Mostrando postagens com marcador cinema. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cinema. Mostrar todas as postagens

domingo, 16 de outubro de 2011

A ausência e o medo do fim no filme Melancolia (Sarah de Sousa)



Melancholia é o novo filme do diretor Lars von Trier. Ele conta a história dos últimos dias antes de um Planeta chamado Melacolia colidir com a Terra.
Nesse tempo Justine (Kirsten Dunst), que celebra seu casamento com Michael (Alexander Skarsgård), vai ao longo da trama demostrando sua angústia de viver permeada por cenas de uma tristeza vaga que aos poucos a domina e a faz questionar a natureza da humanidade. Sua irmã Claire (Charlotte Gainsbourg) gosta de ter os fatos sobre seu controle, ao contrário de Justine que parece conformada, desenvolve um pavor do fim, a iminência da perda a faz entrar em fuga dos acontecimentos. Vários questionamentos vão surgindo na mente dos que assistem a película: como lidar como o medo da morte diante de uma ameaça eminente? É possível deixar, como Justine, que o sentimento de conservação nos abandone? A relação entre dois personagens com perspectivas diferentes trás um conflito chave: como se portar diante do fim?


Seria o medo que Claire possui o resultado de uma vida ‘’não vivida’’? Existirá algum ser humano que considere sua vida em plenitude ao ponto de esquecer tal temor?


O enredo se desenvolve com a visão da inevitabilidade e uma espécie de ‘’eu sabia’’ em Justine, toda sua melancolia é transformada em um sentimento de profecia quando o planeta parece cada vez mais próximo da Terra.


Claire vê tudo como o fim do  que conhece e pode controlar: seu filho, seu marido, sua irmã depressiva que necessita de seus cuidados. Compreender o que parecia inevitável estava além daquilo que permite para si.



O filme é provocante e termina com a certeza de não há escapatória, o mundo acabará e a humanidade terá seu final dramático.



Veja aqui o trailer de "Melancolia":













quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Comentários sobre o Filme "Zorba: O Grego": Um Hino a Existência! (Erasmo Ruiz)



Fui provocado por um email mandado por Paulo Eliézer, estudante de medicina da UECE que tenho o prazer de ter como aluno. Comentava a respeito de dois links do youtube mostrando o imortal Anthony Quinn dançando na famosa cena de "Zorba o Grego" aos 49 anos e, depois, num show, que reproduzia a cena aos 84 anos. Imediatamente me veio a idéia de comentar a respeito do filme e do vídeo em que o velho ator voltava a dançar.



Zorba é um filme feito em 1964 que tem seu roteiro inspirado a partir do livro de mesmo nome do escritor grego Nikos Kazantzakis. Um escritor chamado Basil, de origem grega e britânica, volta a terra natal  de seu pai, a ilha de Creta, esperando com esse retorno superar uma crise de criatividade. Enquanto aguarda o embarque no navio que o levará a Creta, conhece Zorba, um grego de origem camponesa de modos simples, rústicos, uma pessoa intensa e ativa. Um de seus apelidos é "Epidemia" pois por onde chega ele espalha o caos.





Imediatamente surge uma relação de simpatia entre os dois. Zorba pede a ele para seguir junto na viagem. Assim, poderia ser interprete e cozinheiro. Basil compartilha seus planos de reativar uma antiga mina. Quando descobre que Zorba tem experiência em mineração, resolve contratá-lo imediatamente.





Com o passar do tempo, a relação de trabalho entre os dois acaba sendo suplantada pela relação de amizade. Zorba é a antítese de seu chefe. Enquanto ele é cheio de vida, Basil é recatado é tímido. Enquanto Zorba não mede esforços para buscar tudo o que a vida pode oferecer de belo e prazeroso, incluso o amor carnal, Basil acha que os prazeres da vida poderão distraí-lo de seus obejtivos.





No encontro desses dois personagens, um hino à intensidade da vida e uma crítica a mortificação da existência produzida pelos valores de base cristã vão sendo tecidos. Ao assisitir o filme não há como não deixar de questionar os rumos que estamos dando à nossa existência. No final das contas ,talvez Pablo Picasso estivesse certo quando nos alertava que o problema principal da vida não é a morte mas sim morrermos enquanto vivemos, ao postergar a existência e a intensidade da vida, dexiando-as num segundo plano frente a valores e objetivos que nos são impostos.





O filme é puro cinema como arte. Envelheceu nesses quase 50 anos de forma digma, aliás, como envelheceu Anthony Quinn que, a julgar pela sua biografia, teve muito de Zorba em sua vida. Abaixo a cena do filme e, trinta e cinco anos depois, Quinn-Zorba ainda cheio de vida nos alertando que a existência é uma dádiva e a mortificação da vida, um pecado mortal contra o existir!









O FILME













O SHOW

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O FILME "SUBSTITUTOS" E A RELAÇÃO DA HUMANIDADE COM O MORRER: COMO SALVAR A HUMANIDADE DA MORTE? (Renata Façanha*)





