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domingo, 10 de julho de 2011

O Mundo Fashion da Morte (Erasmo Ruiz)





Você já pensou com que roupa gostaria de ser enterrado? OU, quem sabe, cremado? Ora, esse tipo de pergunta ninguém faz hoje em dia, embora a roupa do morto de uma certa forma continue sendo uma coisa importante.





Existem aqueles que querem ser enterrados com a camisa de seu clube preferido. Outros expressam no morto aquilo que ele foi em vida e acabam lhe botando um bem cortado terno de advogado, toga de juiz, jaleco de médico ou uniforme de militar. As possibilidades são muitas.



No entanto, poucos discutem o que seria uma roupa apropriada para os mortos, principalmente numa época em que as preocupações de ordem ecológica são plenamente justificadas.



Pois descobrimos recentemente a estilista australiana Pia Interlandi. Quando perdeu seu avô ficou a se perguntar sobre qual roupa seria mais adequada para alguém ser enterrado."Eu estava dando o laço no cadarço de seus sapatos quando me perguntei : mas onde ela vai andar? Não precisa de sapatos".

 Com o tempo buscou desenhar mortalhas e, posteriormente, estudou materiais para roupas mortuárias que fossem ecologicamente corretas, para que pudessem se degradar junto com os mortos. A idéia de pessoas serem enterradas em roupas de poliester a desagradava proifundamente pois imaginava que depois de passado o tempo da decomposição do corpo o que resataria seria um esqueleto vestido já que o poliester não se degradava.



Como nos ensina Norbert Elias: "A Morte é um Problema dos Vivos". Em tempos de preocupações ecológicas talvez em futuro próximo seremos todos sepultados em roupas que possam tranquilamente se decomporem conosco.



Resta saber como o capitalismo irá transformar essa idéia em mercadoria para todos. Talvez famosas modelos possam dramaticamente promoverem essas vestimentas em tanáticos desfile de modas. Ou então, poderemos chegar num magazine e comprar nossa roupa para a última viagem em 5 vezes sem juros. Esse mundo fashion cheio de glamour acaba de chegar à morte. Agora o céu é o limite...ou quem sabe o inferno!  

 

quarta-feira, 4 de maio de 2011

As Mortes e "Ressurreições" de Bin Laden (Erasmo Ruiz)





Para quem intui que a morte não seja um evento restrito apenas ao momento em que ela ocorre, pode-se morrer de muitas formas. A depender então como se morre, do conjunto de circunstâncias que levam alguém a morrer, teremos inúmeras possibilidades de que o morrer seja um elemento que transcenda a pessoa que morre, produzindo miríade de elementos de ordem simbólica que  sedimentarão os conteúdos da memória coletiva.





Essa é uma das lições que aprendemos por exemplo com Manuel Bandeira em seu poema "Morte Absoluta" (acesse o poema aqui), de que na verdade a morte do corpo é só a primeira das mortes. A definitiva é aquela que sedimenta as ações da nossa vida nos pântanos do esquecimento absoluto daqueles que permanecem vivos. Entretanto, alguns mortos desafiam o esquecimento e, de certa forma, permanecem presentes.



O  governo norteaamericano alardeou nos últimos dias que o terrorista Osama Bin Lade está morto. A ação de um grupo militar de elite pôs fim a vida do homem que será lembrado para sempre como uma das referências biográficas do início de século XXI. Mas deixamos uma pergunta no ar. Estará Bin Laden de fato morto?



Fique tranquilo, este não é mais um texto que urdirá uma nova teoria conspiratória. Na internet já podemos encontrar versões para todos os gostos e que em breve poderão  fazer parte de algum documentário sensacionalista  na TV. Queremos caminhar em outra direção.



Ora, não basta morrer para se tranformar num morto absolutamente digno de esquecimento. Partindo-se da premissa de que Bin Laden morreu na ação norteamericana (e não estamos duvidando disso), ele transformou-se num morto cujo cadáver não pode ser visto. Também não possui um túmulo para ser visitado. Partiu desse mundo da maneira que sempre aconselhou seus adeptos a fazerem. Na ótica do fundamentalismo islâmico, Bin Laden é um mártir imolado por defender a pureza dos princípios do Islão.



Existem aspectos psicossociais que fortalecem ainda mais essa ideia. Perdas e processos de luto para serem melhor elaborados precisam de evidências claras. É por isso que muitas pessoas não conseguem fechar o processo de luto se não tiverem visto o cadáver, ficam como que "congeladas" diante de um pensamento mágico que fica repetindo como um mantra: "não é possível que ele tenha morrido"!



É este talvez o maior efeito psicológico da forma como está sendo conduzido a exposição da morte de Bin Laden pelos norteamericanos e a imprensa de uma forma geral. Não se alimenta só os teóricos da conspiração com inúmeras suspeitas, alimenta-se principalmente os aspectos simbólicos de um mito que se energiza pela "paralisação" do tempo, pela imobilidade do sentimento de raiva e frustração dos adeptos do mártir que agora veneram definitivamente um morto sem corpo e sem túmulo, um morto simbolicamente mais vivo do que nunca!



E os efeitos da morte de Bin Laden nos EUA só respaldam os sentimentos de antagonismo dos muçulmanos, as diferenças de uma sociedade mercantil e pós-moderna frente a sociedades ideologicamente marcadas por valores pré-capitalistas. Não reporto apenas as manifestações de júbilo diante da morte de um inimigo, mas a sua transformação imediata em mercadoria. A efígie de Bin Laden estampa agora de calcinhas à canecas, camisetas e  preservativos. Sua imagem é apropriada exaustivamente, é o acontecimento do momento, é o produto da vez que eclipsou o casamento da princesa e os destinos dos personagens de novelas pelo planeta inteiro.





Novamente os telejornais prestam seu tradicional serviço de desinformação. São meras usinas de montagem de uma pretensa "verdade" que deve ser repetida a exaustão. Nesse sentido, para o civilizado mundo ocidental, a imagem de Bin Laden deve ser tratada  como um cão sarnento, digno de ter sido justiçado sem que em nenhum momento seja lembrado que o próprio Bin Laden é produto dos interesses da diplomacia americana na época da guerra fria e que o mesmo governo que o justiçou deveria, em tese, te-lo levado a julgamento caso de fato obedecesse os princípios de direitos humanos que apregoa pelo mundo afora. Assim, oscilando entre o martírio e a execução sumária, as imagens de Bin Laden vão permanecendo cada vez mais vivas e marcadas pelas trágicas cores dos interesses políticos mais abjetos.



Uma conclusão pode ser tirada desde já. Alguns homens, pensando-se nas  causas que defendem, podem ser mais valiosos mortos do que vivos. Hoje, para o mundo islâmico, existe o mártir dos mártires, a imagem do homem que deve ser seguido como exemplo, afinal, morreu da forma como sempre pediu aos seus seguidores para morrer. Neste sentido, mesmo morto, Bin Laden está mais vivo do que nunca. Mortos que não se transformam em cadáveres e possam se "abrigar" em túmulos são o esteio de novas lendas, mitos e até religiões!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Cibele Dorsa: Quando o Suicídio é uma Mercadoria na Grande Imprensa (Erasmo Ruiz)





O suicídio é um tema tabu. Raramente é abordado na imprensa de uma forma direta. Quando emerge, será de maneira abstrata, como um tema geral que aparentemente não tocaria as pessoas tidas como "normais".

