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quarta-feira, 9 de março de 2011
Nas Fronteiras da Arte e do Bizarro: A Fotografia de Joel-Peter Witkin (Erasmo Ruiz)
A depender de gostos estéticos e do espírito do momento histórico, arte e o que seria chamado de "bizarro" podem se fundir de tal maneira que não chegamos a determinar com clareza os limites práticos de cada conceito.
Que o digam os artistas considerados de vanguarda num momento e, depois (in)voluntários ditadores de normas e regras estéticas. Por exemplo, Monet foi execrado pela crítica embasada por valores classicistas quando expôs seus quadros pela primeira vez. Depois, quem não rezasse a cartilha do impressionismo teve que enfrentar sua dose de preconceito.
Quando pensamos nas infinitas possibilidades que a fotografia nos apresenta, em particular após o uso radical dos programas de computador e a popularização definitiva da fotografia digital, parece novamente ficar difícil divisar limites.
Pela nossa ótica, esse é o caso de Joel-Peter Witikin. Esse fotógrafo norteamericano, nascido em 1939, foi fortemente influenciado por sua formação religiosa mesclada pelo interesse estético em corpos e comportamentos considerados "anômalos". Juntou-se a isso a experiência durante a guerra do Vietnã onde, enquanto fotógrafo militar, registrava fotografias técnicas para a perícia de mortes acidentais durante treinamentos militares.
Não mostraremos aqui as fotos mais chocantes de Joel-Peter. Para quem quiser exercer a virtude (ou defeito, quem sabe?) da curiosidade, no final do post disponibilizamos um link para o google imagens.No entanto, gostaríamos de destacar o que vemos de interessante em Joel-Peter: a sua ousadia em meio ao tabu da morte, de lidar com ela artisticamente de uma forma muito propositiva.
Em muitas de sua fotografias o cadáver, ou partes de corpos, se transforma em objeto a ser fotografado a partir de composições artesanais feitas pelo próprio fotógrafo. Alguns poderão imediatamente identificar em Joel-Peter uma problemática para estudiosos de psicopatologia. Seria então alguém a materialziar suas mais terríveis alucinações com relação a corpos deformados e pedaços de cadáveres? Ou um artista radical e genial tensionando praticamente no limite o sentido de liberdade anarquista que pode ser exercido pela arte?
O interessante talvez seja nos libertarmos de tal dicotomia, afinal, Schumann, Van Gogh e muitos outros já nos mostraram que as duas coisas podem andar juntas. Ah, e se o artista vive da sua arte é sinal então de que em sendo ela a materialização do seu delírio, sua arte tem servido bem à economia psíquica de muitos que são considerados "normais". Assim, a morbidade meio psicótica apontada no autor também seria do mundo que consome e admira suas composições.
Enfim, fica assim registrada essa provocação em nosso blog. Estamos aqui para falar das mais amplas possibildiades de se pensar e olhar a morte. E Joel-Peter nos apresenta uma delas e, com certeza, gostemos ou não, é um olhar muito original!
Link para o Google Imagens
quinta-feira, 4 de março de 2010
Suicídio como Tema da Arte: a Fotografia de Daniela Edburg (Erasmo Ruiz)
Confesso que a primeira impressão dessas fotos foi muito negativa. Digamos que a maioria das pessoas interessadas por Tanatologia acaba meio que desenvolvendo uma certa estética pelo mórbido. Eu assumo este traço. Tenho interesse em pensar como a pessoas representam a morte e, neste sentido, a iconografia tanática pode oferecer objetos de estudo muito interessantes. As fronteiras entre o interesse racional e o afeto, já nos ensinava Max Weber, são muito tênues e interpenetrantes Mas, claro! Existem certos limites para mim. Por exemplo, tenho dficuldades em lidar com a idéia de que cadáveres possam ser objetos literais da arte. Mas isso existe e pode ser mais comum do que imaginaríamos (tratarei disso em outro post). A primeira vez que vi o trabalho da Fotógrafa Daniela Edburg fiquei ngativamente surpreendido. Afinal, como captar alguma forma de beleza a partir do suicídio? Ai reside o poder constestador das imagens de Daniela. Poderia haver algum glamour na morte? A princípio essa idéia não parece despropositada, afinal, somos expostos a ela praticamente todos os dias. Falo da estética da morte no cinema onde muitas vezes é mostrada como gesto heroico ou recurso que pune exemplarmente o vilão. Não é dessa morte que nos fala Daniela mas sim de belas mulheres que cometem suicídio. A partir de situaões dramatizadas (não são fotos reais mas situações teatralizadas), ela quer captar exatamente isso: a beleza esteticamente agradável associada a situações absolutamente grotescas. Mas não só isso. Vamos refletir um pouo sobre as imagens. Numa delas vemos uma bela mulher morta com olhos abertos e sangue escorrendo pela boca , a sua volta vários pedaços de chocolate.
Noutra imagem uma mulher jovem jaz inerte sobre uma cadeira ilhada por milhares de biscoitos de chocolate.
Por fim, uma bela mulher, que presumivelmente se matou com uma overdose de babitúricos, tem a sua volta piluals misturadas a confeitos de chocolate.
O recado de Danila é sutil. Se ela retrata o suicídio de belas mulheres e, dessa forma, atrai nossos olhar para as fotos, ela na verdade fala é do nosso suicídio civilizatório, critica um modo de vida baseado num hedonismo a base de comida inustrializada, que nos estimula ao sedentarismo, a obesidade e a uma postura passiva diante da vida. Afinal de contas, quem de fato está cometendo suicídio. As modelos das fotos de Daniela Edburg ou nós mesmos? Agora olhe a imagem inicial do nosso post. Uma mulher é estrangulada por um monstro que sai de sua geladeira. A sua volta, toda forma de produtos industrializados. Uma sociedade que evita falar da morte vai matando seus componentes em nome dos interesses econômicos mediados pelo consumo. Vale tudo para tornar o preço do alimento competitivo, não importa as reações alérgicas que uma ou outra pssoa possa ter diante de alguma variedade transgênica de arroz ou milho. Pessoalmente não acredito no "fim do mundo" mas as imagens de Daniela nos convidam a pensar se não estamos fazendo o nosso próprio apocalipse!
quinta-feira, 18 de junho de 2009
A Representação da Morte como Protesto: Marat e Bush (ERASMO RUIZ)

