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terça-feira, 12 de julho de 2011

A Morte Abandonada nas Ruas (Erasmo Ruiz)



A morte em seu sentido absoluto é algo inevitável. Claro, podemos adia-la em muitas circunstancias, mas em algum momento teremos que paradoxalmente vivencia-la. O contexto é difícil de determinar e, de uma certa forma, só as pessoas que cometem suicídio possuem a "liberdade" de escolher hora e lugar para viver a própria morte.





Em muitas circunstâncias podemos ser surpreendidos. É a morte pelo assassinato cruel nas periferias como acerto de conta de dívidas de drogas. É o enfarto de quem fazia uma simples caminhada. É o acidente de trânsito onde o motoqueiro é colhido pelo carro quando tinha a preferencial. As vezes os mortos não são encontrados apenas nos hospitais. Eles também podem se visibilizar de forma dramática nas ruas onde trafegamos absorvidos pelas coisas da vida.



Quando a morte acontece nas ruas, seja com evidentes sinais de violência, seja de maneira súbita e imprevista, um complexo conjunto de normas precisam ser respeitadas, circunstâncias apuradas, medidas legais tomadas. Não pode pairar nenhuma dúvida sobre o que aconteceu. Caso a mortee tenha sido reultado de dolo, culpados precisam ser encontrados e punidos.



Os cidadãos comuns raramente posseum a visibilidade dessas circunstâncias. Elas aparecem repentinamente no  telejornal sensacionalista patrocinado por medicamentos que aliviam a dor de hemorróidas ou apregoam que seu ente querido irá parar de beber se o remédio for misturado a comida.



Os cadáveres aparecem desfocados pelas trucagens na ilha de edição de vídeo. O reporter com ar de investigador entrevista testemunhas e policiais mais ou menos ciente de seu importante papel para que a pomada contra hemorroidas desencalhe das prateleiras da farmácia.



No conjunto de atores que aparecem nessa novela sem beijo e pares românticos, eis que surge a figura do perito criminal. Mas não com o glamour dos seriados americanos. Não dispomos de tecnologia sofisticada. Muitos deles inclusive, movidos por suas consciências sociais, aparelham-se, compram boas câmeras fotográficas porque sabem que o Estado não considera uma função importante como sendo de fato importante, mesmo que nos discursos isso seja sempre negado.



Nesta semana que passou esse ator retirou-se de cena. Resolveu como qualquer outro trabalhador fazer greve. Os motivos são os de praxe, salários aviltados e falta de perspectiva de carreira. Numa cidade como Fortaleza que em sua região metropolitana ultrapassa os três milhões de habitantes, apenas uma equipe de peritos foi mantida em trabalho constante diante de uma situação que anteriormente já era precária. Antes da greve apenas três quipes não davam conta da verdadeira guerra urbana entre acertos de contas do tráfico, imprudência no trânsito ou simplesmente um arteroma que resolve mostrar-se ao mundo enquanto alguém fazia ginástica.



Com apenas uma equipe de peritos correndo pelas ruas, cadáveres esperavam até quase 9 horas para serem removidos..eu disse quase 9 horas. Mas um momento. Cadáveres não esperam. O papel de esperar não é dos mortos. pelo contrário. Talvez os mortos tenham deixado de esperar por tudo pois já descobriram (ou não) a resposta para a pergunta da existência. Quem espera na verdade são os vivos.



E os vivos esperaram. Mães velaram filhos envoltos a poças de sangue no meio fio das calçadas num sol tórrido. Filhos desesperados ficaram ao lado do cadáver de pais mortos em acidentes de trânsito. Os mortos abandonados nas ruas ao lado de vivos em meio ao abandono. Nessas horas é fácil culpar os peritos criminais por tamanha barbárie. Como tiveram o atrevimento de expor as pessoas a dor e sofrimento amplificados? Mas em meio ao trágico basta que se apure o olhar para percebermos o tamanho do abandono.



O poder público acha hoje mais importante investir na copa do mundo. Para isso, que se institucionalize de vez a corrupção ao transformar o orçamento de tais obras em "segredo de Estado". Em Fortaleza existem obras faraônicas sendo levantadas. Mas há que se ter responsabilidade administrativa quando se discute salários de funcionários públicos, aindam mais de peritos que ficam bisbilhotando os segredos da morte.



A maneira como lidamos com a morte diz respeito às formas como lidamos com a vida. Mortos e vivos estão abandonados nas ruas de Fortaleza!



http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1009303

domingo, 10 de julho de 2011

O Mundo Fashion da Morte (Erasmo Ruiz)





Você já pensou com que roupa gostaria de ser enterrado? OU, quem sabe, cremado? Ora, esse tipo de pergunta ninguém faz hoje em dia, embora a roupa do morto de uma certa forma continue sendo uma coisa importante.





