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domingo, 25 de setembro de 2011

Crianças Cometem Suicídio: Dor e Morte em Escola Pública (Erasmo Ruiz)



Aconteceu esta semana. Um garoto de 10 anos em São Paulo disparou um tiro contra a professora em sala de aula para logo em seguida cometer suicídio com um tiro na cabeça. A noticia, impactante pelas suas circunstâncias, parece no entanto perder fôlego rapidamente na sua capacidade em manter a superexposição. Diferente do que aconteceu na escola de Realengo no Rio de Janeiro, existe uma aparente necessidade de se virar as páginas rapidamente.





No Rio de Janeiro tudo tornou-se "compreensível" na medida em que um assassino estaria claramente comprometido em suas capacidades mentais. Um séquito de especialistas deram entrevistas, escreveram artigos e prometem livros que lançarão mais luzes sobre o ocorrido. De norte a sul deste país, tivemos semanas e semanas de grandes especulações vendidas a peso de ouro aos patrocinadores que expunham seus produtos. Do Jornal Nacional aos programas "trash" de final de tarde, todos puderam abocanhar a parte de seu butim, transformando em mercadoria o sangue e a morte dos adolescentes de Realengo.



Mas e agora? Algo muito grave aconteceu. Uma criança de 10 anos dispara contra uma professora e depois comete suicídio, numa escola pública tida como modelo onde nada, absolutamente nada parece sugerir os motivos da tragédia: o menino não era vítima de "bullying", tinha boas notas, comportamento exemplar, era sociável, família comum. Ao tentarem esmiuçar a tragédia, nada aparece que funcione para "explicar" e assim ser um ansiolítico dos nossos medos e angústias.



Não havendo explicações fáceis cabe às mentes mais férteis buscar suas explicações, que podem passar dos mitos de possessão demoníaca para esta ou aquela teoria "psi" mais ou menos exótica. O fato é que a notícia foi perdendo fôlego. Acredito que o motivo principal é que o acontecimento em si quebra determinadas crenças e a maiorias de nós, imersos nas preocupações do cotidiano, não estamos muito dispostos a ter que lidar com as consequências.



Crianças de 10 anos não morrem...quem dera fosse verdade! Crianças de 10 anos não cometem suicídio...será? Queremos ter a confiança que deixamos nossos filhos em escolas que os protejam do vendaval que corre lá fora...é mesmo assim? Pessoas que seguem as regras e são super-socializadas estão imunes aos sofrimentos psíquicos....quem sabe?



Virem a página rapidamente. Deixem que o Jornal Nacional informe de maneira superficial e burocrática o que nos sufoca. Não nos aprofundemos. Por favor, não imaginem que isso tudo poderia estar acontecendo com seus filhos...até porque a maioria de nós não guarda armas em casa. Pensar nisso tudo pode comprometer o impulso de abrir conta naquele Banco ultra eficiente ou nos imobiliza no desejo de comprar um carro novo.



Renato Russo já nos avisou:





Estátuas e cofres e paredes pintadas

Ninguém sabe o que aconteceu.

Ela se jogou da janela do quinto andar

Nada é fácil de entender.
Dorme agora,

é só o vento lá fora.
Discutir crianças tentando matar professoras e depois cometendo suicídio não faz muito bem ao mercado. No fim das contas "nada é fácil de entender". Antes de "explicar" talvez fosse mais importante perceber que os tabus são tabus porque todos, absolutamente todos podem transgredi-los. Atitudes de desespero trágico talvez possam brotar dos muitos "silêncios" que habitam o coração de todos nós enquanto fazemos compras, pagamos contas e vamos meio entediados manejando as rotinas. Enquanto isso, "Pais e Filhos" matam e morrem sem perceberem que a vida pode renascer em meio as incertezas próprias do viver. Basta que possamos conversar um pouco mais.
Vivemos num mundo onde crianças tornaram-se capazes de matar e de se matarem em ambientes miticamente protegidos. Não serão programas televisivos indispostos em expor essa chaga que irão superar a dor e o sofrimento que uma tragédia como essa provoca. Alias, que essa dor possa se manter para superarmos os medos e compreender que temos também nossa parcela de responsabilidade pelos tiros no Realengo e agora pelo suicídio em São Paulo. 

sábado, 10 de setembro de 2011

Os mortos invisíveis do 11 de Setembro (Dayara Cutrim)











11 de
setembro de 2001, a maior potência mundial da atualidade, os Estados Unidos, é
atingida pelo terror. Quatro aviões são sequestrados, dois deles
arremessados contra cada uma das Torres Gêmeas do World Trade
Center, em Nova York, um cai sobre o Pentágono, na cidade sede do
governo americano, e o outro cai em um campo na Pensilvânia. Esses
foram os acontecimentos que marcaram a maior ação terrorista já
vista em todo o mundo, um episódio totalmente imprevisível que
destruiu a ideia da invulnerabilidade americana.