Mas como toda morte, aquela que ocorre por suicídio produz consequências biográficas, impactando de forma intensa na vida das pessoas próximas. E se pensarmos então nos elementos de nossa cultura com fortes marcas religiosas, o suicídio é uma espécie de anátema, um estigma que marca as famílias, um perverso jogo psicológico de atribuições e autoatribuições de responsabilidade.







Lermbro-me de um episódio na minha adolescência onde a mãe de um amigo ao saber de um diagnóstico de câncer de mama em estágio avançado acabou cometendo suicídio com um tiro na cabeça, que no velório se transformou na versão de "disparo acidental". A vida daquela mulher havia se transformado em uma mácula que as pessoas, apesar de ama-la, não estavam dispostas a comartilhar pelo medo da vergonha e do dedo em riste.



Os jornais tendem então a dar destaques curtos ao suicídio, são mais "generosos"  com os pobres que se matam ingerindo veneno para ratos e muito discretos com empresários que se jogam do alto de prédios por não cosneguirem mais driblar crises financeiras. As notícias são notas e os suicidas são objetos que se autodestruiram, não possuem vida e memória!



Essa conduta de "redação e estilo" não está escrita em canto algum mas é quase sempre respeitada. Existe o medo que ao veicular o suicídio estaríamos incentivando uma "epidemia" de suicídios como foi acusado Goethe quando seu personagem Werther suicida-se, exemplo que teria sido seguido por muitos jovens que se identificarfam com os dilemas de Werther.



Mas estamos agora assistindo a uma excessão, afinal, as razões de mercado se impõem a qualquer lógica engendrada pela idéia de proteção social. Ha poucos dias a atriz Cibele Dorsa cometeu suicídio jogando-se do alto do prédio onde morava  depois de semanas enfrentando um processo depressivo decorrente do suicídio de seu jovem noivo em circunstâncias similares.



Não adentraremos na discussão dos motivos de Cibele. Mas o que parece ser diferente nessa situação é o fato dela ser uma celebridade, atriz e escritora famosa. O processo que leva ao seu suicídio pode ser em parte acompanhado pela internet, pelo Twitter e pelo Youtube, onde postou um vídeo em homenagem ao noivo morto. Nas redes sociais pediu desculpas pelos gesto que em breve iria realizar e ao mesmo tempo apresenta as justificativas embasadas na sua dor.



No fim, o tradicional bilhete suicida,  que na verdade é um email mandado para  a revista "Caras" (vide link no final do post) . E foi assim que o mundo de "Caras" cheio do luxo e do glamour dos ricos e famosos acabou por abrir suas portas a um assunto não abordado pela revista. Dever de informação? Imposição do trabalho de jornalismo?



O ex marido de Cibele, particularmentre exposto pelo conteúdo do email, tentou impedir a publicação e o conseguiu por alguns dias. No entanto, a revista através da justiça conseguiu veicular a mensagem. Com esse gesto, muito provavelmente, a revista conseguiu atrair o olhar curioso de milhares de leitores que não estão necessariamente interessados em saber a decoração dos banheiros de um magnata mas que, dada a interdição do tema suicídio, ficarão atraídos pela matéria.



E lá podemos ler sobre a dor e o sofrimento de um ser humano em extrema crise. Mas, infelizmente, isso é quase nada destacado pela matéria. O email de suicídio na verdade se transforma em isca para vender revista, um lembrete trágico de um chavão que os ricos gostam sempre de referir: "dinheiro não traz felicidade"!



As dores e inconfidências, agora tornadas públicas, alimentam o imaginário de todos que leem o texto. Seria o ex marido co-responsável pela tragédia ao impedir a atriz de ver os filhos? E o papel das drogas nessa história toda? Ainda é possível morrer por amor? Psiquiatras e psicólogos poderão agora usar o email  em aulas de psicopatologia para destacar em termos práticos o "doentio" e mórbido" imaginário de um suicda às portas da morte.



Mas...e das dores de Cibele? E a necessária empatia para lidar com um sofrimento que não está restrito apenas a ela mas que em parte é de todos nós? Nestes aspectos ressoa um silêncio ensurdecedor! Até porque o suicídio é algo que só pode acontecer com os outros!



email de Cibele

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Medicina Privada Propõe Ortotanásia de Araque (Erasmo Ruiz)



Mal o país começou a assistir sérias discussões sobre os cuidados no final da vida e os planos de “saúde” (melhor seria dizer mercantilização da vida) já começam a colocar as suas garras necrófagas de fora. Em noticia que transcrevo na íntegra no final deste post, grupos de medicina privada defendem ardorosamente a ortotanásia como forma de reduzir custos e minimizar os impactos dos reajustes dos planos. O raciocínio é singelo. Altos custos para tratamentos fúteis no final da vida são desnecessários pois não produziriam cura. Assim, buscam formas de legitimar a cessação arbitrária destes tratamentos para que os mesmos não impactem nos custos. Ou seja, os planos de saúde são caros por causa dos pacientes fora de possibilidades terapêuticas!
Primeiramente é necessário delimitar conceitos. A ortotanásia é um termo que nada tem haver com a forma que é pensada por estes grupos. Ortotanásia significa rigorosamente o seguinte: uma morte natural sem a interferência da ciência, permitindo possibilidades de morte digna e sem sofrimento.



Desta forma, tenta-se evitar formas de intervenção que só prolongariam inutilmente a vida, produzindo o que é chamado de distanásia (aumento do processo agônico sem contrapartida de qualidade de vida). Neste sentido, continuar atuando terapeuticamente com estes pacientes (utilizando-se por exemplo de técnicas de manutenção artifical como respiradouros ou buscar ressucitação cardíaca) seria uma ação que atentaria contra a dignidade da vida.
Em tese estes argumentos seriam defensáveis do ponto de vista bioético embora existam evidentes dificuldades em se definir o que seria um paciente fora de possibilidades terapêuticas a depender da diversidade de estados clínicos. Para complexificar ainda mais, a autonomia do paciente seria um direito irrestrito? Poderia ele recusar ativamente tratamentos mesmo que seja considerado com possibilidades terapêuticas? Mas voltemos a notícia. O que ela colocaria como mais pernicioso é o argumento em defesa do que é chamado de ortotanásia como uma medida para redução de custos. Ora, se as mazelas do corpo até aquele momento foram regulamentadas por um contrato que delimita as intervenções que podem ou não podem ser feitas, um corpo em ameaça explícita de dissolução exigiria técnicas de manutenção e suporte cada vez mais onerosas. Enfim, não se pode gastar dinheiro com quem não irá continuar pagando por tratamentos futuros.
Aqui não estamos falando em ortonásia para prevenir dor e sofrimentos inúteis. Estamos falando na verdade de “mistanásia”, a morte que se dá pelas condições sociais do sujeito termos mais utilizado quando morre o miserável de frio ao relento da rua, quando morre a criança de amebíase por ser desnutrida, quando morre o idoso desassistido em campos de concentração apelidados de asilos. Agora os planos de saúde estão inaugurando uma espécie de mistanásia para a classe média: a morte decretada porque os planos ficam onerosos e não porque podemos e devemos lidar melhor com as pessoas que estão morrendo.
Notem que a notícia em nenhum momento fala de “cuidados paliativos”. Ela também não fala de sistemas de “homecare” muito menos de “hospices”. O que se intenta é legitimar a violência de IMPOR a suspensão do tratamento terapêutico pura e simplesmente. Não podemos sujeitar que a esperança e traços de cultura com relação a morte desapareçam da noite para o dia. Muitas famílias vêem a continuação da atuação terapêutica como possibilidade efetiva de cura. Isso foi alimentado por muitos anos de uma medicina que se via como uma entidade que luta contra morte. Precisamos mudar esse paradigma para a produção de vida e felicidade. Não viveremos para sempre, mas, enquanto vivermos, temos que viver com dignidade o que implica também em morrer com dignidade.
Do meu ponto de vista, buscar a prática de cuidados paliativos é a melhor solução para quem está vivenciando o fim da vida. Entretanto, impor a negação da atuação terapêutica pode ser configurado pelas pessoas como abandono e desassistência. E isso pode ser tão desumano quanto a distanásia!
Basta de mercantilização da vida! Basta de buscar redução de custos com falsos discursos humanitários!
Notícia em:

