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sexta-feira, 12 de março de 2010

Um Olhar sobre o Cotidiano da Desumanização da Morte: Relato de Experiência (Ariadna Simplício e Yara Monteiro*)



A gestação teve de ser interrompida ao quinto mês, em razão de uma infecção que atacou o feto e comprometia também a saúde da mãe. A genitora durante a gravidez havia perdido quantidade significativa de líquido amniótico, e naquela data essa quantidade havia chegado a zero. Sendo assim, a equipe médica responsável optou por estimular o parto. Foi assim que, por volta das 20 horas do dia 27 de Janeiro de 2010, a mãe foi encaminhada para a sala de parto, dando a luz a uma criança do sexo masculino, que nasceu com vida. Todavia, o menino faleceu menos de três horas depois. No dia seguinte, além da dor indescritível da perda do primeiro filho, os pais sofreram com a insensibilidade e com o máximo desrespeito à dignidade humana por parte da agente funerária que conduziu o processo de preparação para o sepultamento. A agente assumiu um postura grosseira ao não mostrar disposição para respeitar o tempo necessário para os procedimentos até o velório. Ainda no hospital, a funcionária fazia referência a uma outra criança também falecida e que tinha de ir buscar em uma outra Maternidade, sinalizando um atendimento “coisificado”, puramente comercial, não respeitando a dor e o momento da família enlutada. Durante todo o atendimento, a agente privilegiava o próprio tempo, desconsiderando ou rebaixando a um segundo plano o tempo da família. Contudo, foi convencida pelo avô do menino e por duas Assistentes Sociais, amigas da mãe do bebê falecido, que também estavam presentes na ocasião, a atender um caso por vez. Chegando à residência da família, onde parentes e amigos aguardavam a criança, a agente funerária, num primeiro momento, dificultou a retirada do caixão de dentro do veículo da empresa. Mesmo a família afirmando que não iria demorar, pois haviam preparado e esperado esse momento para a oração em nome da criança, A agente funerária resistiu, dizendo que, se a criança descesse, a família deveria aguardar enquanto iria buscar a outra criança. Daí, a agente abriu o porta malas do carro, retirou a tampa do caixão e expôs aos olhares curiosos de todos a criança morta, dizendo que o velório seria realizado ali e, caso o caixão saísse do carro, ela não iria esperar. “Senti que meu filho parecia uma fruta exposta em um desses carros que vendem frutas e param na porta da gente”, desabafou a mãe da criança. Nesse momento, para resguardar o sentido daquele momento e o sentimento da família, as Assistentes Sociais tiveram que intervir. O diálogo foi provocado no sentido de sensibilizar a referida técnica de que a própria especificidade dos serviços prestados por ela exige uma conduta diferente, um trato mais humanizado. Não estamos aqui indicando excessos de sentimentalismos, mas reiterando a necessidade de sensibilidade para lidar com sentimentos humanos em momento de sofrimento. Foi necessário acionar por telefone a gerência da funerária para que se deslocasse outra equipe para atender o outro caso, garantindo assim, o direito da família de realizar o velório. Durante a discussão, a agente chegou a argumentar que o convênio da Prefeitura com a funerária, estava com pagamento em atraso e que ela tinha outras demandas. Alegou até que o trânsito da cidade dificultava o seu trabalho. Mas, as Assistentes Sociais insistiram que as famílias não devem ser punidas, tomadas do seus direitos, ou agredidas em sua dignidade em virtude de qualquer que fosse a dificuldade com repasses de recurso da Prefeitura. Caso a funerária não dispusesse de condições operacionais de atender satisfatoriamente a demanda, deveria não assumir a responsabilidade de realizar um trabalho dessa natureza, que demanda, no mínimo, bom senso. Quem recorre ao beneficio do auxilio funeral recorre por necessidade e precisa ser respeitado integralmente em seu direito. Com certeza, um destes direitos é a vivência dos ritos para poder elaborar o luto! *Ariadna Simplício - É Assistente Social da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Infraestrutura de Fortaleza-CE (SEINF) e Mãe do Philipe. Contatos: ariadna_simplício@yahoo.com.br ou 85-8149-8900 - Yara Monteiro - Assistente Social da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Infraestrutura de Fortaleza-CE (SEINF); Aluna de Especialização em Saúde Pública (UECE); Membro do Grupo de Estutos Tanatológicos (GESTA), "irmã/madrinha" do Pedro Rafael. Contatos: yarinhaalmeida@hotmail.com ou 85-8834-8247/9659-0269