Estima-se
em aproximadamente três mil o número de mortos em consequência dos
atentados. Entre eles, estão os "jumpers", ou saltadores, pessoas que
optaram por pular das torres em vez de esperar o que estava por vir.
Por alguns, são considerados suicidas; por outros, especialmente pelos órgãos oficiais, vítimas de
assassinato. Independentemente de denominações, todos hão de
concordar que a decisão que os jumpers tomaram foi decorrente dos
ataques e da situação em que se encontravam.


O fato de
estarem em um prédio em chamas, com muito calor, dificuldade para
respirar, totalmente sem saída e esperança de serem tirados dali,
era um sinal de que, a qualquer momento, o pior iria acontecer.
Então, por que não tomarem posse do direito de escolher, dentro as
opções que tinham, como seriam os últimos segundos das suas vidas?
Alguns preferiram esperar o destino agir. Já os jumpers – ou
conscientes do futuro, ou tomados pelo desespero que sentiam –
resolveram agir por ele.


A maioria
dos americanos prefere fechar os olhos e ignorar as imagens das
dezenas ou centenas de pessoas (cerca de 50 a 200) se jogando das torres naquela terça-feira,
mas encarar a realidade do cenário de horror e desespero daquele dia
é indispensável. Não só porque precisamos falar da morte para compreendermos e aprendermos a conviver com o sofrimento de uma tragédia como aquela, mas porque, se não o fizermos, aquelas imagens proibidas ficarão, para sempre, rodando os sites mais sensacionalistas, exibindo a morte escancarada, tão pornográfica quanto a morte escondida.


Não queremos dizer que são cenas fáceis de se ver (a maioria já foi deletada e desapareceu das reportagens e documentários sobre o 11 de setembro), mas são cenas contra as quais, pela memória dos mortos que escolheram ser taxados como suicidas, não podemos voltar a face para o outro lado e pensar que todos morreram da mesma forma. Não podemos varrer esses suicidas para baixo do tapete como se não tivessem existido, seria um desrespeito, matá-los novamente.


O documentário "The Falling Man", de Henry Singer, é um dos poucos que recupera a memória desses mortos em meio a uma sociedade que convive tão mal com a ideia do suicídio e o luto por pessoas que cometeram suicídio. Não sabemos ao certo, nem temos como saber, se aquelas pessoas agiram por impulso, medo, desistência, falta ou excesso de fé, mas elas têm algo a dizer sobre nós, enquanto se lançavam para a morte: como pensamos na nossa própria terminalidade? faríamos a mesma coisa? esperemos sempre que não: que não tenhamos que decidir morrer como decide o escorpião e, muito menos, que tenhamos outro 11 de setembro para relembrar.





Dayara Cutrim é aluna de graduação em Enfermagem da UFMA





Para saber mais sobre os jumpers:


http://ultimosegundo.ig.com.br/11desetembro/mergulho+para+a+morte+e+tabu+do+11+de+setembro/n1597196086325.html

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Cibele Dorsa: Quando o Suicídio é uma Mercadoria na Grande Imprensa (Erasmo Ruiz)





O suicídio é um tema tabu. Raramente é abordado na imprensa de uma forma direta. Quando emerge, será de maneira abstrata, como um tema geral que aparentemente não tocaria as pessoas tidas como "normais".

Mas como toda morte, aquela que ocorre por suicídio produz consequências biográficas, impactando de forma intensa na vida das pessoas próximas. E se pensarmos então nos elementos de nossa cultura com fortes marcas religiosas, o suicídio é uma espécie de anátema, um estigma que marca as famílias, um perverso jogo psicológico de atribuições e autoatribuições de responsabilidade.







Lermbro-me de um episódio na minha adolescência onde a mãe de um amigo ao saber de um diagnóstico de câncer de mama em estágio avançado acabou cometendo suicídio com um tiro na cabeça, que no velório se transformou na versão de "disparo acidental". A vida daquela mulher havia se transformado em uma mácula que as pessoas, apesar de ama-la, não estavam dispostas a comartilhar pelo medo da vergonha e do dedo em riste.



