Aconteceu esta semana. Um garoto de 10 anos em São Paulo disparou um tiro contra a professora em sala de aula para logo em seguida cometer suicídio com um tiro na cabeça. A noticia, impactante pelas suas circunstâncias, parece no entanto perder fôlego rapidamente na sua capacidade em manter a superexposição. Diferente do que aconteceu na escola de Realengo no Rio de Janeiro, existe uma aparente necessidade de se virar as páginas rapidamente.
No Rio de Janeiro tudo tornou-se "compreensível" na medida em que um assassino estaria claramente comprometido em suas capacidades mentais. Um séquito de especialistas deram entrevistas, escreveram artigos e prometem livros que lançarão mais luzes sobre o ocorrido. De norte a sul deste país, tivemos semanas e semanas de grandes especulações vendidas a peso de ouro aos patrocinadores que expunham seus produtos. Do Jornal Nacional aos programas "trash" de final de tarde, todos puderam abocanhar a parte de seu butim, transformando em mercadoria o sangue e a morte dos adolescentes de Realengo.
Mas e agora? Algo muito grave aconteceu. Uma criança de 10 anos dispara contra uma professora e depois comete suicídio, numa escola pública tida como modelo onde nada, absolutamente nada parece sugerir os motivos da tragédia: o menino não era vítima de "bullying", tinha boas notas, comportamento exemplar, era sociável, família comum. Ao tentarem esmiuçar a tragédia, nada aparece que funcione para "explicar" e assim ser um ansiolítico dos nossos medos e angústias.
Não havendo explicações fáceis cabe às mentes mais férteis buscar suas explicações, que podem passar dos mitos de possessão demoníaca para esta ou aquela teoria "psi" mais ou menos exótica. O fato é que a notícia foi perdendo fôlego. Acredito que o motivo principal é que o acontecimento em si quebra determinadas crenças e a maiorias de nós, imersos nas preocupações do cotidiano, não estamos muito dispostos a ter que lidar com as consequências.
Crianças de 10 anos não morrem...quem dera fosse verdade! Crianças de 10 anos não cometem suicídio...será? Queremos ter a confiança que deixamos nossos filhos em escolas que os protejam do vendaval que corre lá fora...é mesmo assim? Pessoas que seguem as regras e são super-socializadas estão imunes aos sofrimentos psíquicos....quem sabe?
Virem a página rapidamente. Deixem que o Jornal Nacional informe de maneira superficial e burocrática o que nos sufoca. Não nos aprofundemos. Por favor, não imaginem que isso tudo poderia estar acontecendo com seus filhos...até porque a maioria de nós não guarda armas em casa. Pensar nisso tudo pode comprometer o impulso de abrir conta naquele Banco ultra eficiente ou nos imobiliza no desejo de comprar um carro novo.
Renato Russo já nos avisou:
Estátuas e cofres e paredes pintadas
Ninguém sabe o que aconteceu.
Ela se jogou da janela do quinto andar
Nada é fácil de entender.
Ninguém sabe o que aconteceu.
Ela se jogou da janela do quinto andar
Nada é fácil de entender.
Dorme agora,
é só o vento lá fora.
é só o vento lá fora.
Discutir crianças tentando matar professoras e depois cometendo suicídio não faz muito bem ao mercado. No fim das contas "nada é fácil de entender". Antes de "explicar" talvez fosse mais importante perceber que os tabus são tabus porque todos, absolutamente todos podem transgredi-los. Atitudes de desespero trágico talvez possam brotar dos muitos "silêncios" que habitam o coração de todos nós enquanto fazemos compras, pagamos contas e vamos meio entediados manejando as rotinas. Enquanto isso, "Pais e Filhos" matam e morrem sem perceberem que a vida pode renascer em meio as incertezas próprias do viver. Basta que possamos conversar um pouco mais.
Vivemos num mundo onde crianças tornaram-se capazes de matar e de se matarem em ambientes miticamente protegidos. Não serão programas televisivos indispostos em expor essa chaga que irão superar a dor e o sofrimento que uma tragédia como essa provoca. Alias, que essa dor possa se manter para superarmos os medos e compreender que temos também nossa parcela de responsabilidade pelos tiros no Realengo e agora pelo suicídio em São Paulo.









