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domingo, 11 de outubro de 2009

Ars Moriendi: A Arte de Bem Viver e Bem Morrer (Ayala Gurgel)



Trata-se de uma coletânea de textos e figuras escritos por volta dos anos de 1415 e 1450. Na minha opinião, diferente de O'Connor (1942), a obra como um todo trata-se de um catecismo para os cristãos medievais-modernos viverem os «sacramentos», por meio dos quais manteriam a fé e galgariam a salvação. 

Em termos de morte, relacionada ao sacramento da unção dos enfermos, traz protocolos, procedimentos e códigos de conduta direcionados a médicos e clérigos para o exercício do papel de nuncius mortis, que deveriam conduzir os moribundos a uma boa morte, de acordo com os preceitos do cristianismo de então. Quanto ao moribundo, exorta-o na luta contra as tentações, presentes em todas as fases da vida.

Existem duas versões das Ars moriendi: a versão longa, chamada também de Tractatus (ou Speculum) artis bene moriendi, composta em 1415, por um dominicano anônimo; e uma versão curta, que apareceu, provavelmente, em 1460, que é, na verdade, uma adaptação do segundo capítulo da versão longa, dedicado às cinco tentações que mais perturbam na hora da morte: a fé, o desespero, a impaciência, o orgulho espiritual e a avareza. A versão mais comum é assinada por Andrè Bocard, sob o título Ars moriendi: l'art de bien vivre et mourir, escrita em francês e publicada em 1493, disponível para consulta na seção Obras Raras da Librairie du Congrès, em Paris – França.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Aprendendo a Morrer com Mario Quintana (Erasmo Ruiz)



Continuo a insistir: a poesia é um dos poucos redutos onde podemos aprender um pouco da arte de morrer. Não isso que vemos na TV, as mortes cenográficas, dolorosas, dramáticas. Nem a morte que vemos nos hospitais, os abandonos nos quartos, o lidar com o corpo vivo porém morto à vida num leito de UTI.

Falo de preparação, não como uma espera ansiosa mas que tematiza o morrer como algo que expressa também o meu viver para que ele seja mais intenso, porque sabemos agora focar o existente com seu real valor de singularidade e beleza. E quem no ajuda a (re)encontrar esse valor é a percepção de que a morte faz parte do viver.

Hoje falaremos de Mario Quintana. Para mim este poeta gaúcho tem a virtude de tornar pesada uma pena e leve um cofre de banco. Mostra sutilezas e complexidades ocultas naquilo que vemos todos os dias e que aprendemos a não "ver" mais. Mario Quintana extrai ouro daquilo que nos acostumamos a chamar de banalidade..

Quintana falou muito sobre a morte, fez inclusive piada dela ao nos lembra que “A morte é a libertação total: a morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos”. Então, não temos mais que nos preocupar com o fato dos lençóis ficarem sujos com a terra do nosso calçado, aliás, talvez a morte seja isso mesmo, a ausência total das preocupações e, por isso, exercício pleno de uma liberdade que não se exercita..

Quintana pode ser um ótimo companheiro de jornada se quisermos discutir a morte. Recomendo essa jornada a todos e, particularmente, aos trabalhadores de saúde já que eles, muito provavelmente, cuidarão do nosso morrer. A questão é: como estão cuidando hoje em dia? Minha resposta é afirmar que o cuidar não pode estar reduzido a mera monitoração de sinais clínicos de um corpo reduzido a suas funções biológicas. As pessoas a beira da morte perdem a singularidade, se transformam massas biológicas a beira da dissolução. Nós somos muito mais do que isso!

O morrer grita pelo exercício de outras necessidades: expressa os quereres especialmente reservados para o fim da vida, pela simples razão que são percebidos como sinais da despedida do mundo e de tudo que amamos. Assim, quando formos falar de morte nos hospitais, por que não pensarmos em Mario Quintana? Vejam por exemplo este soneto:

Minha Morte Nasceu...
Mário Quintana para Moysés Vellinho

Minha Morte nasceu quando eu nasci
Despertou, balbuciou, cresceu comigo
E dançamos de roda ao luar amigo
Na pequenina rua em que vivi

Já não tem aquele jeito antigo
De rir que, ai de mim, também perdi
Mas inda agora a estou sentindo aqui
grave e boa a escutar o que lhe digo