Os jornais tendem então a dar destaques curtos ao suicídio, são mais "generosos"  com os pobres que se matam ingerindo veneno para ratos e muito discretos com empresários que se jogam do alto de prédios por não cosneguirem mais driblar crises financeiras. As notícias são notas e os suicidas são objetos que se autodestruiram, não possuem vida e memória!



Essa conduta de "redação e estilo" não está escrita em canto algum mas é quase sempre respeitada. Existe o medo que ao veicular o suicídio estaríamos incentivando uma "epidemia" de suicídios como foi acusado Goethe quando seu personagem Werther suicida-se, exemplo que teria sido seguido por muitos jovens que se identificarfam com os dilemas de Werther.



Mas estamos agora assistindo a uma excessão, afinal, as razões de mercado se impõem a qualquer lógica engendrada pela idéia de proteção social. Ha poucos dias a atriz Cibele Dorsa cometeu suicídio jogando-se do alto do prédio onde morava  depois de semanas enfrentando um processo depressivo decorrente do suicídio de seu jovem noivo em circunstâncias similares.



Não adentraremos na discussão dos motivos de Cibele. Mas o que parece ser diferente nessa situação é o fato dela ser uma celebridade, atriz e escritora famosa. O processo que leva ao seu suicídio pode ser em parte acompanhado pela internet, pelo Twitter e pelo Youtube, onde postou um vídeo em homenagem ao noivo morto. Nas redes sociais pediu desculpas pelos gesto que em breve iria realizar e ao mesmo tempo apresenta as justificativas embasadas na sua dor.



No fim, o tradicional bilhete suicida,  que na verdade é um email mandado para  a revista "Caras" (vide link no final do post) . E foi assim que o mundo de "Caras" cheio do luxo e do glamour dos ricos e famosos acabou por abrir suas portas a um assunto não abordado pela revista. Dever de informação? Imposição do trabalho de jornalismo?



O ex marido de Cibele, particularmentre exposto pelo conteúdo do email, tentou impedir a publicação e o conseguiu por alguns dias. No entanto, a revista através da justiça conseguiu veicular a mensagem. Com esse gesto, muito provavelmente, a revista conseguiu atrair o olhar curioso de milhares de leitores que não estão necessariamente interessados em saber a decoração dos banheiros de um magnata mas que, dada a interdição do tema suicídio, ficarão atraídos pela matéria.



E lá podemos ler sobre a dor e o sofrimento de um ser humano em extrema crise. Mas, infelizmente, isso é quase nada destacado pela matéria. O email de suicídio na verdade se transforma em isca para vender revista, um lembrete trágico de um chavão que os ricos gostam sempre de referir: "dinheiro não traz felicidade"!



As dores e inconfidências, agora tornadas públicas, alimentam o imaginário de todos que leem o texto. Seria o ex marido co-responsável pela tragédia ao impedir a atriz de ver os filhos? E o papel das drogas nessa história toda? Ainda é possível morrer por amor? Psiquiatras e psicólogos poderão agora usar o email  em aulas de psicopatologia para destacar em termos práticos o "doentio" e mórbido" imaginário de um suicda às portas da morte.



Mas...e das dores de Cibele? E a necessária empatia para lidar com um sofrimento que não está restrito apenas a ela mas que em parte é de todos nós? Nestes aspectos ressoa um silêncio ensurdecedor! Até porque o suicídio é algo que só pode acontecer com os outros!



email de Cibele

sexta-feira, 18 de março de 2011

A EXIT e o Suicídio Assistido: Você Ajudaria Alguém a se Matar? (Erasmo Ruiz)





A pergunta provavelmente surpreendeu você. Pode ser considerada um despropósito, afinal, a  maioiria de nós parece ter posicionamentos muito rígidos e contrários a prática do suicídio, ainda mais em circunstâncias onde podmos nos coloar num papel de auxiliar à concretização do ato suicida.







Mas talvez as coisas não seja tão simples assim. Caso qualquer um de nós tome a decisão de cometer suicídio - e aqui não vamos adentrar as inúmeras razões e contextos em que isso poderia acontecer - essa ação não seria passível de maior regulação. Na nossa legislação não existe nenhuma cláusula que criminalize o gesto em si. Isso só acontece se, ao tentar cometer suicídio, o próprio gesto de cometimento possa de alguma forma produzir dolo e/ou prejuízo a outras pessoas.



