oferece uma última refeição a sua escolha bem como oportunidades de receber visitas em dias e horários não usuais, afinal, a pessoa vai morrer. Existem relatos comoventes de como condenados passaram suas últimas horas na companhia de familiares e amigos.
O último desejo é tão imoportante que deveria ser garantido por lei e seu não atendimento criminalizado como "omissão de socorro humanitário". Aqui cabe lembrar inclusive que o último desejo é invocado poeticametne em outras situações de morte, como a perda de amor como nos ensina Noel Rosa:
Nunca Mais quero seu beijo
Mas meu último desejo
Você não pode negar
Pensando que Noel Rosa morreu jovem e de tuberculose, talvez ele expressasse esse verso com relação a prórpria morte já que no Brasil dos anos 30 o diagnóstico de tuberculose era compatível com uma sentença mortal.
Por isso não causa espanto essa notícia que nos chega dos Estados Unidos onde um morador de rua de 57 chamado Kevin McClain foi levado para uma emergência onde se constatou que tinha câncer de pulmão em estágio avançado, com poucos dias de vida. Ele morou durante anos dentro de um carro na companhia de sua cadela de estimação, na verdade sua única e verdadeira amiga.
O animal foi levado para um abrigo onde foi depois de poucos dias adotado. No hospital, ao saber do diagnóstico, Kevin expressou seu último desejo: receber a visita de sua grande amiga. É isto que vemos nessa foto, um momento terno, humano, triste porém cheio de potência de vida e amor.
Estamos preparados para acolher a morte nos nossos locais de trabalho em saúde? Quantos de nós seríamos refratários a realização desta necessidade se Kevin estivesse próximo de nós? Quantos no dia-a-dia em nome das rotinas e da pretensa preservação da normalidade podem impedir que gestos humanos como este se efetivem?
Uma das mensagens sábias do passado é que não podemos negar o último desejo de alguém. Existem muitas justificativas de ordem ética ou mesmo religiosas para isso. Mas talvez a verdadeira razão seja muito mais simples. Ao atender ao último desejo de alguém nos mostramos socialmente dignos para que nossos últimos desejos também sejam atendidos no futuro.
Kevin provavelmennte morrerá em paz tendo gravado em seu olhar as despedidas de sua cadelinha e sabendo que ela está num lar que a adotou. Quantos e quantos desejaram que esse ritual se reproduzisse não só com animais de estimação mas também com pais, irmãos, esposos, amigos... isso é uma das coisas que sonegamos quando não acolhemos a morte!
terça-feira, 17 de maio de 2011
Drogas Ilícitas para uma Boa Morte (Erasmo Ruiz)
Este post não fará coro aos inúmeros que já existem pela internet num discurso conservador e ultrapassado de ser "contra as drogas" ou de identificar nelas "o inferno na Terra". As posições dicotômicas que são obsevadas no debate "Contra x a Favor" da discriminalização ocultam os muitos caminhos existentes nas interfaces. Como alguém que trabalha com tanatologia e defende a humanização dos cuidados em saúde o que inclui a humanização dos cuidados no final da vida, sinto-me no dever de trazer uma perspectiva diferente quando pensamos drogas ilícitas como possível meio para implemetnar a qualidade de vida de pacientes tidos como fora de possibilidades terapêuticas.
Quando notamos a presença das drogas ilícitas na imprensa, o que parece ficar destacado é o uso junto a problemática criminal. Terríveis assassinatos estão associados ao seu uso, seja situações onde o homicida estava sob o efeito da droga, seja as inúmeras chacinas onde a mão do tráfico comparece de forma indelével. Situações de insegurança púbica como as vivenciadas pelo Rio de Janeiro estão sempre super expostas e servem como sianzlizadores evidentes que as atividades no entorno do consumo e venda de drogas seriam responsáveis por uma cadeia sem fim de crimes. Diante da necessidade de consumir e na ausência do dinheiro para tal, teremos a configuração do usuário como um criminoso em potencial, que não medirá esforços para chegar até onde precisa.
Mas quando vozes levantam-se pela descriminalização ou, até em uma atitude mais tímida, pedem uma certa revisão de características psicossociais que estigatizam os usuários e/ou os efeitos fisiológicos das drogas, os meios de comunicação e a maioria das pessoas cerram fileira para inibir essas manifestações. Pois esta é a vantagem de se ter um blog como forma de epressão. Não temos a audiência do Jornal Naconal mas nossa percepção não será suprimida por "zelosos" editores ou será descaracterizada em ilhas de edição.
