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quinta-feira, 29 de março de 2012

As Frases Mortais de Millôr Fernandes (Erasmo Ruiz)



Ao saber da morte de Millôr Fernandes veio-me imediatamente a ideia de que homens como ele nao morrem, são como os livros que escreve, apenas mudam de página. Eu sei que é um pensamento consolador como tantos outros que temos diante da morte. Mas a arte tem essa espécie de dom, cria uma aura de magia ao afimar a pretensão de que as obras de um grande artista adquiriram o estatuto de “eternidade”. Não tenho dúvida que este é o caso de Millôr Fernandes.


 Apesar deste blog ser sobre a morte, não queria escrever um obtuário de Millôr pois já apareceram muitos, alguns excelentes. Também não proporei discussões em torno de falsas dicotomias: "era Millor um humorista escritor ou um escritor humorista?". Pensei em destacar de Millor o aspecto em que ele era mais genial, suas frases! E já que nesse blog não existe  tabu com relação a morte, o que ele nos dizia sobre ela?


Antes, uma advertência do Millôr: “Fiquem tranquilos os poderosos que tem medo de nós: nenhum humorista atira para matar”. Eu completaria dizendo que, apesar disso, Millôr poderia nos matar de rir. Por exemplo, quando se referia implicitamente sobre a morte ele avisa: “O otimista não sabe o que o espera” já que “o cadáver é que é o produto final. Nós somos apenas a matéria prima.”


De um sarcasmo a toda prova, Millor refletia o tempo todo sobre a vida. Colocou em prática a assertiva dos romanos que já avisavam que rindo satirizamos os costumes. Ah, e como ele nos fazia rir, tendo até nosso maior objeto de temor como combustível para a piada. E “profeticamente” antevendo a própria morte ele dizia que “quando eu morrer só acreditarei na sinceridade de uma homenagem - o agente funerário não cobrar o enterro”.


E ele tinha razão. Sabemos o quanto podemos aumentar de maneira suspeita o que os mortos eram e acrescentar virtudes que nunca tiveram: "A ocasião em que a inteligência do homem mais cresce, sua bondade alcanlça limites insuspeitados e seu caráter uma pureza inimaginável é nas primeiras 24 horas depois de sua morte".


Na vida, segundo Millôr, viramos cópias pois “todo homem nasce origuinal e morre plágio”. E quanta coisa há para se fazer entre esses dois pontos. Millor acreditava em Deus. Mas sua crença era como seu humor, irônica e sarcástica. Em conversa com Deus ele diz: “Sabemos que VOCÊ, aí de cima, não tem mais como evitar o nascimento e a morte. Mas não pode, pelo menos, melhorar um pouco o intervalo?”.


Maldita liberdade essa a qual estamos condenados já que a “morte é compulsória mas a vida não!”. Somos livres para atuar nesse intervalo entre nascer e morrer e todos desejamos por alguma velhice. Ainda assim, para Millôr, existe vantagem em se morrer jovem: “a única vantagem de se morrer moço é que economizamos a velhice”.


Millôr era um mestre do humor fino. Alguém que olhava o cotidiano e era capaz de fazer piada da conversa do liquidificador com o fogão. A piada sempre esteve diante de nós, mas só Millôr era capaz de vê-la. Um exímio jogador das palavras. E diante da morte, ri e nos faz rir ao contatar “que o dedo do destino não tem impressão digital”,


Sigamos então mais uma vez os conselhos dos romanos que nos avisam para aproveitarmos bem o dia até porque, como reforça a maxíma de Millôr , “um dia, mais dia menos dia, acaba o dia-a-dia”.


Finalizando, para aqueles que tem um medo imobilizador da morte, Millôr teria deixado algumas sinalizações que podem ser alentadoras ou, com certeza, revestir a tragédia com alguma graça: “a morte é dramática, o enterro cômico e os parentes ridículos”. Quanto a este escritor de blogs, vou seguindo adiante tentando aproveitar o máximo pois “estou jurado de morte, mas continuo cheio de vida!”.


domingo, 30 de outubro de 2011

Não Tenho Medo da Morte (Gilberto Gil)





Gilberto Gil nos ensina a diferença entre "morte" e "morrer" nessa inteligente página da música popular brasileira.









não tenho medo da morte

mas sim medo de morrer

qual seria a diferença

você há de perguntar

é que a morte já é depois

que eu deixar de respirar

morrer ainda é aqui

na vida, no sol, no ar

ainda pode haver dor

ou vontade de mijar

a morte já é depois

já não haverá ninguém

como eu aqui agora

pensando sobre o além

já não haverá o além

o além já será então

não terei pé nem cabeça

nem figado, nem pulmão

como poderei ter medo

se não terei coração?

não tenho medo da morte

mas medo de morrer, sim

a morte e depois de mim

mas quem vai morrer sou eu

o derradeiro ato meu

e eu terei de estar presente

assim como um presidente

dando posse ao sucessor

terei que morrer vivendo

sabendo que já me vou

então nesse instante sim

sofrerei quem sabe um choque

um piripaque, ou um baque

um calafrio ou um toque

coisas naturais da vida

como comer, caminhar

morrer de morte matada

morrer de morte morrida

quem sabe eu sinta saudade

como em qualquer despedida.

domingo, 16 de outubro de 2011

A ausência e o medo do fim no filme Melancolia (Sarah de Sousa)



Melancholia é o novo filme do diretor Lars von Trier. Ele conta a história dos últimos dias antes de um Planeta chamado Melacolia colidir com a Terra.
Nesse tempo Justine (Kirsten Dunst), que celebra seu casamento com Michael (Alexander Skarsgård), vai ao longo da trama demostrando sua angústia de viver permeada por cenas de uma tristeza vaga que aos poucos a domina e a faz questionar a natureza da humanidade. Sua irmã Claire (Charlotte Gainsbourg) gosta de ter os fatos sobre seu controle, ao contrário de Justine que parece conformada, desenvolve um pavor do fim, a iminência da perda a faz entrar em fuga dos acontecimentos. Vários questionamentos vão surgindo na mente dos que assistem a película: como lidar como o medo da morte diante de uma ameaça eminente? É possível deixar, como Justine, que o sentimento de conservação nos abandone? A relação entre dois personagens com perspectivas diferentes trás um conflito chave: como se portar diante do fim?


Seria o medo que Claire possui o resultado de uma vida ‘’não vivida’’? Existirá algum ser humano que considere sua vida em plenitude ao ponto de esquecer tal temor?


O enredo se desenvolve com a visão da inevitabilidade e uma espécie de ‘’eu sabia’’ em Justine, toda sua melancolia é transformada em um sentimento de profecia quando o planeta parece cada vez mais próximo da Terra.