O que quero dizer é que, tomada a decisão, estamos áptos, com maior ou menor "competência", em realizar o que pretendemos. Mas e quando por determinadas circunstãncias uma pessoa esteja fisicamente limitada para realizar esta ação? Por exemplo, no caso de pessoas que estejam na condição de tetraplegia, como pode esse indivíduo por termo a própria vida?



Ou em situações onde a pessoa deixa expresso seu desejos de "sair de cena" deste mundo, no avançar de uma doença grave ela simplesmente pode estar em condições tão debilitadas que precisará da ajuda de alguém para tomar um conjunto de substâncias para poder rmorrer.



Sei que esse assunto é desagradável e pode provocar um debate interminável. Mas não podemos estar indiferentes a esta situação posto que ela está acontecendo a todo momento, o que implicou que alguns países e Estados Norteamericanos intentassem alguma forma de regulação onde o ato de ajudar alguém a se matar fosse descriminalizado. O caso mais notório é o que acontece na Suiça onde a prática do suicídio assisitido é regulamentada, contando inclusive com a colaboração de organismos da sociedade civil para sua implementação.



Por isso convidamos você a assistir ao doumentário "EXIT". Ele nos mostra um pouco do cotidiano de uma associação que  auxilia pessoas vítimas de doenças para que não prolonguem uma dolorosa agonia ou que, pelo menos, num certo quadro de previsibildiade, poder evita-la. Há quase vinte anos grupos de voluntários acompanham o cotidiano de pessoas portadoras de doenças crônicas ou de graves deficiências para ajuda-las a alcançar uma saída mais digna dessa vida onde suas vontades sejam respeitadas e a autonomia exercida. O nome desta associação é o título do documentário





Embora essa questão seja muito polêmica, o documentário nos ajuda a diluir estereótipos que poderiam nos levar a perceber as pessoas que fazem parte dessa associação ou de outras que defendam a prática do suicídio assisitido como "frias", "insensíveis", "desumanas" ou de "afrontarem contra a dignidade da vida humana". Para mim é um excelente material que nos provoca a discutir sobre a qualidade de vida das pessoas no final de suas existências ou então a refazer o sentido que damos a expressão "dignidade da vida humana".



Isso nos leva a colocar algumas questões em discussão, por exemplo: não seria a busca do suicídio assisitido um dos efeitos da falta de autonomia dos pacientes diante da morte e do morrer, um grito de desespero contra a distanásia? Ou então, um fenômeno social mais restrito àqueles países e culturas que afirmam a supremacia das liberdades individuais frente as determinações coletivas? Afinal, de quem é a vida? Ela pode ser vista como um elemento correlato a uma propriedade individual que a torna portanto um bem que pode ser usufruído e disposto apenas pela minha vontade? Com a palavra o leitor!!



Abaixo vocês podem assistir ao documentário a partir de links do Youtube:

























quinta-feira, 4 de março de 2010

Suicídio como Tema da Arte: a Fotografia de Daniela Edburg (Erasmo Ruiz)