quarta-feira, 23 de junho de 2010

São João e Morte Com Manuel Bandeira (Erasmo Ruiz)





Aos poucos as festas juninas vão perdendo um certo ar de ingenuidade. A industrialização da festa, os mecanismos da mercantilziação e espetacularização transformam o "São João" em bem econômico.

As quadrilhas ganham figurinos elaborados, participam de concursos, buscam patrocínio. As empresas de turismo vendem maravilhosos pacotes, uma verdadera caravana pelo nordeste, onde a ferocidade do cangaceiro jaz subserviente como um ícone na canga do mercado.
Tem noiva, noivo, padre, tudo tão estilizado que parece perder sua raiz na memória. E a comida arduamente preparada em tacho e pilão pode agora ser comprada na mercearia ao lado.
Recebi agora a pouco da grande amiga Sheylla este poema de Manuel Bandeira que havia lido na saída de minha adolescência. Hoje posso revê-lo sem nenhuma ambiguidade e rememorar todos aqueles que pularam fogueira comigo e que agora dormem o mesmo sono que um dia dormirei
Eita velho "Mané", fonte inesgotável de reflexões sobre a minha e a sua mortalidade. Por que não, então, um São João com morte para celebrarmos a vida e a memória? Para tornar o gosto do milho mais intenso, para sentir mais forte o perfume do quentão, para cair nos braços da noiva da quadrilha é bom refletir com Bandeira!
Profundamente
(Manuel Bandeira)
Quando ontem adormeci Na noite de São João Havia alegria e rumor Estrondos de bombas luzes de Bengala Vozes cantigas e risos Ao pé das fogueiras acesas. No meio da noite despertei Não ouvi mais vozes e risos Apenas balões Passavam errantes Silenciosamente Apenas de vez em quando O ruído de um bonde Cortava o silêncio Como um túnel. Onde estavam os que há pouco Dançavam Cantavam E riam Ao pé das fogueiras acesas? - Estavam todos dormindo Estavam todos deitados Dormindo Profundamente Quando eu tinha seis anos Não pude ver o fim da festa de São João Porque adormeci Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo Minha avó Meu avô Totônio Rodrigues Tomásia Rosa Onde estão todos eles? - Estão todos dormindo Estão todos deitados Dormindo. Profundamente.

domingo, 18 de abril de 2010

Lei dos Cemitérios - Exploração da Morte ou Regulamentação Social? (Elba Mochel)



Em São Luís acaba de ser aprovada uma lei que trata de preservar, se não a aparência dos mortos, pelo menos, o lugar que lhe engoliu os restos. É a chamada Lei no cemitério. O projeto estabelece, entre outras, as seguintes regras: 1) a cobrança de taxa anual de manutenção dos jazigos limitada a 10% do salário mínimo, aí incluído o pagamento dos serviços de limpeza e conservação da área livre do cemitério e preservação dos jazigos contra a depredação ou furtos por deficiência de vigilância, cujo ônus caberá aos gestores. 3) A desapropriação dos restos mortais de cadáveres só será possível após dez anos do sepultamento e com prévia comunicação aos proprietários do jazigo. A relação dos cadáveres em vias de desapropriação deverá ser publicada em edital, com prazo mínimo de 30 dias para que seja regularizada a pendência financeira. Academias, conselhos e associações de classe poderão, dentro do prazo estabelecido, apresentar embargo, justificando a necessidade de proteção ao cadáver sepulto, com base em fatos e documentos históricos. Uma comissão especial julgará os embargos. 4) Os restos mortais do cadáver desapropriado deverão ser catalogados e acondicionados em material resistente, onde constem nome e datas do sepultamento e da desapropriação. Já a guarda dos restos mortais deverá ser feita em local adequado, não exposto e de acesso aos interessados. 5) O projeto determina ainda que a vigência dos contratos de terceirização não poderá exceder o prazo de cinco anos, após o qual haverá nova licitação. Perguntamos: essa lei não é mais uma forma de controle social sobre os corpos e uma forma de exploração comercial dos enlutados?

sexta-feira, 12 de março de 2010

Um Olhar sobre o Cotidiano da Desumanização da Morte: Relato de Experiência (Ariadna Simplício e Yara Monteiro*)



