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quarta-feira, 6 de abril de 2011

Cibele Dorsa: Quando o Suicídio é uma Mercadoria na Grande Imprensa (Erasmo Ruiz)





O suicídio é um tema tabu. Raramente é abordado na imprensa de uma forma direta. Quando emerge, será de maneira abstrata, como um tema geral que aparentemente não tocaria as pessoas tidas como "normais".

Mas como toda morte, aquela que ocorre por suicídio produz consequências biográficas, impactando de forma intensa na vida das pessoas próximas. E se pensarmos então nos elementos de nossa cultura com fortes marcas religiosas, o suicídio é uma espécie de anátema, um estigma que marca as famílias, um perverso jogo psicológico de atribuições e autoatribuições de responsabilidade.







Lermbro-me de um episódio na minha adolescência onde a mãe de um amigo ao saber de um diagnóstico de câncer de mama em estágio avançado acabou cometendo suicídio com um tiro na cabeça, que no velório se transformou na versão de "disparo acidental". A vida daquela mulher havia se transformado em uma mácula que as pessoas, apesar de ama-la, não estavam dispostas a comartilhar pelo medo da vergonha e do dedo em riste.



Os jornais tendem então a dar destaques curtos ao suicídio, são mais "generosos"  com os pobres que se matam ingerindo veneno para ratos e muito discretos com empresários que se jogam do alto de prédios por não cosneguirem mais driblar crises financeiras. As notícias são notas e os suicidas são objetos que se autodestruiram, não possuem vida e memória!



Essa conduta de "redação e estilo" não está escrita em canto algum mas é quase sempre respeitada. Existe o medo que ao veicular o suicídio estaríamos incentivando uma "epidemia" de suicídios como foi acusado Goethe quando seu personagem Werther suicida-se, exemplo que teria sido seguido por muitos jovens que se identificarfam com os dilemas de Werther.



Mas estamos agora assistindo a uma excessão, afinal, as razões de mercado se impõem a qualquer lógica engendrada pela idéia de proteção social. Ha poucos dias a atriz Cibele Dorsa cometeu suicídio jogando-se do alto do prédio onde morava  depois de semanas enfrentando um processo depressivo decorrente do suicídio de seu jovem noivo em circunstâncias similares.



Não adentraremos na discussão dos motivos de Cibele. Mas o que parece ser diferente nessa situação é o fato dela ser uma celebridade, atriz e escritora famosa. O processo que leva ao seu suicídio pode ser em parte acompanhado pela internet, pelo Twitter e pelo Youtube, onde postou um vídeo em homenagem ao noivo morto. Nas redes sociais pediu desculpas pelos gesto que em breve iria realizar e ao mesmo tempo apresenta as justificativas embasadas na sua dor.



No fim, o tradicional bilhete suicida,  que na verdade é um email mandado para  a revista "Caras" (vide link no final do post) . E foi assim que o mundo de "Caras" cheio do luxo e do glamour dos ricos e famosos acabou por abrir suas portas a um assunto não abordado pela revista. Dever de informação? Imposição do trabalho de jornalismo?



O ex marido de Cibele, particularmentre exposto pelo conteúdo do email, tentou impedir a publicação e o conseguiu por alguns dias. No entanto, a revista através da justiça conseguiu veicular a mensagem. Com esse gesto, muito provavelmente, a revista conseguiu atrair o olhar curioso de milhares de leitores que não estão necessariamente interessados em saber a decoração dos banheiros de um magnata mas que, dada a interdição do tema suicídio, ficarão atraídos pela matéria.



E lá podemos ler sobre a dor e o sofrimento de um ser humano em extrema crise. Mas, infelizmente, isso é quase nada destacado pela matéria. O email de suicídio na verdade se transforma em isca para vender revista, um lembrete trágico de um chavão que os ricos gostam sempre de referir: "dinheiro não traz felicidade"!



As dores e inconfidências, agora tornadas públicas, alimentam o imaginário de todos que leem o texto. Seria o ex marido co-responsável pela tragédia ao impedir a atriz de ver os filhos? E o papel das drogas nessa história toda? Ainda é possível morrer por amor? Psiquiatras e psicólogos poderão agora usar o email  em aulas de psicopatologia para destacar em termos práticos o "doentio" e mórbido" imaginário de um suicda às portas da morte.