Confesso que a primeira impressão dessas fotos foi muito negativa. Digamos que a maioria das pessoas interessadas por Tanatologia acaba meio que desenvolvendo uma certa estética pelo mórbido. Eu assumo este traço. Tenho interesse em pensar como a pessoas representam a morte e, neste sentido, a iconografia tanática pode oferecer objetos de estudo muito interessantes. As fronteiras entre o interesse racional e o afeto, já nos ensinava Max Weber, são muito tênues e interpenetrantes Mas, claro! Existem certos limites para mim. Por exemplo, tenho dficuldades em lidar com a idéia de que cadáveres possam ser objetos literais da arte. Mas isso existe e pode ser mais comum do que imaginaríamos (tratarei disso em outro post). A primeira vez que vi o trabalho da Fotógrafa Daniela Edburg fiquei ngativamente surpreendido. Afinal, como captar alguma forma de beleza a partir do suicídio? Ai reside o poder constestador das imagens de Daniela. Poderia haver algum glamour na morte? A princípio essa idéia não parece despropositada, afinal, somos expostos a ela praticamente todos os dias. Falo da estética da morte no cinema onde muitas vezes é mostrada como gesto heroico ou recurso que pune exemplarmente o vilão. Não é dessa morte que nos fala Daniela mas sim de belas mulheres que cometem suicídio. A partir de situaões dramatizadas (não são fotos reais mas situações teatralizadas), ela quer captar exatamente isso: a beleza esteticamente agradável associada a situações absolutamente grotescas. Mas não só isso. Vamos refletir um pouo sobre as imagens. Numa delas vemos uma bela mulher morta com olhos abertos e sangue escorrendo pela boca , a sua volta vários pedaços de chocolate. Noutra imagem uma mulher jovem jaz inerte sobre uma cadeira ilhada por milhares de biscoitos de chocolate. Por fim, uma bela mulher, que presumivelmente se matou com uma overdose de babitúricos, tem a sua volta piluals misturadas a confeitos de chocolate. O recado de Danila é sutil. Se ela retrata o suicídio de belas mulheres e, dessa forma, atrai nossos olhar para as fotos, ela na verdade fala é do nosso suicídio civilizatório, critica um modo de vida baseado num hedonismo a base de comida inustrializada, que nos estimula ao sedentarismo, a obesidade e a uma postura passiva diante da vida. Afinal de contas, quem de fato está cometendo suicídio. As modelos das fotos de Daniela Edburg ou nós mesmos? Agora olhe a imagem inicial do nosso post. Uma mulher é estrangulada por um monstro que sai de sua geladeira. A sua volta, toda forma de produtos industrializados. Uma sociedade que evita falar da morte vai matando seus componentes em nome dos interesses econômicos mediados pelo consumo. Vale tudo para tornar o preço do alimento competitivo, não importa as reações alérgicas que uma ou outra pssoa possa ter diante de alguma variedade transgênica de arroz ou milho. Pessoalmente não acredito no "fim do mundo" mas as imagens de Daniela nos convidam a pensar se não estamos fazendo o nosso próprio apocalipse!

sábado, 19 de dezembro de 2009

Índice de Suicídio cresceu no Brasil entre 1980 e 2006 (Anna Mochel)





Pesquisa epidemiológica realizada por Giovanni Lovisi e colegas na base da dados do DATASUS, publicada em outubro na Revista Brasileira de Psiquiatria, cobriu 26 anos de dados e contabilizou 158.952 casos, mostrando que o suicídio cresceu nesse período de 4,4 para 5,7 mortes por 100 mil habitantes (29,5%).
As regiões Sul e Centro-Oeste apresentaram os maiores índices, 9,3 e 6,1, respectivamente. Na questão gênero, os homens cometeram mais suicídios. No tocante à faixa etária, a maioria dos suicídios foram cometidos por pessoas com mais de 70 anos, embora venha aumentando entre pessoas de 20 e 59 anos de idade. A maioria dos suicidas tinham baixo nível educacional, solteiras e utilizaram enforcamento, armas de fogo e envenamento como os principais meios. Embora tenha havido crescimento, esse índice ainda é baixo com relação aos índices mundiais. Por exemplo, em países europeus como Lituânia, a taxa é de 51,6 por 100 mil habitantes. Ou, em países americanos como o Canadá, Uruguai e Argentina, as taxas respectivas são de 15; 12,8 e 8,7 por 100 mil habitantes,. Para ler o artigo sobre o estudo acesse:

sábado, 18 de julho de 2009

O suicídio na Grécia Antiga


O relato, e até mesmo certa apologia, do suicídio ou morte voluntária é bastante comum nas narrativas gregas do passado. Elas são presentes tanto em textos literários, religiosos e filosóficos (se é quer há diferenças entre essas narrativas naquela mentalidade). O certo é que os deuses e deusas, heróis e heroínas, homens e mulheres são confrontados com a possibilidade de findar a sua existência de forma voluntária.

Jocasta, filha de Meneceu e irmã de Creonte e de Hiponome, casou-se com Laio com quem teve Édipo. Muitos anos depois, sem reconhecer o filho e sem ser reconhecida por ele, casou-se com ele, de quem teve duas filhas – Antígona e Ismene – e dois filhos – Eteoclés e Polinices. Ao tomar conhecimento do incesto Jocasta enforcou-se. (Noutra versão, ela se matou com um gládio, ao ver seus filhos Eteoclés e Polinices mortos um pelo outro em frente a uma das portas de Tebas).