De acordo com a psicanálise, inexiste no inconsciente humano qualquer representação simbólica da morte. A morte permeia o inominável, o obscuro. A morte é o real nome da total impotência humana diante da grandeza do universo. No entanto, se, por um lado, a morte é irrepresentável, inaceitável ao homem em seu complexo de super-herói, por outro, caminhamos, mesmo quando ainda nem sabemos, em direção a ela – alguns a passos mais lentos, outros, em uma corrida desenfreada –.
Os psicanalistas também dizem que todas as criações humanas advêm de vazio fundante do ser humano que somos, como uma eterna busca para recuperar algo que nem sabemos o que é, mas queremos, uma espécie de nostalgia do objeto perdido. Assim, criamos porque algo nos falta, mas aquilo que criamos nunca é aquilo que nos falta realmente: é sempre e sempre outra coisa qualquer. Freudianos a parte, criamos, estudamos, trabalhamos também porque simplesmente nós desejamos atingir, ilusoriamente, a imortalidade – simbolicamente a princípio, mas, literalmente se não for pedir demais – .
O recente boom dos centros de estética e beleza mostra nossa necessidade de disfarçar nossa condição falha, imperfeita e suscetível à morte. Aliás, em uma rápida pesquisa no novo fenômeno de marketing, os sites de compras coletivas, percebemos que ofertas de peelings, massagens redutoras de gorduras e cabelereiros ocupam o ranking de ofertas. Isso porque precisamos que nosso corpo exale vitalidade, desejamos ficar mais jovens, retardar a marcha do tempo que impreterivelmente p a s s a á revelia de nosso desejo. Precisamos ser saudáveis. A vida com adoçante e sem sal é muito mais segura, ainda que sem graça, gosto ou gordura trans...
Também tememos sair de casa, compramos pela internet, não falamos com estranhos, temos medo de batida de carro e assalto a mão armada. Relacionar-se através da segurança virtual é muito mais interessante que tomar uma cerveja com amigos em qualquer mesa de bar. Escondemo-nos uns dos outros. Contato físico? Só do médico.  
E se pudéssemos viver, trabalhar, andar pelas ruas, transar, através de máquinas enquanto protegemos deixamos nosso corpo enclausurado em quartos? O filme Surgates retrata na ficção esta hipótese de forma tão trágica que beira a comicidade: em 2054 uma empresa – VSI – cria uma máquina capaz de substituir o corpo humano em suas atividades diárias: o seu operador pode fazer todas as atividades do conforto de seu quarto e o melhor, a máquina, ou substituto, ocupa a forma de um ser humano esteticamente tão idealizado quanto o seu operador queira. Logo, todas as pessoas ficam se trancafiam para encarar o mundo vivem através de seu substituto. Agora a humanidade está em segurança de si mesmo: é o substituto quem se destrói em casos de violência. É o substituto quem trabalha, estuda, sai de casa. O sexo nunca ficou tão seguro depois deles.
Em meio a essa sociedade asséptica, grupos de dissidentes vivem em reservas – é preciso preservar o que está em extinção – sem qualquer aparato tecnológico. As pessoas que resolvem viver fora da reserva sem um substituto são chamadas pejorativamente de “saco de carne”. Assim, um ser humano sem o seu substituto é sumariamente desprezado, negado, isolado, repudiado porque se transfigura na própria imagem da morte. Um homem sem o seu substituto lembra aos demais a fragilidade da vida, o irremediável da morte e da imperfeição da existência humana.
A trama se desenrola a partir da criação de uma arma letal em poder de uns dos ex-sócios da VSI, a arma, quando disparada contra um substituto, tem o poder de liquidá-lo, mas também danifica seu chip de segurança, dispositivo criado assegurar que o operador fique incólume diante de possíveis agressões físicas ao seu substituto. Assim, não apenas o substituto morre, mas o seu operador é eliminado mesmo a quilômetros de distância de sua máquina. O clímax do filme aloca novamente o homem em sua posição primordial de fragilidade em relação à morte, à falta de controle as intempéries da rotina: ainda não é dessa vez que o ser humano encontra a fórmula da vida eterna.
No final, o próprio paradoxo da existência humana: avatares com suas cores vivas, suas belezas atemporais perfeitas, caídos no chão como corpos mortos inertes representando a morte da juventude e da perfeição estética enquanto, ainda tímidos, pessoas com suas cores mórbidas, gordas, caquéticas e malcuidadas saem às ruas. A vida fragilidade humana contrastando com a perfeição morta parece mostrar a humanidade em processo de aceitação da falibilidade do conhecimento humano para lidar com a morte, como uma metáfora de toda a tecnologia e conhecimento humano aos pés da invencível fugacidade da vida.       
*Renata Façannha é acadêmica de Psicologia da Universidade Estadual do Ceará

sábado, 16 de abril de 2011

Vida e Morte em "Blade Runner": Quem São os Replicantes? (Erasmo Ruiz)





Muito já  foi escrito sobre Blade Runner e este texto comete o atrevimento de ser apenas mais um que pode ou não ter algo a mais para oferecer. Mas para ser sincero, não estou preocupado necessariamente em ser original, apenas em escrever alguma coisa que ache importante sobre este filme para refletirmos sobre a questão da morte e do morrer.
            
             
Antes, principalmente para aqueles que não viram o filme, vamos a um breve resumo. Por volta de 2020 as viagens espaciais e a engenharia genética fazem parte do cotidiano, estão banalizados. O filme passa-se numa Los Angeles onde quem governa a sociedade são as grandes corporações empresariais. A cidade mostra-se paradoxal. Por um lado fica evidente os avanços tecnológicos e suas conseqüências positivas, de outro, nos deparamos com os pesadelos gerados por ela: poluição ambiental – o filme faz o prodígio técnico de reproduzir uma fotografia “noir” em cores – com muita chuva ácida e sol quase que escondido o tempo todo pela fuligem e núvens - e uma superpopulação metaforizada em cenas de multidões se acotovelando em meio a vendedores ambulantes que expressam um multiculturalismo a partir da babel de línguas e produtos de todas as partes do mundo.  






Mas existem outras divisões neste mundo. A população é formada por homens e pelos replicantes, cópias geneticamente potencializadas dos seres humanos, produzidos pela Tyrel Corporation para trabalharem como escravos nas colônias fora do planeta. Embora em tudo sejam superiores aos humanos, os replicantes tem um problema básico. São programados para durarem no máximo 4 anos. Essa medida expressa-se como forma de controle caso os replicantes questionem sua identidade de escravos e resolvam agir por conta própria. Quando isso acontece, um grupo de policiais é utilizado para exterminá-los, são os “Blade Runners”. Aqui se centra a ação do filme. Um Blade Runner interpretado por Harrison Ford sai a caça de um grupo de replicantes em fuga. Mas esta caçada não será como as outras.






Um dos grandes problemas dos filmes de ficção científica é o envelhecimento precoce. Alguns inclusive já nascem com sua estética futurista completamente comprometida com o presente onde o filme é feito. Essa é uma das coisas que surpreende em “Blade Runner”. Apesar de ter sido filmado em 1982, o filme continua surpreendentemente novo em sua estética e figurinos e, dessa forma, nos ilude com sua proposta de se passar no futuro. Mas sob outro ponto de vista, o filme é tão velho quando os artefatos de pedra deixados pelo homens pré-históricos.


A narrativa, como um bom filme de estilo policial, nos prende num primeiro momento pela ações de perseguição ao velho estilo maniqueista do “bem” contra o “mal”. Mas já na primeira terça parte do filme fica evidente que não podemos mais estar presos a estas fáceis dicotomias até porque o problema central trazido pelos replicantes em fuga é a questão existencial não só de todos os personagens do filme mas também da platéia que o assiste. Na verdade, o filme projeta num futuro distante problemas humanos vivenciados por todos aqui e agora. Além de nos reponsabilizar pelo mundo poluído e insolvente, nos coloca o problema da inevitabilidade da morte e o que podemos fazer diante disso. Como nos sentimos diante de uma vida que pode se extinguir a qualquer momento? E não estamos falando apenas da vida do outro, mas principalmente da nossa vida!




Este é o conflito existencial dos replicantes. Querem saber de sua origem, querem entender como foram feitos, querem buscar mais tempo de vida, querem interromper o processo de programação genética que os leva a passos rápidos à morte. Para tal objetivo não medem esforços. Num misto de curiosidade e raiva tipicamente infantil, são curiosos, criativos e extremamente violentos. Um dos pontos altos do filme é quando o líder dos replicantes, interpretado por Rutger Hauer, se encontra com seu criador e lhe propõe as tais questões fundamentais. Qualquer coincidência com uma platéia em busca do “religare” não será uma coincidência!


