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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O Recalque como Expressão Artística: A Morte como Objeto (Erasmo Ruiz)



O que está reprimido sempre busca formas de expressão. Não se trata de pensar esse conceito apenas como a psicanálise o faria mas pensarmos a semelhança de Nobert Elias, qual seja, no sentido de como o processo civilizatório em seu desenvolvimento busca (re)frear determinados comportamentos considerados inadequados para este ou aquele objetivo socialmente constituído.

Óbvio que os indivíduos pagam seu preço por isso. No passado a repressão sexual, muito mais marcante, ajudava a constituir rico e diverso quadro de transtornos mentais. Mas, como todo recalque, a estética consagrava formas específicas de sua liberação. A arte, por excelência, sempre foi um mecanismo para tal. Basta pensarmos que é no auge da repressão vitoriana que encontraremos a beleza da estatuaria mortuária em suas transparências, expondo seios, mostrando contornos semi-encobertos. Ao visitar um cemitério mais antigo perceberemos com alguma boa vontade que morte e erotismo parecem produzir uma estranha e atrativa mistura.

Mas não precisamos recuar tanto ao passado. Representações da morte comparecem de forma marcante na arte contemporânea. Será que a relativa excclusão social dessa temática produz o seu ncontrário, ou seja, favorecem com que o tema se torne especialmente atrativo? Como tudo que é recalcado, há sempre a exigência mais ou menos velada para sua expressão.

Tradicionalmente as artes plásticas já trabalharam com modelos mortos, transformando-os em desenhos e pinturas. Noutras circunstâncas, mortos "pousam" como vivos, uma forma de "memento mori"que nega e ao mesmo tempo afirma a morte. Mas gostaria nesta, e em próximas postagens, explorar a radicalidade da morte enquanto obejto artístico. Em quê se constituiria essa radicalidade?

Trata-se de sinalizar que, no limite, a própria morte, o corpo morto, os restos mortais, ossos, esqueletos, os instrumentos para produzi-la, enfim, as expressôes materiais da morte, como expressões materiais da realidade, podem ser transformados em objetos e conceitos artísticos, por mais que isso possa ofender sensos estéticos consolidados, até porque esse é um dos papéis da arte, funcionar com certo espírito de vanguarda e, volta e meia, contrapropor um novo olhar sobre o real.

Queria por em destaque o trabalho de Lucinda Devlin, fotógrafa norteamericana que, com aguda percepção, nota que existiria uma suspeita semelhança entre os espaços de cura com os locais de execução de condenados a morte. No trabalho intitulado "Omega Suite" Lucinda expõe uma série de fotografias onde vemos cadeiras elétricas, salas de câmara de gás e recintos para injeções letais. Ela explora o domínio dos espaços interiores como marca da cultura americana e percebe essa marca também no terreno da morte.

Lucinda mostra "mementos mori" típicos do nosso tempo, onde a cultura higienista atinge nossas vidas e regulam nossa morte, aconteça ela num hospital ou numa elaborada sala de execução. Ela não tem objetivo de questionar a pena de morte com o seu trabalho mas, claro, como arte, sua proposta ganha autonomia e assume novos significados para todos que dela usufruem. Embora não vemos nenhum homem nas fotos, é impossível não imaginar os virtuais sofrimentos psicológicos de quem irá se deparar com a morte sem subterfúgio alguum. Teria sentido essa barbárie revestida de aparato tecnológico e higiênico? A pena de morte não nos transformaria todos em assassinos na medida em que o Estado assume a função pública de matar em nosso nome?

Deixo com vocês as imagens de Lucinda Devlin!





quarta-feira, 17 de junho de 2009

A Morte Serena e a Fotografia de Rudolf Schafer (Erasmo Ruiz)


A tradição de se mostrar a morte como algo sereno e belo, acontecimento que põe fim ao sofrimento da dor e das dificuldades de se viver nesse mundo, é um marco na iconografia. Espalha-se em inúmeras manifestações desde a mais remota antiguidade e nos chega até os dias de hoje por versões contemporâneas da "fotografia mortuária" como manifestação artística.


Nessa postagem uma pequena demonstração da obra de Rudolf Schafer. Em 1983 este fotógrafo registrou cadáveres no Hospital "Charité" de Berrlin. Todos os olhos dos mortos encontram-se fechados. Chama a atenção um certo tom de trivialidade, como se sorrateiramente surpreendêssemos as pessoas em meio ao seu sono.


Pelas fotos, não conseguimos deduzir nomes nem a maior curiosidade mórbida que a maioria de nós possui: a "causa mortis". Vemos apenas o rosto de uma pessoa morta envolta em um lençol, e nos perguntamos: quem era ela, o que fazia...talvez como se questionássemos a nós mesmos.


Não há interesse do fotógrafo em nos apresentar a morte cruel, tão comum hoje em dia na imprensa e na estética cinematográfica. Ha um certo tom meio que vitoriano, que afirma e ao mesmo tempo nega morte! Somos informados que estamos diante da imagem de um cadáver, mas a forma como ele se encontra, os traços do rosto e o tom sereno não aparece como algo tão amedrontador.


E como ficamos caro leitor? A morte não teria nenhum mistério? Seria apenas este sono profundo e sereno captado pelas lentes de Rudolf Schafer? Estaríamos novamente diante da mera espetacularização da morte ou frente a sensibilidade de um artista que nos quer tirar do sono da vida a partir de suas "visages de morts"?