Claire vê tudo como o fim do  que conhece e pode controlar: seu filho, seu marido, sua irmã depressiva que necessita de seus cuidados. Compreender o que parecia inevitável estava além daquilo que permite para si.



O filme é provocante e termina com a certeza de não há escapatória, o mundo acabará e a humanidade terá seu final dramático.



Veja aqui o trailer de "Melancolia":













quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Meu Mundo É Hoje (Wilson Batista)





Em algumas oportunidades estaremos deixando aqui músicas que nos façam refletir sobre a vida e a morte. Vamos começar então com essa pérola de Wilson Batista na interpretação de Paulino da Viola.



Meu Mundo É Hoje





Eu sou assim

Quem quiser gostar de mim eu sou assim

Eu sou assim

Quem quiser gostar de mim eu sou assim



Meu mundo é hoje

Não existe amanhã pra mim

E sou assim

Assim morrerei um dia

Não levarei arrependimentos

Nem o peso da hipocrisia



Eu sou assim...



Meu mundo é hoje...



Tenho pena daqueles

Que se agacham até o chão

Enganando a si mesmos

Com dinheiro, posição

Nunca tomei parte

Desse enorme batalhão

Pois sei que além de flores

Nada mais vai no caixão



(Wilson Batista)

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Comentários sobre o Filme "Zorba: O Grego": Um Hino a Existência! (Erasmo Ruiz)



Fui provocado por um email mandado por Paulo Eliézer, estudante de medicina da UECE que tenho o prazer de ter como aluno. Comentava a respeito de dois links do youtube mostrando o imortal Anthony Quinn dançando na famosa cena de "Zorba o Grego" aos 49 anos e, depois, num show, que reproduzia a cena aos 84 anos. Imediatamente me veio a idéia de comentar a respeito do filme e do vídeo em que o velho ator voltava a dançar.



Zorba é um filme feito em 1964 que tem seu roteiro inspirado a partir do livro de mesmo nome do escritor grego Nikos Kazantzakis. Um escritor chamado Basil, de origem grega e britânica, volta a terra natal  de seu pai, a ilha de Creta, esperando com esse retorno superar uma crise de criatividade. Enquanto aguarda o embarque no navio que o levará a Creta, conhece Zorba, um grego de origem camponesa de modos simples, rústicos, uma pessoa intensa e ativa. Um de seus apelidos é "Epidemia" pois por onde chega ele espalha o caos.





Imediatamente surge uma relação de simpatia entre os dois. Zorba pede a ele para seguir junto na viagem. Assim, poderia ser interprete e cozinheiro. Basil compartilha seus planos de reativar uma antiga mina. Quando descobre que Zorba tem experiência em mineração, resolve contratá-lo imediatamente.





Com o passar do tempo, a relação de trabalho entre os dois acaba sendo suplantada pela relação de amizade. Zorba é a antítese de seu chefe. Enquanto ele é cheio de vida, Basil é recatado é tímido. Enquanto Zorba não mede esforços para buscar tudo o que a vida pode oferecer de belo e prazeroso, incluso o amor carnal, Basil acha que os prazeres da vida poderão distraí-lo de seus obejtivos.





No encontro desses dois personagens, um hino à intensidade da vida e uma crítica a mortificação da existência produzida pelos valores de base cristã vão sendo tecidos. Ao assisitir o filme não há como não deixar de questionar os rumos que estamos dando à nossa existência. No final das contas ,talvez Pablo Picasso estivesse certo quando nos alertava que o problema principal da vida não é a morte mas sim morrermos enquanto vivemos, ao postergar a existência e a intensidade da vida, dexiando-as num segundo plano frente a valores e objetivos que nos são impostos.





O filme é puro cinema como arte. Envelheceu nesses quase 50 anos de forma digma, aliás, como envelheceu Anthony Quinn que, a julgar pela sua biografia, teve muito de Zorba em sua vida. Abaixo a cena do filme e, trinta e cinco anos depois, Quinn-Zorba ainda cheio de vida nos alertando que a existência é uma dádiva e a mortificação da vida, um pecado mortal contra o existir!









O FILME













O SHOW

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O FILME "SUBSTITUTOS" E A RELAÇÃO DA HUMANIDADE COM O MORRER: COMO SALVAR A HUMANIDADE DA MORTE? (Renata Façanha*)





De acordo com a psicanálise, inexiste no inconsciente humano qualquer representação simbólica da morte. A morte permeia o inominável, o obscuro. A morte é o real nome da total impotência humana diante da grandeza do universo. No entanto, se, por um lado, a morte é irrepresentável, inaceitável ao homem em seu complexo de super-herói, por outro, caminhamos, mesmo quando ainda nem sabemos, em direção a ela – alguns a passos mais lentos, outros, em uma corrida desenfreada –.
Os psicanalistas também dizem que todas as criações humanas advêm de vazio fundante do ser humano que somos, como uma eterna busca para recuperar algo que nem sabemos o que é, mas queremos, uma espécie de nostalgia do objeto perdido. Assim, criamos porque algo nos falta, mas aquilo que criamos nunca é aquilo que nos falta realmente: é sempre e sempre outra coisa qualquer. Freudianos a parte, criamos, estudamos, trabalhamos também porque simplesmente nós desejamos atingir, ilusoriamente, a imortalidade – simbolicamente a princípio, mas, literalmente se não for pedir demais – .
O recente boom dos centros de estética e beleza mostra nossa necessidade de disfarçar nossa condição falha, imperfeita e suscetível à morte. Aliás, em uma rápida pesquisa no novo fenômeno de marketing, os sites de compras coletivas, percebemos que ofertas de peelings, massagens redutoras de gorduras e cabelereiros ocupam o ranking de ofertas. Isso porque precisamos que nosso corpo exale vitalidade, desejamos ficar mais jovens, retardar a marcha do tempo que impreterivelmente p a s s a á revelia de nosso desejo. Precisamos ser saudáveis. A vida com adoçante e sem sal é muito mais segura, ainda que sem graça, gosto ou gordura trans...
Também tememos sair de casa, compramos pela internet, não falamos com estranhos, temos medo de batida de carro e assalto a mão armada. Relacionar-se através da segurança virtual é muito mais interessante que tomar uma cerveja com amigos em qualquer mesa de bar. Escondemo-nos uns dos outros. Contato físico? Só do médico.  
E se pudéssemos viver, trabalhar, andar pelas ruas, transar, através de máquinas enquanto protegemos deixamos nosso corpo enclausurado em quartos? O filme Surgates retrata na ficção esta hipótese de forma tão trágica que beira a comicidade: em 2054 uma empresa – VSI – cria uma máquina capaz de substituir o corpo humano em suas atividades diárias: o seu operador pode fazer todas as atividades do conforto de seu quarto e o melhor, a máquina, ou substituto, ocupa a forma de um ser humano esteticamente tão idealizado quanto o seu operador queira. Logo, todas as pessoas ficam se trancafiam para encarar o mundo vivem através de seu substituto. Agora a humanidade está em segurança de si mesmo: é o substituto quem se destrói em casos de violência. É o substituto quem trabalha, estuda, sai de casa. O sexo nunca ficou tão seguro depois deles.
Em meio a essa sociedade asséptica, grupos de dissidentes vivem em reservas – é preciso preservar o que está em extinção – sem qualquer aparato tecnológico. As pessoas que resolvem viver fora da reserva sem um substituto são chamadas pejorativamente de “saco de carne”. Assim, um ser humano sem o seu substituto é sumariamente desprezado, negado, isolado, repudiado porque se transfigura na própria imagem da morte. Um homem sem o seu substituto lembra aos demais a fragilidade da vida, o irremediável da morte e da imperfeição da existência humana.
A trama se desenrola a partir da criação de uma arma letal em poder de uns dos ex-sócios da VSI, a arma, quando disparada contra um substituto, tem o poder de liquidá-lo, mas também danifica seu chip de segurança, dispositivo criado assegurar que o operador fique incólume diante de possíveis agressões físicas ao seu substituto. Assim, não apenas o substituto morre, mas o seu operador é eliminado mesmo a quilômetros de distância de sua máquina. O clímax do filme aloca novamente o homem em sua posição primordial de fragilidade em relação à morte, à falta de controle as intempéries da rotina: ainda não é dessa vez que o ser humano encontra a fórmula da vida eterna.
No final, o próprio paradoxo da existência humana: avatares com suas cores vivas, suas belezas atemporais perfeitas, caídos no chão como corpos mortos inertes representando a morte da juventude e da perfeição estética enquanto, ainda tímidos, pessoas com suas cores mórbidas, gordas, caquéticas e malcuidadas saem às ruas. A vida fragilidade humana contrastando com a perfeição morta parece mostrar a humanidade em processo de aceitação da falibilidade do conhecimento humano para lidar com a morte, como uma metáfora de toda a tecnologia e conhecimento humano aos pés da invencível fugacidade da vida.       
*Renata Façannha é acadêmica de Psicologia da Universidade Estadual do Ceará

