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quarta-feira, 6 de abril de 2011

Cibele Dorsa: Quando o Suicídio é uma Mercadoria na Grande Imprensa (Erasmo Ruiz)





O suicídio é um tema tabu. Raramente é abordado na imprensa de uma forma direta. Quando emerge, será de maneira abstrata, como um tema geral que aparentemente não tocaria as pessoas tidas como "normais".

Mas como toda morte, aquela que ocorre por suicídio produz consequências biográficas, impactando de forma intensa na vida das pessoas próximas. E se pensarmos então nos elementos de nossa cultura com fortes marcas religiosas, o suicídio é uma espécie de anátema, um estigma que marca as famílias, um perverso jogo psicológico de atribuições e autoatribuições de responsabilidade.







Lermbro-me de um episódio na minha adolescência onde a mãe de um amigo ao saber de um diagnóstico de câncer de mama em estágio avançado acabou cometendo suicídio com um tiro na cabeça, que no velório se transformou na versão de "disparo acidental". A vida daquela mulher havia se transformado em uma mácula que as pessoas, apesar de ama-la, não estavam dispostas a comartilhar pelo medo da vergonha e do dedo em riste.



Os jornais tendem então a dar destaques curtos ao suicídio, são mais "generosos"  com os pobres que se matam ingerindo veneno para ratos e muito discretos com empresários que se jogam do alto de prédios por não cosneguirem mais driblar crises financeiras. As notícias são notas e os suicidas são objetos que se autodestruiram, não possuem vida e memória!



Essa conduta de "redação e estilo" não está escrita em canto algum mas é quase sempre respeitada. Existe o medo que ao veicular o suicídio estaríamos incentivando uma "epidemia" de suicídios como foi acusado Goethe quando seu personagem Werther suicida-se, exemplo que teria sido seguido por muitos jovens que se identificarfam com os dilemas de Werther.



Mas estamos agora assistindo a uma excessão, afinal, as razões de mercado se impõem a qualquer lógica engendrada pela idéia de proteção social. Ha poucos dias a atriz Cibele Dorsa cometeu suicídio jogando-se do alto do prédio onde morava  depois de semanas enfrentando um processo depressivo decorrente do suicídio de seu jovem noivo em circunstâncias similares.



Não adentraremos na discussão dos motivos de Cibele. Mas o que parece ser diferente nessa situação é o fato dela ser uma celebridade, atriz e escritora famosa. O processo que leva ao seu suicídio pode ser em parte acompanhado pela internet, pelo Twitter e pelo Youtube, onde postou um vídeo em homenagem ao noivo morto. Nas redes sociais pediu desculpas pelos gesto que em breve iria realizar e ao mesmo tempo apresenta as justificativas embasadas na sua dor.



No fim, o tradicional bilhete suicida,  que na verdade é um email mandado para  a revista "Caras" (vide link no final do post) . E foi assim que o mundo de "Caras" cheio do luxo e do glamour dos ricos e famosos acabou por abrir suas portas a um assunto não abordado pela revista. Dever de informação? Imposição do trabalho de jornalismo?



O ex marido de Cibele, particularmentre exposto pelo conteúdo do email, tentou impedir a publicação e o conseguiu por alguns dias. No entanto, a revista através da justiça conseguiu veicular a mensagem. Com esse gesto, muito provavelmente, a revista conseguiu atrair o olhar curioso de milhares de leitores que não estão necessariamente interessados em saber a decoração dos banheiros de um magnata mas que, dada a interdição do tema suicídio, ficarão atraídos pela matéria.



E lá podemos ler sobre a dor e o sofrimento de um ser humano em extrema crise. Mas, infelizmente, isso é quase nada destacado pela matéria. O email de suicídio na verdade se transforma em isca para vender revista, um lembrete trágico de um chavão que os ricos gostam sempre de referir: "dinheiro não traz felicidade"!



As dores e inconfidências, agora tornadas públicas, alimentam o imaginário de todos que leem o texto. Seria o ex marido co-responsável pela tragédia ao impedir a atriz de ver os filhos? E o papel das drogas nessa história toda? Ainda é possível morrer por amor? Psiquiatras e psicólogos poderão agora usar o email  em aulas de psicopatologia para destacar em termos práticos o "doentio" e mórbido" imaginário de um suicda às portas da morte.



Mas...e das dores de Cibele? E a necessária empatia para lidar com um sofrimento que não está restrito apenas a ela mas que em parte é de todos nós? Nestes aspectos ressoa um silêncio ensurdecedor! Até porque o suicídio é algo que só pode acontecer com os outros!



email de Cibele

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Morte e Imortalidade na Mitologia Grega: Endimião (José Jackson Coelho Sampaio)

         
  Também herdeiro de Prometeu, Deucalião e Heleno, nasce Endimião de Cálice, uma das mais felizes filhas de Éolo. Considerado o mais belo dos homens sobre a terra, tornou-se o primeiro rei bucólico da Élida. Forte e sereno, impetuoso e gentil, vitorioso nos esportes e nas caçadas, sensual e amoroso, o jovem rei somente não se sentia à vontade nos afazeres do governo.




