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segunda-feira, 26 de julho de 2010

"A Dama e a Morte": Falando sobre o Morrer com Trabalhadores de Saúde (Erasmo Ruiz)





A morte é um tema que a primeira vista parece ser muito difícil de ser abordado. Duvidando dessa afirmativa, basta que você fale diretamente sobre o assunto num almoço de família. Será rapidamente convidado a mudar de assunto: "que conversa idiota é essa?", "tanta coisa para se conversar!"; "Isola, bate na madeira".
No trabalho em saúde, paradoxalmente, acontece fenômeno similar. As pessoas, apesar de muitas vezes lidarem com pacientes a beira da morte, agem como se nada estivesse acontecendo. A arte de fugir da morte é exercida na presença daqueles que vão morrer, seja numa conspiração silenciosa entre trabalhadores de saúde e familiares que impede a autonomia do paciente, seja pela incapacidade de se buscar novas instâncias e possibilidades de se lidar com a morte já que estaria consagrado o ethos de se lutar contra ela a qualquer preço: "enquanto houver vida há esperança!".
Mas enquanto houver vida, deve haver a dignidade de poder vive-la, com dor e sofrimento podendo ser atuados de forma adequada. Um primeiro passo para isso é falar sobre aquilo que ninguém quer falar. Avaliar os "ruídos", pensar nas possibilidades de se trabalhar de forma diferente. Não é esta a luta da Política Nacional de Humanização? Buscar novas formas de trabalho em saúde como uma condição fundamental para produzir em termos práticos o que se entenderia por trabalho humanizado? Assim, como humanizar o trabalho no entorno da morte.?
Caso você que esteja lendo este texto possa por algum momento refletir sobre esta questão, um primeiro passo seria asssistir esta animação espanhola de curta metragem que ganhou um Oscar esse ano. Ela pode servir para aquecer um debate entorno de questões sobre a morte e o morrer que acontecem no seu trabalho. Você deve estar se perguntando, por que um desenho ,animado, produto aparentemente feito para crianças, poderia ser usado para isso?
Bom, em primeiro lugar, essa animação está longe de ser algo infantil embora acredite que as crianças possam acha-la divertida, até porque toda a linguagem básica da animação está ali: ritmo, ação e uma boa história.
Uma senhora muito idosa relembra do marido já falecido. Adormece e morre serenamente. E lá está a morte a leva-la para os caminhos do além quando, repentinamente, algo parece sair errado. O médico a ressuscita! A partir dai é um frenesi alucinado, uma luta sem quartel entre a morte e os trabalhadores de saúde. Bom, vou parando por aqui pois não quero tirar o prazer de quem irá ver o desenho pela primeira vez. Mas inúmeras questões bioéticas podem ser trazidas a baila pelo desenho:
1) O Direito de Morrer com Dignidade
2) A Obstinação Terapêutica
3) O Tratamento Fútil
4) O Narcisismo do Trabalho em Saúde, em Particular de Alguns Médicos
5) Até Onde Podemos Atuar Terapeuticamente
6) A Problemática da Distanásia
Claro, muitas outras questões podem ser refletidas a partir dessa animação de apenas 8 minutos. Mas, depois de uma boa discussão os trabalhadores podem ser levados a pensar sobre o que acontece no serviço quando um paciente está morrendo e, posteriormente, quando a morte acontece. Mais especificamente, como a morte de pessoas estrutura processos de trabalho? Em que aspectos essas formas de se trabalhar geram gestos individuais e/ou coletivos que poderiam ser considerados desumanos? E uma pergunta que sempre cala fundo: caso o paciente que estivesse vivenciando a experiência da morte fosse alguém importante para mim, como julgaria o trabalho realizado pela equipe?
Deixo com vocês então o filme no  Youtube :