Por exemplo, você sabia que a maconha pode ser utilizada como um medicamento para reduzir os efeitos colaterais dos quimioterápicos no tratamento de câncer? Ou que a mesma maconha produz bons efeitos no tratamento do glaucoma? Ou que ela é um potente estimulador do apetite? Ou que já foram relatados importantes efeitos analgésicos especialmente indicados para algumas situações pós cirurgicas? Ou que ela pode ser utilizada no controle de espasmos musculares, comuns em situações como as da esclerose múltipla?Ou que o ecstasy é relatado omo importante droga que minimiza os efeitos psiquiátricos do estresse pós-traumático? Ou que a psilocibina (encontrada em alguns cogumelos) pode ser usada no combate de algumas cefaléias e para reduzir ansiedade, notadamente em moribundos?
Mas agora, o que gostaríamos de destacar como mais interessante para a temática deste blog. Drogas estigmatizadas como "ilícitas" podem ser utilizadas para implementar a qualidade de morte repondo sensações de bem estar e ombatendo, a depender dos casos, quadros simtomáticos que causam dor e apatia. No final do post disponibilizamos um link com matéria do jornal "Boston Gobe" intitulada "A Good Death". Suscintamente, o artigo fala sobre a retomada de pesquisas nos EUA sobre o uso clínico de drogas psicodélicas depois de 40 anos de silêncio.
Algumas coisas são promissoras, por exemmplo, o uso do ecstasy para minimizar os impactos do medo e da ansiedade diante do processo de morrer devolvendo inclusive capacidades virtualmente coprometidas como poder sair da cama, passear e ouvir música entre pacientes fora de possibilidades terapêuticas. Ou seja, podemos e devemos discutir a utilização de todos os meios disponíveis para que pessoas possam lidar o melhor possível com as problemáticas no final da vida.
Assim, por que não atrelarmos à discussão do uso de opiáceos o uso de drogas que possam capacitar a manutençãso de consciência e a alegria de viver o máximo que for possível? Por que em meio a estes debates apaixonados não podemos abrir portas para espaços de interface onde pudéssemos reavaliar de forma radical o sentido das ilicitudes quando pensamos a questão do uso de drogas?
Num mundo mediado por relaçoes econômicas onde a busca da lucratividade é a ordem do dia, falar de drogas que podem ser plantadas no fundo do quintal e que poderiam ser utilizadas para minimizar os efeitos de quimioterápiocos e/ou tornar as pessoas menos ansiosas diante da morte pode, entre outrs coisas, ferir muitos interesses comerciais. Não seria esse o principal motivador de empresas de telecomunicação?
Em nome de proteger os intereses da segurança de nossos filhos, assumem uma postura extremanente repressiva mesmo no que tange a abrir o assunto para discussão. No entanto, são sempre muito solíícitas ao dinheiro da publicidade de bebidas alcoólicas que estimulam o enorme consumo associando suas mensagens às festas e uma vida repleta de alegria e prazer. Claro, em muitas situações trágicas nossos filhos podem morrer ou matar em acidentes de trânsito porque estavam sob forte efeito da bebida alcoólica ingerida na festa. Era lícito! Mas ate à morte foram preservados dos efeitos nefastos que a discussão sobre o uso das drogas ilícitas poderia produzir.
Pela busca de uma morte mais digna temos que abrir as portas de nossas consciências à novas possibilidades. Por que não analisar o uso de drogas tidas como ilíictas não só da forma como costumeiramente fomos doutrinados a pensar? Existem mais coias entre a licitude e a ilicitude do que poderia pensar nosso estúpido conformismo.
AQUI vocês podem acessar o artigo do Boston Globe
Quando notamos a presença das drogas ilícitas na imprensa, o que parece ficar destacado é o uso junto a problemática criminal. Terríveis assassinatos estão associados ao seu uso, seja situações onde o homicida estava sob o efeito da droga, seja as inúmeras chacinas onde a mão do tráfico comparece de forma indelével. Situações de insegurança púbica como as vivenciadas pelo Rio de Janeiro estão sempre super expostas e servem como sianzlizadores evidentes que as atividades no entorno do consumo e venda de drogas seriam responsáveis por uma cadeia sem fim de crimes. Diante da necessidade de consumir e na ausência do dinheiro para tal, teremos a configuração do usuário como um criminoso em potencial, que não medirá esforços para chegar até onde precisa.
Mas quando vozes levantam-se pela descriminalização ou, até em uma atitude mais tímida, pedem uma certa revisão de características psicossociais que estigatizam os usuários e/ou os efeitos fisiológicos das drogas, os meios de comunicação e a maioria das pessoas cerram fileira para inibir essas manifestações. Pois esta é a vantagem de se ter um blog como forma de epressão. Não temos a audiência do Jornal Naconal mas nossa percepção não será suprimida por "zelosos" editores ou será descaracterizada em ilhas de edição.