            E sua beleza mortal atraiu Apolo em uma de suas encarnações humanas. O deus, sob forma de jovem caçador, apareceu no palácio da Élida e pediu pouso, assumindo assim o papel de viajante visitante, sujeito aos direitos e deveres da hospitalidade. Entre Apolo humanizado e o rei Endimião foi se tecendo um forte vínculo, primeiro pelos ritos da hospitalidade, depois pela admiração derivada dos feitos nas caçadas, em seguida pelas tramas do carinho entre homens jovens e livres e belos, por fim se impôs o desejo e o amor. Eles se amaram com intensidade e constância, mas o deus tinha outros ingentes afazeres e o tempo marcava o mortal, reduzindo-lhe, ou tornando opaco, o esplendor juvenil. O deus se afasta.
            Mas antes de se afastar, ele entretém com Endimião longas conversas, demoradas e esclarecedoras confidências, e oferece-lhe um dom. Endimião pede a imortalidade da própria beleza e juventude. Para quem é imortal, a imortalidade é uma característica dada, não uma conquista, resultante de alguma luta ou mérito. Apolo diz se é o que rei quer, o rei terá, e, em seguida, ainda sob forma humana, se afasta pelos campos.  O rei da Élida percebe que as maturações de seu corpo estacionaram, mas que um certo langor, uma preguiça, uma sonolência deixam cada vez mais seus músculos lassos, reduzem cada vez mais sua vontade de governar, tomar decisões, julgar, premiar, punir.
            Endimião renuncia ao trono e deixa que os filhos decidam a sucessão numa corrida de carros. Seu espírito sensível concebe e oferece uma última regra: que a corrida seja aberta a outros, caçadores, guerreiros, não seja restrita aos filhos. Um estrangeiro ganha a corrida e a geração de Éolo perde o reino da Élida. Mas Endimião já não presenciou o desenrolar destes acontecimentos: saíra pela estrada, com sua roupa de caça, suas sandálias, seu alforje de flechas, na mesma direção pela qual partira seu amor, apenas revelado no final como o deus Apolo. Ao entardecer, à entrada de uma das frescas e secas cavernas do monte Latmos, Endimião se recolhe e adormece, para nunca mais acordar.
            Sim, os deuses são traiçoeiros. A imortalidade, mantidas a eterna juventude e a beleza, tinha um preço, o da vida em metabolismo basal. O sangue corre nas veias, os pulmões, suavemente, respiram, o coração, mais suavemente ainda, pulsa, porém com o corpo imóvel e a consciência fora da queima dos carvões da vigília, reduzida à prontidão onírica. Naquela caverna do monte Latmos, jaz Endimião e pelo arco do céu, como faz diariamente, Selene, a deusa Lua, passa com seu carro de luz fria e azul. O foco da luz azul encontra o corpo de Endimião e o averigua. Selene se encanta. Selene se apaixona. Jamais vira o esplendor da beleza em perfeito repouso. Jamais vira a beleza humana em seu esplendor. Ela toma os freios do carro lunar, pela primeira vez, e desce à terra. E enquanto ela contempla o jovem adormecido, a terra fica um tempo sem o brilho mortiço do luar.
            Após a amorosa contemplação, Selene se decide. Pelo menos uma vez por mês estacionará o carro da lua ao lado do monte Latmos e, suave, sutil, felina, deitará ao lado do ápice da beleza humana masculina. Os seres humanos compreenderão e podem inventar seus pequenos simulacros de lua para amenizar os períodos noturnos de escuridão. O mais formoso de todos está dormindo, mas vive, o corpo é levemente morno, o ar evola das narinas como brisa delicada, o sexo vez por outra intumesce e solta sêmem sobre a grama. Selene não tolera este desperdício de sêmem. Aconchega-se ao belo adormecido, assenta-se sobre seu membro viril e, nas noites sem luar, engendra filhos. Passividade onírica e fértil: eósforos, fósforos, hésperos, ninfas do amanhecer, ninfas do entardecer, faíscas de pedras, pirilampos, fogos fátuos, faíscas orgânicas de coisas mortas em putrefação. O poeta Homero contou a descendência destes pequenos fogos fugidios, todos filhos de Selene e Endimião. As contas do poeta chegaram a dez mil possibilidades. Pelo menos ganhamos estes simulacros de luz, além daqueles derivados de nossa humana oficina criativa.



Continua em próxima postagem

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

9o Congresso Brasileiro de Dor: Simpósio Satélite Discute Cuidados Paliativos e a Convivência com a Morte





Desde 6 de outubro está sendo realizado em Fortaleza o 9o Congresso Brasileirto da Dor (9oCBDOR). Um painel vasto de muitos estudos , novas terapêuticas, utilização de práticas ancestrais (como a acumputura chinesa) e novos medicamentos que combatem a dor formam um amplo panorama de atividades que abrangem as muitas áreas e disciplinas profissionais que lidam com a temática.



Embora a presença de médicos seja majoritária, este ano, o congresso abriu suas portas também aos pacientes que tem participado de algumas atividades onde relatam seus sintomas, sofrimentos e trajetórias oferecendo um caráter mais sensível e humanizador a programações que normalmente enfatizam intensamente os conteúdos de ordem técnica.



Chama a atenção na grade de programação (que pode ser visualziada aqui)  atividades de cunho interdisciplinar ressaltando a importância de enfoques com olhares mais abrangestes pois a dor é um fenômeno que não pode ser reduzido apenas às suas manifestações biológicas.



Participarmos de um dos simpósios satelites intitulado de "Cuidados Paliativos", por sinal, muito concorrido. Tivemnos a grata satisfação de desfrutar da copanhia da Dra Inês Melo coodenadora do Serviço de Cuidados Paliativos do Hospital da UNIMED em Fiortaleza que expôs sobre o Tema "Cuidados Paliativos: Princípios Básicos", e também da Dra Judymara Lauzi Gozzani que expôs sobre a temática "Opioides e Cuidados Paliativos". Coube a nós, por fim, desenvolvermos o tema "O convívio com a Morte no Exercício Profissional".



Para breve postaremos uma síntese de nossa fala no 9o CBDOR

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Na companhia da Morte com Manuel Bandeira (Erasmo Ruiz)



Imagine-se muito jovem sabendo que é portador de uma doença praticamente incurável. Qual seria sua reação? Cair em profunda depressão? Pensar seriamente no suicídio? Optar por uma vida absolutamente desregrada disfarçada no eufemismo de "intensidade"?