Mas...e das dores de Cibele? E a necessária empatia para lidar com um sofrimento que não está restrito apenas a ela mas que em parte é de todos nós? Nestes aspectos ressoa um silêncio ensurdecedor! Até porque o suicídio é algo que só pode acontecer com os outros!



email de Cibele

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Na companhia da Morte com Manuel Bandeira (Erasmo Ruiz)



Imagine-se muito jovem sabendo que é portador de uma doença praticamente incurável. Qual seria sua reação? Cair em profunda depressão? Pensar seriamente no suicídio? Optar por uma vida absolutamente desregrada disfarçada no eufemismo de "intensidade"?


Para nossa sorte, diante da possibilidade de morrer muito jovem, Manuel Bandeira, acometido pela tuberculose numa época exigua em terapêuticas, produziu algumas reflexões sobre a morte. Uma delas já foi comentada nesse blog (vide post aqui). Hoje retomo Bandeira em mais três poemas. Vamos ao primeiro:


Preparação para a Morte


A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
– Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.




O poema possui uma notável beleza e profundidade. fala sobre o encantamento da vida, do que ela tem de mais arrebatadora, seu caráter aparentemente inexplicável, dai a idéa de que ela seja um milagre em todas as suas manifestações. Mas então o poeta nos apresenta a morte como algo que não é milagre. Talvez pelo fato dela ser onipresente e comum. Por que seria a morte adjetivada como "bendita"?


Para o poeta ela terminaria o milagre. Talvez devêssemos ser tomados pela angustia da iminência da morte para perceber este sentido em Bandeira. O milagre da vida pode se tornar sufocante se imerso na dor e no sofrimento. Um vellho que antevê a morte escreveria esse poema. mas dentro dele continua pulsando o jovem de "Penumotórax"




Pneumotórax


Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.

A vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Tosse, tosse, tosse.



Mandou chamar o médico:

- Diga trinta e três.

- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...

- Respire.



- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.

- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.



Do meu ponto de vista é esse Bandeira de "Pneumotórax" que estará presente até o fim de sua vida meio que fantasmático em quase todos os poemas sobre a morte. A preparação para a morte ainda muito jovem exigiu dele reflexões intensas sobre o viver e a constatação da impotência do se impedir a morte levou a construção de potência de vida.



Diante da ausência de possibilidades concretas de se intervir na tuberculose, restava pensar na morte e tocar um tango pode ser então o movimento da vida, sua intensidade, lubricidade e também tragédia. Asl etras dos tangos nos remetem invariavelente para estas três vertentes. Por consequência, é preciso viver o milagre:





Poemeto Erótico





Teu corpo claro e perfeito,

- Teu corpo de maravilha

Quero possuí-lo no leito

Estreito da redondilha...



Teu corpo é tudo o que cheira...

Rosa... flor de laranjeira...

Teu corpo branco e macio

É como um véu de noivado...



Teu corpo é pomo doirado...

Rosal queimado do estio,

Desfalecido em perfume...

Teu corpo é a brasa do lume...


Teu corpo é chama e flameja
Como à tarde os horizontes...
É puro como nas fontes
A água clara que serpeja,


Que em cantigas se derrama...
Volúpia de água e da chama...
A todo momento o vejo...
Teu corpo... a única ilha


No oceano do meu desejo...
Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa, flor de laranjeira...


Estar cheio de vida, ou, como nos mostra Bandeira em outro poema, "absorto em vida", pode nos fazer passar ao largo da morte pois a vida carece de total sentido apriori do próprio viver. O milagre da vida nos trai ao sinalizar que um dia ele termina.


Mas, ainda assim, viver significa aproveitar ou, então, se aproveitar da oportunidade miraculosa que é a vida. Afinal caro leitor, não somos milagres probabilísticos? Eu, você...todos nós somos medalhistas olímpicos de uma corrida de milhões de espermatozoides. Aproveitem o milagre enquanto ele pode ser desfrutado pois um dia a bendita morte ira por fim a ele.