Por exemplo, você sabia que a maconha pode ser utilizada como um medicamento para reduzir os efeitos colaterais dos quimioterápicos no tratamento de câncer? Ou que a mesma maconha produz bons efeitos no tratamento do glaucoma? Ou que ela é um potente estimulador do apetite? Ou que já foram relatados importantes efeitos analgésicos especialmente indicados para algumas situações pós cirurgicas? Ou que ela pode ser utilizada no controle de espasmos musculares, comuns em situações como as da esclerose múltipla?Ou que o ecstasy é relatado omo importante droga que minimiza os efeitos psiquiátricos do estresse pós-traumático? Ou que a psilocibina (encontrada em alguns cogumelos) pode ser usada no combate de algumas cefaléias e para reduzir ansiedade, notadamente em moribundos?
Mas agora, o que gostaríamos de destacar como mais interessante para a temática deste blog. Drogas estigmatizadas como "ilícitas" podem ser utilizadas para implementar a qualidade de morte repondo sensações de bem estar e ombatendo, a depender dos casos, quadros simtomáticos que causam dor e apatia. No final do post disponibilizamos um link com matéria do jornal "Boston Gobe" intitulada "A Good Death". Suscintamente, o artigo fala sobre a retomada de pesquisas nos EUA sobre o uso clínico de drogas psicodélicas depois de 40 anos de silêncio.
Algumas coisas são promissoras, por exemmplo, o uso do ecstasy para minimizar os impactos do medo e da ansiedade diante do processo de morrer devolvendo inclusive capacidades virtualmente coprometidas como poder sair da cama, passear e ouvir música entre pacientes fora de possibilidades terapêuticas. Ou seja, podemos e devemos discutir a utilização de todos os meios disponíveis para que pessoas possam lidar o melhor possível com as problemáticas no final da vida.
Assim, por que não atrelarmos à discussão do uso de opiáceos o uso de drogas que possam capacitar a manutençãso de consciência e a alegria de viver o máximo que for possível? Por que em meio a estes debates apaixonados não podemos abrir portas para espaços de interface onde pudéssemos reavaliar de forma radical o sentido das ilicitudes quando pensamos a questão do uso de drogas?
Num mundo mediado por relaçoes econômicas onde a busca da lucratividade é a ordem do dia, falar de drogas que podem ser plantadas no fundo do quintal e que poderiam ser utilizadas para minimizar os efeitos de quimioterápiocos e/ou tornar as pessoas menos ansiosas diante da morte pode, entre outrs coisas, ferir muitos interesses comerciais. Não seria esse o principal motivador de empresas de telecomunicação?
Em nome de proteger os intereses da segurança de nossos filhos, assumem uma postura extremanente repressiva mesmo no que tange a abrir o assunto para discussão. No entanto, são sempre muito solíícitas ao dinheiro da publicidade de bebidas alcoólicas que estimulam o enorme consumo associando suas mensagens às festas e uma vida repleta de alegria e prazer. Claro, em muitas situações trágicas nossos filhos podem morrer ou matar em acidentes de trânsito porque estavam sob forte efeito da bebida alcoólica ingerida na festa. Era lícito! Mas ate à morte foram preservados dos efeitos nefastos que a discussão sobre o uso das drogas ilícitas poderia produzir.
Pela busca de uma morte mais digna temos que abrir as portas de nossas consciências à novas possibilidades. Por que não analisar o uso de drogas tidas como ilíictas não só da forma como costumeiramente fomos doutrinados a pensar? Existem mais coias entre a licitude e a ilicitude do que poderia pensar nosso estúpido conformismo.
AQUI vocês podem acessar o artigo do Boston Globe
terça-feira, 10 de maio de 2011
Morte e Pintura: Alguns Quadros de Edvard Munch (Erasmo Ruiz)
Edvard Munch (Auto Retrato Com Cigarrilha)
Todo um imenso volume de história da arte poderia ser composto a partir da temática da morte. Episódica em alguns, a morte pode ser o grande tema nas mãos de outros. Este é o caso de Edvard Munch (1863-1944), pintor norueguês.
Notabilizado pelo quadro "O Grito", o pintor tem uma obra extensa e muito dela retrata seus dramas internos. Munch foi assolado pela morte desde a mais tenra infância. Primeiro, a morte da mãe quando tinha 5 anos e, depois, a mnorte da irmã querida por tuberculose quando ela tinha 15 anos de idade. Como o próprio Munch disse certa feita ao definir sua obra "a doença, a loucura e a morte foram os anjos negros que velavam meu berço e que me acompanharam por toda a vida".
Nesta pintura (mãe morta e criança) temos o corpo da mulher morta na cama praticamente transparente sinalizando com clareza que não possui mais vida. O tom esverdeado da parede "abraça" os personagens presentes na pintura como que expressando a doença mortal que agora faz parte também de todos. A garotinha expressa seu espanto e medo diante da morte. Tapa os ouvidos numa atitude negadora e ao mesmo tempo parece clamar por uma ajuda que não vem dos adultos. Ela está inapelavelmente sozinha diante da morte da mãe pois os adultos apressados se ocupam das intercorrências mais práticas e imediatas da morte. Munch parece nos cobrar aquilo que as pessoas não estão fazendo na pintura. Quase que somos forçados a entrar no quadro e abraçar a menina!