terça-feira, 9 de junho de 2009

Simbologia dos Ritos Funerários na Pré-História (Fernando Lins de Carvalho)

SENTIDO OCULTO DOS RITOS MORTUÁRIOS: MORRER É MORRER? BAYARD, Jean-Pierre. Tradução: Benôni Lemos. São Paulo: Paulus, 321 págs.

Há, na racionalidade humana, a maior das angústias: a consciência da finitude. A morte, enquanto rito de passagem implica em uma estrutura de sinalização. O rito, profano em sua aparência, abre-se para o sagrado. Na relação entre o caos (morte) e o equilíbrio (vida), os ritos funerários são possuidores da perturbação da morte mas instauram uma nova ordem. A morte introduz a desorganização no processo da vida diária. As escavações arqueológicas revelam o culto prestado aos mortos na perspectiva de uma continuidade, de uma outra vida. A posição
fetal do corpo, dominante nas culturas pré-históricas, simbolizaria um (re) nascimento, na mãe terra e seu fértil útero.

Nas culturas humanas, desde a neanderthal às contemporâneas, há modelos de ritualização do cadáver: aceleração da decomposição, inumação, defumação, embalsamamento, ingestão canibalesca, cremação e outros. Os ritos funerais estão em correspondência com os quatro elementos: o ar, com o cadáver exposto; a inumação no elemento terra, a mais praticada; a imersão no elemento água e, finalmente, o elemento fogo, com a incineração, praticada já no Neolítico.

No fundo, apesar de suas múltiplas formas no tempo e espaço, as condutas apresentam um discurso manifesto: a aceitação de uma forma de sobrevivência. Trata-se da luta humana para dominar simbolicamente a morte, negando a nossa finitude. Em 1968, Arlette Leroi-Gourhan, examinando o chão da tumba neandertalense de Shanidar, no Iraque, mostrou que o corpo fora posto sobre leito de folhas de pinheiro e coberto de flores.

Jean-Pierre Bayard, importante importante semiólogo francês, disserta com propriedade sobre o assunto, talvez porque “falar da morte é o meio mais eficaz para superar nossa angústia”.

Entendamos, portanto, o rito mortuário como um rito de passagem, configurando-se o esquema integração-separação-integração. O entendimento da morte como um rito de passagem foi genialmente
sintetizado por Marguerite Yourcenar em as Memórias de Adriano: “procuremos entrar na morte com os olhos abertos”. Torna-se necessário morrer para renascer. Esse o constante diálogo homem-natureza em seu eterno cântico de renovação. Somos apenas um momento da vida eterna.

Para algumas culturas aceita-se a reencarnação, baseada na continuidade da consciência. Contos de inúmeros povos exprimem a crença na imortalidade da alma, que passa por diversas fases antes de voltar à terra: a cosmologia primitiva aceita a doutrina dos mundos superpostos. A Reencarnação é o retorno do princípio espiritual a um novo invólucro carnal. O enterro sistemático dos corpos humanos remonta, pelo menos, a cem mil anos do presente, na cultura neandertalense. Os corpos eram depositados em posições variadas, com o arranjo das sepulturas modificado de acordo com as ferramentas, vestígios de fogueira e restos de animais. Em alguns sepultamentos os corpos eram salpicados de ocre. Nos sepultamentos o esqueleto passa sempre a ser acompanhado de mobiliário funerário, característica cultural dos sapiens sapiens. As sepulturas passam também a ser agrupadas. A prática funerária mais utilizada é a do enterramentoprimário, em covas pouco profundas (0,5m). Quatro as posições principais dadas aos corpos: alongada, semidobrada, amarrada e em flexão forçada (feto). Em geral, a posição do esqueleto é orientada na linha leste-oeste, com a cabeça voltada para o sol poente. Trata-se, simbolicamente, do reconhecimento dos ciclos da finitude na natureza: o nascer e o morrer do
sol. “O sol morre todas as noites, atravessa o mundo das trevas e ressuscita todas as manhãs”. Luz e trevas passam também a estar associadas à vida e morte. Os mortos devem encontrar o caminho do além, o qual, muitas vezes, é situado no oeste, lugar em que o sol desaparece e
parece morrer.