Fedra, filha de Minos e de Pasifae, irmã de Ariadne e de Deucalião. Seu irmão deu-a em casamento a Teseu, então rei de Atenas, embora ele já fosse casado com uma amazona. Da união com Teseu nasceram os filhos Acamas e Demofon. Fedra apaixonou-se por Hipólito, filho de Teseu com sua primeira mulher. Hipólito, entretanto, desdenhava as mulheres e não correspondeu ao amor de sua madrasta. Fedra, receosa de que o rapaz revelasse a Teseu sua paixão por ele, caluniou-o junto ao marido acusando-o de tentar violentá-la. Teseu acreditou na infâmia e pediu a Poseidon para provocar a morte do próprio filho, que pouco tempo depois perdeu a vida arrastado pelos cavalos de seu próprio carro. Não resistindo ao remorso, Fedra enforcou-se. (Em outra versão, ela se matou antes de revelar o seu amor pelo enteado).

Antígona, filha de Édipo e de Jocasta, acompanhou seu pai na vida de errante em Tebas. Essas viagens sem destino levaram pai e filha até Colono, na Ática, onde Édipo morreu. Antígona regressou então a Tebas, juntando-se à sua irmã Ismene. Seus dois irmãos, Eteoclés e Polinices, que se achavam em campos opostos na guerra dos Sete Chefes contra Tebas, mataram-se em combate diante de uma das portas da cidade. O rei Creonte, tio de Antígona e seus irmãos, proporcionou funerais solenes a Eteocles, que morrera pelejado pela pátria, mas decretou que Polinices não poderia ser sepultado, pois lutara contra a sua cidade em companhia de estrangeiros. Antígona, entretanto, rebelou-se contra o edito de Creonte, considerando o sepultamento um dever mais forte que as leis dos homens, principalmente em se tratando de parentes, e cumpriu, embora sumariamente, os ritos fúnebres de Polinices. Creonte, encolerizado com a desobediência, condenou a sobrinha a ser encerrada viva nas catacumbas de seus antepassados. Condenada à morte em confinamento, enforca-se. Hêmon, noivo de Antígona e filho de Creonte, encontrando-a sem vida, matou-se com um gládio. Sua mãe, ouvindo a notícia do suicídio de seu filho, matou-se, também com um gládio.

Ájax, filho de Telamon, rei de Salamina, um dos grandes heróis da guerra de Tróia, participou praticamente de todos os confrontos importantes da guerra, tendo inclusive travado um combate singular com Heitor, no qual levou vantagem sobre o valente adversário. Quando Ájax ainda era criança, Heracles, que visitava Telamon enquanto preparava a primeira expedição de gregos contra Tróia, envolveu-o na pele de leão que sempre usava sobre os ombros, fazendo preces a Zeus para tornar aquele menino invulnerável. Zeus ouviu-lhe o pedido e assim Ájax ganhou a invulnerabilidade, à exceção da axila, do quadril e do ombro em que o herói carregava a aljava com suas flechas. Na parte final da guerra de Tróia, logo após à morte de Aquiles, o papel de Ájax tornou-se mais visível; diante disso ele se julgou com direito às armas do herói morto, que pela vontade de Têtis, mãe de Aquiles, deveriam ser dadas ao combatente grego mais temido pelos troianos por sua bravura. O outro pretendente às armas era Odisseus, e os chefes resolveram interrogar os prisioneiros troianos a esse respeito; estes, despeitados com Ájax por causa de sua contribuição decisiva para a vitória dos gregos, atribuíram o primeiro lugar em bravura a Odisseus, que por isso recebeu as armas. Amargurado com essa injustiça, Ájax enlouqueceu durante a noite anterior ao dia do julgamento, e massacrou os rebanhos destinados a alimentar os gregos, confundindo os animais com soldados inimigos. Na manhã seguinte, recuperando a razão ao sai do desvario em que o lançou Atena, suicida-se com seu gládio.

Alceste, a mais bela e piedosa das filhas de Pelias, rei de Iolco, casada com Ádmeto. Somente ela não participou do assassinato de seu pai, quando Medeia, usando sua astúcia e seus feitiços, provocou a morte de Pelias nas mãos de suas próprias filhas. Alceste era uma esposa tão boa e amava tanto o marido, que se ofereceu para morrer em seu lugar. Após sua morte Heracles comovido com sua prova de amor a Ádmeto, desceu ao inferno e a trouxe de volta ao mundo dos vivos. (Noutra visão, foi Persefone que igualmente comovida, tomou a decisão de ressuscitar Alceste e levá-la novamente a Admeto. Alceste leva o devotamento conjugal até o extremo de morrer em lugar de seu marido).