Para nossa sorte, diante da possibilidade de morrer muito jovem, Manuel Bandeira, acometido pela tuberculose numa época exigua em terapêuticas, produziu algumas reflexões sobre a morte. Uma delas já foi comentada nesse blog (vide post aqui). Hoje retomo Bandeira em mais três poemas. Vamos ao primeiro:


Preparação para a Morte


A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
– Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.




O poema possui uma notável beleza e profundidade. fala sobre o encantamento da vida, do que ela tem de mais arrebatadora, seu caráter aparentemente inexplicável, dai a idéa de que ela seja um milagre em todas as suas manifestações. Mas então o poeta nos apresenta a morte como algo que não é milagre. Talvez pelo fato dela ser onipresente e comum. Por que seria a morte adjetivada como "bendita"?


Para o poeta ela terminaria o milagre. Talvez devêssemos ser tomados pela angustia da iminência da morte para perceber este sentido em Bandeira. O milagre da vida pode se tornar sufocante se imerso na dor e no sofrimento. Um vellho que antevê a morte escreveria esse poema. mas dentro dele continua pulsando o jovem de "Penumotórax"




Pneumotórax


Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.

A vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Tosse, tosse, tosse.



Mandou chamar o médico:

- Diga trinta e três.

- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...

- Respire.



- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.

- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.



Do meu ponto de vista é esse Bandeira de "Pneumotórax" que estará presente até o fim de sua vida meio que fantasmático em quase todos os poemas sobre a morte. A preparação para a morte ainda muito jovem exigiu dele reflexões intensas sobre o viver e a constatação da impotência do se impedir a morte levou a construção de potência de vida.



Diante da ausência de possibilidades concretas de se intervir na tuberculose, restava pensar na morte e tocar um tango pode ser então o movimento da vida, sua intensidade, lubricidade e também tragédia. Asl etras dos tangos nos remetem invariavelente para estas três vertentes. Por consequência, é preciso viver o milagre:





Poemeto Erótico





Teu corpo claro e perfeito,

- Teu corpo de maravilha

Quero possuí-lo no leito

Estreito da redondilha...



Teu corpo é tudo o que cheira...

Rosa... flor de laranjeira...

Teu corpo branco e macio

É como um véu de noivado...



Teu corpo é pomo doirado...

Rosal queimado do estio,

Desfalecido em perfume...

Teu corpo é a brasa do lume...


Teu corpo é chama e flameja
Como à tarde os horizontes...
É puro como nas fontes
A água clara que serpeja,


Que em cantigas se derrama...
Volúpia de água e da chama...
A todo momento o vejo...
Teu corpo... a única ilha


No oceano do meu desejo...
Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa, flor de laranjeira...


Estar cheio de vida, ou, como nos mostra Bandeira em outro poema, "absorto em vida", pode nos fazer passar ao largo da morte pois a vida carece de total sentido apriori do próprio viver. O milagre da vida nos trai ao sinalizar que um dia ele termina.


Mas, ainda assim, viver significa aproveitar ou, então, se aproveitar da oportunidade miraculosa que é a vida. Afinal caro leitor, não somos milagres probabilísticos? Eu, você...todos nós somos medalhistas olímpicos de uma corrida de milhões de espermatozoides. Aproveitem o milagre enquanto ele pode ser desfrutado pois um dia a bendita morte ira por fim a ele.


Uma das melhores formas de aproiveitar o milagre da vida pode ser cultuar a maravilhosa poesia de Manuel Bandeira!















domingo, 29 de agosto de 2010

Cemitérios Cheios de Vida: Pelos Caminhos de Novo Hamburgo (Erasmo Ruiz)





Quando, se pensa em cemitérios bonitos logo vem a mente o Père Lachaise, em Paris, que, além da beleza de sua arte tumular, traz também uma lista enorme de "hóspedes" ilustres.





Mas, os cemitérios podem chamar a atenção por outras formas de beleza, ou, infelizmente, por algo que deixou de ser a regra e se transformou em desonrosa exceção.



Recentemente, Luciana Abreu, uma grande amiga, viajou com sua família para as serras gaúchas. Seguiu a  trilha usual dos turistas. Entre a beleza da arquitetura europeia e deliciosos chocolates e bons vinhos, Luciana notou algo que também a encantou.







Seguindo viagem entre Gramado e Novo Hamburgo (por volta de 70 km) ela percebeu alguns cemitérios a beira da estrada, com  cercas baixas, próximos a  pequenas igrejas e escolas.



Meu olhar arguto para a morte também vê cemitérios à beira das estradas próximos a cidades pequenas, mas o padrão que encontro pode se resumir a uma única palavra: abandono!  Túmulos mal mantidos, mato crescendo e ferrugem tomando conta de cercas e portões.







O que chama  a atenção nas fotos tiradas por Luciana é justamente o contrário. Encontramos túmulos limpos, brilhando, e mesmo os antigos mostram sinais de que as pessoas ainda se importam com eles. E, o mais importante, muita vida simbolizada pelas flores e seu colorido.



Seriam as marcas da cultura europeia trazidas pela imigração, marcas estas que já teriam desaparecido em parte nos países de origem? Nota-se aqui um zelo pela memória, uma aura de respeito a identidade dos mortos como estratégia que fala muito mais à identidade dos vivos.