Uma das melhores formas de aproiveitar o milagre da vida pode ser cultuar a maravilhosa poesia de Manuel Bandeira!















terça-feira, 27 de abril de 2010

O Blog da Thanatos Faz Aniversário



Poucas pessoas percebem mas quando comemoramos o aniversário de alguém acabamos de alguma forma citando a morte. Ao desejarmos muitos anos de vida, a festa nos lembra que em algum momento o aniversariante não estará mais entre nós, ou, dia vai, dia vem, nós mesmos não poderemos estar mais em algum aniversário futuro. Calma, não estamos anunciando a morte desse blog mas sim avisando que estamos no ar há exatamente um ano. Portanto, vida longa para a Thanatos! Nesses 365 dias foram mais de 27.000 acessos e 164 postagens sobre algumas das perspectivas de discussão, estudo e pesquisa em tanatologia. Além disso, ampliamos nosso acervo na Biblioteca da Thanatos que conta agora com 71 dissertações e teses além de livros digitais e artigos científicos. Isso tudo nós fizemos porque temos prazer em produzir e disseminar o conhecimento. Não lhe cobramos nada por isso, não vendemos nenhum curso, não alugamos o nosso tempo. Estamos aqui trabalhando diuturnamente para mudar a danosa relação que hegemonicamente os seres humanos estão tendo com a morte, lutar pela disseminação da idéia de que a vida é um tesouro tão precioso que vale a pena viver intensamente até o fim. Para isso, é fundamental que a dignidade que lutamos para ter durante a vida esteja também presente na vivência da nossa morte. Estamos tão felizes que resolvemos fazer um concurso. É isso mesmo. O blog faz aniversário mas quem ganha o presente é você. Abaixo deixamos um "quiz" muito fácil para quem tem alguma leitura em tanatologia. Responda e encaminhe o resultado para o email do blog: thanatologia@gmail.com Os primeiros 20 internautas que acertarem corretamente todas as respostas receberão em suas casas um belo brinde. Fique tranquilo. Não mandaremos nenhum consórcio funerário mas algo muito interessante para quem tem o prazer de ampliar seus conhecimentos sobre tanatologia. Dessa forma, feliz aniversário para o blog da Thanatos e que todos nós possamos ter uma boa morte!
QUIZ
1) Em 1955 um antropólogo inglês publicou um influente artigo na Revista "Encounter" onde discutia uma polêmica teoria sobre a "Pornografia da Morte". Defendia a tese que, enquanto no período vitoriano a repressão sexual teve como uma de suas consequências a difusão da pornografia, fato similar ocorria na sociedade contemporânea devido ao afastamento da presença da morte na vida cotidiana, o que acabava caracterizando sua representação com imagens exageradas, grosseiras e sensacionalistas. O nome desse antropólogo era:
A) Robert Lowie
B) Ralph Linton
C) Edward Sapir
D) Geoffrey Gorer
E) Alfred Kroeber
2) Para Phillipe Ariès a idéia de "morte domada" significa:
A) Processo psicoterapêutico onde ansiedades e medos com relação a morte são atenuados pela associação da idéia da morte com aspectos positivos do viver
B) Representação típica da idade média onde a morte é mostrada como uma fera tendo ao lado dela um domador de animais
C) Figura recorrente da poética provençal onde a morte é comparada a uma mulher irada que precisa ser controlada
D) Metaforização onde a morte aparece como um esqueleto acorrentado pelo Arrcanjo Gabriel
E) Uma atitude coletiva e de familiaridade com a morte durante a idade média, caracterizada, entre outros elementos, pela extrema autonomia do moribundo.
3) Elizabeth Kubler-Ross notabilizou-se por estudos com pacientes fora de possibilidades terapêuticas. Qual das afirmativas abaixo sintetiza seu legado?
A) Importante psicóloga inglesa que estruturou as bases para uma psicologia da morte ao estudar o que pacientes idosos em clínicas de repouso pensavam a respeito de sua morte iminente
B) Socióloga americana que lançou as bases de uma pedagogia para a morte ao estudar as representações do morrer entre crianças internadas em enfermarias oncológicas e seus impactos nos processos de aprendizagem
C) Médica que ao estudar pacientes fora de possibilidades terapêuticas propôs uma classificação dos estágios que pessoas em vias de morrer atravessam.
D) Médica que instituiu as bases do que chamamos hoje de Cuidados Paliativos ao propor como devem funcionar os "Hospices" depois de sistematizar o sofrimento de pacientes agonizantes nos hospitais.
E) Assistente Social suiça, Kubler-Ross estabeleceu as nítidas diferenças existentes entre gêneros e faixas etárias no que tange ao enfrentamento da morte.
4) Muitas expressões caracterizam a idéia de morte. Uma delas é conhecida como "memento mori". Seu significado é:
A) Expressão que quer dizer "Momento da Morte". Na mitologia grega é o instante exato quando a morte acontece e a alma deixa o corpo para se dirigir ao hades
B) O significado da expressão é "Lembra-te da morte". Refere-se às representações visuais da morte na cultura ocidental no final da Idade Média com o objetivo de confrontar as pessoas com sua própria mortalidade.
C) Um conjunto de recursos artísticos com os quais os pintores desenhavam figuras que representavam a morte em situações cotidianas. Seu objetivo era mostrar o quanto a morte pode ser inesperada pois o significado da expressão é "morte repentina".
D) Parte dos sistemas teológicos cristãos que tem por objetivo explicar o que acontece depois que morremos. A expressão foi utilizada pela primeira vez por Orestes no século IV.
E) Célebre frase proferida pelos gladiadores romanos quando do início do combate. Seu significado é: "hora de morrer". Com o tempo transformou-se num brado de coragem durante as batalhas.
5) Recentemente foi aprovado o novo código de ética da medicina que visibilizou ainda mais a problemática da ORTOTANÁSIA. Que afirmativa abaixo define precisamente esta expressão?
A) Processo em que a vida do paciente é estendida sem contrapartida de qualidade de vida podendo representar alto risco de sofrimento psíquico e/ou físico para o moribundo e seus familiares.
B) Forma de suicídio assistido onde o paciente regula autonomamente o momento e a forma de sua morte. A expressão foi criada pelo Dr Kevorkian
C) Forma de morte onde os pacientes são abandonados a própria sorte com a suspensão dos cuidados adequados, expressão sinônima para "morte com sofrimento".
D) Uma importante etapa dos cuidados paliativos onde a família é estimulada a estar presente no momento em que a morte do paciente ocorre recebendo para isso intensa assistência espiritual
E) Significa "morte natural", não prolongar artificialmente a vida de pacientes fora de possibilidades terapêuticas permitindo a evolução natural do quadro, utilizando-se de medidas para controle da dor e implementação de conforto 
Boa Resolução!

