Na vida, segundo Millôr, viramos cópias pois “todo homem nasce origuinal e morre plágio”. E quanta coisa há para se fazer entre esses dois pontos. Millor acreditava em Deus. Mas sua crença era como seu humor, irônica e sarcástica. Em conversa com Deus ele diz: “Sabemos que VOCÊ, aí de cima, não tem mais como evitar o nascimento e a morte. Mas não pode, pelo menos, melhorar um pouco o intervalo?”.
quinta-feira, 29 de março de 2012
As Frases Mortais de Millôr Fernandes (Erasmo Ruiz)
Na vida, segundo Millôr, viramos cópias pois “todo homem nasce origuinal e morre plágio”. E quanta coisa há para se fazer entre esses dois pontos. Millor acreditava em Deus. Mas sua crença era como seu humor, irônica e sarcástica. Em conversa com Deus ele diz: “Sabemos que VOCÊ, aí de cima, não tem mais como evitar o nascimento e a morte. Mas não pode, pelo menos, melhorar um pouco o intervalo?”.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Aprendendo a Morrer Com Mário Quintana (Erasmo Ruiz)
Falo de preparação, não como uma espera ansiosa mas que tematiza o morrer como algo que expressa também o meu viver para que ele seja mais intenso, porque sabemos agora focar o existente como seu real valor de singularidade e beleza. E quem nos ajuda a (re)encontrar esse valor é a percepção de que a morte faz parte do viver.
Hoje falaremos de Mario Quintana. Para mim este poeta gaucho tem a virtude de tornar pesada uma pena e leve um cofre de banco. Mostra sutilezas e complexidades ocultas naquilo que vemos todos os dias e que aprendemos a não "ver" mais. Mario Quintal extrai ouro daquilo que nos acostumamos a chamar de banalidade..
Quintana falou muito sobre a morte, fez inclusive piada dela ao nos lembra que “A morte é a libertação total: a morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos”. Então, não temos mais que nos preocupar com o fato dos lençóis ficarem sujos com a terra do nosso calçado, aliás, talvez a morte seja isso mesmo, a ausência total das preocupações e, por isso, exercício pleno de uma liberdade que não se exercita..
Quintana pode ser um ótimo companheiro de jornada se quisermos discutir a morte. Recomendo essa discussão a todos e, particularmente, aos trabalhadores de saúde já que eles, muito provavelmente, cuidarão do nosso morrer. A questão é: como estão cuidando hoje em dia? Minha resposta é afirmar que o cuidar não pode estar reduzido a mera monitoração de sinais clínicos, de um corpo reduzido a suas funções biológicas. As pessoas a beira da morte perdem a singularidade, se transformam em massas biológicas a beira da dissolução. Nós somos muito mais do que isso!
O morrer grita pelo exercício de outras necessidades: expressa os quereres especialmente reservados para o fim da vida, pela simples razão qie são percebidas como sinais da despedida do mundo e de tudo que amamos. Assim, quando formos falar de morte nos hospitais, por que não pensarmos em Mario Quintana? Vejam por exemplo este soneto:
Minha Morte Nasceu...
Mário Quintana para Moysés Vellinho
Minha Morte nasceu quando eu nasci
Despertou, balbuciou, cresceu comigo
E dançamos de roda ao luar amigo
Na pequenina rua em que vivi
Já não tem aquele jeito antigo
De rir que, ai de mim, também perdi
Mas inda agora a estou sentindo aqui
grave e boa a escutar o que lhe digo
Tu que és minha doce prometida
Nem sei quando serão nossas bodas
Se hoje mesmo...ou no fim de longa vida
E as horas lá se vão loucas ou tristes
Mas é tão bom em meio as horas todas
Pensar em ti, saber que tu existes
(Fonte: QUINTANA, Mário Poesia Completa. Rio de Janeiro:Nova Aguilar; 2005)
Quanta leveza para um tema costumeiramente denso e amedrontador...a morte como um ente que nos acompanha desde o nascimento....como uma namorada de infância com quem um dia, cedo ou tarde, nos casaremos. Já utilizei este poema para estimular trabalhadores de saúde em rodas para tematizarem as suas experiências pessoais com a morte, suas primeiras lembranças. O resultado foi muito bom. As pessoas trouxeram recordações, expressaram lutos mal elaborados, produziram ligações com as experiências de morte vividas no cotidiano.
Como todo tabu, depois que percebemos que não haverá necessariamente punições por quebra-lo, a porta se escancara e as pessoas meio que perdem o medo, pelo menos de falar, e percebem que o medo da morte e do morrer que as deixa tão vulneráveis, na verdade é o medo de todos. Assim, nos tornamos fortes quando percebemos que o medo é algo que pertence ao mundo, elemento que tipifica a condição humana.
Mas Quintana tem mais a nos dizer:
Este quarto
Este quarto de enfermo, tão deserto
de tudo, pois nem livros eu já leio
e a própria vida eu a deixei no meio
como um romance que ficasse aberto...
Que me importa este quarto, em que desperto
como se despertasse em quarto alheio?
Eu olho é o céu! Imensamente perto,
o céu que me descansa como um seio.
Pois só o céu é que está perto, sim,
tão perto e tão amigo que parece
um grande olhar azul pousado em mim.
A morte deveria ser assim:
um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim..."