Claro, são especulações que precisam ser suportadas por estudos mais aprofundados. Mas é digno de nota a beleza das fotos e a sensação de que os mortos estão sendo "bem cuidados". Sinalização talvez de que por aqueles lados os vivos tenham uma relação melhor com a morte.



sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Psicologia e Morte (Larissa Lacerda)

 

Bifulco e Lochida destacam que uma das causas do despreparo dos profissionais para lidar com a morte é a ênfase na formação técnico–cientifica no ensino do cursos da área de saúde, proporcionando pouco espaço para abordagem dos aspectos emocionais e sociais do ser humano, o que muitas vezes faz a morte ser relacionada com derrota, perda e frustração. Juqueira e Kóvacs, por sua vez, afirmam que “[...] a dificuldade em lidar com a morte se deve ao afastamento das grandes tradições que preparavam as pessoas para o momento final” e relaciona essa formação inadequada ao fato de que a sociedade tenha expulsado o culto à morte, se afastando de refletir e tratar do assunto.
A morte significa sempre um desafio para quem recebe treinamento para manter a vida, como é o caso dos profissionais de saúde. Diante desse quadro de temor da morte, pesquisadores verificam a necessidade de serem oferecidos cursos que abordem o tema da morte e do morrer para permitir ao aos profissionais de saúde o enfrentamento dessas situações.
Para o psicólogo, especificamente, o tema da morte passou a fazer parte do seu cotidiano profissional não só nos hospitais, como em outros campos de trabalho.  Por  exemplo, há a necessidade de abordar o tema da morte quando os alunos falam sobre a morte do avô ou animal de estimação, entre as situações. No contexto organizacional, o psicólogo pode deparar-se em várias situações de “morte”, como por exemplo, o falecimento de colegas, acidentes variados, e suicídio que necessitam de uma intervenção psicológica. Na prática clínica, essas situações são ainda mais comuns, em que esses profissionais precisam estar atentos a sinais que indicam o inicio de processos mórbidos e de autodestruição, podendo comparecer tentativas de suicídio e hábitos de risco (como consumo de álcool e drogas) além de intervir nos processos de enlutamento, perdas ou separações de pessoas significativas. O trabalho com idosos é outra modalidade de ação para o psicólogo e como esse grupo se caracteriza por estar cronologicamente mais próximo da morte física, falar sobre a morte é demanda frequente.
No âmbito hospitalar, o psicólogo tem sido inserido nas equipes multidisciplinares atuando em campos como oncologia, nefrologia, ortopedia, maternidades, etc nos trabalhos de preparação cirúrgica, acompanhamento pré e pós-operatório, trabalho com familiares, atendimento a pacientes terminais, trabalho de grupos além de apoio, suporte e troca com a equipe de saúde, entre outros. Nesse contexto, trabalhar a questão da morte, principalmente em cuidados paliativos com pacientes fora de recursos terapêuticos de cura são essenciais.
Desse modo, percebe-se que a temática da morte é presente na atuação do psicólogo, independente do seu ambiente de trabalho e por isso, faz-se necessário uma formação nos cursos de Psicologia capaz de preparar esse profissional para poder lidar com a questão da morte.
Um estudo realizado com a equipe multiprofissional de Cuidados Paliativos da Unifesp-EPM através de um questionário semiestruturado com questões sociodemograficas e seis questões abertas visou investigar o tipo de formação em nível de graduação de profissionais que integram essa equipe e sua possível repercussão sobre sua escolha profissional. Além disso, a pesquisa teve como objetivos específicos: identificar formação geral e especifica do profissional da Unifesp-EPM que lida com a morte e inferir a necessidade de intervenção nos cursos de graduação da aérea da saúde, para uma possível implementação do ensino dos Cuidados Paliativos. Os resultados apresentados mostram que a temática morte nos cursos de graduação é ausente na maioria dos cursos, pois 93,3% dos 15 participantes responderam que houve falta de formação para morte.
Outra pesquisa realizada com 23 alunos do 7º período do Curso de Psicologia da Universidade Federal de Rondônia buscou compreender como os alunos lidavam com a temática da morte e do morrer. Os resultados encontrados mostraram que a maioria dos alunos concordou que não se fala sobre morte e morrer no Curso de Psicologia e que as questões relativas a essa temática não entraram no programa de nenhuma disciplina.
Assim, visto a importância da educação para lidar com a morte, destaca-se que a morte deveria ser um dos objetivos dos cursos da área de saúde, buscando-se compreender o significado da morte, os processos de morrer, o pesar do luto, etc.  Além disso, Juqueria e Kóvacs afirmam que na graduação de Psicologia, textos sobre a morte e morrer deveriam ser estudados nas disciplinas de Psicologia do Desenvolvimento I, II e III, Psicologia Escolar e Problemas de aprendizagem, Psicologia Hospitalar, Comunitária, Social e Técnicas de Aconselhamento Psicológico. Essas autoras questionam se há uma negação da morte no currículo do Curso de Psicologia, evidenciando se está preparando profissionais para o mercado de trabalho no qual estarão em contato constante com a morte nos consultórios, hospitais, escolas ou nas empresas.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Educação para a Morte na Enfermagem. Isso existe? (Mariana Farias)

Análise do direcionamento dado por docentes dos períodos iniciais do curso de Enfermagem de uma universidade pública às questões tanatológicas assim como suas convicções pessoais quanto à mesma temática mostraram evidências de afastamento acadêmico com a questão da morte. A pesquisa foi uma abordagem qualitativa envolvendo técnicas de entrevistas com questões semi-estruturadas que avaliaram a relação dos docentes dos três primeiros períodos do curso de Enfermagem. Os resultados foram submetidos à construção de categorias quanto ao sentido e significado. A entrevista contempla as seguintes perguntas: 1) Quanto tempo você tem de formado? 2) Há quanto tempo participa do processo de formação dos alunos do Curso de Enfermagem? 3) Durante sua formação acadêmica, você ouviu algum dos seus professores falarem em sala de aula sobre a morte? Se sim, o que você ouviu? 4) Você participou de algum evento que teve como tema a questão da morte? Se sim, qual? 5) Você costuma falar desses assuntos em sala de aula? Por quê? 6) Você leu ou está lendo alguma literatura sobre o assunto? Se sim, qual? 7) Você fala tranqüilamente sobre a morte ou esse tema lhe incomoda? 8) Em quem você se espelha para lidar com essas questões? Por quê? 9) Você se considera um modelo para os alunos, no tocante a essa questão? Sem entrar em detalhes nas respostas, verificou-se uma postura de distanciamento dos docentes quanto às questões tanatológicas com relação às abordagens dentro de sala de aula assim como seu interesse pessoal, não participação em eventos e escassas leituras sobre o tema. Apesar de apresentarem tal temática em sua formação, sendo esta de caráter já maduro, e falarem tranquilamente no assunto, em sua atuação não se verifica um perfil que privilegie tal temática, pois quando sua abordagem ocorre existem motivos com focos diversos e sem objetivo concreto. A média de tempo em que exercem a função evidencia a perpetuação desta sua postura, o que sinaliza o afastamento acadêmico com relação às questões da morte e morrer.