sábado, 17 de abril de 2010

A Fotografia Mortuária Não Morreu: Os "Viajantes" de Elizabeth Heyert (Erasmo Ruiz)



Sou fascinado pela fotografia mortuária. Nunca perdi meu tempo para tentar descobrir o porquê disso. Já dizem os psicanalistas de plantão que de uma forma ou de outra, todos nós temos algum fascínio pela morte. Talvez a fotografia, pelo seu poder de "congelar" a realidade, permita que nos aproximemos de qualquer evento, incluso aqueles que seriam mais amedrontadores, sem que estejamos efetivamente expostos a qualquer risco, um mecanismo parecido com o do parque de diversões.

Assim, no caso da fotografia mortuária, ela nos apresenta o cadáver, esse "maldito" objeto que a medicalização da sociedade tornou abjeto: uma entidade repleta de problemas higiênicos e que insiste em seguir a sua sina biológica de se desfazer e produzir odores terríveis e doenças contagiosas. Talvez estejamos diante da solução de um dos mistérios da fotografia mortuária. Ela cumpriria a capacidade de imobilizar simbolicamente a presença do morto, num momento em que o corpo ainda tem aquela aparência enganadora de que preservou a vida. Substituiu com eficácia o papel que era antes exercido pela máscara mortária. Cumpre portanto a tarefa de preservar a memória.
Logo após a invenção da fotografia veremos sua utilização de forma expressiva para registrar os mortos, mas não com o caráter de hoje em dia restrito a sua visibilidade jornalística, quando vemos os mortos das periferias, de todas as formas de marginalidade, sangrando profusamente nas páginas de jornais sensacionalistas.
No passado, a fotografia mortuária era expressão de um ritual afetivo. Mantinha viva a presença do morto e, ao mesmo tempo, prolongava os rituais fúnebres. Explicando melhor. O mundo do século XIX e do início do século XX não é um lugar com estradas de fácil percurso. Se alguém morresse muito distante, não conseguiríamos chegar a tempo para participar do velório e do sepultamento. A fotografia, portanto, registrava esse momento para que todos, de alguma forma, pudessem celebrar a memória. E a julgar pelas fotos que nos chegaram, elas são testemunhos inequívocos de que se lidava de uma forma diferente com a morte e o morrer. O fotógrafos faziam seu trabalho e deixavam registrados o nome de suas empresas para futuras empreitadas. E fotografias mortuárias colocadas em porta retratos sinalizam que essa imagem bem poderia ficar numa sala de estar ou ao pé de uma cama, sem necessariamente despertar sentimentos mais perturbadores do que a lembrança e a saudade.
Hoje em dia o exilamento da morte provocou uma menor visibilidade da fotografia mortuária dissociada da espetacularização da morte. Ainda assim, podemos encontrar trabalhos interessantes. Gostaria de destacar a obra da fotógrafa Elizabeth Heyert. Um dia, ela estava lendo o jornal quando viu um artigo falando sobre um diretor de funerária no Harlen em Nova York, que realizava cerimônias fúnebres no velho estilo dos negros batistas do sul dos Estados Unidos. Um dos aspectos desse estilo recomendava que os mortos deveriam estar muito bem apresentados para poderem chegar ao paraíso. E qual não foi a surpresa de Elizbeth ao constatar que isso era verdade!