Tu que és minha doce prometida
Nem sei quando serão nossas bodas
Se hoje mesmo...ou no fim de longa vida

E as horas lá se vão loucas ou tristes
Mas é tão bom em meio as horas todas
Pensar em ti, saber que tu existes

(Fonte: QUINTANA, Mário Poesia Completa. Rio de Janeiro:Nova Aguilar; 2005)


Quanta leveza para um tema costumeiramente denso e amedrontador...a morte como um ente que nos acompanha desde o nascimento....como uma namorada de infância com quem um dia, cedo ou tarde, nos casaremos. Já utilizei este poema para estimular trabalhadores de saúde em rodas para tematizarem as suas experiências pessoais com a morte, suas primeiras lembranças. O resultado foi muito bom. As pessoas trouxeram recordações, expressaram lutos mal elaborados, produziram ligações com as experiências de morte vividas no cotidiano.

Como todo tabú, depois que percebemos que não haverá necessariamente punições por quebra-lo, a porta se escancara e as pessoas meio que perdem o medo, pelo menos de falar, e percebem que o medo da morte e do morrer que as deixa tão vulneráveis, na verdade é o medo de todos. Assim, nos tornamos fortes quando percebemos que o medo é algo que pertence ao mundo, elemento que tipifica a condição humana.

Mas Quintana tem mais a nos dizer:

Este quarto

Este quarto de enfermo, tão deserto
de tudo, pois nem livros eu já leio
e a própria vida eu a deixei no meio
como um romance que ficasse aberto...

Que me importa este quarto, em que desperto
como se despertasse em quarto alheio?
Eu olho é o céu! Imensamente perto,
o céu que me descansa como um seio.

Pois só o céu é que está perto, sim,
tão perto e tão amigo que parece
um grande olhar azul pousado em mim.

A morte deveria ser assim:
um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim..."

(Fonte: QUINTANA, Mário Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; 2005)

Aqui Mario Quintana apresenta a percepção da morte por quem está morrendo ou, pelo menos, uma idealização do que ela deveria ser. O olhar do moribundo parece expressar esperança nas promessas de um céu que significa descanso, o fim das dores e sofrimento. Compara a morte a este mesmo céu que a semelhança do dia, cede espaço para noite inexorável, um manto que nos cobre e nos livra da ansiedade de saber que é o fim. Novamente, uma bela metáfora da morte que nos afasta das representações terríveis e dolorosas.

A partir dessa leitura as pessoas podem ser estimuladas a falar das experiências que vivem nos hospitais, no cotidiano do trabaho, podem compartilhar os sentidos que tem dado a morte, as percepções do que seriam a mortes dolorosas (física e psiquicamente) e como poderiam atuar para minimizar a dor e vulnerabilidade de pacientes e familiares.

Vamos terminando por aqui, encerrando da melhor maneira possível, claro, com Mário Quintana:





INSCRIÇÃO PARA UM PORTÃO DE CEMITÉRIO

Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce - uma estrela,
Quando se morre - uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
"Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!"

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Buscando uma Nova Arte de Morrer (Erasmo Ruiz)