Dois momentos bem distantes um do outro. Marat em meio ao calor da Revolução Francesa, e George Bush, uma quase unanimidade de rejeição quando no final de seu mandato como um dos piores presidentes dos Estados Unidos.
Mas quero a partir desses dois personagens, destacar um certo papel artístico que o representar da morte tem como recorrente: a sua expressão como forma de protesto e homenagem. O quadro acima, pintado por Jacques L. David (1793) cristaliza um dos momentos dramáticos da Revolução na França, quando Marat, um de seus líderes mais destacados, é morto por Charlotte Corday. O fato de estar numa banheira pode produzir interpretações dúbias se não for contextualizado. Marat possuia uma terrível doença de pele que o obrigava a permanecer imerso na água praticamente o dia todo. Era dessa maneira que trabalhava.
David, amigo de Marat, lhe presta uma homenagem. Transforma a caixa de madeira ao lado da banheira numa espécie de "pedra tumular" que dedica ao revolucionário e que também toma como superfície onde assina seu nome, talvez para mostrar que tenha morrido um pouco com o amigo. Ao mesmo tempo, ressalta o caráter traiçoeiro do assassinato para que ele nunca seja esquecido: Marat está inerte, nu, meio imerso na água da banheira e a ferida no seu peito ainda sangra. Sua morte não pode ter sido em vão. Ao mesmo tempo em que exige justiça, também exige que o ideário de sua revolução possa permanecer. Esse é o novo sentido da pessoa de Marat, cuja a morte o imortaliza no quadro e o expressa como herói a ser cultuado e lembrado .

Chegamos então a George Bush. Ele também está acompanhado pela morte mas posa vivo! Seu olhar é construído a partir de um mosaico trágico, formado pelas fotografias de centenas de soldados americanos mortos no Iraque. O lembrete é claro: ele é o responsável por estas mortes e, na verdade, seu poder parece se alimentar delas na medida em que os mortos vão formando a sua imagem. A composição ganha maior efeito ainda se a percebemos primeiro muito distante para, depois, nos aproximarmos dela, uma artimanha provavelmente pensada pelo autor. Quando vemos a figura dos homens públicos na mídia, os percebemos distantes, aparecem "limpos" e "perfeitos" de toda a crosta de iniquidade em que se vêem envolvidos. Mas ao olharmos mais de perto, veremos pelo que eles são responsáveis e, ao sabermos disso, podemos então nos tornarmos co-responsáveis se nada fizermos. (veja a imagem aumentada aqui )
Pelo Visto, exitem muitas possibilidades para a morte se expressar na história e nos acontecimentos políticos. A arte meio que captura esses momentos, os reinterpreta e os trasnforma em possibilidades práticas pela ação que motivam, seja na França revolucionária do século das luzes, seja pelo Império Americano em decadência no início do século XXI.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
A Morte Serena e a Fotografia de Rudolf Schafer (Erasmo Ruiz)

A tradição de se mostrar a morte como algo sereno e belo, acontecimento que põe fim ao sofrimento da dor e das dificuldades de se viver nesse mundo, é um marco na iconografia. Espalha-se em inúmeras manifestações desde a mais remota antiguidade e nos chega até os dias de hoje por versões contemporâneas da "fotografia mortuária" como manifestação artística.
Nessa postagem uma pequena demonstração da obra de Rudolf Schafer. Em 1983 este fotógrafo registrou cadáveres no Hospital "Charité" de Berrlin. Todos os olhos dos mortos encontram-se fechados. Chama a atenção um certo tom de trivialidade, como se sorrateiramente surpreendêssemos as pessoas em meio ao seu sono.
Pelas fotos, não conseguimos deduzir nomes nem a maior curiosidade mórbida que a maioria de nós possui: a "causa mortis". Vemos apenas o rosto de uma pessoa morta envolta em um lençol, e nos perguntamos: quem era ela, o que fazia...talvez como se questionássemos a nós mesmos.
Não há interesse do fotógrafo em nos apresentar a morte cruel, tão comum hoje em dia na imprensa e na estética cinematográfica. Ha um certo tom meio que vitoriano, que afirma e ao mesmo tempo nega morte! Somos informados que estamos diante da imagem de um cadáver, mas a forma como ele se encontra, os traços do rosto e o tom sereno não aparece como algo tão amedrontador.
E como ficamos caro leitor? A morte não teria nenhum mistério? Seria apenas este sono profundo e sereno captado pelas lentes de Rudolf Schafer? Estaríamos novamente diante da mera espetacularização da morte ou frente a sensibilidade de um artista que nos quer tirar do sono da vida a partir de suas "visages de morts"?

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