terça-feira, 10 de maio de 2011

Morte e Pintura: Alguns Quadros de Edvard Munch (Erasmo Ruiz)



Edvard Munch (Auto Retrato Com Cigarrilha)



Todo um imenso volume de história da arte poderia ser composto a partir da temática da morte. Episódica em alguns, a morte pode  ser o grande tema nas mãos de outros. Este é o caso de Edvard Munch (1863-1944), pintor norueguês.



Notabilizado pelo quadro "O Grito", o pintor tem uma obra extensa e muito dela retrata seus dramas internos.  Munch foi assolado pela morte desde a mais tenra infância. Primeiro, a morte da mãe quando tinha 5 anos e, depois, a mnorte da irmã querida por tuberculose quando ela tinha 15 anos de idade. Como o próprio Munch disse certa feita ao definir sua obra "a doença, a loucura e a morte foram os anjos negros que velavam meu berço e que me acompanharam por toda a vida".





Nesta pintura (mãe morta e criança)  temos o corpo da mulher morta na cama praticamente transparente sinalizando com clareza que não possui mais vida. O tom esverdeado da parede "abraça" os personagens presentes na pintura como que expressando a doença mortal que agora faz parte também de todos. A garotinha expressa seu espanto e medo diante da morte. Tapa os ouvidos numa atitude negadora e ao mesmo tempo parece clamar por uma ajuda que não vem dos adultos. Ela está inapelavelmente sozinha diante da morte da mãe pois os adultos apressados se ocupam das intercorrências mais práticas e imediatas da morte. Munch parece nos cobrar aquilo que as pessoas não estão fazendo na pintura. Quase que somos forçados a entrar no quadro e abraçar a menina!







Em "A Criança Doente" estamos agora diante da garotinha anterior só que com 15 anos. Ela jaz vulnerável sofrendo de tuberculose aos 15 anos. Aqui Munch parece nos levar à pessoa que  ajoelhada ao lado da menina sofre intensamente a expectativa de que a qualquer momento a morte chegará definitivamente.\A menina tem o olhar distante, parece já entregue e indiferente ao sofrimento de quem vai ao seu lado.O olhar perdido anseia a paz que só se encontra no fim de um horizonte agora alcançável. Quando olho essa pintura imagino o sofrimento de tantas pessoas que estão agora vivenciando as suas perdas e do quanto muitas vezes somos impotentes e trazer algum conforto nesse momento crucial. Novamente, o teor da solidão diante do sofrimento é realçado





Já em "Ao leito de Morte" nos deparamos com os comportamentos dos enlutados. O morto nos é mostrado deitado sem feições, propositadamente colocado de costas. O quarto tem uma iluminação precária por velas que estão dispostas fora da nossa visão pois só vemos as sombras projetadas nas paredes. Somos forçados a olhar os semblantes pouco definidos das pessoas mas que nos mostram suas emoções básicas que parecem oscilar da resignação passando por profunda tristeza e indo até a súplica pelo impossível, aquele desejo mágico e infantil de que o morto retorne a vida. Mais no canto direito do quadro existe apenas uma pessoa que nos fita diretamente. Ela nos diz com todas as letras: A Morte virá para todos, inclusive para você que nos vê em tanto sofrimento. A opacidade maior do rosto que contorna olhos mais humanos dá um ar fantasmagórico a figura como se ela mesma fosse a morte a nos confrontar.





Aqui temos "Morte no Ambulatório". .A pessoa desenganada  e às portas da morte está sentada de costas na pintura. Temos as pessoas que expressam dor e sofrimento dotadas de uma palidez esverdeada que parece identificar a todos com a doença que está matando o ente amado, afinal, todos morremos um pouco quando perdemos alguém querido.  A attiude contemplativa do médico ao cruzar os braços para trás mostra que ele perdeu as esperanças, apenas observa. Munch é aquele personagem mais isolado no canto esquerdo. Não encontra consolo algum nas redes de solidariedade da família pois parece ter  a sensação de que nada poderá servir de lenitivo diante de dor tão extrema.



Assim, Munch nos deixa o legado de sua experiência com a morte. No fim as contas, os indivíduos não são ilhotas isoladas pois grande parte do que vivemos também é do mundo e da humanidade. Numa análise histórica mais "seca" poderíamos afirmar que a dor de Munch é a dor típica da família burguesa da Europa  Ocidental do fim do século XIX, sem a referência das redes sociais  extensas e comunitárias.