Para ter acesso aos resultados dessa pesquisa, fazer contato com gurgel.ufma@gmail.com

domingo, 20 de setembro de 2009

Aprendendo Com o Filme "Wit, Uma LIção de Vida" (Erasmo Ruiz)

Pessoalmente acredito que o cinema pode nos oferecer uma excelente oportunidade para estimular discussões e funcionar como veículo potenciliazador de mensagens e conteúdos. Nâo que o cinema possa produzir milagres, mas como expressão da arte, em algumas oportunidades, pode convidar as pessoas a refletir sobre a vida, o mundo e si mesmas.

O filme que indicamos essa semana pode ter essa capacidade, notadamente para nós que trabalhamos e militamos no campo da Saúde. Vivian Bearing (personagem vivido por Ema Thompson) é uma professora de literatura inglesa que no auge de sua carreira se descobre com mum câncer nos ovários em estágio avançado. Para tentar superar a doença, submete-se a um tratamento experimental com remotas possibilidades de cura.

Durante o tratamento, Vivian irá rever aspectos importantes de sua vida ao mesmo tempo em que reflete sobre a forma como está sendo cuidada. No meu entender é este aspecto que mais nos interessa de perto. Usando da técnica de conversação direta (quando o ator olha para a câmera e "conversa" com o público que o vê), Vivian se interroga e nos interroga sobre a triste trajetória dos pacientes hospitalares, a perda de identidade e privacidade, a refração de se discutir necessidades existenciais e a lenta tranasformação de indivídio em protocolo de cuidados.

Aos poucos Vivian vai percebendo que a forma como sempre lidou com seu próprio objeto de conhecimento e, em particular, a obra do poeta inglês John Do (quase sempre focada na morte) é similar a maneira fria e distante que agora lidam com ela. Com o passar do tempo, Vivian conclui que da mesma forma que falta sensibilidade e sentimento na forma como se produz ciência, falta também no contato entre as pessoas, em particular, quando nos aproximamos do final da vida.

Filme muito instigante para se dsicutir com profissionais de saúde em hospitais sobre a forma como estão lidando com seus pacientes. Mais rico ainda se for usado como material de oficinas em enfermarias com altas taxas de óbitos. Com certeza fará com que principalmente médicos e enfermeiras possam ser motivados a rediscutir seus processos de trabalho evidenciando as ações que fazem com que muitas vezes os pacientes os rotulem como "frios" e "insensíveis". O olhar fixo de Vivian em nossos olhos pode fazer com que prestemos mais atenção a fala dos pacientes!

De maneira geral, o filme também vale para que possamos produzir uma reflexdão sobre nossas próprias vidas. De que adiante seguir de maneira cega e acrítica nossas rotinas e obrigações se de fato não estivermos de alguma forma aproveitando a vida? Ao final da exibição fica a mensagem de que a vida descreve um arco onde, no que toca nossa vulnerabilidade, nascimento e morte parecem se encontrar!

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Educação para a Morte é tema de Disciplina na Pós-Graduação na FMUSP

Já estão abertas as inscrições para a Disciplina “Tanatologia – Educação para a Morte”, que será ministrada em agosto, na Faculdade de Medicina da USP, dentro da Pós-Graduação strictu sensu. Serão 30 vagas para doutorandos e mestrandos da USP, regularmente matriculados em qualquer curso da universidade, e mais cinco vagas para alunos de outras faculdades, que participação como ouvintes.

“Pela primeira vez, uma faculdade de Medicina brasileira, a FMUSP, por meio da sua pós-graduação em Ciências Médicas, disponibiliza uma disciplina para formação de recursos humanos (professores e pesquisadores) com o objetivo de discutir as questões da morte e do morrer de maneira plural e interdisciplinar (atitudes religiosas, filosóficas, científicas, pedagógicas e estéticas)”, ressalta o Prof. Dr. Franklin Santana Santos, um dos coordenadores da Disciplina.


A disciplina é constituída de oito créditos e terá início no dia 8 de agosto. Além de reunir alunos de Medicina e das áreas biológica e ciências da vida, o objetivo da Disciplina é atrair mestrandos e doutorandos de outras áreas do conhecimento como teologia, sociologia, antropologia, filosofia, pedagogia, serviço social, entre outras. Mais informações no site www.fm.usp.br, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).


Serviço:

Disciplina “Tanatologia – Educação para a Morte” MCM 5892

Pós-Graduação strictu sensu da Faculdade de Medicina da USP

Créditos: 8

Período: 08/08 a 01/09 (sábados)
Aulas: 08, 15, 22 e 29/08, das 8 às 17h30

Local: auditório da disciplina de Emergências Clínicas (5º andar do Instituto Central do Hospital das Clínicas)

Inscrições:

Vagas: 30 (alunos regulares) e 5 ouvintes

Informações: Tel.: 3061-7232

Endereço: Pós-Graduação/FMUSP: R. Teodoro Sampaio, 115 – Prédio Instituto Oscar Freire

Coordenadores:
Prof. Dr. Irineu Tadeu Velasco
Prof. Dr. Franklin Santana Santos

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Ame e deixe Morrer

Deixo neste blog matéria publicada no "O Povo", artigo opinativo que fala a respeito da necessidade da implementação dos cuidados paliativos e, de certa forma, da disseminação de uma educação para a morte. Este artigo é de particular interesse para profissionais médicos. Parabéns a Pedro Henrique Saraiva Leão pela Inciativa


Ame e deixe Morrer

Aparente paradoxo - mas convenhamos - eliminar o sofrimento de um ente querido é um ato de amor!