Em "A Criança Doente" estamos agora diante da garotinha anterior só que com 15 anos. Ela jaz vulnerável sofrendo de tuberculose aos 15 anos. Aqui Munch parece nos levar à pessoa que ajoelhada ao lado da menina sofre intensamente a expectativa de que a qualquer momento a morte chegará definitivamente.\A menina tem o olhar distante, parece já entregue e indiferente ao sofrimento de quem vai ao seu lado.O olhar perdido anseia a paz que só se encontra no fim de um horizonte agora alcançável. Quando olho essa pintura imagino o sofrimento de tantas pessoas que estão agora vivenciando as suas perdas e do quanto muitas vezes somos impotentes e trazer algum conforto nesse momento crucial. Novamente, o teor da solidão diante do sofrimento é realçado
Já em "Ao leito de Morte" nos deparamos com os comportamentos dos enlutados. O morto nos é mostrado deitado sem feições, propositadamente colocado de costas. O quarto tem uma iluminação precária por velas que estão dispostas fora da nossa visão pois só vemos as sombras projetadas nas paredes. Somos forçados a olhar os semblantes pouco definidos das pessoas mas que nos mostram suas emoções básicas que parecem oscilar da resignação passando por profunda tristeza e indo até a súplica pelo impossível, aquele desejo mágico e infantil de que o morto retorne a vida. Mais no canto direito do quadro existe apenas uma pessoa que nos fita diretamente. Ela nos diz com todas as letras: A Morte virá para todos, inclusive para você que nos vê em tanto sofrimento. A opacidade maior do rosto que contorna olhos mais humanos dá um ar fantasmagórico a figura como se ela mesma fosse a morte a nos confrontar.
Aqui temos "Morte no Ambulatório". .A pessoa desenganada e às portas da morte está sentada de costas na pintura. Temos as pessoas que expressam dor e sofrimento dotadas de uma palidez esverdeada que parece identificar a todos com a doença que está matando o ente amado, afinal, todos morremos um pouco quando perdemos alguém querido. A attiude contemplativa do médico ao cruzar os braços para trás mostra que ele perdeu as esperanças, apenas observa. Munch é aquele personagem mais isolado no canto esquerdo. Não encontra consolo algum nas redes de solidariedade da família pois parece ter a sensação de que nada poderá servir de lenitivo diante de dor tão extrema.
Assim, Munch nos deixa o legado de sua experiência com a morte. No fim as contas, os indivíduos não são ilhotas isoladas pois grande parte do que vivemos também é do mundo e da humanidade. Numa análise histórica mais "seca" poderíamos afirmar que a dor de Munch é a dor típica da família burguesa da Europa Ocidental do fim do século XIX, sem a referência das redes sociais extensas e comunitárias.
A dor que se sentia e público agora só pode ser vivida no universo do espaço doméstico. As dores e os ritos tornaram-se expressões mais privadas e por isso mais solitárias. No entanto, se na época de Munch essa expressão tinha a marca do novo, hoje parece ser a regra de uma sociedade cada vez mais individualizada pelas marcas da mercantilização, da exaltação do cidadão consumidor, do indivíduo cada vez mais restrito a si mesmo.
"O Grito" de Munch pode ser então o recado estrondoso de que, seja na vida, seja na morte, seja na vivência de nossas perdas, precisamos com urgência sair das amarras da solidão!
quarta-feira, 20 de abril de 2011
O Abandono dos Mortos Exprime o Abando dos Vivos (Erasmo Ruiz)
Eu sei que imaginar-se na situação que vou propor é extremamente desagradável. Entretanto, acredito que esta é a única forma de mobilizar você para este problema.
Uma pessoa muito importante em sua vida desapareceu. Depois de 48 horas de muito sofrimento e ansiedade, mobilizando pessoas e instituições, você reebe um telefonema da polícia pedindo que se dirija ao Instituto Médico Legal (IML) onde está um corpo que parece coincidir com as descrições da pessoa desaparecida. Nesta situação você é morador de Goiania, capital do Estado de Goiás.
Ao chegar no IML você imagina que irá passar por uma situação típica de seriado americano. Alguém irá leva-lo até o necrotério, puxar uma "gaveta refrigerada" onde jaz um corpo coberto por um lençol. Em outras situações basta que uma câmera com boa definição mostre imagens do corpo eximindo a pessoa do contato direto com o cadáver.
Mas em Goiania as coisas são diferentes. Você encontrará o IML numa interminável reforma que entre outras consequências produziu uma visão digna de Dante na "Divina Comédia" em sua ida ao inferno. Ao entrar você logo sentirá os terríveis odores da putrefação pois os corpos são deixados ao ar livre, expostos ao calor e as moscas. É também ao ar livre que são feitas as necrópsias.