Eu costumo descer vídeos do youtube usando o Atube Catcher. Vocês podem baixa-lo aqui:
O programa é muito fácil de usar. Basta seguir as instruções postas no site e depois colocar o arquivo num pendrive e passar para todo mundo (um projetor pode tornar a tarefa mais com jeito de cinema)
Bom, como se dizia na Turma do Pernalonga: "Por enquanto é só pessoal"!

domingo, 10 de maio de 2009

Introdução à Tanatologia para Trabalhadores de Saúde: Última Parte (Erasmo Ruiz)


Assim, o cuidado deve acompanhar os dois extremos da vida. Da mesma forma que nos sentimos motivados a cuidar de um bebê, devemos nos motivar a oferecer todo o conforto material e espiritual que alguém precisa frente à experiência da própria morte para que, um dia, outra pessoa tenha mesma motivação para cuidar de cada um de nós. É injusto e eticamente condenável que no final da vida muitas pessoas se sintam abandonadas e solitárias ao enfrentar a própria morte. Para tal empreitada temos de pensar na morte, pois essa é uma das maneiras de se perceber a vida como um bem precioso, onde os momentos vistos como banais adquirem na verdade sua real magnitude.

Para finalizar, é óbvio dizer que ninguém que esteja lendo este texto gostaria de morrer sozinho. Uma maneira de refletirmos sobre a forma como estamos atendendo os nossos clientes fora de possibilidades terapêuticas é pensar que, se estivéssemos do outro lado, gostaríamos do modo de atendimento e se não existiriam outras maneiras mais acolhedoras, afetivas, respeitosas de atenção. Para atendermos pessoas que estejam morrendo temos de refletir sobre a própria mortalidade o que, a princípio pode ser algo doloroso, mas, de fato, é um processo existencial que nos leva a viver melhor na medida em que questionamos os rumos que nossa vida tem levado. Estar ao lado do paciente pode escancarar medos e angustias que precisam ser compreendidos com cuidado, pois o virtual sofrimento diante da morte enfrentado pelo paciente fará o profissional pensar: “e se fosse eu ou algum ser querido?”.


Nestes momentos é importante que você possa ter alguém para conversar. Não é vergonhoso se sentir triste e cheio de dúvidas. Quando você menos perceber, irá notar que seu medo na verdade é o medo de todo mundo. É essa compreensão que permitirá você cuidar melhor do outro, seja em sua morte-termo final, seja em sua morte-cotidiana, na medida em que, em parte a dor dele é também a sua dor, algo inerente ao fato de todos sermos humanos. Nessa hora a morte deixa de ser apenas um fenômeno biológico e passa a ser um fenômeno biográfico, pois envolve sempre a vida de alguém dotado de medos, anseios, dúvidas e conflitos. Pensar na morte, então, nos fará refletir sobre a vida não mais como um conjunto de sinais vitais que devemos monitorar, mas como um instrumento que nos permita sempre apreciar as belezas do mundo.

Neste sentido, muitas vezes as pessoas estão “mortas” mesmo que sejam preservados seus sinais vitais, pois a vida já se foi há muito tempo embaçado pela dor, pelo sofrimento e pela inconsciência. Compreender nossos limites frente ao atuar sobre o paciente não é assumir que somos incapazes ou incompetentes. Não podemos deixar que a vaidade tome conta do nosso lidar com a vida dos outros. Tomar consciência dos limites é, antes de tudo, trabalhar pela vida e não pela morte. Precisamos construir uma nova visão da morte que não a perceba mais como inimiga da vida, mas sim como seu complemento. Vida e morte formam uma totalidade e Erich Fromm já nos lembrava de que somos os únicos seres portadores, por vivos, de um poderoso instinto de sobrevivência e, por auto-conscientes, sabedores da inelutabilidade da morte.




