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sábado, 29 de maio de 2010

Turbulências (Erasmo Ruiz)



Estava voltando de Brasília. Sempre saio contente de Brasília, uma cidade que na minha opinião foi feita para se admirar...verde se misturando ao cinza do concreto, pedras lapidadas em cimento que parecem desafiar a lei da gravidade como os anjos suspensos da catedral, curvas, retas, olhares que transplantam a utoipia da iris de nossos olhos ao infinito de Niemeyer.
Mas para mim o encanto passa logo. Existe algo de opressivo no ar, como se os prédios desabassem em nossos cérebros...um cheiro de dinheiro e sangue atravessa as vias expressas e descansa nas esteiras do congresso...tudo com um toque de filme de ficção científica com pouco orçamento. Sou simplório, preciso das esquinas, das prostitutas encostadas nos postes, dos vendedores de quinquilharias nos sinais, da dessimetria absoluta de estilos. O padrão sempre me assusta e Brasília é o atestado de um sonho em que acordamos endividados quase diante do orgasmo.
Para completar,o aeroporto, um corredor onde seres impacientes desfilam de um ao outro portão de embarque em busca de um artesanato que nunca esteva nas mãos de artesão algum. E quando esfria, o vento que passou pela cidade se esqueira por aquele maldito corredor fazendo gelar a alma. Mas nada que uma sopa, descongelada e aquecida pela milésima vez, não possa minimizar.
Tudo seguia a rotina de sempre. Até o vôo da mesma empresa que encurtou o tapete vermelho para reduzir os custos. Sanduiche frio, cerveja quente, poltronas estreitas, tudo oferecido com a cortesia e o desconforto de sempre. Mas algo diferente nos esperava nesse vôo que nos levava embora da mesmice insuportável de Brasília. Uma turbulência especial fez o avião chacoalhar e perder a altitude quatro vezes no espaço interminável de 20 segundos.
Faltava ainda mais de uma hora para chegar a Fortaleza. Mas o vôo demorou mil anos. Descobri que não sentia medo da morte mas sim de morrer. A morte é um problema tão nosso, tão complexo, tão inidizíivel e ao mesmo tempo tão ordinário e singelo. Lembrei-me imediatamente da letra de uma música de Gilberto Gil que um tempo atrás a grande amiga Jacqueline enviou como comentário a um dos meus posts tanáticos:
não tenho medo da morte mas sim medo de morrer qual seria a diferença você há de perguntar é que a morte já é depois que eu deixar de respirar morrer ainda é aqui na vida, no sol, no ar ainda pode haver dor ou vontade de mijar
E lá estava eu no avião, com direito inclusive a vontade de mijar como na música. Antevi minha morte e todo o sofrimento decorrente disso, não meu provavelmente pois tudo seria muito rápido mas daqueles que ficariam para trás. O que ainda poderia ser feito em tempo tão curto? Um abraço...um afago...um apertar de mãos....uma oração, um beijo roubado? O que é afinal essa passagem que nos faz levitar sobre a vida que se deixa para trás? E o avião seguia subindo...seguia caindo...e Gil ainda martelando na minha cabeça: a morte já é depois já não haverá ninguém como eu aqui agora pensando sobre o além já não haverá o além o além já será então não terei pé nem cabeça nem figado, nem pulmão como poderei ter medo se não terei coração?
Talvez inadvertidamente, Gil recitava Platão...um Platão em poesia, pois a morte não deve ser outra coisa se não duas possibilidades...um reencontro com todos que já se foram, um reeeditar de lembranças que ganharam vida na alma liberta do corpo que agora se acha solta de todas as amarras e pode conhecer tudo. Ou, finalmente, o silêncio de tudo, que nos livra da dor, da ansiedade e do tormento de ficar imaginado a todo tempo o tempo que vai passar. Ah, se não tivermos coração...então...não teremos mais medo.
não tenho medo da morte mas medo de morrer, sim a morte e depois de mim mas quem vai morrer sou eu o derradeiro ato meu e eu terei de estar presente assim como um presidente dando posse ao sucessor terei que morrer vivendo sabendo que já me vou
Um presidente presidindo a própria morte...não tinha como escapar daquela maldita turbulência que me dizia naqueles derradeiros segundos tudo aquilo que eu ainda não tinha sido. Era essa a sensação...um saber de tudo o que não sabia e que era importante ter sabido, vivendo e morrendo, me vendo nos quadros que não pintei, nas lutas que não travei, nos mares não navegados.
então nesse instante sim sofrerei quem sabe um choque um piripaque, ou um baque um calafrio ou um toque coisas naturais da vida como comer, caminhar morrer de morte matada morrer de morte morrida quem sabe eu sinta saudade como em qualquer despedida.
Ufa! Quem se despediu foi a turbulência. Fiquei me apalpando, meio que procurando saber se estava em outro plano, outra dimensão, boiando nuima antimatéria qualquer. As comissárias impassíveis seguiram retomando o serviço de bordo. Um leve tremor de dedos por sobre os copos de plástico deixava perceber que a minha experiência tinha sido um pouco a delas.
Quando cheguei ao aeroporto, Rosicléia* me esperava sorrindo como sempre no alto da escada rolante do desembarque num cartaz descomunal. Fui descendo como naquele filme antigo, qual era mesmo o nome? Ah, "O Céu pode esperar"! Ou quem sabe o inferno? Não importava mais. Havia tido uma lição prática de tanatologia. A turbulência e a poesia de Gilberto Gil me lembraram que muito ainda havia a ser feito e que o problema não é a morte mas sim morrer deixando portas importantes pra se abrir.
* Humorista cearense