Será nessas condições que você é levado ao "reconhecimento" do presumível corpo de uma pessoa importante para sua vida. No planejamento da realização da reforma não se pensou no óbvio: cadáveres apodrecem se não forem guardados em condições adequadas. Particularmente não acredito que as pessoas não pensaram nisso, donde, parece que não se importaram com as consequências, parece ser descaso mesmo.
Em que pese a problemática higiênica, quero destacar os aspectos humanos em questão. Não é eticamente aceitável que cadáveres sejam lidados dessa forma: empilhados, abandonados e apodrecendo a céu aberto. Não é civilizado e digno que pessoas vivendo estados psicológicos de extrema ansiedade e tensão sejam expostas a possibilidade de encontrar o corpo de um ente querido nestas condições.
O cadáver não é uma "coisa". Ele ainda porta a dignidade humana e é objeto de afeto e cuidado para as pessoas próximas. É inaceitável que a população de Goiania conviva com uma situação destas ha quase dois anos. É inaceitável que seres humanos em estado de vulnerabilidade absoluta sejam expostos ainda mais a esse espetáculo dantesco quando na busca de seus entes queridos.
Episódios como este, infelizmente não tão incomuns como desejaríamos, sinalizam para uma trágica realidade. A forma como cuidamos dos nossos mortos é um dos indicadores do quanto a vida está sendo banalizada, do quanto tendencialmente estamos criando uma sociedade onde idivíduos e grupos são incompetentes para construir redes de solidariedade. Parece que estamos nos importando cada vez menos uns com os outros.
Abaixo os emails da Assembléia Legislativa de Goias e do Governo do Estado de Goias. Escreva, mostre sua indignação sobre isso:
Assembléia Legislativa de Goias
Governo do Estado de Goias
Acesse a notícia sobre o IML AQUI
sábado, 6 de novembro de 2010
Morte e Imortalidade Na MItologia Grega: Asclépio (José Jackson Coelho Sampaio)
O deus Apolo amava Corônis, neta da musa Érato. Mas Corônis preferiu ser amante de um mortal, que envelheceria com ela, do que amante de um deus que a abandonaria, logo surgissem as marcas mortais do envelhecimento.
Um corvo branco foi informar esta traição a Apolo que o flechou, para todo sempre enegrecendo-o, e depois, com as mesmas flechas, matou Corônis, incendiando-a, imolando-a pelo fogo. De seu útero em chamas, Apolo resgatou o filho, semi-divino, nos seus seis meses de gestação, ao qual deu o nome de Asclépio. Este filho, nascido das brasas da escolha materna pela mortalidade humana, foi entregue ao Centauro Quíron para ser criado e este o educou nas artes da cura, na descoberta dos lugares adequados para uma vida saudável, na preparação de ervas para os tratamentos, na identificação das águas para os banhos propiciatórios e no mistério dos elixires extraídos do sangue da Górgona.
A fama de Asclépio correu mundo e ele estabeleceu um culto próprio, para que a força das crenças na mente impulsionasse as vontades; um sistema de formação de curadores, assim multiplicando multiplicadores de seus próprios dons; outro sistema de serviços de cura, em articulação com os esportes para a movimentação do corpo e em articulação com as artes para que a tragédia, a comédia e a poesia estimulassem a inteligência e a criatividade. Asclépio promovia a saúde, prevenia e tratava doenças, inventava ungüentos, bálsamos, elixires e estilos de vida. Mas, um dia, alcançada a excelência no seu nível, desejou muito mais, desejou contrapor-se diretamente a Hades, surrupiando-lhe mortos, e começou a ressuscitar.
Zeus, furioso com a ousadia, pediu aos Cíclopes a preparação de um raio especial e com ele fulminou Asclépio. Apolo, pai furioso, fiel à memória divina de um grande amor mortal, mata os Cíclopes que haviam forjado o raio. Depois, culpado, responsável, disposto a restabelecer a hierarquia e a governabilidade do Olimpo, oferece a Zeus uma expiação: com a aparência humana, servirá, como pastor, ao jovem rei Admeto, filho de Feres. A tragédia está sempre à espreita destas promiscuidades entre deuses e humanos e Apolo, ao perceber que Admeto morrerá muito cedo, embriaga as Moiras, as encarregadas do trânsito dos corpos mortais ao Hades, e elas, confusas e fascinadas pelos poderes do deus, aceitam levar outra pessoa no lugar de Admeto. A noiva de Admeto, Alceste, oferece-se para a troca. Mas então, para Admeto, impõe-se morrer ou viver sem seu amor, outra forma de morte. Apolo encontra uma solução, quando chama Héracles para lutar com as Moiras, na condição de, se Héracles vencesse, as Moiras voltariam para Hades de mãos abanando, sem a colheita daquele dia. Héracles venceu e Apolo decidiu que era hora de voltar ao Olimpo, pois cada decisão sua, no mundo dos humanos, envolto na simpatia que eles despertavam, estava sempre fadada a mudar tragicamente algum curso das coisas.