Senão consideremos estes três casos: 1 - Doente terminal, 32 anos, câncer de pâncreas e metástases, tem parada cardíaca; reanimado na UTI é ligado ao respirador artificial. Sobreveio falência renal, e foi submetido à hemodiálise; 2-Senhora com 97 anos, insuficiência cardíaca, e coma profundo pós-AVC, internada há seis meses; 3- Paciente com 94 anos, arteriosclerose cerebral, enfisema pulmonar grave, e câncer no fígado. Todos nas caríssimas UTI´s. Prá quê! Só para retardar - com muito sofrimento - sua certa morte!

Por muito tempo, o Código de Ética Médica criminalizou a eutanásia, e o Código Penal pode indiciar o médico que a pratica como homicida, impondo-lhe 6-20 anos de prisão. Em 9/11/2007 o Conselho Federal de Medicina aprovou a suspensão de medidas para prolongar a vida de pacientes terminais, incuráveis.

Teria sido uma conquista da Medicina brasileira! Mas, sem o apoio da sociedade civil, tal ainda não poupa o profissional da responsabilidade criminal. Modernamente, os religiosos aprovam ações sobre a terminalidade da vida. O clérigo metodista Leslie Weatherhead não entendia a morte como privilégio de Deus, e ponderava: não deixamos o nascimento para Deus, nós o promovemos e até prevenimos! (Revista Time, 19/3/1990).

Dom Rafael Cifuentes, da CNBB afirmou:” A vida humana é um dom de Deus, algo sagrado que não podemos tirar, mas para pacientes terminais seu prolongamento pode ser intrrompido” (Revista do Conselho Federal de Medicina, 21/7/2007).

Nas faculades de Medicina nos ensinam (e quase obrigam) apenas a curar, mas não a cuidar do paciente! Neste sentido, para cuidar daqueles terminais incuráveis, a médica inglesa Cicely Saunders criou, em Londres (1967) o St. Christopher´s Hospital, o primeiro para cuidados apenas paliativos. No “hospice”, como no “Hospiz” na Alemanha (não confundir com hospício!) prevalece a morte natural (ortotanásia), evitando-se unicamente a dor, e promovendo-se o suporte emocional do paciente e sua família. Em 1970, estas ideias chegaram aos EE.UU, com a psiquiatra suiço-canadense Elizabeth Kübler-Ross, aliás criadora da palavra “Tanatologia”, (do grego “tanatos”: morte), o estudo da morte física, suas repercussões emocionais e do luto. No Ceará (vale lembrado e aplaudido) a Uece foi uma das primeiras a ensinar Tanatologia, há quase 10 anos, no seu Curso de Enfermagem. No Brasil, a paliaçãos destes doentes começou (2002) com a médica Maria Goreti S. Maciel, na Enfermaria de Cuidados Paliativos do Hospital do Servidor Público (São Paulo).

Nesses Centros, os paliativistas não mais praticam a “obsessão terapêutica” de tratar tudo. Ali os pacientes morrem porque chegou-lhes a hora, mas se despedem da vida, não seqüestrados numa UTI, com todos os membros perfurados, e penetrados nos seus orifícios naturais, mas com dignidade, confortados pelo amor dos seus, como se morria antigamente, em paz.

Pedro Henrique Saraiva Leão - Médico. Presidente da Academia Cearense de Letras
ph.saraivaleal@bol.com.br

artigo encontrado em O Povo Online

domingo, 10 de maio de 2009

Introdução à Tanatologia para Trabalhadores de Saúde: Última Parte (Erasmo Ruiz)


Assim, o cuidado deve acompanhar os dois extremos da vida. Da mesma forma que nos sentimos motivados a cuidar de um bebê, devemos nos motivar a oferecer todo o conforto material e espiritual que alguém precisa frente à experiência da própria morte para que, um dia, outra pessoa tenha mesma motivação para cuidar de cada um de nós. É injusto e eticamente condenável que no final da vida muitas pessoas se sintam abandonadas e solitárias ao enfrentar a própria morte. Para tal empreitada temos de pensar na morte, pois essa é uma das maneiras de se perceber a vida como um bem precioso, onde os momentos vistos como banais adquirem na verdade sua real magnitude.

Para finalizar, é óbvio dizer que ninguém que esteja lendo este texto gostaria de morrer sozinho. Uma maneira de refletirmos sobre a forma como estamos atendendo os nossos clientes fora de possibilidades terapêuticas é pensar que, se estivéssemos do outro lado, gostaríamos do modo de atendimento e se não existiriam outras maneiras mais acolhedoras, afetivas, respeitosas de atenção. Para atendermos pessoas que estejam morrendo temos de refletir sobre a própria mortalidade o que, a princípio pode ser algo doloroso, mas, de fato, é um processo existencial que nos leva a viver melhor na medida em que questionamos os rumos que nossa vida tem levado. Estar ao lado do paciente pode escancarar medos e angustias que precisam ser compreendidos com cuidado, pois o virtual sofrimento diante da morte enfrentado pelo paciente fará o profissional pensar: “e se fosse eu ou algum ser querido?”.


Nestes momentos é importante que você possa ter alguém para conversar. Não é vergonhoso se sentir triste e cheio de dúvidas. Quando você menos perceber, irá notar que seu medo na verdade é o medo de todo mundo. É essa compreensão que permitirá você cuidar melhor do outro, seja em sua morte-termo final, seja em sua morte-cotidiana, na medida em que, em parte a dor dele é também a sua dor, algo inerente ao fato de todos sermos humanos. Nessa hora a morte deixa de ser apenas um fenômeno biológico e passa a ser um fenômeno biográfico, pois envolve sempre a vida de alguém dotado de medos, anseios, dúvidas e conflitos. Pensar na morte, então, nos fará refletir sobre a vida não mais como um conjunto de sinais vitais que devemos monitorar, mas como um instrumento que nos permita sempre apreciar as belezas do mundo.