Os mortos, a partir de necromaquiagem, pareciam estar vivos. Mas o que mais chamava a atenção era a forma como eram vestido: a mais bela roupa que pudesse sintetizar seu modo de viver. Foi assim que nasceu o projeto "Os Viajantes". Elizabeth selecionou as suas mais belas fotografias para compor ensaios que redundaram em exposições e na publicação de um livro. Para o gosto de hoje em dia - ele mesmo resultado de uma cultura que expurgou a morte de um contato mais direto e público - o trabalho de Elizabeth parece ser uma esquisitice sem tamanho, fruto de uma mente doentia.
Mas quando olhamos os mortos fotografados podemos ser levados a uma reflexão. Talvez se registrássemos nossos mortos, isso pudesse ser inspirador para a nossa vida. Nos lembrarmos com mais facilidade deles meio que presentificaria os bons e maus exemplos afinal, uma arte de morrer deveria estar intimamente ligada a uma arte de viver. Um dos principais legados dos mortos é pedagógico: podemos aprender com a vida que viveram o que pode ou não ser algo útil e bom para nossas vidas.
Ver um jovem vestido com a jaqueta do seu time preferido de basquete talvez sinalize para cada um de nós que não estamos investindo nosso tempo no lazer como deveríamos. Ver uma mulher idosa vestida como quem vai se apresentar num coral no céu pode também sinalizar que nunca é tarde para começar a fazer o que desejamos. Gostei tanto das fotos que planejo convidar Elizabeth para o meu enterro. Só espero estar um morto apresentável!
Para saber mais do trabalho de Elizabeth Heyert Acesse:

domingo, 11 de outubro de 2009

Ars Moriendi: A Arte de Bem Viver e Bem Morrer (Ayala Gurgel)



Trata-se de uma coletânea de textos e figuras escritos por volta dos anos de 1415 e 1450. Na minha opinião, diferente de O'Connor (1942), a obra como um todo trata-se de um catecismo para os cristãos medievais-modernos viverem os «sacramentos», por meio dos quais manteriam a fé e galgariam a salvação. 

Em termos de morte, relacionada ao sacramento da unção dos enfermos, traz protocolos, procedimentos e códigos de conduta direcionados a médicos e clérigos para o exercício do papel de nuncius mortis, que deveriam conduzir os moribundos a uma boa morte, de acordo com os preceitos do cristianismo de então. Quanto ao moribundo, exorta-o na luta contra as tentações, presentes em todas as fases da vida.

Existem duas versões das Ars moriendi: a versão longa, chamada também de Tractatus (ou Speculum) artis bene moriendi, composta em 1415, por um dominicano anônimo; e uma versão curta, que apareceu, provavelmente, em 1460, que é, na verdade, uma adaptação do segundo capítulo da versão longa, dedicado às cinco tentações que mais perturbam na hora da morte: a fé, o desespero, a impaciência, o orgulho espiritual e a avareza. A versão mais comum é assinada por Andrè Bocard, sob o título Ars moriendi: l'art de bien vivre et mourir, escrita em francês e publicada em 1493, disponível para consulta na seção Obras Raras da Librairie du Congrès, em Paris – França.

domingo, 20 de setembro de 2009

Aprendendo Com o Filme "Wit, Uma LIção de Vida" (Erasmo Ruiz)

Pessoalmente acredito que o cinema pode nos oferecer uma excelente oportunidade para estimular discussões e funcionar como veículo potenciliazador de mensagens e conteúdos. Nâo que o cinema possa produzir milagres, mas como expressão da arte, em algumas oportunidades, pode convidar as pessoas a refletir sobre a vida, o mundo e si mesmas.