Dejanira, filha de Oineu, rei de Calidon, e de Altaia, e irmã de Melegro. Quando Heracles desceu ao inferno em busca de Cérbero, recebeu da alma de Melêagro um apelo para casar-se com Dejanira, sua irmã, que depois de sua morte ficara desamparada. De volta do inferno Heracles, querendo atender ao pedido de Melêagro, teve de lutar contra o deus rio Aqueloo, pois este pedira Dejanira em casamento. Após suas núpcias com Dejanira, Heracles deteve-se em Calidon durante algum tempo, e já teve dela um filho chamado Hilo. Mais tarde o casal deixou Calidon, e no caminho o centauro Nesso tentou violentar Dejanira à margem de um rio, mas Heracles feriu-o mortalmente; antes de morrer, porém, o centauro ofereceu a Dejanira, como se tratasse de um filtro de amor, um líquido preparado com o sangue de seus ferimentos. Chegando a Traquis, Heracles e Dejanira foram recebidos amistosamente por Cêix. Posteriormente Heracles apaixonou-se por Iole, e Dejanira, com ciúme e desejosa de reavivar o amor do herói por ela, mandou a Heracles um manto que impregnara com o liquido recebido de Nesso moribundo. Mal o manto entrou em contato com a pele de Heracles seu corpo começou a ser consumido por chamas que surgiram misteriosamente do manto e causaram a morte do herói no alto do monte Oita. Percebendo tarde demais que fora enganada por Nesso, Dejanira suicidou-se por amor de Héracles.

Narciso, um belo rapaz indiferente ao amor, filho do deus do rio Céfiso e da ninfa Liríope. Por ocasião do nascimento de Narciso seus pais perguntaram ao adivinho Tirésias qual seria o destino do menino. A resposta foi que teria uma longa vida se não visse a própria face. Muitas moças e ninfas apaixonaram-se por Narciso quando ele chegou à idade adulta, mas o belo jovem não se interessou por nenhum delas. A ninfa Eco, uma das mais apaixonadas, não se conformando com a indiferença de Narciso afastou-se amargurada para um lugar deserto, onde definhou até que somente restaram dela os gemidos. As moças desprezadas pediram aos deuses para vingá-las. Nêmesis apiedou-se delas e induziu Narciso, depois de uma caçada num dia muito quente, a debruçar-se numa fonte para beber água. Nessa posição ele viu seu rosto refletido na água e se apaixonou por sua própria imagem. Descuidando-se de tudo mais ele permaneceu imóvel na contemplação ininterrupta de sua face refletida e assim morreu. (Noutra versão, Narciso vivia em Tespias, nas imediações do monte Helicon. Um rapaz chamado Aminias apaixonou-se por ele, mas seu amor não foi correspondido. Desgostoso com a insistência de Aminias e querendo livrar-se dele, Narciso mandou-lhe de presente uma espada. Percebendo a intenção cruel de seu amado, Aminias suicidou-se com a espada defronte da casa de Narciso, implorando aos deuses em seus últimos instantes que o vingassem. Mais tarde, vendo seu rosto refletido na água de uma fonte, Narciso apaixonou-se por si mesmo, e no desespero de sua paixão impossível suicidou-se).

A história é longa...

sábado, 4 de julho de 2009

Comportamento suicida: sugestões para debate



O Japão é o país que tem a mais alta taxa de suicídio do mundo industrializado (02,1 por 100.000 habitantes). Os suicídios não atingiram o número recorde de 34.427 em 2003 (+ 7,1% com relação a 2002) (fonte : AFP 22/11/2004). A taxa de suicídios por 100.000 habitantes era de 03,1 em 1998, um pouco atrás da taxa dos 3 países baltas e da Rússia, Hungria e Eslovênia, onde a taxa é próxima de 30 pessoas por 100.000 (fontes diversas).

No Brasil, 4,9 pessoas a cada 100 mil morrem por suicídio. É uma das menores médias do mundo. Os maiores índices são do Rio Grande do Sul (11 para cada 100 mil), sendo Porto Alegre a capital com maior taxa de suicídios (11,9 para cada 100 mil). A cidade brasileira com o maior índice é o Município de Venâncio Aires, com mais de 40 casos a cada 100 mil habitantes. Uma das causas apontadas é o agrotóxico Tamaron, utilizado em larga escala no cultivo do fumo.Também é alarmante o caso da cidade de Jundiaí, com 4 mortos em 2000.