A cena final, quando o policial e o replicante lutam sua batalha pessoal e coletiva onde vida e morte se defrontam, é o momento mais belo do filme. O homem e o super-homem estão finalmente um diante do outro para descobrirem que na verdade a única coisa que os difere é tão somente a força física. Depois de subjugar o policial, o replicante parece olhá-lo num misto de curiosidade e comiseração. Parece estar diante do espelho. Por estar morrendo, é tomado então por um olhar quase que em êxtase diante da vida que finda e, assim, poupa o policial. As últimas falas do replicante são um resumo de sua vida, uma especulação sobre o sentido disso tudo, uma exaltação a própria existência individual em busca de memória. Como um pensador de Rodin...reflete...enquanto morre sob a fraca opacidade de uma luz constante em meio a chuva interminável.




Assim, saímos do cinema muito entretidos...ficam no entanto algumas perguntinhas que “saíram” da tela e nos acompanham pelo resto da vida. Por que temos de morrer? Existe algum sentido nisso tudo? Como fazer para conseguir mais tempo? O que será de minhas memórias quando me for desse mundo? Todos nós somos “replicantes”!!!??

domingo, 6 de março de 2011

A Morte do Sr Lazarescu (Erasmo Ruiz)



Eu adoro o carnaval...pelos dias de folga que a festa permite. Momento de colocar a vida em ordem, um pouco de trabalho chato da rotina de professor e, ao mesmo tempo, permite que a gente coloque em dia a lista interminável de filmes ainda não vistos.









Neste carnaval tive a alegria e a tensão de assistir "A Morte do Sr Lazarescu", uma produção romena de 2006 do Diretor Cristi Puiu,   muito elogiada na época de seu lançamento embora os elogios não fossem unânimes. Particularmente, gostei do filme. Mas vamos a um breve resumo do seu enredo.



O Sr Lazarescu é um home de mais de 60 anos que repentinamente começa a sentir dores abdominais e desconforto físico generalizado. A sua primeira dificuldade é sensibliizar alguém para o seu problema. Decide chamar uma ambulância mas isso é um luxo diante da precariedade do serviço de saúde que desloca suas ambulâncias para casos considerados mais graves. O fato de ser alcoolista também não sensibiliza os vizinhos que "diagnosticam" seus sintomas como reflexos de mais uma bebedeira. Começa então sua saga por inúmeros serviços de saúde onde ele é empurrado de um lado para o outro como um objeto inútil sem qualquer esclarecimento sobre o que estaria acontecendo com ele.



Embora o filme se anuncie como uma comédia, não esperem por humor fácil nesse filme. Se você for trabalhador de saúde e se pegar rindo entre uma cena e outra, há alguma coisa errada e com certeza não será com o filme. O diretor é extremamente objetivo em mostrar um drama peculiar aos pobres e miseráveis mas que pode não parecer ter muito sentido se você usufrui de algumas das benécias da classe média. Fala de solidão e abandono, aquela solidão terrível sentida pelos velhos em meio a pessoas que mal lhes dirigem a palavra, aquela solidão que faz o indivíduo se olhar no espelho e ansioso perceber que está sozinho diante da própria morte mesmo que o mundo esteja do seu lado.



O realismo do filme pode ser extremamente desagradável, principalmente quando fica claramente exposto que todos os profissionais que manuseiam o corpo do Sr Lazarescu não se importam com seu destino enquanto ser hmano já que ele é esquadrinhado como uma coisa, uma máquina velha com problemas em algumas peças. E todas essas pessoas tem que manejar a própria vida e, de certa forma, estão também solitárias numa sociedade que cada vez mais exalta o individualismo.





Preso entre um humor mórbido e a tragédia, o personagem do filme e seus cenários constroem um mundo em desencanto, pincelam aquilo que parece existir de pior na contemporaneidade resumida na figura fria e cínica dos médicos e de quase todas as enfermeiras. O alento vem de uma das enfermeiras que insiste em estar ao lado de Lazarescu por toda sua jornada.



Mas o que me deixou mais triste foi perceber que muito do filme já encontrei pela minha vida pessoal. Antes a arte de "A Morte do Sr Lazarescu" fosse algum exagero surreal ou uma metáfora da Romenia pós socialismo. Não,  o filme não tem nenhuma pretensão metafórica. É apenas uma denúncia do que acontece na vida de milhares de pessoas anônimas nos corredores de hospitais sem resolutividade. Esses rostos anônimos com biografias anônimas para aqueles que os atendem, caminham em busca desesperada de salvação mas esbarram nos muros da burocracia das instituições com o fel do tempero da indiferença e do individualismo.



O filme se passa em Bucareste na Romênia mas está acontecendo agora mesmo em qualquer cidade brasileira!

segunda-feira, 26 de julho de 2010

"A Dama e a Morte": Falando sobre o Morrer com Trabalhadores de Saúde (Erasmo Ruiz)