De tempos em tempos somos atingidos pelas crises. Elas assumem os mais variados matizes. Podem ser crises de valor, quando a moralidade e a ética desandam em sua necessária harmonia. Podem ser crises econômicas, que atingem o orçamento doméstico e nacional obrigando a sociedade a buscar formas de sobrevivência que tornam supérfluo o que antes era necessidade absoluta. Existem as crises de desenvolvimento humano - extensivamente descritas pela Psicologia - momentos chave da vida quando nos deparamos com o descompasso entre aquilo que conhecemos (ou pensamos conhecer) com aquilo que o mundo e nossos organismos sinalizam como necessidade adaptativa.Durante séculos os homens vivenciaram crises de saber. Por mais que o conhecimento científico avance, ele sempre esbarra em parcelas da realidade que resistem em se submeter ao entendimento, refratárias ao desenvolvimento das formas de análise e aos instrumentos de coleta que dispomos até o momento. É por não conseguir prever com objetividade como será nosso dia de amanhã que o homem inventa a magia do horóscopo e do tarô. Mas não queremos saber apenas como será o amanhã, o ano que vêm ou sobre a próxima década. Queremos transpor os umbrais do maior dos mistérios, queremos saber o que é a morte e se, de fato, existe algo além dela como nos prometeu tantas e tantas teologias.
A ciência, pelos seus indícios, parece sempre afirmar a impossibilidade de uma vida consciente na ausência do cérebro. A maioria de nós é um tanto refratário a essa idéia. Não parece ser fácil ao nosso psiquismo a convivência com a idéia da finitude absoluta. Ainda assim, durante anos, essa convivência foi construída a partir de uma “Ars Moriendi” atrelada a idéia do porvir que, de certa forma, reproduzia um mundo ideal, aquele mundo que todos sempre desejaram nessa vida terrena.
O exilamento gradativo da experiência da morte roubou nossa possibilidade de aprendermos uma arte de morrer e todo um conjunto de instâncias significadoras da experiência sobre a morte e o morrer. Se antes a religião parecia ser o núcleo produtor de todas as verdades tanáticas, a gradual secularização da sociedade e de seus espaços públicos parece ter produzido uma terra de ninguém onde miríade de instâncias assume agora seu papel no modo de produção das verdades sobre a morte. Nessa terra de ninguém os indivíduos estão perdidos acabando por aprenderem a única relação possível com a morte na ausência de uma forma mais ou menos padronizada de se lidar com ela. O medo irracional e todas as estratégias de afastamento que caminham lado a lado com ele são as formas como os homens aprendem a lidar com a morte.
A “crise do saber” em relação a morte leva, por decorrência, a uma das crises do viver. Perdemos inúmeras possibilidades de termos uma vida intensa e potencialmente feliz na medida em que negamos a busca do saber sobre a morte. Não quero propor aqui nenhum caminho. Eu mesmo estou a caça do meu. Entretanto, a simples estratégia de se buscar algo implica necessariamente em ter a morte como uma das questões do dia para que o dia possa ser vivido com intensidade na medida em que, cedo ou tarde, qualquer dia poderá ser o último dia. O tédio do viver parece ser filho do afastamento da morte como questão da existência.
Se antes o moribundo presidia seu desenlace e, portanto, era o dono de suas ações, senhor das últimas vontades, hoje os homens acham-se presos no cárcere de uma conspiração sórdida onde a farsa da vida na ausência da morte encena seu último ato. A crise do saber sobre a morte transforma-se agora na crise de saber sobre a própria vida. A maioria das pessoas parece caminhar em direção a morte sem saber do seu real destino, sem ter em suas próprias mãos as prerrogativas sobre o que fazer com que lhes resta de vida. Note-se que essa parece ser a questão fundamental da existência na medida em que somos seres para a morte. A perda dessa consciência, entretanto, nos torna artificialmente em seres que sistematicamente negam a morte. Se a vida foi vivida sem uma real clareza de sua finitude, ela não pode ser experienciada em sua real magnitude. Algo como ter que dirigir um automóvel possante sem nunca ter sentido o prazer da velocidade. Ao negarmos a finitude, significa então dizer que continuaremos a negá-la no limiar da experiência da morte. Talvez isso explique a solidão relatada por muitos pacientes fora de possibilidades terapêuticas nas enfermarias espalhadas pelo mundo. Da mesma forma, é a negação da morte que alimenta a obstinação terapêutica de profissionais de saúde que se disfarçam em soldados que militam contra a morte e, ao assim faze-lo, implementam dores e agonias sem fim, produzindo o extremo do sofrimento no fechamento da vida.
Até quando continuaremos a enlaçar o não saber sobre a morte com o silêncio sobre a própria morte? Conquistamos nos últimos anos a possibilidade de vivermos muito mais tempo. O real desafio que temos hoje não é descobrir se existe ou não um porvir. Essa questão, todos nós, um dia saberemos. Neste sentido estava certo Epicuro ao afirmar que quando somos a morte não é e quando a morte for não mais seremos. A questão fundamental ao pensarmos na morte é: o que estamos fazendo com o tempo a mais que o conhecimento científico está oferecendo aos homens? Uma resposta a esta questão atrela-se necessariamente a novas práticas que levem os homens a terem na morte não mais uma inimiga e sim como um fato que potencializa nossa capacidade de sermos felizes. Precisamos de uma nova “Ars Moriendi”que alimente a arte de viver plenamente.