Neste sentido, muitas vezes as pessoas estão “mortas” mesmo que sejam preservados seus sinais vitais, pois a vida já se foi há muito tempo embaçado pela dor, pelo sofrimento e pela inconsciência. Compreender nossos limites frente ao atuar sobre o paciente não é assumir que somos incapazes ou incompetentes. Não podemos deixar que a vaidade tome conta do nosso lidar com a vida dos outros. Tomar consciência dos limites é, antes de tudo, trabalhar pela vida e não pela morte. Precisamos construir uma nova visão da morte que não a perceba mais como inimiga da vida, mas sim como seu complemento. Vida e morte formam uma totalidade e Erich Fromm já nos lembrava de que somos os únicos seres portadores, por vivos, de um poderoso instinto de sobrevivência e, por auto-conscientes, sabedores da inelutabilidade da morte.




Durante muito tempo o homem se viu diante da amargura frente à morte como bem ilustra Clarice Lispector ao afirmar que “É uma infâmia nascer para morrer não se sabe quando nem onde”, ou Machado de Assis ao falar “do legado aos vermes”. Outras vezes, estamos diante do absurdo de sua possibilidade que, repentina, se realiza como dizia Goethe: “a morte é uma impossibilidade que, de repente, se torna realidade”. Outras tantas, a morte nos força a buscar o porvir como nos avisa Quintana em seu poema intitulado “Inscrição para um Portão de Cemitério”:

Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce - uma estrela
Quando se morre – uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
“Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!”



Temos de continuar essa busca. Neste sentido, a morte é uma grande professora que diante de seu mais absoluto mistério nos seduz à busca de soluções. Independente de onde esteja a verdade, se é que ela está em algum lugar, cabe nesse instante resgatar acordos provisórios. Nós, enquanto trabalhadores de saúde, não podemos nos esconder da necessidade dessa busca, sob pena de condenarmos aqueles que estão morrendo a um suplício maior do que a própria morte. Este suplício é o abandono frente à situação mais atrativa e mais amedrontadora que encontramos nessa vida: a morte. Atrativa porque nossa curiosidade nos impele a buscar a grande descoberta sintetizada na pergunta: “existe alguma coisa do outro lado?”. Amedrontadora porque, existindo algo ou não, sempre tememos o que não conhecemos e sabemos que o conhecido estará perdido, em bruma, em dês-memória, como no “Diálogo dos Mortos”, de Luciano de Samósata. Pode parecer estranho, mas talvez sintamos um pouco de inveja daqueles que partem antes de nós, pois eles estarão produzindo a solução desse mistério. Quando o momento chegar, é bom ter alguém do lado que segure nossa mão ou nos ajude a recitar alguma oração. Fugir nessa hora, é fugir da nossa própria humanidade. Fugir da morte do outro é fugir da própria vida!


Sugestões de Leitura Sobre o Tema: vide livros referenciados em nosso blog


Este texto foi publicado em CARNEIRO, C., RUIZ. E.M., LANDIM, L.P. e SAMPAIO, J.J.C. (ORGs) Acolher Cidadão: Estratégia de aperfeiçoamento do SUS em Quixadá, Ceará. Fortaleza: EDUECE, 2006

FAVOR: AO CITAR REFERIR A FONTE

sábado, 9 de maio de 2009

Introdução à Tanatologia para Trabalhadores de Saúde: Segunda Parte (Erasmo Ruiz)

Aqui chegamos a uma definição de tanatologia. A palavra vem de Thanatos, deus grego da morte, irmão do “Sono”. A expressão “logia” vem de logos, saber, estudo. Sendo assim, uma definição possível para a Tanatologia seria a de ciência que estuda as atitudes que o homem tem diante da morte e do morrer. Essa definição pode parecer estranha a princípio quando, olhando a nossa volta, imaginamos a expressão “atitude” como a ação que veríamos quando as pessoas sabem da morte e participam dos rituais fúnebres. É isso, mas também são muitas outras coisas. Atitude aqui implica também em “pensamento”, “subjetividade”, “arte”, “cultura”, “religião”, “literatura”, “comportamento”. Assim, a Tanatologia se interessa por todas as ações, atitudes e representações que o homem realiza quando elabora questões relacionadas à morte e o morrer.

Convém destacar que, entre as muitas atitudes diante da morte e do morrer, o medo é sem dúvida a mais comum. Para o trabalhador de saúde esse é um aspecto muito importante, ajudando a entender porque, muitas vezes, é tão difícil manter uma comunicação saudável com um doente fora de possibilidades terapêuticas. Neste caso, o doente transforma-se simbolicamente no objeto de maior temor. O não preparo para lidar com a própria morte implica em relativa incapacidade para se lidar com a morte do outro. Vamos então discutir porque a morte seria tão amedrontadora.



O fato do homem ser o único animal que sabe que vai morrer provoca o que os filósofos existencialistas chamam de solidão extrema. Embora todas as pessoas morram, tanto a minha morte como a sua são eventos absolutamente pessoais. Ninguém pode viver a morte do outro. Além disso, a morte provoca as amputações afetivas. O preço que pagamos por permanecermos vivos é a convivência cotidiana com a morte e com estas amputações. Em parte, essa convivência se dá de forma abstrata, pois, na imensa maioria das vezes, quando presenciamos a morte, a vemos como um evento distante, jornalístico ou artístico. Quando ouvimos na TV que ocorreu mais um atentado no Oriente Médio, a probabilidade de conhecermos uma das vítimas é muito remota. Nos filmes, a morte é vivenciada no seu limite mais dramático e elaborado, conseqüência quase sempre de conflitos que oferecem dinamismo à estória. O problema real da morte é quando ela se apresenta como evento concreto, quando perdemos alguém próximo. Normalmente, diante deste fato, nós tendemos a expressar o luto emocionado. É deste sofrimento oriundo da morte que queremos a todo custo escapar já que não queremos enfrentar a perda de quem amamos.