A morte é um tema que a primeira vista parece ser muito difícil de ser abordado. Duvidando dessa afirmativa, basta que você fale diretamente sobre o assunto num almoço de família. Será rapidamente convidado a mudar de assunto: "que conversa idiota é essa?", "tanta coisa para se conversar!"; "Isola, bate na madeira".
No trabalho em saúde, paradoxalmente, acontece fenômeno similar. As pessoas, apesar de muitas vezes lidarem com pacientes a beira da morte, agem como se nada estivesse acontecendo. A arte de fugir da morte é exercida na presença daqueles que vão morrer, seja numa conspiração silenciosa entre trabalhadores de saúde e familiares que impede a autonomia do paciente, seja pela incapacidade de se buscar novas instâncias e possibilidades de se lidar com a morte já que estaria consagrado o ethos de se lutar contra ela a qualquer preço: "enquanto houver vida há esperança!".
Mas enquanto houver vida, deve haver a dignidade de poder vive-la, com dor e sofrimento podendo ser atuados de forma adequada. Um primeiro passo para isso é falar sobre aquilo que ninguém quer falar. Avaliar os "ruídos", pensar nas possibilidades de se trabalhar de forma diferente. Não é esta a luta da Política Nacional de Humanização? Buscar novas formas de trabalho em saúde como uma condição fundamental para produzir em termos práticos o que se entenderia por trabalho humanizado? Assim, como humanizar o trabalho no entorno da morte.?
Caso você que esteja lendo este texto possa por algum momento refletir sobre esta questão, um primeiro passo seria asssistir esta animação espanhola de curta metragem que ganhou um Oscar esse ano. Ela pode servir para aquecer um debate entorno de questões sobre a morte e o morrer que acontecem no seu trabalho. Você deve estar se perguntando, por que um desenho ,animado, produto aparentemente feito para crianças, poderia ser usado para isso?
Bom, em primeiro lugar, essa animação está longe de ser algo infantil embora acredite que as crianças possam acha-la divertida, até porque toda a linguagem básica da animação está ali: ritmo, ação e uma boa história.
Uma senhora muito idosa relembra do marido já falecido. Adormece e morre serenamente. E lá está a morte a leva-la para os caminhos do além quando, repentinamente, algo parece sair errado. O médico a ressuscita! A partir dai é um frenesi alucinado, uma luta sem quartel entre a morte e os trabalhadores de saúde. Bom, vou parando por aqui pois não quero tirar o prazer de quem irá ver o desenho pela primeira vez. Mas inúmeras questões bioéticas podem ser trazidas a baila pelo desenho:
1) O Direito de Morrer com Dignidade
2) A Obstinação Terapêutica
3) O Tratamento Fútil
4) O Narcisismo do Trabalho em Saúde, em Particular de Alguns Médicos
5) Até Onde Podemos Atuar Terapeuticamente
6) A Problemática da Distanásia
Claro, muitas outras questões podem ser refletidas a partir dessa animação de apenas 8 minutos. Mas, depois de uma boa discussão os trabalhadores podem ser levados a pensar sobre o que acontece no serviço quando um paciente está morrendo e, posteriormente, quando a morte acontece. Mais especificamente, como a morte de pessoas estrutura processos de trabalho? Em que aspectos essas formas de se trabalhar geram gestos individuais e/ou coletivos que poderiam ser considerados desumanos? E uma pergunta que sempre cala fundo: caso o paciente que estivesse vivenciando a experiência da morte fosse alguém importante para mim, como julgaria o trabalho realizado pela equipe?
Deixo com vocês então o filme no  Youtube :




Eu costumo descer vídeos do youtube usando o Atube Catcher. Vocês podem baixa-lo aqui:
O programa é muito fácil de usar. Basta seguir as instruções postas no site e depois colocar o arquivo num pendrive e passar para todo mundo (um projetor pode tornar a tarefa mais com jeito de cinema)
Bom, como se dizia na Turma do Pernalonga: "Por enquanto é só pessoal"!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Romantismo e Morte: "O Brilho de Uma Paixão" (Erasmo Ruiz)

 

Quando ouvimos a expressão "romantismo" ou "romântico", os estereótipos nos remetem imediamente às visões das pessoas apaixoonadas, aqueles que não tem medo ou vergonha de expressar afetos e sentimentos, invariavelmente de maneira exagerada. Alguns podem remeter a memória às quase sempre enfadonhas aulas de literatura onde estudantes ficam tentando reter as sinópses que os professores reportam sobre livros e poemas de autores famosos que jamais lerão. Mas, estaríamos preparados para adentrar ao mundo do romantismo? Ou, melhor dizendo, o que seria expressar amor e afeto na sociedade burguesa na Europa Ocidental no primeiro quarto do século XIX? No mês passado assisti ao filme "Brilho de uma Paixão", da diretora neozelandesa Jane Campion (que cinéfilos remeterão imediatamente ao belo "O Piano"). Sai do cinema com a sensação de ter sido atropelado por um trem de êxtase e tristeza. Mas, antes de configurar meus sentimentos em relação ao filme, vamos a sua história. O filme fala do relacionamento de John Keats (poeta inglês) com Fanny Brawne. Num mundo onde as telenovelas ensinam adolescentes a engravidarem para "prenderem" os namorados, o filme marca a diferenciação básica da afetividade romântica, vivenciada como casta, quase platônica, com a aura da fatalidade de uma juventude que a qualquer momento será ceifada pela morte. A história dessa relação é narrada com ternura, emoldurada por belas paisagens mas sem cair no engodo dos clichês de filme de época que prendem os espectadores com eficientes direções de arte que escondem histórias vazias. Não há vilões ou uma trama que intenta separar a vida dos amantes, pelo contrário. É a fatalidade de uma sociedade marcada pelas péssimas condições sanitárias que transforma a tuberculose na doce musa, a morte no colo da mulher amada com vestes esvoaçantes nos convidando para as bodas definitivas. Os personagens não estão fazendo juras eternas nem o poeta declama poemas melosos para a sua amada. Na verdade, lutam desesperados para escaparem daquilo que sabem ser seu destino: a separação! Em parte, ela já está demarcada pelas convenções sociais pois o poeta não tem meios financeiros para desposar sua amada. Mas a pior separação é aquela determninada pela morte! O filme é de uma beleza plástica intensa.A trilha sonora, de estilo minimalista, está lá como uma boa moldura que nunca deve chamar muita atenção mas sim destacar nosso olhar em direção a pintura. No entanto, o público não está mais acostumado a essa forma de expressão artística, muito menos a maneira como esse amor, intenso e singelo, é tratado no filme. Ainda é preciso destacar Brown, melhor amigo do poeta que tenta preserva-lo da paixão de Fanny, direcionando-o ao aperfeiçoamento de sua arte. Não é o vilão da nossa estória. Pelo contrário. O que move seu gesto é o amor pela arte do poeta e a intuição de que a doença irá ceifa-lo mais cedo ou mais tarde...e como foi cedo. John Keats morre longe de sua amada aos 25 anos de idade. Boa parte de seus poemas foram mal recebidos pela crítica ainda durante a vida do autor. Só depois da sua morte puderam perceber a beleza de sua poesia. O embate de Brown e Fanny, com diálogos cheios de sarcasmo e ironia, é um dos pontos altos do filme. Um dos belos momentos é quando Fanny e Keats em seus quartos, separados apenas por uma parede, se "tocam" imaginado como seria viver a plenitude daquele amor. E ainda há a cena da despedida dos dois em que estão deitados na cama e que ela chega a insinuar a possibilidade de fazer amor com o poeta. Ele recusa! Esse era seu maior sacrifício. Não toca-la sexualmente era a forma de preserva-la para viver as possibilidades de um casamento. Para nossa mentalidade acostumada a ver cenas de sexo na sessão da tarde pode parecer algo muito estranho isso tudo, ainda assim, belo e intenso! A cena mais tocante é o momento em que Fanny recebe a notícia da morte de seu amado. Seu pranto é uma das coisas mais intensas que já vi numa tela de cinema. Nos transporta à dor do personagem, nos coloca no tempo congelado do filme. Essa percepção da morte, presente e intensa, talvez nos ajude a entender como poetas como Keats ou músicos como Schubert e Chopin, apesar de viverem tão pouco tempo, tiveram produções intensas não só em qualidade mas também em quantidade. No início da sessão em que estive havia mais ou menos 20 pessoas numa cinema que comportava 300 poltronas. No final do filme, 10 espectadores ainda permaneciam. Fiquei pensando no que havia determinado que tantos saíssem antes que o filme terminasse. Os risos que ouvi diante do choro de Fanny ao saber da morte do amado deu-me uma pista. Nossa sociedade não consegue conviver com a morte na sua expressão mais dolorosa representada pela perda e pelo amor que já se intui inconcluso. Precisamos do espetáculo dos evisceramentos dos filmes de terror, das horrendas mortes dos vilões ou do massacre de Jesus no filme de Mel Gibson. Aprendemos a rir com a morte na estética do cinema-espetáculo. Desamparados, a maioria de nós parece não ser mais capaz de expressar a emoção da dor. Nesse sentido, um amor romântico sem clichê é realmente um amor de morte, mas com carinho, ternura e até júbilo. Para assisitir a esse filme, desarme-se! Não queira um mero entretenimento, um escapismo dos problemas, um relaxamento das questões mal resolvidas. Talvez você fique sufocado com o grande alerta dos personagens. Eu fiquei engasgado pelas coisas que ainda não vivi. Como nos mostra Keats, pensar na morte nos leva a imaginar tudo o que não veremos e, talvez, dessa maneira, vamos vivendo cheios de esperança em fazer aquilo que a morte pode potencialmente nos furtar: SONETO Quando fico a pensar poder deixar de ser antes que a minha pena haja tudo traçado, antes que em algum livro ainda possa colher dos grãos que semeei o fruto sazonado; quando vejo na noite os astros a brilhar - vasto e obscuro Universo, impenetrável mundo! - quando penso que nunca hei de poder traçar sua imagem com arte e em sentido profundo; quando sinto a fugaz beleza de alguma hora que não verei jamais - como doce miragem – turva-se a minha mente, e a alma em silêncio chora um impulsivo amor. E a sós, me sinto à margem do imenso mundo, e anseio imergir a alma em nada até que a glória e o amor me dêem a hora sonhada! Que a vida possa então ser brilhante e intensa como a paixão do filme, como a poesia de Keats!