A dor que se sentia e público agora só pode ser vivida no universo do espaço doméstico. As dores e os ritos tornaram-se  expressões mais privadas e por isso mais solitárias. No entanto, se na época de Munch essa expressão tinha a marca do novo, hoje parece ser a regra de uma sociedade cada vez mais individualizada pelas marcas da mercantilização, da exaltação do cidadão consumidor, do indivíduo cada vez mais restrito a si mesmo.



 "O Grito" de Munch pode ser então o recado estrondoso de que, seja na vida, seja na morte, seja na vivência de nossas perdas, precisamos com urgência sair das amarras da solidão!



 

sábado, 16 de abril de 2011

Vida e Morte em "Blade Runner": Quem São os Replicantes? (Erasmo Ruiz)





Muito já  foi escrito sobre Blade Runner e este texto comete o atrevimento de ser apenas mais um que pode ou não ter algo a mais para oferecer. Mas para ser sincero, não estou preocupado necessariamente em ser original, apenas em escrever alguma coisa que ache importante sobre este filme para refletirmos sobre a questão da morte e do morrer.
            
             
Antes, principalmente para aqueles que não viram o filme, vamos a um breve resumo. Por volta de 2020 as viagens espaciais e a engenharia genética fazem parte do cotidiano, estão banalizados. O filme passa-se numa Los Angeles onde quem governa a sociedade são as grandes corporações empresariais. A cidade mostra-se paradoxal. Por um lado fica evidente os avanços tecnológicos e suas conseqüências positivas, de outro, nos deparamos com os pesadelos gerados por ela: poluição ambiental – o filme faz o prodígio técnico de reproduzir uma fotografia “noir” em cores – com muita chuva ácida e sol quase que escondido o tempo todo pela fuligem e núvens - e uma superpopulação metaforizada em cenas de multidões se acotovelando em meio a vendedores ambulantes que expressam um multiculturalismo a partir da babel de línguas e produtos de todas as partes do mundo.  






Mas existem outras divisões neste mundo. A população é formada por homens e pelos replicantes, cópias geneticamente potencializadas dos seres humanos, produzidos pela Tyrel Corporation para trabalharem como escravos nas colônias fora do planeta. Embora em tudo sejam superiores aos humanos, os replicantes tem um problema básico. São programados para durarem no máximo 4 anos. Essa medida expressa-se como forma de controle caso os replicantes questionem sua identidade de escravos e resolvam agir por conta própria. Quando isso acontece, um grupo de policiais é utilizado para exterminá-los, são os “Blade Runners”. Aqui se centra a ação do filme. Um Blade Runner interpretado por Harrison Ford sai a caça de um grupo de replicantes em fuga. Mas esta caçada não será como as outras.






Um dos grandes problemas dos filmes de ficção científica é o envelhecimento precoce. Alguns inclusive já nascem com sua estética futurista completamente comprometida com o presente onde o filme é feito. Essa é uma das coisas que surpreende em “Blade Runner”. Apesar de ter sido filmado em 1982, o filme continua surpreendentemente novo em sua estética e figurinos e, dessa forma, nos ilude com sua proposta de se passar no futuro. Mas sob outro ponto de vista, o filme é tão velho quando os artefatos de pedra deixados pelo homens pré-históricos.


A narrativa, como um bom filme de estilo policial, nos prende num primeiro momento pela ações de perseguição ao velho estilo maniqueista do “bem” contra o “mal”. Mas já na primeira terça parte do filme fica evidente que não podemos mais estar presos a estas fáceis dicotomias até porque o problema central trazido pelos replicantes em fuga é a questão existencial não só de todos os personagens do filme mas também da platéia que o assiste. Na verdade, o filme projeta num futuro distante problemas humanos vivenciados por todos aqui e agora. Além de nos reponsabilizar pelo mundo poluído e insolvente, nos coloca o problema da inevitabilidade da morte e o que podemos fazer diante disso. Como nos sentimos diante de uma vida que pode se extinguir a qualquer momento? E não estamos falando apenas da vida do outro, mas principalmente da nossa vida!




Este é o conflito existencial dos replicantes. Querem saber de sua origem, querem entender como foram feitos, querem buscar mais tempo de vida, querem interromper o processo de programação genética que os leva a passos rápidos à morte. Para tal objetivo não medem esforços. Num misto de curiosidade e raiva tipicamente infantil, são curiosos, criativos e extremamente violentos. Um dos pontos altos do filme é quando o líder dos replicantes, interpretado por Rutger Hauer, se encontra com seu criador e lhe propõe as tais questões fundamentais. Qualquer coincidência com uma platéia em busca do “religare” não será uma coincidência!


A cena final, quando o policial e o replicante lutam sua batalha pessoal e coletiva onde vida e morte se defrontam, é o momento mais belo do filme. O homem e o super-homem estão finalmente um diante do outro para descobrirem que na verdade a única coisa que os difere é tão somente a força física. Depois de subjugar o policial, o replicante parece olhá-lo num misto de curiosidade e comiseração. Parece estar diante do espelho. Por estar morrendo, é tomado então por um olhar quase que em êxtase diante da vida que finda e, assim, poupa o policial. As últimas falas do replicante são um resumo de sua vida, uma especulação sobre o sentido disso tudo, uma exaltação a própria existência individual em busca de memória. Como um pensador de Rodin...reflete...enquanto morre sob a fraca opacidade de uma luz constante em meio a chuva interminável.




Assim, saímos do cinema muito entretidos...ficam no entanto algumas perguntinhas que “saíram” da tela e nos acompanham pelo resto da vida. Por que temos de morrer? Existe algum sentido nisso tudo? Como fazer para conseguir mais tempo? O que será de minhas memórias quando me for desse mundo? Todos nós somos “replicantes”!!!??

quarta-feira, 9 de março de 2011

Nas Fronteiras da Arte e do Bizarro: A Fotografia de Joel-Peter Witkin (Erasmo Ruiz)



A depender de gostos estéticos e do espírito do momento histórico, arte e o que seria chamado de "bizarro" podem se fundir de tal maneira que não chegamos a determinar com clareza os limites práticos de cada conceito.





Que o digam os artistas considerados de vanguarda num momento e, depois (in)voluntários ditadores de normas e regras estéticas. Por exemplo, Monet foi execrado pela crítica embasada por valores classicistas quando expôs seus quadros pela primeira vez. Depois, quem não rezasse a cartilha do impressionismo teve que enfrentar sua dose de preconceito.



Quando pensamos nas infinitas possibilidades que a fotografia nos apresenta, em particular após o uso radical dos programas de computador e a popularização definitiva da fotografia digital, parece novamente ficar difícil divisar limites.