É interessante acompanhar as bifurcações da estória de Asclépio, desde que sai da Tessália e ganha o mundo grego, um mundo que nos deixa de herança, como pensa Nietzsche, duas grandes vertentes culturais: aquela denominada apolínea, da ordem, da clareza, do pensamento, da razão, da consciência, e aquela denominada dionisíaca, da revolução, da obscuridade, da imaginação, do irracional, do inconsciente. Asclépio integra-se nas duas vertentes, quando também é incorporado aos ritos místicos e mágicos de Elêusis, primitivos, iniciáticos, dionisíacos.
Mas, voltando ao caminho principal, Apolo retorna ao Olimpo e consagra a memória e as cinzas de Asclépio como terapêuticas, estabelecendo, definitivamente, as regras de seu culto, que se espalhará pelo Mediterrâneo, pelas Cíclades, com centro em Delos, pela Attica, com centro na lateral sul da Acrópole de Atenas, entre os montes e os ventos de Epidauro, onde se estabelece o festival anual denominado Epidauria. A imortalidade de Asclépio se faz no céu, como constelação de estrelas, a Constelação de Ofiúco. A imortalidade de Asclépio também se faz na terra: a arte da Medicina nasceu, em nome de Apolo, de Asclépio, de suas filhas, Higéia (condição de saúde) e Panacéia (capacidade de cura), e de um cajado em torno do qual uma serpente repousa e nos observa, sibilante, com fármacos no gume dos dentes.
E hoje, novamente, introduzimos nossas digitais eletrônicas na engenharia genética e ousamos ressuscitar. É possível prever que outros castigos se avizinhem e, desta vez, não haverá apenas um semi-deus para atrair os raios ciclópicos e ser destruído em nosso lugar: seremos todos dizimados... Talvez?
Continua em Próxima postagem
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Morte e Imortalidade na Mitologia Grega: Sísifo (José Jackson Coelho Sampaio)
Sinto que tenho ido a funerais, nos últimos anos, mais do que poderia. Sinto que tenho discutido sobre a morte e o morrer, mais do que gostaria, com os colegas que estudam Tanatologia e com os que pesquisam a ocorrência do homicídio ou do suicídio. Então, quando o cenho franze, as comissuras labiais se aprofundam e o olhar, além de seco, fica muito vago, reaparece um velho escape: a fantasia.
Mas, nos labirintos da mente, a memória de mortos queridos surpreende, nos aparentemente fugazes lampejos da poesia expressam-se os balanços existenciais com seus deves e seus haveres, e a Mitologia Grega, bem, esta castiga aos que almejam a imortalidade. E seguindo estes passos tortuosos da fantasia, sem metas e sem garantias, percorri as estórias seguintes.
SÍSIFO
Na transição entre os deuses e os humanos surgem os Titãs, e um deles, Prometeu, adota o crescimento e a libertação dos humanos como sua missão. Além disso, dele descendem inúmeras linhagens de mortais, como a de Sísifo, filho de Éolo, por sua vez filho de Heleno, nascido de Deucalião, primogênito de Prometeu.
Um Titã não era imortal, mas Prometeu, depois de todas as ações de apoio aos humanos e de sofrer extraordinários castigos infligidos por Zeus, obteve, do cansado e contemplativo Centauro Quíron, o dom da própria imortalidade. Quíron, filosoficamente, abdicou de sua condição de imortal, transferindo-a a Prometeu, também num ato de desafio a Zeus. Dos incêndios de Faetonte e dos dilúvios de Zeus, Deucalião nos salva. Heleno foi a matriz de todos os gregos. Com o mundo apaziguado e os humanos adubando as sementes da civilização, Éolo reinou, com sabedoria, por muitos e muitos anos, na Tessália, mas ele gerou reis trágicos, vagantes como os ventos e condenados a perecer nas mãos de seus sucessores. Entre seus filhos, nasce Sísifo, com suas espertezas, seus dribles na morte e seu posterior castigo, burocraticamente repetitivo, tedioso e banal.
Sísifo não recebeu o dom da imortalidade de qualquer amigo imortal que dela tenha abdicado, como foi o caso de Prometeu. Sísifo não ganhou a imortalidade de presente de um deus, em nome do amor e do prazer correspondido, como acontecerá com seu sobrinho Endimião. Sísifo também não ganhou a imortalidade como presente de um deus satisfeito com maravilhosos serviços prestados, no caso exemplar da Sibila de Cumas. Sísifo trapaceou com o Hades alguns anos a mais de vida: esperteza de curto prazo a ser purgada pela eternidade.
Sísifo, filho de Tântalo, fundou a cidade de Corinto, no istmo do Peloponeso, a falsa ilha de Pélops, e ali cultivou o vasto território da esperteza, enfrentando e ganhando de deuses e de filho de deuses. Certa feita, ele venceu as artimanhas de Autólico, filho do deus Hermes, que mudava a cor do gado que roubava para não serem reconhecidos pelos proprietários. Sísifo marcou os cascos de suas reses e assim conseguiu identificá-las e recuperá-las.