quinta-feira, 3 de junho de 2010

"A Sete Palmos": A Dificuldade de Encarar o Morrer (Ney Ronaldy Oliveira Paula*)





Muito mais que um seriado triste e que fala somente na morte do início ao fim de seus episódios, “A Sete Palmos” nos leva a uma atmosfera em que a questão da morte é tratada de uma forma diferenciada, já que a visão que se tem, em geral, é a da família Fisher, uma família em que todos trabalham no ramo dos funerais ou são atingidos pelas consequências deste trabalho.

A empresa "Fisher & Sons" realiza funerais de uma série de pessoas que, frequentemente no início de cada capítulo, morrem de diferenciadas formas. Cada episódio se embasa no processo do velório e de todos os serviços funerários requisitados pelos familiares. Misturado a esse quadro peculiar, a história da família Fisher mostra-nos uma série de características um tanto estranhas, como podemos analisar logo no primeiro capítulo com a morte do patriarca da família. A atitude deliberada pela senhora Fisher é de gritar e gritar loucamente, num ato de puro desequilibrio. Mas, afinal, a família em que todos os seus membros tem que lidar diariamente com o prisma da morte não deveria ser mais bem preparada para uma situação como essa?

Outro ponto ressaltado nos episódios é o fato do filho homem mais novo esconder, até um certo momento, a sua homossexualidade. A filha mais nova com sinais de muita rebeldia, parece mostrar um pouco o quanto é difícil conviver sempre ao lado da morte, tão difícil em pequenos, mas marcantes, momentos de nossas vidas. O primogênito da família é um jovem homem que saiu de casa e volta no momento da morte do pai. A história começa para valer em saber se a empresa "Fisher & Sons" deveria continuar suas atividades ou fechar, vendida para empresas maiores que querem fazer o monopólio do ramo

.

Essa pequena explanação sobre o seriado se parece com a história de vida de algumas pessoas que vivem no mesmo ramo que a família Fisher. Em Fortaleza, no Ceará, uma família muito parecida continua com a empresa por muito tempo. Foi passada de geração a geração até chegar a um senhor muito simpático: meu pai. Minha família também trabalha com o ramo de funerárias. Passei minha infância entre caixões e vendo as mais variadas expressões estampadas nos faces de várias pessoas que passavam por aqueles já citados momentos curtos, porém marcantes. Quase sempre expressões de dor e sofrimento.

De várias reações poderia citar a da família que perdeu um jovem homem de 32 anos em um ataque cardíaco fulminante. A família estava triste, mas o que eu notava era o espanto, a perplexidade nos olhares de seus parentes. Uma pessoa tão nova, sem nenhum sinal de doença grave ou até mesmo problemas simples. Um homem que praticava esportes, vivia uma vida saudádel, na medida do possível. Como pode acontecer uma coisa dessas? "Pegadinhas" da vida (ou melhor, da morte). Voltando as cenas que merecem destaque, lembro da senhora, nunca soube sua idade, que morreu e ficou com a pele um tanto amarelada. Doença de fígado. A família pediu para que tentássemos fazer o melhor em relação a esconder a aparência muito degradante, pelos menos para a família, da senhora. Tentavam desviar a atenção do principal naquele momento, que não era a aparencia da senhora, era a falta dela, de seus cuidados com o rosto, como era delicada em seus cuidados mesmo depois das marcas do tempo mostrarem-se. Não estavam sofrendo menos, mas só adiando o sofrimento, a dor de perder alguém tão próximo. Como o caso da famĺia Fisher, que perdeu o patriarca. Todos os outros mortos não passavam de trabalho. Quando se depararam com a real situação, desabaram, mostrando que, mesmo tendo contato direto com velórios e cadáveres, ainda não tinham contato com a idéia de morrer, a qual veio à tona na morte do primeiro episódio.

Tento passar que a reflexão da morte não deve ter um caráter de superstição, de que ela estará mais próxima caso falarmos em tal . Próxima ela está de cada um de nós, sem que percebamos. Um fio finíssimo estabelece o limite da vida ou da morte. É claro que não devemos ficar paranóides a ponto de deixarmos de viver e passarmos a nos preocupar direto com o fato de que podemos deixar essa vida a qualquer momento, de que somos frágeis o bastante para sermos levados por algo que não imaginamos. A discussão da morte desse ser encarada como um modo de notarmos o quanto é bom vivermos e percebermos que o privilégio de viver é nos dado sem que notemos. Com isso, sabermos que a morte é uma possibilidade existente em nossas vidas traria um ar de maior liberdade, de maior gosto no que fazemos e assim, poderíamos desfrutar plenamente de momentos vivenciados e entendermos melhor do processo pelo qual cada um passsará.