Algumas culturas registram também o sepultamento em dois tempos (enterramentos secundários). Os ossos, perdidas as carnes, são exumadose lavados, sendo submetidos a novos funerais. Para Bayard, o rito cinde toda a relação do defunto com a vida terrestre pois é necessário
que a carne deixe os ossos para libertar a alma.

No mobiliário funerário os adornos e suas forças simbólicas faziam-se e ainda se fazem presentes em larga escala, caracterizando classe ou posição social do defunto. É provável que flores, penas, agasalhos de pele e outros tenham acompanhado o corpo mas, restam-nos somente conchas, dentes de animais ou humanos, vértebras de peixes, pérolas, seixos, ossos, marfim como vestígios do mobiliário fúnebre, notadamente das culturas pré-históricas. Esses objetos formavam colares, braceletes, pendentes e anéis. Nos vasos funerários restos de comidas que permitiriam ao defunto empreender sua longa viagem. O fogo, em geral símbolo da vida é bem presente nessas cerimônias. Pela oferenda depositada sobre ou na sepultura estabelece-se um vínculo entre os vivos e os mortos. Os artefatos líticos, pingentes de conchas e outros foram executados para embelezar a sepultura e nunca usados.

Todas as civilizações, desde os tempos mais remotos afirmam que o homem tem vários corpos invisíveis (almas), os quais, na hora da morte, separam-se do corpo físico e continuam a viver em outro espaço cósmico.

Para o autor, segundo os ritos funerários das diversas religiões, a alma do defunto comporta-se como o faria a de um mortal: procura um lugar privilegiado, atravessa países desconhecidos e empreendem viagemlonga e penosa; depois de muitas armadilhas, o defunto chega a outro mundo, cuja organização assemelha-se à do clã do qual ele provém e no qual a vida é muito mais feliz. Em todas as épocas o homem procurou penetrar esse mistério e aprofundar essa tênue faixa imprecisa entre a vida e a morte. Todos os povos, em todos os tempos, dedicaram e dedicam, com o culto dos antepassados uma festa ou data específica anual, a fim de honrarem seus mortos.

Para o ser humano primitivo a morte definitiva não existia e continuava sua vida em outro mundo. A relação dialogada com o universo cósmico e os reinos vegetal e animal comprovam essas transformações constantes: o que nasce, morre e renasce. A imortalidade se identifica com o princípio de todas as coisas, restaurado em seu estado primordial. Humanos, não somos mais que um instante na eternidade. A vida terrestre é somente uma parcela de nossa vida cósmica.

Bastante inspirador, o livro SENTIDO OCULTO DOS RITOS MORTUÁRIOS: MORRER É MORRER?, numa apresentação elegante e uso de ilustrações, peca em um ponto específico: não verticalizar alguns
tópicos que são essenciais e ser repetitivo em outros. No entanto,o que não falta na obra de Bayard é matéria de reflexão e debate. Tais lacunas não comprometem a continuação da obra para os estudos da interface entre a vida e a morte em suas múltiplas linguagens. Há ainda um longo caminho a percorrer.

(artigo original publicado em Canindé, Xingó, nº 1, Dezembro de 2001)