A morte também sinaliza às perdas das possibilidades. Significa dizer que, em algum momento, teremos uma atividade interrompida de forma inesperada. Durante a vida toda temos que, de forma gradual e outras repentina, abrir mão de coisas. Nossos corpos se desgastam, o envelhecimento produz a perda gradual de capacidades. Significa dizer que, a todo instante, a vida nos lembra que a morte se aproxima, quer gostemos ou não dessa idéia. Lembrar das perdas graduais significa ter que lembrar a perda definitiva de nós mesmos que a morte representa.



Antes o homem se achava preparado para o enfrentamento dessa questão básica. Hoje, com o fim das explicações gerais sobre a morte, ela deixou de ser um terreno exclusivo da religião transformando-se em mais um dos objetos da ciência. A ciência mesma é a grande fonte de nossas dúvidas e certezas, é ela que garante possibilidades de vida maior e mais segura. O problema é que ela não debelou aquilo que é considerado mal maior: a morte. Ora, é a ciência com seu complexo quadro de saberes que afirma a finitude como absoluta e, ao mesmo tempo, tenta nos instrumentalizar contra a morte a partir da noção de microorganismo, dos procedimentos higiênicos, das práticas de anestesia que revolucionaram a cirurgia, da farmacologia e seu arsenal cada vez mais eficiente de drogas “miraculosas”. Todo esse conhecimento criou a ilusão de que a morte pode ser detida indefinidamente, gerando aquilo que muitos estudiosos chamam de “fantasia de onipotência dos profissionais de saúde”. Essa onipotência é destruída diante da morte, pois os saberes falha na medida em que o moribundo sinaliza seus limites. Aqui nos defrontamos com outro motivo do afastamento das pessoas que estão morrendo. Em parte, queremos nos afastar não só porque elas representam a morte mas também porque elas ferem nossas vaidades ao negarem a eficiência absoluta do saber que utilizamos. A morte do meu cliente lembra inevitável, dolorosa e imediatamente a minha própria mortalidade.



Óbvio dizer que todos nós desejamos o bem estar das pessoas. Este é o dever fundamental de todo o ser humano. No caso dos profissionais de saúde, este dever ético é impregnado pela ação técnica e pelo conhecimento que lhe dá sustentação. Quando afirmamos que as pessoas tendem a se afastar dos moribundos não estamos dizendo que isso é algo livremente escolhido pelos trabalhadores. Na maior parte das vezes acontece pela mistura trágica do medo e da desinformação com os processos inconscientes (determinadas forças que atuam em nossa mente sem que tenhamos clareza de sua presença e existência). Assim, esse processo não ocorre por “maldade latente”. Tomar consciência dele é de fundamental importância para que possamos lidar melhor com o paciente e, dessa forma, lidar melhor com nossas limitações e medos.


Aqui precisamos nos deter nos conceitos de eutanásia e distanásia. A expressão “eutanásia” quer dizer “boa morte” em grego. Durante séculos o homem foi capaz de sua prática por entender que diante do sofrimento da morte (em particular as dores físicas intensas provocadas por algumas doenças) era lícito abreviar a dor provocando a morte diretamente. Os cavaleiros medievais portavam uma pequena lança ao lado das selas dos cavalos chamada de “misericórdia”, usada para abreviar o sofrimento dos companheiros feridos mortalmente. Fazia parte das antigas artes médicas o preparo de poções que induziam os pacientes à morte. Com o desenvolvimento da medicina e com a implementação da visão cristã de mundo, tal prática passou a ser considerada inaceitável. No entanto, é lícito pensarmos na eutanásia passiva, situação na qual o paciente vem a morrer pela suspensão de tratamentos que ao invés de produzirem melhora terapêutica, só aumentariam desnecessariamente o tempo de vida sem nenhuma implementação da qualidade dessa mesma vida. Em outras circunstâncias, a morte pode ser apressada pelo uso de substâncias que tem o objetivo primário de reduzir a dor e o sofrimento como no caso da sedação. Nesta situação também estamos falando em eutanásia passiva na medida em que a sedação não é usada diretamente para abreviar a vida e sim para reduzir o sofrimento.


Em muitas circunstâncias, seja pela pressão de familiares ou pela obstinação do terapeuta em continuar atuando indefinidamente, a vida do paciente pode ser aumentada sem que haja qualquer benefício prático para ele mesmo, aumentando a dor e o sofrimento. Aqui estamos falando em distanásia. Se antes os médicos estavam ao lado do paciente em seu leito e eram quase sempre acompanhantes do desenvolver da doença, a crescente capacidade de intervir parece não sinalizar claramente em que momento temos que começar a atuar para, novamente, acompanhar a chegada da morte como conseqüência da vida. Esse foi um dos aspectos que se perdeu na relação do homem contemporâneo com a morte. Ela deixou de ser vista como um evento natural da vida e passou a ser significada como “doença”, “maldição”, “ato vergonhoso”, etc.

Gostaríamos agora de compartilhar algumas questões que, acreditamos, devem acompanhar sempre os trabalhadores de saúde quando pensam a questão da morte. Ao negar a morte não estaríamos deixando de ver nossos pacientes em suas necessidades mais básicas, inclusa a necessidade de morrer em conforto? Estamos na verdade buscando curar a doença ou queremos na verdade “curar” a morte? Nossa tecnologia médica não está querendo assumir os espaços antes deixados à religião? Em que momento nossos saberes e práticas terapêuticas podem se transformar em instrumentos de tortura?



Continua em futuro post