Pela nossa ótica, esse é o caso de Joel-Peter Witikin. Esse fotógrafo norteamericano, nascido em 1939, foi fortemente influenciado por sua formação religiosa mesclada pelo interesse estético em corpos e comportamentos considerados "anômalos". Juntou-se a isso a experiência durante a guerra do Vietnã onde, enquanto fotógrafo militar, registrava fotografias técnicas para a perícia de mortes acidentais durante treinamentos militares.







Não mostraremos aqui as fotos mais chocantes de Joel-Peter. Para quem quiser exercer a virtude (ou defeito, quem sabe?) da curiosidade, no final do post disponibilizamos um link para o google imagens.No entanto, gostaríamos de destacar o que vemos de interessante em Joel-Peter: a sua ousadia em meio ao tabu da morte, de lidar com ela artisticamente de uma forma muito propositiva.





Em muitas de sua fotografias o cadáver, ou partes de corpos, se transforma em objeto a ser fotografado a partir de composições artesanais feitas pelo próprio fotógrafo. Alguns poderão imediatamente identificar em Joel-Peter uma problemática para estudiosos de psicopatologia. Seria então alguém a materialziar suas mais terríveis alucinações com relação a corpos deformados e pedaços de cadáveres? Ou um artista radical e genial tensionando praticamente no limite o sentido de liberdade anarquista que pode ser exercido pela arte?







O interessante talvez seja nos libertarmos de tal dicotomia, afinal, Schumann, Van Gogh e muitos outros já nos mostraram que as duas coisas podem andar juntas. Ah, e se o artista  vive da sua arte é sinal então de que em sendo ela a materialização do seu delírio, sua arte tem servido bem à economia psíquica de muitos que são considerados "normais". Assim, a morbidade meio psicótica  apontada no autor também seria do mundo que consome e admira suas composições.



Enfim, fica assim registrada essa provocação em nosso blog. Estamos aqui para falar das mais amplas possibildiades de se pensar e olhar a morte. E  Joel-Peter nos apresenta uma delas e, com certeza, gostemos ou não, é um olhar muito original!



Link para o Google Imagens

domingo, 6 de março de 2011

A Morte do Sr Lazarescu (Erasmo Ruiz)



Eu adoro o carnaval...pelos dias de folga que a festa permite. Momento de colocar a vida em ordem, um pouco de trabalho chato da rotina de professor e, ao mesmo tempo, permite que a gente coloque em dia a lista interminável de filmes ainda não vistos.









Neste carnaval tive a alegria e a tensão de assistir "A Morte do Sr Lazarescu", uma produção romena de 2006 do Diretor Cristi Puiu,   muito elogiada na época de seu lançamento embora os elogios não fossem unânimes. Particularmente, gostei do filme. Mas vamos a um breve resumo do seu enredo.



O Sr Lazarescu é um home de mais de 60 anos que repentinamente começa a sentir dores abdominais e desconforto físico generalizado. A sua primeira dificuldade é sensibliizar alguém para o seu problema. Decide chamar uma ambulância mas isso é um luxo diante da precariedade do serviço de saúde que desloca suas ambulâncias para casos considerados mais graves. O fato de ser alcoolista também não sensibiliza os vizinhos que "diagnosticam" seus sintomas como reflexos de mais uma bebedeira. Começa então sua saga por inúmeros serviços de saúde onde ele é empurrado de um lado para o outro como um objeto inútil sem qualquer esclarecimento sobre o que estaria acontecendo com ele.



Embora o filme se anuncie como uma comédia, não esperem por humor fácil nesse filme. Se você for trabalhador de saúde e se pegar rindo entre uma cena e outra, há alguma coisa errada e com certeza não será com o filme. O diretor é extremamente objetivo em mostrar um drama peculiar aos pobres e miseráveis mas que pode não parecer ter muito sentido se você usufrui de algumas das benécias da classe média. Fala de solidão e abandono, aquela solidão terrível sentida pelos velhos em meio a pessoas que mal lhes dirigem a palavra, aquela solidão que faz o indivíduo se olhar no espelho e ansioso perceber que está sozinho diante da própria morte mesmo que o mundo esteja do seu lado.



O realismo do filme pode ser extremamente desagradável, principalmente quando fica claramente exposto que todos os profissionais que manuseiam o corpo do Sr Lazarescu não se importam com seu destino enquanto ser hmano já que ele é esquadrinhado como uma coisa, uma máquina velha com problemas em algumas peças. E todas essas pessoas tem que manejar a própria vida e, de certa forma, estão também solitárias numa sociedade que cada vez mais exalta o individualismo.





Preso entre um humor mórbido e a tragédia, o personagem do filme e seus cenários constroem um mundo em desencanto, pincelam aquilo que parece existir de pior na contemporaneidade resumida na figura fria e cínica dos médicos e de quase todas as enfermeiras. O alento vem de uma das enfermeiras que insiste em estar ao lado de Lazarescu por toda sua jornada.



Mas o que me deixou mais triste foi perceber que muito do filme já encontrei pela minha vida pessoal. Antes a arte de "A Morte do Sr Lazarescu" fosse algum exagero surreal ou uma metáfora da Romenia pós socialismo. Não,  o filme não tem nenhuma pretensão metafórica. É apenas uma denúncia do que acontece na vida de milhares de pessoas anônimas nos corredores de hospitais sem resolutividade. Esses rostos anônimos com biografias anônimas para aqueles que os atendem, caminham em busca desesperada de salvação mas esbarram nos muros da burocracia das instituições com o fel do tempero da indiferença e do individualismo.



O filme se passa em Bucareste na Romênia mas está acontecendo agora mesmo em qualquer cidade brasileira!

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Transformando Mortos em Quadros (Erasmo Ruiz)





Na história da arte sempre notaremos a morte como tema, afinal, se o tema da arte é a vida, e como é um dos atributos dos seres vivos morrerem, é natural que a morte seja recorrentemente um objeto da arte. 







Mas a criatividade as vezes tem o dom de nos surpreender. Como já mostramos outro dia, podemos transformar nossos mortos em jóias. Mas as cinzas de uma cremação podem ter outras utilidades.













É o que nos alerta o site Loved Ones Art que nos propõe a seguinte questão: depois de cremarmos um ente querido, o que fazemos das cinzas? Parte desse dilema pode estar resolvido pelos últimos desejos do morto. Alguns podem querer que suas cinzas sejam jogadas no mar, outros no belo jardim de casa ou então alguém pode pedir para ser guardado para sempre ao lado de sua querida coleção de livros constrangendo pessoas desacostumadas a lidarem com a morte a verem todos os dias aquele memento mori em meio a enciclopédias e livros de arte.