Durante muito tempo o homem se viu diante da amargura frente à morte como bem ilustra Clarice Lispector ao afirmar que “É uma infâmia nascer para morrer não se sabe quando nem onde”, ou Machado de Assis ao falar “do legado aos vermes”. Outras vezes, estamos diante do absurdo de sua possibilidade que, repentina, se realiza como dizia Goethe: “a morte é uma impossibilidade que, de repente, se torna realidade”. Outras tantas, a morte nos força a buscar o porvir como nos avisa Quintana em seu poema intitulado “Inscrição para um Portão de Cemitério”:

Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce - uma estrela
Quando se morre – uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
“Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!”



Temos de continuar essa busca. Neste sentido, a morte é uma grande professora que diante de seu mais absoluto mistério nos seduz à busca de soluções. Independente de onde esteja a verdade, se é que ela está em algum lugar, cabe nesse instante resgatar acordos provisórios. Nós, enquanto trabalhadores de saúde, não podemos nos esconder da necessidade dessa busca, sob pena de condenarmos aqueles que estão morrendo a um suplício maior do que a própria morte. Este suplício é o abandono frente à situação mais atrativa e mais amedrontadora que encontramos nessa vida: a morte. Atrativa porque nossa curiosidade nos impele a buscar a grande descoberta sintetizada na pergunta: “existe alguma coisa do outro lado?”. Amedrontadora porque, existindo algo ou não, sempre tememos o que não conhecemos e sabemos que o conhecido estará perdido, em bruma, em dês-memória, como no “Diálogo dos Mortos”, de Luciano de Samósata. Pode parecer estranho, mas talvez sintamos um pouco de inveja daqueles que partem antes de nós, pois eles estarão produzindo a solução desse mistério. Quando o momento chegar, é bom ter alguém do lado que segure nossa mão ou nos ajude a recitar alguma oração. Fugir nessa hora, é fugir da nossa própria humanidade. Fugir da morte do outro é fugir da própria vida!


Sugestões de Leitura Sobre o Tema: vide livros referenciados em nosso blog


Este texto foi publicado em CARNEIRO, C., RUIZ. E.M., LANDIM, L.P. e SAMPAIO, J.J.C. (ORGs) Acolher Cidadão: Estratégia de aperfeiçoamento do SUS em Quixadá, Ceará. Fortaleza: EDUECE, 2006

FAVOR: AO CITAR REFERIR A FONTE

sábado, 9 de maio de 2009

Introdução à Tanatologia para Trabalhadores de Saúde: Segunda Parte (Erasmo Ruiz)

Aqui chegamos a uma definição de tanatologia. A palavra vem de Thanatos, deus grego da morte, irmão do “Sono”. A expressão “logia” vem de logos, saber, estudo. Sendo assim, uma definição possível para a Tanatologia seria a de ciência que estuda as atitudes que o homem tem diante da morte e do morrer. Essa definição pode parecer estranha a princípio quando, olhando a nossa volta, imaginamos a expressão “atitude” como a ação que veríamos quando as pessoas sabem da morte e participam dos rituais fúnebres. É isso, mas também são muitas outras coisas. Atitude aqui implica também em “pensamento”, “subjetividade”, “arte”, “cultura”, “religião”, “literatura”, “comportamento”. Assim, a Tanatologia se interessa por todas as ações, atitudes e representações que o homem realiza quando elabora questões relacionadas à morte e o morrer.

Convém destacar que, entre as muitas atitudes diante da morte e do morrer, o medo é sem dúvida a mais comum. Para o trabalhador de saúde esse é um aspecto muito importante, ajudando a entender porque, muitas vezes, é tão difícil manter uma comunicação saudável com um doente fora de possibilidades terapêuticas. Neste caso, o doente transforma-se simbolicamente no objeto de maior temor. O não preparo para lidar com a própria morte implica em relativa incapacidade para se lidar com a morte do outro. Vamos então discutir porque a morte seria tão amedrontadora.