* Ney Ronaldy é estudante de enfermagem e bolsista de Iniciação Científica em Projeto de Pesquisa coordenado pelo Professor Erasmo Ruiz

domingo, 8 de novembro de 2009

Filmes de Guerra como Cultura de Paz: Formas e Formas de se Morrer (Erasmo Ruiz)




O cinema faz parte do cotidiano da vida da maioria de nós, em particular, o cinema norteamericano. Os filmes comparecem mesmo que ninguém vá ao cinema. Temos a TV, temos também a publicidade, temos metáforas que a semelhança de "A Rosa Púrpura do Cairo" de Wood Alen, abandonam. as telas e adentram em nossas vidas na forma de diretivas ou sinalizações práticas de comportamentos e hábitos.

Particularmente admiro o cinema americano e rotulo como preconceituosa a crítica que opõe um cinema de arte frente a um cinema comercial, até porque, numa sociedade capitalista, o cinema é também mercadoria e, desta sina, não escapa nem um bom filme de Ingmar Bergman. Prefiro afirmar que existem filmes ruins e filmes bons. Óbvio dizer que o "bom" e o "ruim" são arbítrios com todos os riscos decorrentes.

Outro dia depois de rever um velho western - "Matar ou Morrer" com Gary Cooper e uma belíssima Grace Kelly em início de carreira - fiquei me perguntando como pensaríamos nossa morte se o cinema não existisse. A morte quase sempre foi mostrada no cinema como um evento doloroso, outras vezes heróico, pincelada com sentidos práticos (ela deve existir para punir o vilão e/ou consagrar miticamente o heroi etc). Mas até o início dos anos 60, o público era poupado de detalhes mais realistas como sangue ou visões anatômicas de cortes e fraturas.

Hoje, filmes que abusam de cenografias mórbidas tem consultores na área médica para buscarem realismo quando, por exemplo, a carótida é cortada ou uma bala atravessa a femural. Nossa imaginação é absolutamente desnecessária, basta ver a imagem e sentir todo o horror dela decorrente. Mas, de fato, aprendemos alguma coisa quando vemos filmes como "Jogos Mortais" ou o eterno acumular de frios assassinatos em "Sexta Feira 13"? Do meu ponto de vista, filmes com esta estética explícita da morte são meramente catárticos. Servem para que nós, curiosamente, possamos ver a morte protegidos pela barreira da arte, são expressões do exibicionismo e espetacularização de uma sociedade que transformou a morte em tabu, em evento médico e higiênico. Os filmes com este tipo de conteúdo são janelas entreabertas para desfrutarmos de uma certa busca de olhar a barbárie sem necessariamente exerce-la, mas podendo, de certo modo, aprecia-la esteticamente e ainda sermos julgados como pessoas "normais".

Mas existem filmes mais "pedagógicos". Por exemplo, filmes de ação transformam a morte em problemas práticos, resultado da perícia do herói em atirar e magicamente desviar-se das balas. Filmes e video-games são extensões um do outro. Bruce Willis nos seus "Duro de Matar" é na verdade um assassino que representa a platéia e sua sanha de combater o mal sem morrer durante a tentativa, filmes que seguem as trajetórias já iniciadas por Clint Eastwood ou Charles Bronson. Como "matadores" que se identificam com seus personagens, somos estimulados à indiferença com quem é assassinado sistematicamente na tela, afinal, o fato de serem maus rouba deles a condição de humanidade.

Essa parece ser a chave da questão. Os filmes de ação para serem assimilados e consumidos devem retirar dos mortos toda e qualquer identidade que expresse sua humanidade, só assim a morte pode ser aceita como se houvéssemos matado um cão raivoso. Para isso, o conhecimento bélico e uma boa pontaria são atributos essenciais...tiros e mais tiros...explosões e corpos decepados para o delírio da platéia.

Mas existem outras situações em que a morte violenta se expressa com numa estética decididamente realista que vai além da caracterização de ferimentos. Falo aqui de alguns filmes de guerra (uma minoria infelizmente) como "Platon", "O Resgate do Soldado Rayan", "Johnny Vai a Guerra", "Pecados de Guerra", "Nascido para Matar" , "Nascido a 4 de Julho" ou "Gloria Feita de Sangue". Evidentemente, a análise de todos estes filmes comportaria um livro. Entretanto, tomemos como exemplo o filme "O Resgate do Soldado Ryan" de Steven Spilberg.

Não entrarei numa discussão mais prolongada sobre história e roteiro. Queria destacar apenas como a morte comparece no filme. Spilberg não quer poupar o público. Mas, diferente do que estamos acostumados a ver, ele nos traz também todo o impacto emocional que a morte violenta e dolorosa provoca. Desde as imagens iniciais quando a morte é mostrada como evento absolutamente aleatório (como o soldado que escapa da morte porque a bala resvala no seu capacete para no segundo seguinte ser alvejado e morto), ficamos a perguntar qual o sentido de todo aquele sofrimento. Nos irmanamos com o desespero do soldado que procura pelo braço que doi decepado pela explosão. O recado está dado. Isso não é uma brincadeira, as pessoas morrem de forma franca e honesta. Numa guerra, a morte se mostra dolorosa e intensa.

Mais pela metade do filme, o oficial médico que está no pelotão que procura o Soldado Ryan é alvejado no ventre. Como médico, ele sabe todas as decorrências técnicas da sua lesão na medida em que é informado pelos companheiros sobre suas características. Desesperado, chora e grita pela mãe. O que aconteceria se esta forma de mostrar a morte fosse a usual no cinema? Será que as pessoas se mobilizariam com tanta facilidade para lutarem numa guerra? Provocativamente eu diria que filmes aparentemente belicistas como "O Resgate do Soldado Ryan" são na verdade importantes recursos para se construir uma cultura de paz ao mostrarem que por trás dos rostos de quem morre existem atributos que caracterizam cada individualidade perdida como essencialmente humana. Fica a sinalização de que a morte com dor e sofrimento é DESUMANA e nada pode justificar que ela aconteça dessa forma.

domingo, 20 de setembro de 2009

Aprendendo Com o Filme "Wit, Uma LIção de Vida" (Erasmo Ruiz)

Pessoalmente acredito que o cinema pode nos oferecer uma excelente oportunidade para estimular discussões e funcionar como veículo potenciliazador de mensagens e conteúdos. Nâo que o cinema possa produzir milagres, mas como expressão da arte, em algumas oportunidades, pode convidar as pessoas a refletir sobre a vida, o mundo e si mesmas.

O filme que indicamos essa semana pode ter essa capacidade, notadamente para nós que trabalhamos e militamos no campo da Saúde. Vivian Bearing (personagem vivido por Ema Thompson) é uma professora de literatura inglesa que no auge de sua carreira se descobre com mum câncer nos ovários em estágio avançado. Para tentar superar a doença, submete-se a um tratamento experimental com remotas possibilidades de cura.