A gestação teve de ser interrompida ao quinto mês, em razão de uma infecção que atacou o feto e comprometia também a saúde da mãe. A genitora durante a gravidez havia perdido quantidade significativa de líquido amniótico, e naquela data essa quantidade havia chegado a zero. Sendo assim, a equipe médica responsável optou por estimular o parto. Foi assim que, por volta das 20 horas do dia 27 de Janeiro de 2010, a mãe foi encaminhada para a sala de parto, dando a luz a uma criança do sexo masculino, que nasceu com vida. Todavia, o menino faleceu menos de três horas depois. No dia seguinte, além da dor indescritível da perda do primeiro filho, os pais sofreram com a insensibilidade e com o máximo desrespeito à dignidade humana por parte da agente funerária que conduziu o processo de preparação para o sepultamento. A agente assumiu um postura grosseira ao não mostrar disposição para respeitar o tempo necessário para os procedimentos até o velório. Ainda no hospital, a funcionária fazia referência a uma outra criança também falecida e que tinha de ir buscar em uma outra Maternidade, sinalizando um atendimento “coisificado”, puramente comercial, não respeitando a dor e o momento da família enlutada. Durante todo o atendimento, a agente privilegiava o próprio tempo, desconsiderando ou rebaixando a um segundo plano o tempo da família. Contudo, foi convencida pelo avô do menino e por duas Assistentes Sociais, amigas da mãe do bebê falecido, que também estavam presentes na ocasião, a atender um caso por vez. Chegando à residência da família, onde parentes e amigos aguardavam a criança, a agente funerária, num primeiro momento, dificultou a retirada do caixão de dentro do veículo da empresa. Mesmo a família afirmando que não iria demorar, pois haviam preparado e esperado esse momento para a oração em nome da criança, A agente funerária resistiu, dizendo que, se a criança descesse, a família deveria aguardar enquanto iria buscar a outra criança. Daí, a agente abriu o porta malas do carro, retirou a tampa do caixão e expôs aos olhares curiosos de todos a criança morta, dizendo que o velório seria realizado ali e, caso o caixão saísse do carro, ela não iria esperar. “Senti que meu filho parecia uma fruta exposta em um desses carros que vendem frutas e param na porta da gente”, desabafou a mãe da criança. Nesse momento, para resguardar o sentido daquele momento e o sentimento da família, as Assistentes Sociais tiveram que intervir. O diálogo foi provocado no sentido de sensibilizar a referida técnica de que a própria especificidade dos serviços prestados por ela exige uma conduta diferente, um trato mais humanizado. Não estamos aqui indicando excessos de sentimentalismos, mas reiterando a necessidade de sensibilidade para lidar com sentimentos humanos em momento de sofrimento. Foi necessário acionar por telefone a gerência da funerária para que se deslocasse outra equipe para atender o outro caso, garantindo assim, o direito da família de realizar o velório. Durante a discussão, a agente chegou a argumentar que o convênio da Prefeitura com a funerária, estava com pagamento em atraso e que ela tinha outras demandas. Alegou até que o trânsito da cidade dificultava o seu trabalho. Mas, as Assistentes Sociais insistiram que as famílias não devem ser punidas, tomadas do seus direitos, ou agredidas em sua dignidade em virtude de qualquer que fosse a dificuldade com repasses de recurso da Prefeitura. Caso a funerária não dispusesse de condições operacionais de atender satisfatoriamente a demanda, deveria não assumir a responsabilidade de realizar um trabalho dessa natureza, que demanda, no mínimo, bom senso. Quem recorre ao beneficio do auxilio funeral recorre por necessidade e precisa ser respeitado integralmente em seu direito. Com certeza, um destes direitos é a vivência dos ritos para poder elaborar o luto! *Ariadna Simplício - É Assistente Social da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Infraestrutura de Fortaleza-CE (SEINF) e Mãe do Philipe. Contatos: ariadna_simplício@yahoo.com.br ou 85-8149-8900 - Yara Monteiro - Assistente Social da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Infraestrutura de Fortaleza-CE (SEINF); Aluna de Especialização em Saúde Pública (UECE); Membro do Grupo de Estutos Tanatológicos (GESTA), "irmã/madrinha" do Pedro Rafael. Contatos: yarinhaalmeida@hotmail.com ou 85-8834-8247/9659-0269

domingo, 1 de novembro de 2009

Death Bonds: Títulos da Morte no mercado financeiro (Ayala Gurgel)


Cada dia novidades sobre a mercantilização da morte aparecem nos meios de comunicação. Desde 2007, os investimentos de riscos são o atrativo para quem tem seguro de vida e precisa de uma graninha.
Se você tem algum seguro de vida, já tem certa idade, um idoso para falar a verdade (e quando mais com o pé na cova, mais valor de mercado terá) e precisa urgente de uma grana, poderá vender seu seguro por até 40% do valor da apólice a um banco, que o transformará em título financeiro (bond) para ser revendido a investidores no mercado financeiro.
Como o investidor ganhará em cima da morte do segurado, esse título tem sido chamado de Death Bonds: Títulos da Morte. Quanto mais cedo o segurado morrer, maior o lucro do investidor.
Bancos como o Goldman Sachs e o Credit Suisse, através da Life Insurance Settlement Association, já estão nesse mercado, comprando essas apólices de segurados que necessitam levantar dinheiro com urgẽncia.
Mais informações podem ser obtidas no site: http://www.businessweek.com/magazine/content/07_31/b4044002.htm

sábado, 31 de outubro de 2009

Wal-Mart e a Mercantilização da Morte (Mariana Farias)



Essa notícia está rodando na net, mais especificamente sob o comando da BBC Brasil, e diz respeito direto às formas contemporâneas de mercantilização da morte.

A maior rede varejista do mundo, a Wal-Mart, começou a vender caixões em seu website.
A rede, que vende desde roupas, acessórios e fraldas para bebês até alianças de casamento, agora pretende manter a lealdade dos clientes até depois de sua morte. Os preços variam de US$ 895 (cerca de R$ 1.575) por um modelo de aço, até US$ 2.899 (cerca de R$ 5.102) por um modelo de bronze.
A rede de supermercados permite que os clientes paguem os caixões em até 12 prestações, sem juros. Os caixões ficam prontos para entrega em 48 horas.
Um porta-voz da Wal-Mart Ravi Jariwala disse que a nova linha de caixões é "um teste limitado para entender a resposta dos clientes".
Os preços da Wal-Mart são mais baixos do que o de muitas casas funerárias. Mas um porta-voz da indústria disse que não está muito preocupado com a concorrência porque, segundo ele, a rede varejista não oferece às famílias em luto o "toque humano". Pat Lynth, da Associação Nacional de Diretores de Casas Funerárias, disse à agência e notícias AP: "Não há nenhuma dúvida para mim, que sou diretor de uma casa funerária há 40 anos, que o elemento mais crítico é o contato humano".

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Mercantilização da Morte: Eros e Thanatos à Venda (Ayala Gurgel)



Já sabemos que a morte (ou pelo menos, os rituais e simbólos tanáticos) virou uma mercadoria capitalista como outra qualquer. Autores como Geoffrey Gorer, Jean Baudrilard, Jessica Mitford, Ayala Gurgel, Erasmo Ruiz, João José Reis, Josué de Castro, Ivan Illich entre outros já publicaram sobre isso. A novidade, da nossa época é que podemos ter produtos fúnebres em casa, mais próximos e menos agressivos (mais esteticamente trabalhados).

E, nada melhor para nos lembrar de um produto capitalista que precisa ser consumido do que os calendários. Eles anunciam de tudo: carros, pratos, casas, mulheres, crianças, animais, e, porque não, a morte.

Os antigos maias tinham em seus calendários a figura da morte (geralmente à sombra do sol). Ela conta o passar dos tempos, como o próprio tempo. Isso talvez para nos lembrar que não é o tempo que passa, somos nós que passamos.



Uma funerária italiana vem inovando nesse ramo já a alguns anos. O calendário de 2010 já está pronto e custa 9,30 euros. Ele, seguindo a lógica dos anteriores, reúne Eros e Thanatos em uma mesma mercadoria.