O fato do homem ser o único animal que sabe que vai morrer provoca o que os filósofos existencialistas chamam de solidão extrema. Embora todas as pessoas morram, tanto a minha morte como a sua são eventos absolutamente pessoais. Ninguém pode viver a morte do outro. Além disso, a morte provoca as amputações afetivas. O preço que pagamos por permanecermos vivos é a convivência cotidiana com a morte e com estas amputações. Em parte, essa convivência se dá de forma abstrata, pois, na imensa maioria das vezes, quando presenciamos a morte, a vemos como um evento distante, jornalístico ou artístico. Quando ouvimos na TV que ocorreu mais um atentado no Oriente Médio, a probabilidade de conhecermos uma das vítimas é muito remota. Nos filmes, a morte é vivenciada no seu limite mais dramático e elaborado, conseqüência quase sempre de conflitos que oferecem dinamismo à estória. O problema real da morte é quando ela se apresenta como evento concreto, quando perdemos alguém próximo. Normalmente, diante deste fato, nós tendemos a expressar o luto emocionado. É deste sofrimento oriundo da morte que queremos a todo custo escapar já que não queremos enfrentar a perda de quem amamos.

A morte também sinaliza às perdas das possibilidades. Significa dizer que, em algum momento, teremos uma atividade interrompida de forma inesperada. Durante a vida toda temos que, de forma gradual e outras repentina, abrir mão de coisas. Nossos corpos se desgastam, o envelhecimento produz a perda gradual de capacidades. Significa dizer que, a todo instante, a vida nos lembra que a morte se aproxima, quer gostemos ou não dessa idéia. Lembrar das perdas graduais significa ter que lembrar a perda definitiva de nós mesmos que a morte representa.



Antes o homem se achava preparado para o enfrentamento dessa questão básica. Hoje, com o fim das explicações gerais sobre a morte, ela deixou de ser um terreno exclusivo da religião transformando-se em mais um dos objetos da ciência. A ciência mesma é a grande fonte de nossas dúvidas e certezas, é ela que garante possibilidades de vida maior e mais segura. O problema é que ela não debelou aquilo que é considerado mal maior: a morte. Ora, é a ciência com seu complexo quadro de saberes que afirma a finitude como absoluta e, ao mesmo tempo, tenta nos instrumentalizar contra a morte a partir da noção de microorganismo, dos procedimentos higiênicos, das práticas de anestesia que revolucionaram a cirurgia, da farmacologia e seu arsenal cada vez mais eficiente de drogas “miraculosas”. Todo esse conhecimento criou a ilusão de que a morte pode ser detida indefinidamente, gerando aquilo que muitos estudiosos chamam de “fantasia de onipotência dos profissionais de saúde”. Essa onipotência é destruída diante da morte, pois os saberes falha na medida em que o moribundo sinaliza seus limites. Aqui nos defrontamos com outro motivo do afastamento das pessoas que estão morrendo. Em parte, queremos nos afastar não só porque elas representam a morte mas também porque elas ferem nossas vaidades ao negarem a eficiência absoluta do saber que utilizamos. A morte do meu cliente lembra inevitável, dolorosa e imediatamente a minha própria mortalidade.



Óbvio dizer que todos nós desejamos o bem estar das pessoas. Este é o dever fundamental de todo o ser humano. No caso dos profissionais de saúde, este dever ético é impregnado pela ação técnica e pelo conhecimento que lhe dá sustentação. Quando afirmamos que as pessoas tendem a se afastar dos moribundos não estamos dizendo que isso é algo livremente escolhido pelos trabalhadores. Na maior parte das vezes acontece pela mistura trágica do medo e da desinformação com os processos inconscientes (determinadas forças que atuam em nossa mente sem que tenhamos clareza de sua presença e existência). Assim, esse processo não ocorre por “maldade latente”. Tomar consciência dele é de fundamental importância para que possamos lidar melhor com o paciente e, dessa forma, lidar melhor com nossas limitações e medos.