Ousando desafiar a condição humana, naquilo que nos faz fundamentalmente diferentes dos deuses, Sísifo encurralou com malícias e aprisionou por muito tempo o próprio senhor do mundo ínfero, do mundo dos mortos, o deus Hades. E por todo este tempo nenhum ser humano morreu, até que Zeus descobriu o que houvera e instruiu o deus Ares a libertar Hades que, vingativo, mata Sísifo. Mas nosso herói, no momento da morte, recomenda à sua esposa Mérope que se esqueça dele, isto é, que esqueça de prestar-lhe os devidos funerais e deixe seu corpo insepulto. Com o argumento de ser necessário e imperioso punir a esposa por tal desfeita, tamanho ultraje, Sísifo, queixando-se amargamente, consegue de Hades a autorização para re-viver, por apenas o mínimo tempo necessário à exemplação de Mérope.
Percebendo-se vivo, Sísifo celebra com a esposa a esperteza dos dois e não volta para Hades. Driblador da morte, ele vai permanecendo entre os vivos, refém das delícias e dos achaques da vida, até o inevitável declínio da velhice sonolenta, na fronteira da demência e da inutilidade. Hades recebe o velho Sísifo com absoluta frieza, nada move seus músculos divinos, nada trai seus desígnios divinos. Uma tarefa estava reservada ao velho driblador, ao arqui-manhoso: rolar uma pedra redonda e pesada até ao alto de uma montanha íngreme, do topo da qual sempre cai, e então rolá-la novamente morro acima... outra vez.... mais outra vez... sem variar o ritmo... moto perpétuo.
Hermes não puniu Sísifo pela vitória sobre Autólico: deve ter soltado boas gargalhadas no Olimpo. Mas, pela pequeníssima vitória sobre a morte, que terror lhe foi imputado, sem drama, a frio, esforço vazio, rolar uma pedra pela eternidade. Nos nossos dias, invertemos o jogo: o castigo de Sísifo não vem depois da morte, na constante dinâmica de Deus ou do Diabo ou na perfeita pureza do Nada, mas, sim, durante a vida, nas condições da alienação universalizada e sutil, pois é no cotidiano do trabalho e de suas ausências que a pedra, sem musgo, rola sobre nossos músculos.
(continuará em próxima postagem)
terça-feira, 12 de outubro de 2010
O Convívio com a Morte no Exercício Profissional (Erasmo Ruiz)
O texto aqui apresentado é um resumo da exposição feita no 9o Congresso Brasileiro de Dor, realizado em Fortaleza entre 6 e 9 de outubro de 2010, durante o Simpósio Satélite de Cuidados Paliativos. A apresentação no formato "power point" pode ser vista acima.
Começamos nossa exposição convidando os presntes a refletirem sobre os dados da pesquisa da Revista "The Economist" sobre o índice de qualidade de morte onde o Brasil ocupava o 38o lugar, a frente apenas de Uganda e Índia. Concluimos que isso acontecia porque no Brasil se morria mau, principalmente pela forma que os pacientes moribundos eram assisitidos em correlação com a usência de uma rede efetiva de cuidados paliativos. Dados recentes sianlizam que o Brasil teria algo em tornod e 355 leitos para cuidados paliativos, número este claramente insuficiente.
Assim, parece que nosso convívio com a morte é caracterizado por comportamentos que afirmam sua negação, o que leva os pacientes a serem cuidados de forma inadequada. A consequência disso é a amplificação do sofrimento de pacientes e faamiliares bem como o desgaste físico e emocional dos profissionais de saúde. Foi enfatizado que isso não se dá necessariamnre porque as pessoas sejam perversas, muito pelo contrário.
Os profissionais aprendem a lidar com a morte apenas a partir da significação da dor de experiências negativas. No início de suas carreiras, ao estabelecerem vínculos afetivos com os pacientes, acabam perdendo muitos deles, um após o outro. Aqui utilizamos a metáforo da adolescente que vai perdendo seus parceiros afetivos. Com o passar do tempo não conseguirá mais estabelecer vinculações emocionais onde haja maior envolvimento por conta do medo da perda que fatalmente ocorrerá novamente.
Há que se buscar então uma nova forma de se lidar com a morte que se afaste de representações negativas de cunho belicista ("luta contra a morte", "enfrentamento da morte", "combate cintra a morte") por outras que vejam a morte como um aspecto da existência humana que devemos entender para produzirmos saúde e vida. As metáforas de "enfrentamento" são altamente frustrantes na medida em que nos coloca num falso jogo competitivo onde sempre perderemos a luta.