O calendário mostra a cada mês uma mulher ao redor de um modelo de caixão, que pode ser encomendado na loja da Cofanifunebri, em Roma.



terça-feira, 25 de agosto de 2009

Quem quer ser enterrado ao lado de Marilyn? (Erasmo Ruiz)



A mania de querer ser enterrado ao lado de gente "famosa" vem desde muito tempo. No Egito antigo os súditos nobres tentavam fazer seus túmulos perto dos faraós. Já no Cristianismo foi sendo criado o hábito de se enterrar as pessoas nas igrejas e/ou perto das relíquias dos santos para buscar sua proteção e intervenção. Agora,em tempos que a mercatilização vai ditando as regras, os ricos além de poderem viajar para o espaço (e assim poderem ir para o Céu), podem desfrutar da "alegria" e "prazer" de passarem toda a eternidade ao lado de Marilyn Monroe. Um túmulo vizinho ao da atriz está sendo leiloado ha uma semana. Quando todos pensavam que o leilão havia acabado, o vencedor resolveu aproveitar o dnheiro em vida e retirou o seu lance, o que, digamos, parece ser uma decisão muito sábia. Agora, se você tem 5 milhões de dólares sobrando (pouco mais de 9 milhões de reais), corra! Esta é a sua chance de ficar ao "lado" de Marilyn Monroe pois o leilão acaba de reabrir no Ebay. A Revista Caras bem que poderia fazer uma bela reportagem falando sobre ricos e famosos nos cemitérios.

Mais detalhes, veja notícia abaixo:


LOS ANGELES, EUA, 25 Ago 2009 (AFP) - A oportunidade de ser enterrado em um túmulo próximo ao da atriz Marilyn Monroe está novamente aberta, depois que o vencedor do leilão no eBay retirou a oferta de 4,6 milhões de dólares por "problemas de pagamento".

O jornal Los Angeles Times informa que um japonês não identificado foi o vencedor do leilão do túmulo atualmente ocupado por um homem chamado Richard Poncher, que morreu há 23 anos, com 81, e que fica próximo ao local da morada final da famosa atriz.

A viúva de Poncher, Elsie, decidiu exumá-lo e vender a valiosa sepultura para pagar os custos de sua casa em Beverly Hills, avaliada em 1,6 milhão de dólares.

O túmulo fica acima do espaço coupado por Marilyn Monroe no cemitério Westwood Village Memorial Park, em Los Angeles, onde também foram sepultados Natalie Wood, Truman Capote e Farrah Fawcett.

A oferta vencedora do leilão chegou a 4.602.100 dólares.

No entanto, horas mais tarde o vencedor escreveu ao representante de Poncher e retirou a oferta.

Outros 11 participantes ofereceram pelo menos US$ 4,5 milhões pelo túmulo, segundo o Los Angeles Times.

"Esta é uma oportunidade única na vida, de poder passar a eternidade logo ao lado de Marilyn Monroe", dizia o anúncio do leilão.

A viúva Elsie Poncher contou ao jornal Los Angeles Times há duas semanas que seu marido, um empresário supostamente ligado à máfia de Chicago, havia comprado a sepultura em 1954 do ex-marido de Marilyn Monroe, o jogador de baseball Joe DiMaggio.

Elsie também disse ao jornal que, antes de morrer, o marido brincou com ela: "Se eu morrer e você não me enterrar em frente à Marilyn, te perseguirei por toda a eternidade".

Hugh Hefner, fundador da revista Playboy, comprou o túmulo adjacente ao da atriz em 1992 por 75.000 dólares.

domingo, 26 de julho de 2009

A Gripe e a Mistanásia (Erasmo Ruiz)



Nos últimos meses temos sido alvos, dia após dia, de reportagens falando sobre a gripe mexicana, digo suína, digo H1N1. A primeira dificuldade parece ter sido esta mesma. Definir nomes para algo que nos causa medo e prejuízos econômicos. A ética do “politicamente correto” identificou desde o início que o rótulo “mexicana” discriminava nossos irmãos latino-americanos do norte e que chamar a gripe de “suína” poderia colocar em risco bilhões de dólares do comércio de derivados de porco ou questionar a forma como, em muitos países, essa indústria cresce sem o mínimo controle sanitário.

A gripe então tornou-se uma placa de automóvel: “H1N1”. E junto a esta placa veio o medo de que nada poderia deter essa nova praga. As populações de classe média dos grandes centros urbanos não tem mais estrutura simbólica para lidar com grandes epidemias, afinal, as principais conquistas tecnológicas da saúde parecem estar mais disponíveis a ela e aos mais ricos.

Disso talvez resulte o pânico que presenciamos nos últimos dias e que tenderá a aumentar significativamente. Não adianta ter um bom plano de saúde, ter água encanada, morar num seguro condomínio num bom bairro e assinar o “Discovery Health” pela TV a cabo. O insidioso H1N1 está a espreita ao dobrarmos a esquina ou num singelo beijo num sábado a noite.

O problema é não haver pânico para a dengue, à meningite, à doença de Chagas, à tuberculose ou à mortalidade infantil. Isso mesmo! Todas essas doenças produzem uma letalidade muito maior mas guardam uma característica importante: não são "democráticas", atingem mais os pobres e miseráveis. Foram normalizadas como fatalidade ou desígnios da vontade de Deus. Não são inspiradoras para roteiros de novas teorias da conspiração nem motivam a indústria farmacêutica a buscar novas drogas miraculosas.

Ha alguns anos foi cunhado o termo “Mistanásia” por Leornardo Martin, uma expressão técnica que traduz algo que já sabemos há muito tempo: os pobres morrem de doenças mais específicas da pobreza e a miséria, é séria candidata a morrer daquilo que a maioria poderia cuidar com o mínimo de suporte (as diarréias infantis prevenidas pelo soro caseiro é um dos exemplos). A mistanásia é a eutanásia social que não causa alarde. Se exterioriza nas balas que matam os mais jovens, na desnutrição que se não matar na infância faz chegar doenças da velhice mais cedo, na morte lenta e cruel nas cracolândias, na agonia de populações ainda marginais às políticas sociais conmpensatórias. Quando a gripe H1N1 chegar para valer, será nesse meio que ela colherá a maior parte do seu macabro tributo. Mas, ainda assim, o H1N1 vem nos lembrar que embora a gripe possa matar mais em meio a miséria, ela não será indiferente aos ricos, suplantando portanto os “comportados” limites da Mistanásia.

Juntando-se a isso os ingredientes de uma mídia covarde e subserviente, sempre pronta a atender aos interesses mais hediondos de seus patrocinadores, temos o terreno perfeito para que tanto pobres quanto ricos sejam enganados pelos interesses maiores das corporações de doença, digo, de saúde. A H1N1, que mata tanto quanto a gripe comum, precisa agora de uma vacina para que todos possam se abraçar durante a missa ou trocar beijos com desconhecidos numa festa. E que continue morrendo aos montes aqueles que não tem esgoto, água encanada, aqueles que moram em casebres de barro e tem a “sorte” de nascerem miseráveis.

Mas não se preocupem. Como aconteceu na Argentina, em breve teremos máscaras cirúrgicas com emblemas do nosso time de futrebol predileto. Quem sabe algum cientista consiga inventar uma boa camisinha para o beijo? E quem disse que os vírus não podem ser mercantilzados? Para breve a promessa de cura da gripe que um dia vai entrar em mutação. Teremos uma nova gripe espanhola? Perdão aos espanhóis...teremos um novo número para apostar na loteria?

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Os Mitos Também Morrem (Erasmo Ruiz)



Quando alguém famoso morre isso toca a todos. Não só pelo fato da super exposição da pessoa mas também porque essa morte é o lembrete inequívoco de que todos nós morreremos um dia. A maior parte do tempo quase todos desejam esquecer isso, mas então...