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Morte e Audiência (Erasmo Ruiz)

Parece óbvio, mas vamos afirmar: a morte dá audiência. Tente contabilizar a quantidade de assassinatos que vemos diariamente nas séries de TV, filmes, novelas e anúncios publicitários. A morte se rivaliza com as belas mulheres na busca de atenção na telinha. Vende histórias e produtos. Na hora do almoço então, entre uma garfada e outra do rotineiro arroz com feijão, teremos "flashs" da morte ao vivo e a cores, com direito a exposição pública de cadáveres com traços terríveis da nossa violência cotidiana.
Mas ela pode estar presente de forma mais sofisticada. Aparece disfarçada em estatísticas, se confunde com um jogo de basquete quando somos confrontados com os índices de ataques cardíacos anuais no Brasil ou o número de mortos por HIV na África. Esse perfil aparece sempre a noitinha, aos domingos nas reportagens hipocondríacas dos "Fantásticos" da vida. Quem irá dormir no domingo sem saber o número "exato" de contagiados pela gripe suína e a tabelinha com o número de mortos?
Quando eu penso escapar desse ambiente "funéreo", eis que vem as propagandas das TVs por assinatura lembra-me do sobrepeso, das altas taxas de colesterol e glicose, do quanto tenho uma vida sedentária, enfim, a propaganda insinua que se eu não comprar a tal bicicleta que também vira churrasqueira e faz sucos, eu continuarei com o pé na cova. Por garantia, é melhor levar pilulas naturais de emagrecimento junto com a tal bicicleta. Quem sabe eu não estou comprando ambrosia disfarçada e me torne um ser imortal?
Mas, fiquem atentos maníacos de TVs por assinatura! Se vocês são tão obsecados pela morte quanto eu, já temos onde sintonizar nossas antenas.
Na Alemanha já está no ar a ETOS TV, um canal esclusivo com morte nua e crua o dia inteiro, sem disfarces. O tema será abordado do ponto de vista estético com longos documentários mostrando as belezas de cemitérios e da arte tumular bem como nos mostrará como podemos preparar nosso funeral em vida. Para quem gosta de história e amntropologia, o canal é um prato cheio mostrando a diversidade das formas de morrer pelo tempo e pelas culturas. A associação alemã de agentes funerários é um de seus proprietários. Não foi reportado ainda se quem assinar o canal terá descontos no futuro.
Para quem sabe ler alemão ou confia nos terríveis mecanismos de tradução da internet, segue link para a ETOS TV.
Ah, até agora não se teve notícia de ninguém que tenha morrido assitindo à sua programação.
"http://www.etostv.de/"
ETOS TV