
Assim, o cuidado deve acompanhar os dois extremos da vida. Da mesma forma que nos sentimos motivados a cuidar de um bebê, devemos nos motivar a oferecer todo o conforto material e espiritual que alguém precisa frente à experiência da própria morte para que, um dia, outra pessoa tenha mesma motivação para cuidar de cada um de nós. É injusto e eticamente condenável que no final da vida muitas pessoas se sintam abandonadas e solitárias ao enfrentar a própria morte. Para tal empreitada temos de pensar na morte, pois essa é uma das maneiras de se perceber a vida como um bem precioso, onde os momentos vistos como banais adquirem na verdade sua real magnitude.
Para finalizar, é óbvio dizer que ninguém que esteja lendo este texto gostaria de morrer sozinho. Uma maneira de refletirmos sobre a forma como estamos atendendo os nossos clientes fora de possibilidades terapêuticas é pensar que, se estivéssemos do outro lado, gostaríamos do modo de atendimento e se não existiriam outras maneiras mais acolhedoras, afetivas, respeitosas de atenção. Para atendermos pessoas que estejam morrendo temos de refletir sobre a própria mortalidade o que, a princípio pode ser algo doloroso, mas, de fato, é um processo existencial que nos leva a viver melhor na medida em que questionamos os rumos que nossa vida tem levado. Estar ao lado do paciente pode escancarar medos e angustias que precisam ser compreendidos com cuidado, pois o virtual sofrimento diante da morte enfrentado pelo paciente fará o profissional pensar: “e se fosse eu ou algum ser querido?”.

Nestes momentos é importante que você possa ter alguém para conversar. Não é vergonhoso se sentir triste e cheio de dúvidas. Quando você menos perceber, irá notar que seu medo na verdade é o medo de todo mundo. É essa compreensão que permitirá você cuidar melhor do outro, seja em sua morte-termo final, seja em sua morte-cotidiana, na medida em que, em parte a dor dele é também a sua dor, algo inerente ao fato de todos sermos humanos. Nessa hora a morte deixa de ser apenas um fenômeno biológico e passa a ser um fenômeno biográfico, pois envolve sempre a vida de alguém dotado de medos, anseios, dúvidas e conflitos. Pensar na morte, então, nos fará refletir sobre a vida não mais como um conjunto de sinais vitais que devemos monitorar, mas como um instrumento que nos permita sempre apreciar as belezas do mundo.
Neste sentido, muitas vezes as pessoas estão “mortas” mesmo que sejam preservados seus sinais vitais, pois a vida já se foi há muito tempo embaçado pela dor, pelo sofrimento e pela inconsciência. Compreender nossos limites frente ao atuar sobre o paciente não é assumir que somos incapazes ou incompetentes. Não podemos deixar que a vaidade tome conta do nosso lidar com a vida dos outros. Tomar consciência dos limites é, antes de tudo, trabalhar pela vida e não pela morte. Precisamos construir uma nova visão da morte que não a perceba mais como inimiga da vida, mas sim como seu complemento. Vida e morte formam uma totalidade e Erich Fromm já nos lembrava de que somos os únicos seres portadores, por vivos, de um poderoso instinto de sobrevivência e, por auto-conscientes, sabedores da inelutabilidade da morte.
Durante muito tempo o homem se viu diante da amargura frente à morte como bem ilustra Clarice Lispector ao afirmar que “É uma infâmia nascer para morrer não se sabe quando nem onde”, ou Machado de Assis ao falar “do legado aos vermes”. Outras vezes, estamos diante do absurdo de sua possibilidade que, repentina, se realiza como dizia Goethe: “a morte é uma impossibilidade que, de repente, se torna realidade”. Outras tantas, a morte nos força a buscar o porvir como nos avisa Quintana em seu poema intitulado “Inscrição para um Portão de Cemitério”:
Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce - uma estrela
Quando se morre – uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
“Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!”

Temos de continuar essa busca. Neste sentido, a morte é uma grande professora que diante de seu mais absoluto mistério nos seduz à busca de soluções. Independente de onde esteja a verdade, se é que ela está em algum lugar, cabe nesse instante resgatar acordos provisórios. Nós, enquanto trabalhadores de saúde, não podemos nos esconder da necessidade dessa busca, sob pena de condenarmos aqueles que estão morrendo a um suplício maior do que a própria morte. Este suplício é o abandono frente à situação mais atrativa e mais amedrontadora que encontramos nessa vida: a morte. Atrativa porque nossa curiosidade nos impele a buscar a grande descoberta sintetizada na pergunta: “existe alguma coisa do outro lado?”. Amedrontadora porque, existindo algo ou não, sempre tememos o que não conhecemos e sabemos que o conhecido estará perdido, em bruma, em dês-memória, como no “Diálogo dos Mortos”, de Luciano de Samósata. Pode parecer estranho, mas talvez sintamos um pouco de inveja daqueles que partem antes de nós, pois eles estarão produzindo a solução desse mistério. Quando o momento chegar, é bom ter alguém do lado que segure nossa mão ou nos ajude a recitar alguma oração. Fugir nessa hora, é fugir da nossa própria humanidade. Fugir da morte do outro é fugir da própria vida!
Sugestões de Leitura Sobre o Tema: vide livros referenciados em nosso blog
Este texto foi publicado em CARNEIRO, C., RUIZ. E.M., LANDIM, L.P. e SAMPAIO, J.J.C. (ORGs) Acolher Cidadão: Estratégia de aperfeiçoamento do SUS em Quixadá, Ceará. Fortaleza: EDUECE, 2006
FAVOR: AO CITAR REFERIR A FONTE