Durante o tratamento, Vivian irá rever aspectos importantes de sua vida ao mesmo tempo em que reflete sobre a forma como está sendo cuidada. No meu entender é este aspecto que mais nos interessa de perto. Usando da técnica de conversação direta (quando o ator olha para a câmera e "conversa" com o público que o vê), Vivian se interroga e nos interroga sobre a triste trajetória dos pacientes hospitalares, a perda de identidade e privacidade, a refração de se discutir necessidades existenciais e a lenta tranasformação de indivídio em protocolo de cuidados.

Aos poucos Vivian vai percebendo que a forma como sempre lidou com seu próprio objeto de conhecimento e, em particular, a obra do poeta inglês John Do (quase sempre focada na morte) é similar a maneira fria e distante que agora lidam com ela. Com o passar do tempo, Vivian conclui que da mesma forma que falta sensibilidade e sentimento na forma como se produz ciência, falta também no contato entre as pessoas, em particular, quando nos aproximamos do final da vida.

Filme muito instigante para se dsicutir com profissionais de saúde em hospitais sobre a forma como estão lidando com seus pacientes. Mais rico ainda se for usado como material de oficinas em enfermarias com altas taxas de óbitos. Com certeza fará com que principalmente médicos e enfermeiras possam ser motivados a rediscutir seus processos de trabalho evidenciando as ações que fazem com que muitas vezes os pacientes os rotulem como "frios" e "insensíveis". O olhar fixo de Vivian em nossos olhos pode fazer com que prestemos mais atenção a fala dos pacientes!

De maneira geral, o filme também vale para que possamos produzir uma reflexdão sobre nossas próprias vidas. De que adiante seguir de maneira cega e acrítica nossas rotinas e obrigações se de fato não estivermos de alguma forma aproveitando a vida? Ao final da exibição fica a mensagem de que a vida descreve um arco onde, no que toca nossa vulnerabilidade, nascimento e morte parecem se encontrar!

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Quem quer ser enterrado ao lado de Marilyn? (Erasmo Ruiz)



A mania de querer ser enterrado ao lado de gente "famosa" vem desde muito tempo. No Egito antigo os súditos nobres tentavam fazer seus túmulos perto dos faraós. Já no Cristianismo foi sendo criado o hábito de se enterrar as pessoas nas igrejas e/ou perto das relíquias dos santos para buscar sua proteção e intervenção. Agora,em tempos que a mercatilização vai ditando as regras, os ricos além de poderem viajar para o espaço (e assim poderem ir para o Céu), podem desfrutar da "alegria" e "prazer" de passarem toda a eternidade ao lado de Marilyn Monroe. Um túmulo vizinho ao da atriz está sendo leiloado ha uma semana. Quando todos pensavam que o leilão havia acabado, o vencedor resolveu aproveitar o dnheiro em vida e retirou o seu lance, o que, digamos, parece ser uma decisão muito sábia. Agora, se você tem 5 milhões de dólares sobrando (pouco mais de 9 milhões de reais), corra! Esta é a sua chance de ficar ao "lado" de Marilyn Monroe pois o leilão acaba de reabrir no Ebay. A Revista Caras bem que poderia fazer uma bela reportagem falando sobre ricos e famosos nos cemitérios.

Mais detalhes, veja notícia abaixo:


LOS ANGELES, EUA, 25 Ago 2009 (AFP) - A oportunidade de ser enterrado em um túmulo próximo ao da atriz Marilyn Monroe está novamente aberta, depois que o vencedor do leilão no eBay retirou a oferta de 4,6 milhões de dólares por "problemas de pagamento".

O jornal Los Angeles Times informa que um japonês não identificado foi o vencedor do leilão do túmulo atualmente ocupado por um homem chamado Richard Poncher, que morreu há 23 anos, com 81, e que fica próximo ao local da morada final da famosa atriz.

A viúva de Poncher, Elsie, decidiu exumá-lo e vender a valiosa sepultura para pagar os custos de sua casa em Beverly Hills, avaliada em 1,6 milhão de dólares.

O túmulo fica acima do espaço coupado por Marilyn Monroe no cemitério Westwood Village Memorial Park, em Los Angeles, onde também foram sepultados Natalie Wood, Truman Capote e Farrah Fawcett.

A oferta vencedora do leilão chegou a 4.602.100 dólares.

No entanto, horas mais tarde o vencedor escreveu ao representante de Poncher e retirou a oferta.

Outros 11 participantes ofereceram pelo menos US$ 4,5 milhões pelo túmulo, segundo o Los Angeles Times.

"Esta é uma oportunidade única na vida, de poder passar a eternidade logo ao lado de Marilyn Monroe", dizia o anúncio do leilão.

A viúva Elsie Poncher contou ao jornal Los Angeles Times há duas semanas que seu marido, um empresário supostamente ligado à máfia de Chicago, havia comprado a sepultura em 1954 do ex-marido de Marilyn Monroe, o jogador de baseball Joe DiMaggio.

Elsie também disse ao jornal que, antes de morrer, o marido brincou com ela: "Se eu morrer e você não me enterrar em frente à Marilyn, te perseguirei por toda a eternidade".

Hugh Hefner, fundador da revista Playboy, comprou o túmulo adjacente ao da atriz em 1992 por 75.000 dólares.

domingo, 23 de agosto de 2009

O jovem homem e a morte (Douglas Garcia*)



Spielberg filmou “O império do Sol” no final dos anos oitenta, há mais de vinte anos. J.G. Ballard escreveu o livro do qual o filme se origina, bem como diversos romances e contos, do qual “Crash” também originou um filme, de David Cronemberg. Li recentemente “Milagres da vida”, autobiografia de J. G. Ballard. O título foi a primeira coisa que me intrigou, uma vez que, logo nas primeiras páginas, Ballard se diz decididamente ateu, desde a infância, postura na qual persistirá por toda a vida. O que seriam os “milagres da vida”? Ele o diz, lá pela metade do livro, e não seria educado eu contar agora, estragando o prazer da descoberta dos futuros leitores.

“Milagres da vida” foi escrito sob a perspectiva da morte certa de seu autor, que já vinha acometido de uma doença fatal. Ele o escreveu alguns meses antes de morrer. Os capítulos iniciais do livro, que descrevem a sua infância em Shangai, são os mais vivos e bonitos. Há um imenso colorido e vontade de comunicação expressa nesses capítulos, que correspondem inteiramente aquilo que o autor projetara ficcionalmente em “O império do sol”, e que é filmado por Spielberg. Rever o filme, após ter lido o livro de Ballard me deu uma nova dimensão do trabalho de Spielberg, que se preocupa, nos melhores detalhes, em capturar a experiência do mundo através dos olhos do menino. A interpretação de Christian Balle, criança, no papel que corresponde ao menino Ballard é extraordinária, talvez uma das melhores atuações infantis na história do cinema.