O filme que indicamos essa semana pode ter essa capacidade, notadamente para nós que trabalhamos e militamos no campo da Saúde. Vivian Bearing (personagem vivido por Ema Thompson) é uma professora de literatura inglesa que no auge de sua carreira se descobre com mum câncer nos ovários em estágio avançado. Para tentar superar a doença, submete-se a um tratamento experimental com remotas possibilidades de cura.

Durante o tratamento, Vivian irá rever aspectos importantes de sua vida ao mesmo tempo em que reflete sobre a forma como está sendo cuidada. No meu entender é este aspecto que mais nos interessa de perto. Usando da técnica de conversação direta (quando o ator olha para a câmera e "conversa" com o público que o vê), Vivian se interroga e nos interroga sobre a triste trajetória dos pacientes hospitalares, a perda de identidade e privacidade, a refração de se discutir necessidades existenciais e a lenta tranasformação de indivídio em protocolo de cuidados.

Aos poucos Vivian vai percebendo que a forma como sempre lidou com seu próprio objeto de conhecimento e, em particular, a obra do poeta inglês John Do (quase sempre focada na morte) é similar a maneira fria e distante que agora lidam com ela. Com o passar do tempo, Vivian conclui que da mesma forma que falta sensibilidade e sentimento na forma como se produz ciência, falta também no contato entre as pessoas, em particular, quando nos aproximamos do final da vida.

Filme muito instigante para se dsicutir com profissionais de saúde em hospitais sobre a forma como estão lidando com seus pacientes. Mais rico ainda se for usado como material de oficinas em enfermarias com altas taxas de óbitos. Com certeza fará com que principalmente médicos e enfermeiras possam ser motivados a rediscutir seus processos de trabalho evidenciando as ações que fazem com que muitas vezes os pacientes os rotulem como "frios" e "insensíveis". O olhar fixo de Vivian em nossos olhos pode fazer com que prestemos mais atenção a fala dos pacientes!

De maneira geral, o filme também vale para que possamos produzir uma reflexdão sobre nossas próprias vidas. De que adiante seguir de maneira cega e acrítica nossas rotinas e obrigações se de fato não estivermos de alguma forma aproveitando a vida? Ao final da exibição fica a mensagem de que a vida descreve um arco onde, no que toca nossa vulnerabilidade, nascimento e morte parecem se encontrar!

quarta-feira, 29 de julho de 2009

cinema e cuidados paliativos

Programação Preliminar -Ciclo de Cinema e Reflexão
Os organizadores do II Ciclo de Cinema e Reflexão – Aprender a Viver/Aprender a Morrer divulgaram a programação preliminar. O evento, que acontecerá na Cinemateca Brasileira em São Paulo entre os dias 10 e 13de setembro, tem como organizadores a Academia Nacional de Cuidados Paliativos, o Hospital Premier, o Instituto Paliar e o Oboré Comunicação e Artes.

Confira a progração preliminar em: www.paliativo.org.br

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Buscando uma Nova Arte de Morrer (Erasmo Ruiz)