Aqui precisamos nos deter nos conceitos de eutanásia e distanásia. A expressão “eutanásia” quer dizer “boa morte” em grego. Durante séculos o homem foi capaz de sua prática por entender que diante do sofrimento da morte (em particular as dores físicas intensas provocadas por algumas doenças) era lícito abreviar a dor provocando a morte diretamente. Os cavaleiros medievais portavam uma pequena lança ao lado das selas dos cavalos chamada de “misericórdia”, usada para abreviar o sofrimento dos companheiros feridos mortalmente. Fazia parte das antigas artes médicas o preparo de poções que induziam os pacientes à morte. Com o desenvolvimento da medicina e com a implementação da visão cristã de mundo, tal prática passou a ser considerada inaceitável. No entanto, é lícito pensarmos na eutanásia passiva, situação na qual o paciente vem a morrer pela suspensão de tratamentos que ao invés de produzirem melhora terapêutica, só aumentariam desnecessariamente o tempo de vida sem nenhuma implementação da qualidade dessa mesma vida. Em outras circunstâncias, a morte pode ser apressada pelo uso de substâncias que tem o objetivo primário de reduzir a dor e o sofrimento como no caso da sedação. Nesta situação também estamos falando em eutanásia passiva na medida em que a sedação não é usada diretamente para abreviar a vida e sim para reduzir o sofrimento.


Em muitas circunstâncias, seja pela pressão de familiares ou pela obstinação do terapeuta em continuar atuando indefinidamente, a vida do paciente pode ser aumentada sem que haja qualquer benefício prático para ele mesmo, aumentando a dor e o sofrimento. Aqui estamos falando em distanásia. Se antes os médicos estavam ao lado do paciente em seu leito e eram quase sempre acompanhantes do desenvolver da doença, a crescente capacidade de intervir parece não sinalizar claramente em que momento temos que começar a atuar para, novamente, acompanhar a chegada da morte como conseqüência da vida. Esse foi um dos aspectos que se perdeu na relação do homem contemporâneo com a morte. Ela deixou de ser vista como um evento natural da vida e passou a ser significada como “doença”, “maldição”, “ato vergonhoso”, etc.

Gostaríamos agora de compartilhar algumas questões que, acreditamos, devem acompanhar sempre os trabalhadores de saúde quando pensam a questão da morte. Ao negar a morte não estaríamos deixando de ver nossos pacientes em suas necessidades mais básicas, inclusa a necessidade de morrer em conforto? Estamos na verdade buscando curar a doença ou queremos na verdade “curar” a morte? Nossa tecnologia médica não está querendo assumir os espaços antes deixados à religião? Em que momento nossos saberes e práticas terapêuticas podem se transformar em instrumentos de tortura?



Continua em futuro post

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Introdução à Tanatologia para Trabalhadores de Saúde: Primeira Parte (Erasmo Ruiz)




Falar sobre a morte é algo sempre desafiador. Não que o tema esteja afastado da vida de todos. Estamos longe de sermos leigos a respeito da morte, pois a temos como “companheira” desde o momento em que nascemos. Um dia, sem retoques, ela apareceu em nossas vidas nos forçando a buscar sentidos que pudessem explicá-la. Pode ter sido no dia em que perdemos um avô, um amigo na tenra infância, ou então, um animal de estimação, daqueles que era tratado como gente. Para Graciliano Ramos, a dor de ter de matar “Baleia”, a cadelinha de “Vidas Secas”, era exatamente essa. Ela havia deixado de ser um animalzinho e já se transformara em gente. É no contato com a morte do outro que buscamos algum sentido para nossa vida e a nossa morte. É disso que trata a música “Canto Para Minha Morte”, transcrita a seguir, de Raul Seixas:
Canto Para Minha Morte