Mas a maioria de nós não tem como tema a discussão do que deve ser feito do seu futuro cadáver. Um dia talvez sejamos candidatos a sermos cremados. Hoje, em muitos países, a cremação é incentivada basicamente pelas pressões da especulação imobiliária (os cemitérios ocupam muito espaço) e, de outro lado, pelas nossas dificuldades em ter que assumir a responsabilidade de cuidar de túmulos (que coisa mórbida pensaria muita gente).













Assim, uma das alternativas é transformar as cinzas em pigmentos de tinta que comporão um quadro que pode, a partir de seu tema, ser uma espécie de homenagem a reverenciar a memória do morto ou, quem sabe, a idealização que os vivos possuem dele. Mas o importante aqui é preservar memória de alguma forma.





O artista chama-se Michael Butler. Para produzir seus quadros pede uma fotografia que seja de alguma forma uma referência afetiva para o cliente. A partir da foto, Michael faz uma composição de estilo impressionista que, de nosso ponto de vista, denota o efetivo talento do artista. Os quadros mostrados até agora neste texto são dele e foram feitos utilizando cinzas humanas a partir de cremações.









                                            Michael Butler





Caso o leitor esteja interessado em usufruir dos serviços do artista, todas as informações podem ser obtidas no site, tudo de uma maneira muito discreta, do jeito americano de ser. 





Caso desejasse ter minha memória perpetuada dessa maneira, passar à eternidade como um quadro a mostrar o intenso movimento da vida urbana seria mais adequado ao meu jeito de ser. Neste sentido, na perspectiva do impressionismo post mortem, estou mais próximo de Pissarro do que de Monet.









                                                                  Boulevard Montmartre (Camile Pissarro) 

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Transformando Mortos em Jóias (Erasmo Ruiz)



Alguns devem se lembrar da célebre frase romântica: "Meu amor, para mim você é uma jóia". Bem, agora a tecnologia possibilita que essa frase possa ser...digamos...um tanto literal. O site lifegem promete que poderá transformar sua amada ou seu amado em um diamante. Claro, ele ou ela terá que estar morto antes.





Os valores podem variar de 2 a 25 mil dólares, apenas para o diamante gerado a apartir das cinzas do falecido(a). Mas este preço poderá subir caso o cliente opte por colocar a pedra em algum outro adereço que poderá ser um anel, um colar, um broche, enfim, as possibildiades são muitas.



A possibilidade de tramnsformar restos humanos em objetos de arte e decoração sempre estive presente no transcorrer da História. .Caveiras já foram usadas como taças, ossos humanos serviram para colares ou mesmo esculturas. O que a tecnologia faz é expandir essas possibilidades. Muitos dirão que ter um diamante feito a partir das cinzas da mulher amada nas abotoaduras pode parecer um tanto mórbido. Eu iria além. Digo apenas que faz parte das muitas estratégias que se pode adotar para manter a integridade da memória daqueles que partem antes de nós.



Parece fazer parte da condição humana o agir para negarr a morte. Mesmo que de um ponto de vista mais materialista, que afirma claramente a  impossibilidade de uma pós vida para a consciência do morto, ainda assim, se a morte é um problema para os vivos, temos a necessidade de afirmar um certo sentido de permanência.



Como os diamantes são eternos, podemos assim "eternizar" nossos objetos de afeto, tornando-os "imortais" para transcenderem nossas próprias vidas. Duvida?  Então dê uma passadinha no lifegem

sábado, 6 de novembro de 2010

Morte e Imortalidade Na MItologia Grega: Tântalo (José Jackson Coelho Sampaio)



Pelas milhares de estórias entrecruzadas da Mitologia Grega, deduz-se o tríptico das grandes reivindicações humanas: o domínio do conhecimento, a auto-suficiência sexual e a imortalidade. 




Os deuses nos tiram a capacidade de produzir conhecimento e transformá-lo em incremento das condições de vida, mas Prometeu nos ampara com  o domínio do fogo, a idade do bronze, a ciência e a tecnologia. Como castigo pelo domínio do fogo, os deuses nos tiram a auto-suficiência sexual primitiva, macho e fêmea nos separando e criando a confusão dos desejos nunca simétricos, biunívocos, mas Dafne e Cloé, dois adolescentes da ilha de Lesbos, inventam o amor humano, restituindo-nos à indivisibilidade, por meio do amor, então de partes separadas, tornamo-nos um. Mas, em torno da imortalidade, os castigos são inúmeros e violentos, exponencialmente crescentes, em troca das mínimas e provisórias vitórias.
            Assim também temos a estória de Tântalo, um humano filho de Zeus com a ninfa Plouto, esposo de Hipodâmia, pai de Pélops, Níobe, Atreu e Tiestes, também de Crisipo, com outra ninfa, filho querido, porém bastardo diante dos olhos e das vinganças de Hipodâmia. Rei da Lídia, ele foi cumulado pelo pai divino com todas as possibilidades da prosperidade. Considerado o mais rico de todos os humanos, ele foi admitido nos banquetes e conselhos dos deuses. Porém sua lealdade estava com os seres humanos e mentia, trapaceava, roubava para favorecê-los. Na saída dos banquetes, Tântalo sempre furtava néctar e ambrosia do Olimpo para dar aos humanos, a fim de que se tornassem imortais.
            Os deuses sabiam, mas nada podiam fazer. Afinal, ele era filho de Zeus. O Grande Olímpico percebia, mas espreitava, aguardava pretextos, sabia do desequilibrado orgulho humano e esperava. Tântalo haveria de construir a própria armadilha, os deuses nada perderiam por esperar. Então Tântalo decidiu emular a Lídia com o Olimpo e convidou os deuses para um banquete em seu palácio.
            O que mais Tântalo desejava testar nos deuses era a onisciência, a capacidade de tudo saber e prever. Resolveu mandar ferver em caldeirão o próprio filho, o primogênito Pélops, e ofereceu-o, em tempero de louro, orégano e alecrim, como o prato principal do banquete. A descuidada Deméter, preocupada com outros assuntos, ainda mordeu-lhe um ombro, mas Zeus percebeu a tempo: fez Pélops retornar à vida, deu-lhe um novo ombro, uma prótese de marfim, decretou a imediata morte de Tântalo e seu envio a Hades. Mais ainda, prescreveu-lhe o castigo da eterna sede, da eterna fome e da eterna insegurança. Colocou-o numa área encantada, sobre a qual, toda vez que ele forcejasse os limites, o monte Sípilo ameaçasse desabar e, sob a sombra deste monte, destinou fontes de água e uvas: as águas abundantes imediatamente secavam quando delas Tântalo aproximava a sua boca sedenta; as uvas abundantes imediatamente desapareciam no ar quando delas Tântalo aproximava a sua boca faminta. Carência, sede e fome, onde havia antes o dom da prosperidade e onde jorram os frutos da abundância, eis o castigo terrível.