Roosevelt M.S. Cassorla, a partir de um referencial psicanalítico, fala em dois modelos compreensivos referentes a comportamentos suicidas, possivelmente as mais comuns em pronto-socorros, na prática do médico clínico e do profissional de saúde mental.

No primeiro modelo, chamado de jovens que tentam suicídio, o médico, psicoterapeuta ou psicanalista, recebe geralmente, uma jovem que tentou suicídio e que chega com o rótulo de histérica. A disciplina do profissional de saúde o obriga a eliminar rótulos, preconceitos, supostos saberes e teorias, para observar o paciente, como ele se apresenta. Após as consultas iniciais, caso se permita à jovem formar um vínculo com o profissional, este percebe que a paciente se entrega ao tratamento, quase que se gruda ao terapeuta, criando uma espécie de dependência ameaçadora para o profissional. Logo se percebe que a qualidade desse vínculo encobre ameaças terríveis de desestruturação, de estilhaçamento, de liquefação do ser, na falta de palavras que pontuem o indizível.
(...)

O segundo modelo, chamado de narcisismo suicida a qualidade desse vínculo encobre ameaças terríveis de desestruturação, de estilhaçamento, de liquefação
do ser, na falta de palavras que pontuem o indizível.
(...)

Trata-se de pessoas exigentes consigo mesmas, comumente com sucesso escolar, profissional ou científico. No entanto, têm dificuldades em lidar com as frustrações
do mundo real, e quando se defrontam com elas inclinam-se a tomá-las como fracasso pessoal. Sua vida afetiva é pobre, difícil e desvalorizada frente à área
intelectual. Em algum momento, quando as pessoas se defrontam com um vazio intenso, estimulado por supostos “fracassos” dependentes de auto-exigências
sádicas, e sem apóio afetivo, o terror inconsciente de “não existência” os faz pensar em morrer. A idéia suicida se articula com fantasias inconscientes de busca
de outra vida sem necessidades, de agressão ao ambiente frustrante, auto-punição pelo fracasso, e/ou outras fantasias altamente sofisticadas que dependerão
da constituição peculiar de seus mundos internos. A sociedade, por outro lado, estimula a competição e o orgulho profissional, que pode tornar-se arrogância.
Quando esta desaba o médico se defronta com um vazio, uma vida sem objetivos, uma sensação de fracasso e um questionamento sobre o viver. Isso pode ser acompanhado de doenças físicas, somatizações, tristeza, atuações sociais (abandono da Faculdade, de profissão, separações conjugais, etc.), depressão (que
chamamos “narcísica”), uso de substâncias psicoativas, e, como vimos, idéias suicidas. O risco de acidentes (suicídios inconsciente) aumenta. A facilidade em obter produtos mortíferos por parte de médicos, e o conhecimento pormenorizado de sua ação, implica em maiores riscos de vida. Relações simbióticas podem
coexistir com a dinâmica apresentada, ao lado do isolamento afetivo, oscilando entra os dois extremos.

Para ler mais sobre essa opinião de Cassorla, veja:
Cassorla RMS. Jovens que tentam suicídio e narcisismo destrutivo: dois modelos compreensivos do fenômeno suicida. Medicina (Ribeirão Preto) 2005; 38 (1): 45-48

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Suicídio entre indígenas

Uma dos problemas ligados ao estudo da Tanatologia Descritiva no Brasil é o suicídio entre indígenas. Em "Crônica de uma morte anunciada: do suicídio entre os Sorowaha", João Dal Poz (Professor do Departamento de Ciências Sociais – UFMT) apresenta a questão:
A prática de suicídio nos Sorowaha, povo de língua Arawa do médio Purus (AM, Brasil), através da ingestão do sumo da raiz de timbó (konaha), mediatiza singularmente as relações entre os indivíduos e a sociedade, projetando uma totalidade social às expensas de um drama ritual individualizador. A relevância do fenômeno é evidenciada tanto pelas taxas de mortalidade que ali se verificam, cerca de cem vezes as médias ocidentais, como também pela inusitada freqüência com que as tentativas, por motivos os mais variados, ocorrem entre eles.

Pode-se ler mais sobre esse assunto em:
JOÃO DAL POZ. CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA. REVISTA DE ANTROPOLOGIA, SÃO PAULO, USP, 2000, V. 43 nº 1.