A primeira cena de “O império do sol” é a de uma tomada do alto, de um rio tranqüilo, no qual belas flores são docemente levadas pelo fluxo da correnteza. Pouco depois, o espectador vê algo mais: elas são o acompanhamento de caixões de mortos, depositados por pessoas pobres da China diretamente nos rios (esse contexto, fico sabendo pelo livro de Ballard). E, após, um navio de guerra segue em frente, empurrando esses caixões para o lado.. A última cena do filme é também a do mesmo rio, em Shangai, no qual o espectador vê boiar a pequena mala que o menino usara nos anos de guerra, da sua “segunda infância”, totalmente diferente da protegida infância na casa dos pais.

Nos melhores filmes de Spielberg, além da riqueza de efeitos visuais, há uma preocupação metafísica, que talvez passe despercebida às pessoas, mesmo aos críticos de cinema. Em “O império do sol”, há as questões metafísicas da morte, de Deus, do outro e do sentido do real e da imaginação. Isso fica mais evidente quando se lê a autobiografia de Ballard. Spielberg desdobra essas questões em termos visuais, com dignidade. O tema central é o da morte, do desaparecimento do real que ela traz – mas um desaparecimento ambíguo, uma vez que permanece na memória e na imaginação – e da irreversibilidade do tempo, que ela aponta.

Os elementos visuais dos quais Spielberg se apropria são: as grandes massas humanas, os indivíduos isolados e frágeis, à beira da morte. As águas do rio, em que se misturam vida e morte. Os aviões, que também misturam vida e morte: trazem as bombas que matam, mas são a expressão máxima do talento humano no campo da técnica, que promete uma elevação do homem a níveis maiores de experiência.

O menino Jim, no filme – assim como J.G. Ballard, que se tornou aviador por um período, depois da guerra, o sabemos por sua autobiografia – é completamente fascinado por aviões, e possui diversas miniaturas e aeromodelos, que são seus brinquedos favoritos. Ele admira os pilotos japoneses, por sua habilidade e coragem. Ele admira sobretudo os jovens piloto kamikaze japoneses, que vê partir para a morte certa com orgulho e dignidade. Esse é o momento central do filme, o momento em que nós, como espectadores, vemos o olhar do menino, e nos colocamos no lugar dele.

Spielberg filma muito bem esses momentos.

Nós somos crianças diante da morte.



*Apresentação de Erasmo Ruiz:

Douglas Garcia, além de ser um grande amigo desde a época em que éramos estudantes, é Psicólogo pela USP de Ribeirão Preto, Mestre e Doutor em Filosofia pela UFMG, Professor da Federal de Ouro Preto. Mas o seu principal atributo não são os títulos mas principalmente ser o Pai do Dudu, um intelectual sempre arguto e inconformado com os rumos do planeta e um ser humano fantástico. Claro, ninguém é perfeito, ele torce para o Atlético Mineiro.

domingo, 9 de agosto de 2009

Refletindo Sobre "A Noiva-Cadáver" (Erasmo Ruiz)



Muitos não quiseram nem passar em frente ao cinema para assistir a esse filme de animação de Tim Burton. Tudo bem! Falar sobre morte não dá muita audiência. A questão é que, mais uma vez, o falar sobre a morte é uma desculpa para se falar sobre a vida.

Inspirado numa lenda russa, “A Noiva Cadáver” é uma fábula que deve ser vista preferencialmente por adolescentes e adultos, decididamente não é para crianças. O filme conta a história de Victor filho de ricos comerciantes de peixe que é forçado a se casar com Victória, filha de uma família tradicional mas que padece de um grave problema: está sem dinheiro. Assim, o que ela tem de mais valioso a oferecer é o nome, situação perfeita para um casamento de conveniência.

O casamento é adiado porque o padre não acredita que Victor esteja em condições físicas e psicológicas para se casar. Assim, nosso herói vai até a floresta para ensaiar a cerimônia. Ao colocar a aliança no que pensa ser um galho seco, na verdade, Victor a estava colocando no dedo de uma jovem morta no dia do seu casamento e que estava enterrada ali apenas para que alguém pudesse, ao casar-se com ela nessas condições, trazê-la do mundo dos mortos ou ser levado para ele. Assustado e ao mesmo tempo constrangido, Victor não consegue encontrar meios para desfazer o mal entendido com “A Noiva Cadáver”. Assim, desenrola-se uma trama divertida com números musicais surpreendentes e um cenário gótico de tirar o fôlego.

Mas o filme traz uma outra discussão que vai além da qualidade técnica da animação e das melodias e letras inteligentes. A imposição das normas sociais que cercam Victor faz com que a tensão do personagem se transporte para quem assiste o filme. Na verdade, diante da fatalidade da morte, o que de fato estamos fazendo de nossas vidas? Estamos no controle da situação ou somos meros joguetes das convenções sociais?

É essa fina ironia que Burton nos propõe ao subverter o sentido tradicional da estética relacionada a morte. Na verdade, o clima fica sombrio e frio quando os vivos aparecem. Quando os mortos contracenam, as cores são mais vivas e intensas bem como as músicas mais alegres. A mensagem esta ali para ser claramente lida. Não há sentido algum em estarmos mortos para a vida!

De resto, o filme é uma exótica história de amor...cheia de desencontros e encantamento. Também é uma forma inteligente de se pensar e mostrar a morte. Se o mundo da morte se mistura com o mundo dos vivos (como acontece na animação), cabe a nós buscarmos a felicidade aqui e agora, lutarmos para afastar a sombra e iluminar nossas vidas antes que a chama se apague!

ERASMO RUIZ

quarta-feira, 29 de julho de 2009

cinema e cuidados paliativos

Programação Preliminar -Ciclo de Cinema e Reflexão
Os organizadores do II Ciclo de Cinema e Reflexão – Aprender a Viver/Aprender a Morrer divulgaram a programação preliminar. O evento, que acontecerá na Cinemateca Brasileira em São Paulo entre os dias 10 e 13de setembro, tem como organizadores a Academia Nacional de Cuidados Paliativos, o Hospital Premier, o Instituto Paliar e o Oboré Comunicação e Artes.

Confira a progração preliminar em: www.paliativo.org.br

domingo, 24 de maio de 2009

A Morte Pode ser Engraçada!



Deixo com vocês dois pedacinhos do filme "O Sentido da Vida" do grupo inglês "Monthy Python". Eles adoram satirizar nossos mais "sólidos" valores e, neste filme, saem em busca da resposta para a tradicional pergunta: "qual é o sentido da vida?". Prestem a atenção sobre a esquete dos peixes no aquário do restaurante e, em seguida, uma animação musical sobre a pergunta do filme: IMPAGÁVEL!