Continua em próxima postagem


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Aprendendo a Morrer Com Mário Quintana (Erasmo Ruiz)





Continuo a insistir: a poesia é um dos poucos redutos onde podemos aprender um pouco da arte de morrer. Não isso que vemos na TV, as mortes cenográficas, dolorosas, dramáticas. Nem a morte que vemos nos hospitais, os abandonos nos quartos, o lidar com o corpo vivo porém morto à vida num leito de UTI.



Falo de preparação, não como uma espera ansiosa mas que tematiza o morrer como algo que expressa também o meu viver para que ele seja mais intenso, porque sabemos agora focar o existente como seu real valor de singularidade e beleza. E quem nos ajuda a (re)encontrar esse valor é a percepção de que a morte faz parte do viver.



Hoje falaremos de Mario Quintana. Para mim este poeta gaucho tem a virtude de tornar pesada uma pena e leve um cofre de banco. Mostra sutilezas e complexidades ocultas naquilo que vemos todos os dias e que aprendemos a não "ver" mais. Mario Quintal extrai ouro daquilo que nos acostumamos a chamar de banalidade..



Quintana falou muito sobre a morte, fez inclusive piada dela ao nos lembra que “A morte é a libertação total: a morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos”. Então, não temos mais que nos preocupar com o fato dos lençóis ficarem sujos com a terra do nosso calçado, aliás, talvez a morte seja isso mesmo, a ausência total das preocupações e, por isso, exercício pleno de uma liberdade que não se exercita..



Quintana pode ser um ótimo companheiro de jornada se quisermos discutir a morte. Recomendo essa discussão a todos e, particularmente, aos trabalhadores de saúde já que eles, muito provavelmente, cuidarão do nosso morrer. A questão é: como estão cuidando hoje em dia? Minha resposta é afirmar que o cuidar não pode estar reduzido a mera monitoração de sinais clínicos, de um corpo reduzido a suas funções biológicas. As pessoas a beira da morte perdem a singularidade, se transformam em massas biológicas a beira da dissolução. Nós somos muito mais do que isso!



O morrer grita pelo exercício de outras necessidades: expressa os quereres especialmente reservados para o fim da vida, pela simples razão qie são percebidas como sinais da despedida do mundo e de tudo que amamos. Assim, quando formos falar de morte nos hospitais, por que não pensarmos em Mario Quintana? Vejam por exemplo este soneto:



Minha Morte Nasceu...

Mário Quintana para Moysés Vellinho



Minha Morte nasceu quando eu nasci

Despertou, balbuciou, cresceu comigo

E dançamos de roda ao luar amigo

Na pequenina rua em que vivi



Já não tem aquele jeito antigo

De rir que, ai de mim, também perdi

Mas inda agora a estou sentindo aqui

grave e boa a escutar o que lhe digo



Tu que és minha doce prometida

Nem sei quando serão nossas bodas

Se hoje mesmo...ou no fim de longa vida



E as horas lá se vão loucas ou tristes

Mas é tão bom em meio as horas todas

Pensar em ti, saber que tu existes



(Fonte: QUINTANA, Mário Poesia Completa. Rio de Janeiro:Nova Aguilar; 2005)





Quanta leveza para um tema costumeiramente denso e amedrontador...a morte como um ente que nos acompanha desde o nascimento....como uma namorada de infância com quem um dia, cedo ou tarde, nos casaremos. Já utilizei este poema para estimular trabalhadores de saúde em rodas para tematizarem as suas experiências pessoais com a morte, suas primeiras lembranças. O resultado foi muito bom. As pessoas trouxeram recordações, expressaram lutos mal elaborados, produziram ligações com as experiências de morte vividas no cotidiano.



Como todo tabu, depois que percebemos que não haverá necessariamente punições por quebra-lo, a porta se escancara e as pessoas meio que perdem o medo, pelo menos de falar, e percebem que o medo da morte e do morrer que as deixa tão vulneráveis, na verdade é o medo de todos. Assim, nos tornamos fortes quando percebemos que o medo é algo que pertence ao mundo, elemento que tipifica a condição humana.



Mas Quintana tem mais a nos dizer:



Este quarto



Este quarto de enfermo, tão deserto

de tudo, pois nem livros eu já leio

e a própria vida eu a deixei no meio

como um romance que ficasse aberto...



Que me importa este quarto, em que desperto

como se despertasse em quarto alheio?

Eu olho é o céu! Imensamente perto,

o céu que me descansa como um seio.



Pois só o céu é que está perto, sim,

tão perto e tão amigo que parece

um grande olhar azul pousado em mim.



A morte deveria ser assim:

um céu que pouco a pouco anoitecesse

e a gente nem soubesse que era o fim..."



(Fonte: QUINTANA, Mário Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; 2005)



Aqui Mario Quintana apresenta a percepção da morte por quem está morrendo ou, pelo menos, uma idealização do que ela deveria ser. O olhar do moribundo parece expressar esperança nas promessas de um céu que significa descanso, o fim das dores e sofrimento. Compara a morte a este mesmo céu que a semelhança do dia, cede espaço para a noite inexorável, um manto que nos cobre e nos livra da ansiedade de saber que é o fim. Novamente, uma bela metáfora da morte que nos afasta das representações terríveis e dolorosas.



A partir dessa leitura as pessoas podem ser estimuladas a falar das experiências que vivem nos hospitais, no cotidiano do trabaho, podem compartilhar os sentidos que tem dado a morte, as percepções do que seriam a mortes dolorosas (física e psiquicamente) e como poderiam atuar para minimizar a dor e vulnerabilidade de pacientes e familiares.



Vamos terminando por aqui, encerrando da melhor maneira possível, claro, com Mário Quintana:



INSCRIÇÃO PARA UM PORTÃO DE CEMITÉRIO



Na mesma pedra se encontram,

Conforme o povo traduz,

Quando se nasce - uma estrela,

Quando se morre - uma cruz.

Mas quantos que aqui repousam

Hão de emendar-nos assim:

"Ponham-me a cruz no princípio...

E a luz da estrela no fim!"


domingo, 19 de setembro de 2010

Poemas Mortais à Mulher Amada: Tanatologia Poética com Baudelaire (Erasmo Ruiz)

                                 Túmulo de Baudelaire
Agora a conversa é de homem para homem. Em algum momento da vida, lá pelo final da adolescência você, apaixonado pela mulher da sua vida, simplesmente não sabia o que fazer  para resolver a questão.


Numa hora como essa recorre-se aos amigos mais experientes, ao pai ou ao irmão mais velho, livros de autoajuda são bem vindos, internet...as opções são variadas.