Na sua parte final a exposição avança para maneiras como abordar a problemática da morte nos serviços destacando para as necessidades de se mudar a ambiência da morte (necrotérios humanizados que permitam ambiente adequado e a realização de pre-velório), legitimação dos comportamentos de luto (crítica sobre a medicalização da dor e do sofrimento decorrentes das perdas já que estas expressões seriam naturais e não propriamente "doenças") e busca de alternativas para que os "ruídos" no entorno da morte possam ser trabalhados de maneira adequada no espaço institucional (formação de rodas de discussão onde os trabalhadores possam falar sobre o próprio sofrimento decocrrente da perda de pacientes bem como buscar soluções para tornar o trabalho no entorno da morte mais humanizado, construindo modificações na forma como é realizado).
Encerrando, buscamos enfatizar que em termos da vulnerabildiade e do sofrimento não existem diferenças entre pacientes e nós no papel de cuidadores. Ao mesmo tempo em que buscamos construir nossa felicidade, somos seres que também temos que aprender a lidar com perdas e com nossas vulnerabilidades. Essa problmemática é fundamental para todos os trabalhadores de saúde mas tem sua marca mais evidente no trabalhador médico que pode ser vítima do seu próprio narcisismo ao ser responsabilizado pela manutenção do bem mais importante para qualquer ser humano: a vida!. Ainda assim, acreditar ser um "super-herói" não muda a realidade de que os "herois" sofrem, envelhecem e morrem.
domingo, 19 de setembro de 2010
Poemas Mortais à Mulher Amada: Tanatologia Poética com Baudelaire (Erasmo Ruiz)
Túmulo de Baudelaire
Agora a conversa é de homem para homem. Em algum momento da vida, lá pelo final da adolescência você, apaixonado pela mulher da sua vida, simplesmente não sabia o que fazer para resolver a questão.
Numa hora como essa recorre-se aos amigos mais experientes, ao pai ou ao irmão mais velho, livros de autoajuda são bem vindos, internet...as opções são variadas.
E as respostas também são: "declara-se a ela"; "convide-a para ir ao cinema, de preferência um filme romântico e depois diga tudo o que está sentindo"; "mande flores com um pacote de chocolates" etc. Claro, se você possui dotes poéticos acima das rimas de "amor" com "flor" pode ter sido aconselhado a fazer um poema.
Hoje em dia não passaria pela cabeça da maioria dos mortais ao tentar seduzir o amor da sua vida, falar em morte. Mas que coisa de mau gosto! Ora, amor é algo que em tese oporia-se a morte, pois fala de vida, de libido, de paixão e de intensidade.
Mas numa época onde a morte era vista com outros olhos, mais presente e visível, menos interdita. Numa época em que as explicações gerais iam perdendo espaço para outras que colocavam em dúvida as certezas de uma pós vida e da eternidade, cabia então chamar à razão aquela pobre dama que mesmo diante dos desejos do corpo, negava seus amores ao suplicante poeta.
Assim, temos Baudelaire num gesto absolutamente sedutor...pelo menos nos idos de 1857:
Remorso póstumo
Quando fores dormir, ó bela tenebrosa,
Num negro mausoléu de mármores, e não
Tiveres por alcova e morada senão
Uma fossa profunda e uma tumba chuvosa;
Quando a pedra, oprimindo essa carne medrosa
E esses flancos sensuais de morna lassidão,
Impedir de querer e arfar teu coração
E teus pés de seguir a trilha aventurosa,
O túmulo, que tem um confidente em mim
- Porque o túmulo sempre há de entender o poeta _,
Na insônia sepulcral dessas noites sem fim,
Dir-te-á: "De que serviu, cortesã incompleta,
Não ter tido o que em vão choram os mortos sós?
_ E o verme te roerá como um remorso atroz.
(Charles Baudelaire,"Les Fleurs Du Mal", Tradução de Guilherme de Almeida)
Caro Leitor! Se sentires que sua amada seja sensível a tais argumentações, então use e abuse da genialidade de Baudelaire. Mas creio que estas aproximações poéticass sobre a morte no século XIX seriam meio que incompreendidas pela maioria das mulheres de hoje em dia.
Particularmente, acho a idéia do túmulo ser um confidente do poeta a pensar na morte em noites de insônia muito representativa dessa época em que a tuberculose graçava sem controle convidando ao lirismo das metáforas sobre o efêmero. E coittado do verme cheio de remorso devorando a intensa beleza daquelas carnes sem vida. Chego a pensar que se Bauldelaire continuasse o poema expressaria inveja do pobre verme!
Mas deixando o sarcasmo para lá. O poema é lindo! Mas essa beleza soa meio incompreensível para os dias de hoje. A maioria das pessoas sonha em seduzir com ícones do consumo, com o espetáculo do frenesi da vida chafurdando nos significados rasteiros do oceano de mercadorias.
Interessante captar as nuances de uma epoca onde a morte junto com o mel, as flores e o arco-iris, fazia parte do construto de metáforas que na verdade eram artimanhas para a exaltação da vida!
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