De tempos em tempos somos atingidos pelas crises. Elas assumem os mais variados matizes. Podem ser crises de valor, quando a moralidade e a ética desandam em sua necessária harmonia. Podem ser crises econômicas, que atingem o orçamento doméstico e nacional obrigando a sociedade a buscar formas de sobrevivência que tornam supérfluo o que antes era necessidade absoluta. Existem as crises de desenvolvimento humano - extensivamente descritas pela Psicologia - momentos chave da vida quando nos deparamos com o descompasso entre aquilo que conhecemos (ou pensamos conhecer) com aquilo que o mundo e nossos organismos sinalizam como necessidade adaptativa.Durante séculos os homens vivenciaram crises de saber. Por mais que o conhecimento científico avance, ele sempre esbarra em parcelas da realidade que resistem em se submeter ao entendimento, refratárias ao desenvolvimento das formas de análise e aos instrumentos de coleta que dispomos até o momento. É por não conseguir prever com objetividade como será nosso dia de amanhã que o homem inventa a magia do horóscopo e do tarô. Mas não queremos saber apenas como será o amanhã, o ano que vêm ou sobre a próxima década. Queremos transpor os umbrais do maior dos mistérios, queremos saber o que é a morte e se, de fato, existe algo além dela como nos prometeu tantas e tantas teologias.
A ciência, pelos seus indícios, parece sempre afirmar a impossibilidade de uma vida consciente na ausência do cérebro. A maioria de nós é um tanto refratário a essa idéia. Não parece ser fácil ao nosso psiquismo a convivência com a idéia da finitude absoluta. Ainda assim, durante anos, essa convivência foi construída a partir de uma “Ars Moriendi” atrelada a idéia do porvir que, de certa forma, reproduzia um mundo ideal, aquele mundo que todos sempre desejaram nessa vida terrena.
O exilamento gradativo da experiência da morte roubou nossa possibilidade de aprendermos uma arte de morrer e todo um conjunto de instâncias significadoras da experiência sobre a morte e o morrer. Se antes a religião parecia ser o núcleo produtor de todas as verdades tanáticas, a gradual secularização da sociedade e de seus espaços públicos parece ter produzido uma terra de ninguém onde miríade de instâncias assume agora seu papel no modo de produção das verdades sobre a morte. Nessa terra de ninguém os indivíduos estão perdidos acabando por aprenderem a única relação possível com a morte na ausência de uma forma mais ou menos padronizada de se lidar com ela. O medo irracional e todas as estratégias de afastamento que caminham lado a lado com ele são as formas como os homens aprendem a lidar com a morte.
A “crise do saber” em relação a morte leva, por decorrência, a uma das crises do viver. Perdemos inúmeras possibilidades de termos uma vida intensa e potencialmente feliz na medida em que negamos a busca do saber sobre a morte. Não quero propor aqui nenhum caminho. Eu mesmo estou a caça do meu. Entretanto, a simples estratégia de se buscar algo implica necessariamente em ter a morte como uma das questões do dia para que o dia possa ser vivido com intensidade na medida em que, cedo ou tarde, qualquer dia poderá ser o último dia. O tédio do viver parece ser filho do afastamento da morte como questão da existência.
Se antes o moribundo presidia seu desenlace e, portanto, era o dono de suas ações, senhor das últimas vontades, hoje os homens acham-se presos no cárcere de uma conspiração sórdida onde a farsa da vida na ausência da morte encena seu último ato. A crise do saber sobre a morte transforma-se agora na crise de saber sobre a própria vida. A maioria das pessoas parece caminhar em direção a morte sem saber do seu real destino, sem ter em suas próprias mãos as prerrogativas sobre o que fazer com que lhes resta de vida. Note-se que essa parece ser a questão fundamental da existência na medida em que somos seres para a morte. A perda dessa consciência, entretanto, nos torna artificialmente em seres que sistematicamente negam a morte. Se a vida foi vivida sem uma real clareza de sua finitude, ela não pode ser experienciada em sua real magnitude. Algo como ter que dirigir um automóvel possante sem nunca ter sentido o prazer da velocidade. Ao negarmos a finitude, significa então dizer que continuaremos a negá-la no limiar da experiência da morte. Talvez isso explique a solidão relatada por muitos pacientes fora de possibilidades terapêuticas nas enfermarias espalhadas pelo mundo. Da mesma forma, é a negação da morte que alimenta a obstinação terapêutica de profissionais de saúde que se disfarçam em soldados que militam contra a morte e, ao assim faze-lo, implementam dores e agonias sem fim, produzindo o extremo do sofrimento no fechamento da vida.
Até quando continuaremos a enlaçar o não saber sobre a morte com o silêncio sobre a própria morte? Conquistamos nos últimos anos a possibilidade de vivermos muito mais tempo. O real desafio que temos hoje não é descobrir se existe ou não um porvir. Essa questão, todos nós, um dia saberemos. Neste sentido estava certo Epicuro ao afirmar que quando somos a morte não é e quando a morte for não mais seremos. A questão fundamental ao pensarmos na morte é: o que estamos fazendo com o tempo a mais que o conhecimento científico está oferecendo aos homens? Uma resposta a esta questão atrela-se necessariamente a novas práticas que levem os homens a terem na morte não mais uma inimiga e sim como um fato que potencializa nossa capacidade de sermos felizes. Precisamos de uma nova “Ars Moriendi”que alimente a arte de viver plenamente.