De repente Micchael Jackson se vai desse mundo. Como mito, criado e autocriado, ele deixa espaços que não serão preenchidos e outros que o mercado, faminto durante sua vida, agora devorará muito rápido na sua morte.

Mas cumpre relembrar algumas coisas. Por exemplo. No passado, diante da morte de um mito, havia uma espécie de mobilização coletiva para cultuar a memória. A morte era um lenitivo do caráter, absolvia o morto de tudo o que ele havia feito de questionável, destilando o que era considerado bom ou mesmo exagerando gestos banais. Hoje, diante da morte de alguém, nos assombra o espírito da medicina legal: "Do que foi que ele morreu?"

A busca da "causa mortis" é outro sintoma do nosso tempo, efeito da interdição da morte que torna o motivo do colapso do organismo praticamente mais importante que (re)lembrar o morto. Basta que pensemos na morte de Ayrton Senna e teremos na memória os infográficos das revistas mostrando o ponto exato em que a barra de direção da Willians penetrou no crânio do piloto...e dai? O que isso acrescenta de brilho a vida de Senna? Nada! Apenas satisfaz nossa curiosidade "pornográfica" diante da espetacularização da morte!

Com Jackson não poderia ser diferente. Inúmeras teorias começam a ser urdidas para esclarecer o que matou o cantor. Talvez a resposta esteja em nós mesmos, afinal, que mundo é esse onde gradualmente vamos secundarizando a arte e o entretenimento em função da busca sem medida da vida privada das pessoas? Parte das celebridades transformam-se então em engenheiros sociais de si mesmos. Jackson era um mestre nisso ao alimentar os tablóides com especulações sobre seus maneirismos, sexualidade e gostos um tanto exóticos. Tornou-se um quadro que valia mais a pena ser visto pela moldura do que pela obra.

A permanente desconstrução de si mesmo é um caminho seguro para a morte, ainda mais numa sociedade que é capaz de assassinar seus ídolos...alguns de forma literal, outros pelos simbolismos que os tornam escravos do sucesso e absolutamente bizarros em buscar a exposição que um dia tiveram. Micchael Jackson agora entra para a história como o "Rei do Pop", seguindo um final similar ao "Rei do Rock". Ambos cometeram uma forma sutil de "suicídio" quando perceberam que a diminuição do sucesso causava um vazio que, em suas perspectivas, nada poderia suprir.

Fico vendo então a imagem do clip "Trhiller" quando dezenas de zumbis afloram de suas sepulturas e fazem sua coreografia assustadora e engraçada. Em meio a eles, Micchael, em passos que o faziam levitar e que alegrava nossos corações Como todo herói, flertava com a morte permancendo vivo e feliz. No entanto, o tempo mostrou que a dança infelizmente era profética. Nosso herói foi abandonando sua alegria para lentamente se transformar em mais um personagem secundário de si mesmo, em meio àquelas figuras bizarras até que finalmente se fundiu a elas.

Pensar na morte de Micchael Jackson me fez voltar a adolescência. Lembrei do quanto me sentia invulnerável enquanto tentava fazer aquele maldito passo do garoto que parecia patinar enquanto caminhava nos enchendo de infinito.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Licitação Online para Venda de Capelas Mortuárias



Car@s Mortais!

O que fazer dos nossos corpos quando deixamos essa vida é um problema prático que mobilizou e mobiliza culturas e civilizações.Mas não vamos discutir nesse post práticas funeráreas e sim divulgar uma notícia importante, principalmente se você tiver muito dinheiro. Eis a sua chance de desfrutar a companhia eterna de diretores de cinema, escritores e atores famosos. Dada a densidade intelectual do cemitério de Verano em Roma, será muito interessante participar de debates entre Roberto Rosellini e Luchino Visconti sobre o papel social do cinema. Mas deixo a notícia abaixo. Boa leitura


ROMA, Itália (AFP) - O município de Roma abriu uma licitação online nesta segunda-feira para a venda de 34 capelas mortuárias, túmulos e mausoléus famosos em três dos cemitérios mais antigos e mais procurados da capital italianaO mais caro é uma capela de 10m2 apresentada como "de estilo clássico, construída com tijolos e teto de telhas e decorada com mármore de Carrare, com capacidade para 10 lugares", e colocada à venda por um valor de 312.629 euros, fora taxas, no cemitério monumental de Verano, no sudeste de Roma.

Os túmulos, um dos quais pode conter até 28 caixões, são localizáveis e visíveis a partir da ferramenta de busca "Google Earth". Cada um é descrito com detalhes, e pode ser admirado através de fotos publicadas no site do município, www.amaroma.it.

No Verano, os compradores poderão ser "vizinhos de túmulo" de personalidades como o ator Marcello Mastroianni, o escritor Alberto Moravia ou os diretores de cinema Roberto Rossellini e Luchino Visconti.

O prefeito de Roma, Gianni Alamanno, espera arrecadar com a venda 2,5 milhões de euros. O Verano foi construído entre 1807 e 1812.

O leilão online será encerrado no dia 24 de julho.


Notícia retirada em http://br.noticias.yahoo.com/s/afp/090615/mundo/it__lia_cemit__rio_curiosa

domingo, 24 de maio de 2009

A Doença da Ministra, a Morte e Nossa Humanidade (Erasmo Ruiz)




Podemos ficar vendo televisão e nos emocionarmos com uma novela. Nenhuma falta grave, afinal, a vida nos condiciona a termos determinadas reações. Sou do tipo "manteiga derretida", meio sensível a qualquer melodrama. Uma parte de mim execra este tipo de manifestação cultural, atira ferozmente contra o reino dos clichês, revolta-se contra o filme sobre o pai que leva o filho com os dias contados para um parque de diversões. O roteirista coloca a cena com o objetivo de nos arrancar lágrimas na marretada e, de fato, quase sempre acaba conseguindo. Mas outra parte de mim entrega-se a proposta do enredo e, sem vergonha alguma, chora copiosamente.

Parece que sempre dá certo. Do teatro passando pelo cinema e desaguando nas novelas, as pessoas ficam meio que abertas às lágrimas tidas como fáceis. Podemos acessar nossas mentes e, feito computadores atrás de arquivos perdidos, encontraremos muitas explicações do porque dessas lágrimas correrem feito cachoeira. Nunca descobriremos efetivamente porque José de Arimatéia chorou ao ver o sofrimento da personagem de novela que estava morrendo de câncer ou porque Maria da Glória debulhou-se em prantos ao ver o noticiário sobre a morte do Papa. Mas podemos intuir uma "abstração do melodrama", uma "teoria geral da lágrima".