E as respostas também são: "declara-se a ela"; "convide-a para ir ao cinema, de preferência um filme romântico e depois diga tudo o que está sentindo"; "mande flores com um pacote de chocolates" etc. Claro, se você possui dotes poéticos acima das rimas de "amor" com "flor" pode ter sido aconselhado a fazer um poema.


Hoje em dia não passaria pela cabeça da maioria dos mortais ao tentar seduzir o amor da sua vida, falar em morte. Mas que coisa de mau gosto! Ora, amor é algo que em tese oporia-se a morte, pois fala de vida, de libido, de paixão e de intensidade.


Mas numa época onde a morte era vista com outros olhos, mais presente e visível, menos interdita. Numa época em que as explicações gerais iam perdendo espaço para outras que colocavam em dúvida as certezas de uma pós vida e da eternidade, cabia então chamar à razão  aquela pobre dama que mesmo diante dos desejos do corpo, negava seus amores ao suplicante poeta.


Assim, temos Baudelaire num gesto absolutamente sedutor...pelo menos nos idos de 1857:




Remorso póstumo


Quando fores dormir, ó bela tenebrosa,
Num negro mausoléu de mármores, e não
Tiveres por alcova e morada senão
Uma fossa profunda e uma tumba chuvosa;


Quando a pedra, oprimindo essa carne medrosa
E esses flancos sensuais de morna lassidão,
Impedir de querer e arfar teu coração
E teus pés de seguir a trilha aventurosa,


O túmulo, que tem um confidente em mim
- Porque o túmulo sempre há de entender o poeta _,
Na insônia sepulcral dessas noites sem fim,


Dir-te-á: "De que serviu, cortesã incompleta,
Não ter tido o que em vão choram os mortos sós?
_ E o verme te roerá como um remorso atroz.
(Charles Baudelaire,"Les Fleurs Du Mal", Tradução de Guilherme de Almeida)



Caro Leitor! Se sentires que sua amada seja sensível a tais argumentações, então use e abuse da genialidade de Baudelaire. Mas creio que estas aproximações poéticass sobre a morte no século XIX seriam meio que incompreendidas pela maioria das mulheres de hoje em dia.
Particularmente, acho a idéia do túmulo ser um confidente do poeta a pensar na morte em noites de insônia muito representativa dessa época em que a tuberculose graçava sem controle convidando ao lirismo das metáforas sobre o efêmero. E coittado do verme cheio de remorso devorando a intensa beleza daquelas carnes sem vida. Chego a pensar que se Bauldelaire continuasse o poema expressaria inveja do pobre verme!


Mas deixando o sarcasmo para lá. O poema é lindo! Mas essa beleza soa meio incompreensível para os dias de hoje. A maioria das pessoas sonha em seduzir com  ícones do consumo, com o espetáculo do frenesi da vida chafurdando nos significados rasteiros do oceano de mercadorias.


Interessante captar as nuances de uma epoca onde a morte junto com o mel, as flores e o arco-iris, fazia parte do construto de metáforas que na verdade eram artimanhas para a exaltação da vida!

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Na companhia da Morte com Manuel Bandeira (Erasmo Ruiz)



Imagine-se muito jovem sabendo que é portador de uma doença praticamente incurável. Qual seria sua reação? Cair em profunda depressão? Pensar seriamente no suicídio? Optar por uma vida absolutamente desregrada disfarçada no eufemismo de "intensidade"?


Para nossa sorte, diante da possibilidade de morrer muito jovem, Manuel Bandeira, acometido pela tuberculose numa época exigua em terapêuticas, produziu algumas reflexões sobre a morte. Uma delas já foi comentada nesse blog (vide post aqui). Hoje retomo Bandeira em mais três poemas. Vamos ao primeiro:


Preparação para a Morte


A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
– Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.




O poema possui uma notável beleza e profundidade. fala sobre o encantamento da vida, do que ela tem de mais arrebatadora, seu caráter aparentemente inexplicável, dai a idéa de que ela seja um milagre em todas as suas manifestações. Mas então o poeta nos apresenta a morte como algo que não é milagre. Talvez pelo fato dela ser onipresente e comum. Por que seria a morte adjetivada como "bendita"?


Para o poeta ela terminaria o milagre. Talvez devêssemos ser tomados pela angustia da iminência da morte para perceber este sentido em Bandeira. O milagre da vida pode se tornar sufocante se imerso na dor e no sofrimento. Um vellho que antevê a morte escreveria esse poema. mas dentro dele continua pulsando o jovem de "Penumotórax"




Pneumotórax


Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.

A vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Tosse, tosse, tosse.



Mandou chamar o médico:

- Diga trinta e três.

- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...

- Respire.



- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.

- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.



Do meu ponto de vista é esse Bandeira de "Pneumotórax" que estará presente até o fim de sua vida meio que fantasmático em quase todos os poemas sobre a morte. A preparação para a morte ainda muito jovem exigiu dele reflexões intensas sobre o viver e a constatação da impotência do se impedir a morte levou a construção de potência de vida.



Diante da ausência de possibilidades concretas de se intervir na tuberculose, restava pensar na morte e tocar um tango pode ser então o movimento da vida, sua intensidade, lubricidade e também tragédia. Asl etras dos tangos nos remetem invariavelente para estas três vertentes. Por consequência, é preciso viver o milagre:





Poemeto Erótico





Teu corpo claro e perfeito,

- Teu corpo de maravilha

Quero possuí-lo no leito

Estreito da redondilha...



Teu corpo é tudo o que cheira...

Rosa... flor de laranjeira...

Teu corpo branco e macio

É como um véu de noivado...



Teu corpo é pomo doirado...

Rosal queimado do estio,

Desfalecido em perfume...

Teu corpo é a brasa do lume...


Teu corpo é chama e flameja
Como à tarde os horizontes...
É puro como nas fontes
A água clara que serpeja,


Que em cantigas se derrama...
Volúpia de água e da chama...
A todo momento o vejo...
Teu corpo... a única ilha


No oceano do meu desejo...
Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa, flor de laranjeira...


Estar cheio de vida, ou, como nos mostra Bandeira em outro poema, "absorto em vida", pode nos fazer passar ao largo da morte pois a vida carece de total sentido apriori do próprio viver. O milagre da vida nos trai ao sinalizar que um dia ele termina.


Mas, ainda assim, viver significa aproveitar ou, então, se aproveitar da oportunidade miraculosa que é a vida. Afinal caro leitor, não somos milagres probabilísticos? Eu, você...todos nós somos medalhistas olímpicos de uma corrida de milhões de espermatozoides. Aproveitem o milagre enquanto ele pode ser desfrutado pois um dia a bendita morte ira por fim a ele.


Uma das melhores formas de aproiveitar o milagre da vida pode ser cultuar a maravilhosa poesia de Manuel Bandeira!