Eu sei que determinada rua que eu já passei
Não tornará a ouvir o som dos meus passos.
Tem uma revista que eu guardo há muitos anos
E que nunca mais eu vou abrir.
Cada vez que eu me despeço de uma pessoa
Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela ultima vez.
A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu não sei em que esquina ela vai me beijar
Com que rosto ela virá?
Será que ela vai deixar eu acabar
o que eu tenho que fazer?
Ou será que ela vai me pegar
no meio do copo de uísque
Na música que eu deixei para compor amanhã?
Será que ela vai esperar eu apagar
o cigarro no cinzeiro?
Virá antes de eu encontrar a mulher,
a mulher que me foi destinada,
E que está em algum lugar me esperando
Embora eu ainda não a conheça?
Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho
Que eu quero e não desejo
,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez
seja o segredo desta vida
Qual será a forma da minha morte?
Uma das tantas coisas
que eu não escolhi na vida?
Existem tantas... um acidente de carro.
O coração que se recusa
a bater no próximo minuto
A anestesia mal aplicada.
A vida mal vivida, a ferida mal curada,
a dor já envelhecida
O câncer já espalhado e ainda escondido,
ou até, quem sabe
Um escorregão idiota, num dia de sol,
a cabeça no meio-fio...
Oh morte, tu que és tão forte,
Que matas o gato, o rato e o homem
Vista-se com a tua mais bela roupa
quando vieres me buscar
Que meu corpo seja cremado
e que minhas cinzas alimentem a erva
E que a erva alimente outro homem como eu
Porque eu continuarei neste homem
Nos meus filhos, na palavra rude
Que eu disse para alguém que não gostava
E até no uísque que eu
não terminei de beber aquela noite...
Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho
que eu quero e não desejo,
mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida

A primeira descoberta a respeito da morte diz respeito ao seu caráter de irreversibilidade. A irreversibilidade sinaliza para os projetos que serão irremediavelmente interrompidos. É este o sentido do desconhecido apontado por Raul Seixas em sua música. Além de irreversível, a morte nos apresenta uma experiência da qual não podemos voltar para contar aos outros. Assim, ela sinaliza a necessidade de nos prepararmos para ela. Por isso, a fantasia de pensar como ela vai acontecer. Note bem que a princípio poderíamos dizer que Raul Seixas está sendo mórbido, de modo especial, obsessivamente preocupado com as possíveis formas que pode morrer. Entretanto, quem de nós não tem essa preocupação? Parece algo que faz parte da nossa condição humana. Somos seres humanos, entre outras características, porque sabemos que um dia iremos morrer.

Talvez venha daí a necessidade que sempre tivemos de dar uma face minimamente humana à morte quando a idealizamos como um homem acobertado por um manto e capuz, por exemplo. É isso que Raul faz ao imaginar a morte como uma mulher, recurso muito utilizado pela arte. Na música, ela aparece vestida de cetim, alguém que queremos beijar, mas, ao mesmo tempo, queremos nos afastar. O ritmo da melodia da música é o compasso de um tango. Bela metáfora! O tango é uma dança muito sedutora e repleta de ambigüidades, ora agressiva, ora carinhosa. Não estaríamos dançando, sensualmente, com a morte, o tempo todo?

É o que nos sinaliza a história. Todas as religiões sempre tiveram preocupação em explicar a morte. Antes delas, o Homem de Neanderthal, há mais de 100.000 anos, enterrava seus mortos com suas lanças e flechas, numa clara evidência que já imaginavam um porvir. E as pirâmides? Não são imensos túmulos? A morte faz tanto parte de nossas vidas que muitos filósofos definem o homem como um “ser para a morte”. Os poetas captaram isso com toda a sensibilidade. Vejam o que nos diz MarioQuintana:




Minha morte nasceu quando eu nasci.
Despertou, balbuciou, cresceu comigo...
E dançamos de roda ao luar amigo
Na pequenina rua em que vivi.

Ou então, Vinícius de Moraes, falando sobre o final da vida:




Resta esse diálogo cotidiano com a morte
esse fascínio pelo momento a vir, quando, emocionada
ela virá me abrir a porta como uma velha amante
sem saber que é a minha mais nova namorada.