Eu não me atreveria a perturbar o leitor com tal ousadia. Essa tarefa deve estar a cargo de críticos de arte, dos filósofos profissionais, dos sociólogos e antropólogos da subjetividade e da emoção, de alguns psicólogos que afogados em tanta soberba exigem o monopólio do estudo do comportamento humano. Um dia, quem sabe, o acúmulo de conhecimento resolverá a pendenga se vivemos como uma barata esmagada pela indústria cultural ou se existe uma imanência humana em relação a dor ou ao sofrimento. No entanto, permito-me a uma constatação singela. As pessoas se interessam tanto pela morte na mídia porque, talvez, sintam e discutam a partir da fição e da realidade o próprio morrer pessoal. È a mídia com seu conjunto de imagens pasteurizadas e seus assuntos programados nosso pobre e principal canal de interlocução com a morte e seus desdobramentos existenciais

A morte parece ser a "nova pornografia", o assunto proibido, o tabu que se encastela nesse novo milênio que nos acena com as possibilidades irrestritas do conhecimento científico: "Acabará a fome da Humanidade" dizem alguns, "Viveremos em grande conforto" dizem outros, "acabarão as doenças" profetizam outros tantos. Mas, a verdadeira ilusão é aquela que afirma: "gozaremos da imortalidade". Esta afirmativa, já posta desde a Epopéia de Gilgamesh*, nos tornam seres absolutamente preocupados com a questão da morte e do morrer o que nos leva, necessariamente, a refletir sobre a própria vida a ponto de alguns transformá-la no mais absoluto tormento. O medo de morrer transforma-se no medo de viver. Neste sentido, olhar a tragédia dos personagens dos filmes ou da vida real pode inspirar as pessoas a produzirem o azedume de misturar vida e ficção muitas vezes dando roupagens de realidade a uma peça ficcional

Talvez por isso tantos choram, talvez por isso as redações dos jornais e os autores de novela, consciente e inconscientemente, transformem a morte do outro em mercadoria para aqueles que são incapazes de pensar diretamente a própria morte, porque agir dessa forma poderia significar constatar, ainda em vida, a miséria existencial onde maioria de nós se encontra...miséria de ausências de alternativas, de vínculos afetivos artificiais, de trabalhos penosos e vazios de conteúdo. Nossa sociedade é repleta de objetividade, tem obsessão por medidas que aprofundam o conhecimento da natureza mais parecem produzir uma cultura da superficialidade da individualidade inserida na vida coletiva. Dai a necessidade de gráficos precisos para localizar as células cancerosas do astro do rock, dai ficarmos grudados na tela acompanhando o andar cambaleante de um pobre Marlon Brando já no fim da vida escoltado por “paparazzis”, dai a fixação por filmes de terror. Tudo isso permite nos aproximarmos da morte sem de fato refletirmos sobre ela em nossas vidas!

Não podemos mais discutir o que está interditado, não estamos mais preparados para enfrentar a morte a não ser como produto de consumo e, como tal, um produto que vai gradativamente submetendo-se à ditadura dos rótulos massificados e massificadores. Sejam bem vindos ao mundo da mercantilizaçao da morte e do morrer!. Sejam de fato o que todos são, comportem-se como coisas, como produtos que podem ser trocados ao bel prazer dos desejos da mão invisível. Nietzsche estava errado, deus não morreu, ele existe e seu nome é Mercado! Como um Midas invertido, que transforma ouro em excrementos, a mão invisível nos esfrega a tragédia da morte na mídia porque o segundo de publicidade ficará mais caro. Os jornais nos guiam aos labirintos das meninges do astro do cinema porque querem vender mais, não por solidariedade à tragédia de um ser humano.

Agora, a bola da vez é o câncer da ministra Dilma. Indecorosamente somos expostos a análises de conjuntura onde o futuro desse país está nas mãos de um linfoma. Curiosamente, milhões de pessoas estão diante das telas para aprenderem noções básicas de oncologia e sucessão presidencial. Transformaram a saúde da ministra em análise de conjuntura. Uns dizem que tudo é mentira para humanizar uma pessoa fria e sem carisma. Outros exaltam a fibra e a coragem de uma mulher que publicamente enfrenta seu câncer. Ora senhores, por favor, guardemos um certo nível de compostura sobre a dor, o sofrimento e a morte...sim...pois é isso que sempre passa pela cabeça das pessoas quando ouvem que alguém tem “aquela doença". Deixemos de hipocrisia!

Será que vendedores de jornais e seus leitores não aprenderam ainda que a dor, o sofrimento e o morrer do outro também é o nosso morrer? Como dizia o poeta Cazuza: "Senhoras e Senhores, trago boas novas, eu vi a cara da morte e ela estava viva!". Façamos o jogo das análises políticas. Nele, a vida e a morte sempre se digladiaram. Mas nesse tabuleiro, como todo jogo, há que se existir algumas regras. O homem vivencia uma luta sem quartel ha pelo menos cem mil anos pela definição destas. Muito já foi feito desde que Marx, o velho profeta ateu, constatasse na segunda metade do século XIX que o homem estava adentrando em sua pré-história.

Depois de duas guerras mundiais, depois de campos de extermínio e agora quando o extermínio de crianças em Dafur invade nossas salas ditas de estar pela TV, talvez uma regra fundamental possa ser firmada, qual seja, que a tragédia pessoal de todos nós - o enfrentamento com determinação, alegria, dor e ponderação do fenômeno da morte - possa ser minimamente respeitado, seja naquilo que um personagem de filme possa evocar, seja naquilo que um ser humano real e concreto nos sinaliza. À Ministra Dilma Rosseti , todas as críticas positivas e negativas que nós como cidadãos, agentes ativos da construção da história, podemos e devemos fazer. Ao ser humano Dilma, a solidariedade de todos nós, gladiadores da vida, pois, como eles diziam na Roma antiga: “Aqueles que vão morre te saúdam” Ministra!

ERASMO RUIZ


* Mito sumério provavelmente relatado por volta do quarto milênio antes de cristo. Neste mito, a principal força movente do heroi é a busca de uma erva que possa lhe proporcionar a imortalidade

terça-feira, 12 de maio de 2009

A Morte como Mercadoria: Aproximações Psicossociais do Produto Funerário como Bem Econômico (Erasmo Ruiz)



Aprendemos desde a mais tenra infância que o comportamento de consumo deve estar associado ao prazer, em parte, desfrutado pela assimilação da mercadoria como valor de uso. Compartilhamos da ilusão de que somos livres consumidores que escolhem livremente o que comprar. Já que o dinheiro é uma mercadoria muito ansiada e rara, o fato da maioria de nós não o possuir em grande quantidade faz com que realizemos as pesquisas de preço buscando consumir mais com menos dinheiro.

Aqui, um primeiro impasse em relação ao consumo de serviços funerários se apresenta. Não queremos conviver com a morte. Mas quando ela acontece, temos obrigatoriamente que consumir produtos que não desejamos, temos que realizar escolhas que não queremos. A forma como lidamos com a mercadoria “produtos funerários” é, portanto, esvaziada das formas significadoras que aprendemos a usar em relação aos gestos de consumo. Poucos teriam a visão prática, por exemplo, de fazer uma pesquisa de preço para buscar a urna funerária mais barata, a coroa de flores mais em conta, o velório menos dispendioso. Além disso, os produtos funerários não estão dispostos em out-dors ou podem ser vistas em glamorosas publicidades de revistas de grande circulação.