Existem aqueles que querem ser enterrados com a camisa de seu clube preferido. Outros expressam no morto aquilo que ele foi em vida e acabam lhe botando um bem cortado terno de advogado, toga de juiz, jaleco de médico ou uniforme de militar. As possibilidades são muitas.



No entanto, poucos discutem o que seria uma roupa apropriada para os mortos, principalmente numa época em que as preocupações de ordem ecológica são plenamente justificadas.



Pois descobrimos recentemente a estilista australiana Pia Interlandi. Quando perdeu seu avô ficou a se perguntar sobre qual roupa seria mais adequada para alguém ser enterrado."Eu estava dando o laço no cadarço de seus sapatos quando me perguntei : mas onde ela vai andar? Não precisa de sapatos".

 Com o tempo buscou desenhar mortalhas e, posteriormente, estudou materiais para roupas mortuárias que fossem ecologicamente corretas, para que pudessem se degradar junto com os mortos. A idéia de pessoas serem enterradas em roupas de poliester a desagradava proifundamente pois imaginava que depois de passado o tempo da decomposição do corpo o que resataria seria um esqueleto vestido já que o poliester não se degradava.



Como nos ensina Norbert Elias: "A Morte é um Problema dos Vivos". Em tempos de preocupações ecológicas talvez em futuro próximo seremos todos sepultados em roupas que possam tranquilamente se decomporem conosco.



Resta saber como o capitalismo irá transformar essa idéia em mercadoria para todos. Talvez famosas modelos possam dramaticamente promoverem essas vestimentas em tanáticos desfile de modas. Ou então, poderemos chegar num magazine e comprar nossa roupa para a última viagem em 5 vezes sem juros. Esse mundo fashion cheio de glamour acaba de chegar à morte. Agora o céu é o limite...ou quem sabe o inferno!  

 

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Morte e Audiência (Erasmo Ruiz)

Parece óbvio, mas vamos afirmar: a morte dá audiência. Tente contabilizar a quantidade de assassinatos que vemos diariamente nas séries de TV, filmes, novelas e anúncios publicitários. A morte se rivaliza com as belas mulheres na busca de atenção na telinha. Vende histórias e produtos. Na hora do almoço então, entre uma garfada e outra do rotineiro arroz com feijão, teremos "flashs" da morte ao vivo e a cores, com direito a exposição pública de cadáveres com traços terríveis da nossa violência cotidiana.
Mas ela pode estar presente de forma mais sofisticada. Aparece disfarçada em estatísticas, se confunde com um jogo de basquete quando somos confrontados com os índices de ataques cardíacos anuais no Brasil ou o número de mortos por HIV na África. Esse perfil aparece sempre a noitinha, aos domingos nas reportagens hipocondríacas dos "Fantásticos" da vida. Quem irá dormir no domingo sem saber o número "exato" de contagiados pela gripe suína e a tabelinha com o número de mortos?
Quando eu penso escapar desse ambiente "funéreo", eis que vem as propagandas das TVs por assinatura lembra-me do sobrepeso, das altas taxas de colesterol e glicose, do quanto tenho uma vida sedentária, enfim, a propaganda insinua que se eu não comprar a tal bicicleta que também vira churrasqueira e faz sucos, eu continuarei com o pé na cova. Por garantia, é melhor levar pilulas naturais de emagrecimento junto com a tal bicicleta. Quem sabe eu não estou comprando ambrosia disfarçada e me torne um ser imortal?
Mas, fiquem atentos maníacos de TVs por assinatura! Se vocês são tão obsecados pela morte quanto eu, já temos onde sintonizar nossas antenas.
Na Alemanha já está no ar a ETOS TV, um canal esclusivo com morte nua e crua o dia inteiro, sem disfarces. O tema será abordado do ponto de vista estético com longos documentários mostrando as belezas de cemitérios e da arte tumular bem como nos mostrará como podemos preparar nosso funeral em vida. Para quem gosta de história e amntropologia, o canal é um prato cheio mostrando a diversidade das formas de morrer pelo tempo e pelas culturas. A associação alemã de agentes funerários é um de seus proprietários. Não foi reportado ainda se quem assinar o canal terá descontos no futuro.
Para quem sabe ler alemão ou confia nos terríveis mecanismos de tradução da internet, segue link para a ETOS TV.
Ah, até agora não se teve notícia de ninguém que tenha morrido assitindo à sua programação.
"http://www.etostv.de/"
ETOS TV