Essa é uma verdade que transcende o lirismo da poesia. Nunca conseguimos aceitá-la em toda sua plenitude. Sempre tivemos que lançar mão da religião, dos mitos e da filosofia para retirar da morte seu sentido natural e biológico, dotando-a de sentido humano. O que, afinal, é o que fazemos com todas as coisas, no vir-a-ser importantes para nós. Antigamente essa parecia ser uma tarefa mais fácil. As pessoas tinham a morte em seu cotidiano, ela era vivenciada desde a infância. Os moribundos presidiam sua agonia, ditavam seus últimos desejos: como ocorreriam os ritos funerários, como seria seu túmulo, o que estaria inscrito nele. Os testamentos não eram apenas documentos que repartiam bens. Eram textos de exortação moral, ou seja, a vontade do morto tentava regular a ação dos vivos, havia aquilo que os estudiosos chamavam de ars moriendi, uma arte de morrer. Essa arte era desenvolvida e aprimorada pelas instituições sociais, pela arte, pela literatura, pelas religiões; de tal forma que, diante da impossibilidade de remediar a morte, os homens diante dela sabiam exatamente o que deveriam fazer.

Parece que hoje em dia não há mais uma mobilização da vida coletiva em torno dessa questão que estimule a produção de uma arte de morrer, na verdade, essa questão aparece sempre pelo seu reverso, numa ânsia sem limites que estruture suas forças na produção de uma arte de fugir da morte. Como nos mostra o clássico filme de Bergman – “O Sétimo Selo” - não podemos de fato fugir da morte, ela já está conosco desde sempre. Se antes os homens a enfrentavam, agora nos escondemos pela ilusão dela estar controlada. Se antes existiam complexos processos socializadores que literalmente ensinavam pessoas a morrerem, agora as crianças são poupadas ou enganadas quando querem saber mais a respeito.


Cena de "O Sétimo Selo": O jogo de xarez com a morte



Ora, se o brinquedo sempre foi útil não só pela sua dimensão naturalmente lúdica como também pelo seu caráter pedagógico e dramático, cabem as perguntas: nossas crianças tiveram carrinhos funerários de brinquedo? Foram reprimidas ao reproduzir ritos funerários quando da perda de animais de estimação? Puderam presenciar parte significativa das vivências de perdas de adultos mais velhos? Assim, discutir sobre a morte não significa adquirir um gosto mórbido pelo viver nem assumir uma perspectiva negativa diante das coisas. Trata-se de resgatar um aspecto da existência que todos teremos de vivenciar e, portanto, devemos nos preparar para tal. Essa visão negativa associada à morte é uma decorrência da nossa incapacidade de falar e de lidar com a morte e o morrer.



Poderíamos perguntar se “morte” e “morrer” são a mesma coisa. Quando falamos em morte dizemos respeito a um processo que atinge indiscriminadamente todos os seres vivos. Neste sentido, estamos irmanados a uma bactéria. Ela, enquanto entidade biológica, também irá morrer. Mas a morte enquanto ato de morrer se expressa de forma diferenciada. Podemos pensar numa pessoa muito rica morrendo de desnutrição? Tal evento pode até acontecer, mas em situações limite, como nos casos da anorexia. A morte por desnutrição é fruto da miséria, de sociedades que não conseguem equanimizar o acesso sequer aos seus bens materiais. Da mesma forma, é muito difícil imaginar que uma criança, filha de pessoas ricas, morra de desidratação. Da mesma forma, a tendência de ricos morrerem mais velhos e de doenças crônico-degenerativas, quando comparados aos pobres, é um dado que pode ser obtido nos estudos de Epidemiologia. Todos nós morreremos um dia, mas a forma como morremos diz respeito a classe social, estilo de vida, possibilidades de acesso às coisas que são produzidas, nível educacional etc.

(continuará em outro post)