Diante da pergunta se venderíamos ou não um irmão, ela parece soar estranha e bizarra. Com certeza porque as relações familiares ainda não se renderam a lógica da mercantilização. É uma sensação similar que temos quando lidamos com a morte e seus aspectos econômicos. Não estamos habituados a comprar aquilo que não queremos. Quando consumimos, queremos utilizar as coisas pela sua beleza e prazer. Instaura-se uma relação em que, no lugar do desejo hedônico, existe o ódio e o sofrimento. Intuindo essa tensão, as empresas funerárias mudaram há alguns anos sua estratégia de marketing. Se antes estávamos acostumados àquelas funerárias em torno dos hospitais, com urnas expostas nas calçadas, agora nossa sensibilidade expressa a necessidade de consumir os produtos mortuários na ausência de sua visibilidade. As empresas em seu “layout”, começam a se assemelhar à agências de turismo. Seus nomes sinalizam “tranqüilidade”, “carinho”, “cuidado”, refletindo a necessidade de se atuar e se falar sobre a morte como se ela não existisse.

O atendimento, em particular quando voltado as classes médias urbanas, vende o produto funerário como se estivéssemos num agência de automóveis. Cada novo aparato num funeral é como se fosse um “opcional”. Detalhes como o tipo de bebida e comida a ser oferecido para as pessoas que comparecem ao velório bem como se haverá ou não veículo coletivo para buscar convidados num aeroporto ou leva-los a um cemitério, são itens a serem possivelmente consumidos. Os funcionários são treinados para mostrar sempre uma postura respeitosa e cordata. Falas como “volte sempre” e “foi um prazer servir você” tornam-se expressões inaceitáveis. Na mídia, os produtos funerários oscilam entre mensagens sérias e respeitosas, ou então, são associados a situações cômicas. O sagrado é afugentado por um profano cada vez mais estruturado a partir das relações de troca. Entretanto, o limite parece ter sido atingido por uma empresa italiana de produtos funerários, que disponibiliza em seu sítio na internet, entre muitas coisas, um conjunto de calendários com mulheres sensuais associadas a caixões. A foto abaixo é um dos muitos exemplos:




vide cofanifunebri

Um novo olhar sobre o lema "Carpe Diem" dos romanos? Um convite para uma sexualidade desenfreada porque um dia iremos morrer? Nem tanto. Apenas a constatação mercadológica de que a maioria dos indivíduos proprietários de empresas funerárias são homens e, semelhante ao que acontece com outros produtos com a marca da masculinidade, explora-se o viés machista de seu público. Neste sentido, sob o prisma econômico, camisetas, cervejas, carros, futebol e urnas funerárias, chafurdam na mesmice das relações de troca mediadas pela mercadoria dinheiro.

Em outra vertente, numa sociedade que patologiza a morte como algo antinatural, torna-se necessário expandir os serviços médicos oferecidos por uma medicina cada vez mais escravizada frente ao aparato tecnológico, nem tanto pelo paradigma da promoção de saúde, mas, principalmente, pelo paradigma que vê na morte uma eterna inimiga, a doença em si mesma. Se por um lado o discurso médico sinaliza que a morte e o morrer podem estar subordinados a soluções científicas, essas mesmas soluções são vendidas como mercadorias que promovam a saúde. Aqui promover a saúde significa negar a morte. Este talvez seja um dos aspectos que intensifiquem a exclusão social da velhice. O velho sempre nos lembra que ele é o novo lócus da morte. Daí, portanto, a mercantilização do nosso medo de envelhecer transmuta-se no crescimento vertiginoso do esteticismo, das cirurgias plásticas e do consumo de cosméticos. Antes de se parecer com jovens, as pessoas na verdade querem neuroticamente negar a própria finitude. No capitalismo não só são mercantilizadas as práticas objetivas em torno da morte, mas também nossas sensações psicológicas de medo e afastamento.




Por fim, temos que destacar um outro aspecto importante. Se em toda a sociedade o acesso às mercadorias produzidas bem como ao usufruto da riqueza delas advinda é desigual, o mesmo podemos dizer referente a mercantilização da morte. Toda hora somos bombardeados por notícias que nos permitem o direito ao otimismo. O “admirável mundo novo” de Huxley está diante de nós. Abandonou o papel e ganhou materialidade, inclusa suas contradições. Se a média de vida aumenta, quem de fato vive a média de vida se a maior possibilidade de acesso aos bens materiais e simbólicos parece ser um fator decisivo referente à quantidade e qualidade dos anos que vivemos? Frente as mazelas da fome e da miséria um arsenal de instrumentos se revelam eficazes, mas o que fazer se a sociedade mercantil parece preconizar o uso dessas técnicas muito mais em função do valor de troca? Isso nos permite afirmar que, aparentemente, vivemos numa sociedade que preconiza uma “engenharia da morte”.

Este talvez seja o aspecto mais apavorante da mercantilziação do morrer, pois estar à margem do mundo das possibilidades de consumo significa, em maior ou menor grau, ter mais chances de morrer cedo, mal assistido e com sofrimento. É para fugir desse mundo de horrores, de um sistema de saúde que atenda de forma desigual e excludente, que a classe média deságua nos planos de saúde. Ironicamente, são nesses planos que a mercantilização da vida e da morte podem ser mais claramente aferidos. Ai daquele cujo corpo necessite de exames e outros procedimentos não cobertos pelo plano. Sua morte estará decretada. Ai daquele que necessite permanecer mais tempo na UTI, sua execução será sumária. Pobre do homem que precisar fazer outra tomografia computadorizada antes que o tempo para tal possa novamente ser contado. O plano de saúde, como qualquer prática de compra e venda, é regulado por um contrato comercial. Só percebemos isso quando nossos corpos rebeldes recusam-se a subordinação de leis de mercado e “quebram” regras contratuais. Chegamos assim ao limite da coisificação quando as ações de seres humanos frente a outros seres humanos, com vida diretamente ameaçada, estão sujeitas a normas burocráticas, parágrafos e clausulas regulatórias, expressões diretas da lógica advinda da “mão invisível” que esquadrinha corpos e práticas, reduzindo o homem àquilo que ele é, de fato, no capitalismo: uma mercadoria que além de agregar valor pode, como qualquer mercadoria, ser usada e vendida.


Aqui finalizamos nossas digressões. Para comprova-las, ou não, basta a ida ao mundo cotidiano, pulsante de ação e vida. É o que pretendemos no futuro. No momento, fiquemos na companhia de Manuel Bandeira:

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos postos para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.

Não sei se a vida é traição, mas pensar na morte nos faz refletir muito sobre a vida. Talvez ai resida uma das tristes conseqüências da mercantilização da morte e do morrer. A reificação do luto e da dor nos narcotiza frente às questões mais importantes e que, respondidas, exigem resoluções que não são meramente discursivas, mas também atuantes. Nosso ser agnóstico muitas vezes se debate frente à possibilidade do fim como algo absoluto. Não queremos contaminar o leitor com divagações depressivas. Fica, no entanto, o lembrete que a mercantilização da morte é uma das conseqüências da mercantilização da vida. A reificação das práticas e rituais em torno dela produzem essa ação maquinal habilmente descrita pelo poeta. Volta e meia podemos, além da opacidade da sociedade mercantil, olhar a morte pelo que ela tem de mais importante e, por que não dizer, lírico. A morte é uma exímia professora que nos ensina que tudo é transitório e, assim, nos ajuda a revestir todos os aspectos da vida com a sua real importância, estruturada por eventos singulares e preciosos.