(Fonte: QUINTANA, Mário Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; 2005)
Aqui Mario Quintana apresenta a percepção da morte por quem está morrendo ou, pelo menos, uma idealização do que ela deveria ser. O olhar do moribundo parece expressar esperança nas promessas de um céu que significa descanso, o fim das dores e sofrimento. Compara a morte a este mesmo céu que a semelhança do dia, cede espaço para a noite inexorável, um manto que nos cobre e nos livra da ansiedade de saber que é o fim. Novamente, uma bela metáfora da morte que nos afasta das representações terríveis e dolorosas.
A partir dessa leitura as pessoas podem ser estimuladas a falar das experiências que vivem nos hospitais, no cotidiano do trabaho, podem compartilhar os sentidos que tem dado a morte, as percepções do que seriam a mortes dolorosas (física e psiquicamente) e como poderiam atuar para minimizar a dor e vulnerabilidade de pacientes e familiares.
Vamos terminando por aqui, encerrando da melhor maneira possível, claro, com Mário Quintana:
Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce - uma estrela,
Quando se morre - uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
"Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!"
domingo, 19 de setembro de 2010
Poemas Mortais à Mulher Amada: Tanatologia Poética com Baudelaire (Erasmo Ruiz)
Mas numa época onde a morte era vista com outros olhos, mais presente e visível, menos interdita. Numa época em que as explicações gerais iam perdendo espaço para outras que colocavam em dúvida as certezas de uma pós vida e da eternidade, cabia então chamar à razão aquela pobre dama que mesmo diante dos desejos do corpo, negava seus amores ao suplicante poeta.
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Na companhia da Morte com Manuel Bandeira (Erasmo Ruiz)
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
Do meu ponto de vista é esse Bandeira de "Pneumotórax" que estará presente até o fim de sua vida meio que fantasmático em quase todos os poemas sobre a morte. A preparação para a morte ainda muito jovem exigiu dele reflexões intensas sobre o viver e a constatação da impotência do se impedir a morte levou a construção de potência de vida.
Diante da ausência de possibilidades concretas de se intervir na tuberculose, restava pensar na morte e tocar um tango pode ser então o movimento da vida, sua intensidade, lubricidade e também tragédia. Asl etras dos tangos nos remetem invariavelente para estas três vertentes. Por consequência, é preciso viver o milagre:
Poemeto Erótico
Teu corpo claro e perfeito,
- Teu corpo de maravilha
Quero possuí-lo no leito
Estreito da redondilha...
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa... flor de laranjeira...
Teu corpo branco e macio
É como um véu de noivado...
Teu corpo é pomo doirado...
Rosal queimado do estio,
Desfalecido em perfume...
Teu corpo é a brasa do lume...
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Romantismo e Morte: "O Brilho de Uma Paixão" (Erasmo Ruiz)
A história dessa relação é narrada com ternura, emoldurada por belas paisagens mas sem cair no engodo dos clichês de filme de época que prendem os espectadores com eficientes direções de arte que escondem histórias vazias. Não há vilões ou uma trama que intenta separar a vida dos amantes, pelo contrário. É a fatalidade de uma sociedade marcada pelas péssimas condições sanitárias que transforma a tuberculose na doce musa, a morte no colo da mulher amada com vestes esvoaçantes nos convidando para as bodas definitivas. Os personagens não estão fazendo juras eternas nem o poeta declama poemas melosos para a sua amada. Na verdade, lutam desesperados para escaparem daquilo que sabem ser seu destino: a separação! Em parte, ela já está demarcada pelas convenções sociais pois o poeta não tem meios financeiros para desposar sua amada. Mas a pior separação é aquela determninada pela morte! O filme é de uma beleza plástica intensa.A trilha sonora, de estilo minimalista, está lá como uma boa moldura que nunca deve chamar muita atenção mas sim destacar nosso olhar em direção a pintura. No entanto, o público não está mais acostumado a essa forma de expressão artística, muito menos a maneira como esse amor, intenso e singelo, é tratado no filme. Ainda é preciso destacar Brown, melhor amigo do poeta que tenta preserva-lo da paixão de Fanny, direcionando-o ao aperfeiçoamento de sua arte. Não é o vilão da nossa estória. Pelo contrário. O que move seu gesto é o amor pela arte do poeta e a intuição de que a doença irá ceifa-lo mais cedo ou mais tarde...e como foi cedo. John Keats morre longe de sua amada aos 25 anos de idade. Boa parte de seus poemas foram mal recebidos pela crítica ainda durante a vida do autor. Só depois da sua morte puderam perceber a beleza de sua poesia. O embate de Brown e Fanny, com diálogos cheios de sarcasmo e ironia, é um dos pontos altos do filme. Um dos belos momentos é quando Fanny e Keats em seus quartos, separados apenas por uma parede, se "tocam" imaginado como seria viver a plenitude daquele amor. E ainda há a cena da despedida dos dois em que estão deitados na cama e que ela chega a insinuar a possibilidade de fazer amor com o poeta. Ele recusa! Esse era seu maior sacrifício. Não toca-la sexualmente era a forma de preserva-la para viver as possibilidades de um casamento. Para nossa mentalidade acostumada a ver cenas de sexo na sessão da tarde pode parecer algo muito estranho isso tudo, ainda assim, belo e intenso!
A cena mais tocante é o momento em que Fanny recebe a notícia da morte de seu amado. Seu pranto é uma das coisas mais intensas que já vi numa tela de cinema. Nos transporta à dor do personagem, nos coloca no tempo congelado do filme. Essa percepção da morte, presente e intensa, talvez nos ajude a entender como poetas como Keats ou músicos como Schubert e Chopin, apesar de viverem tão pouco tempo, tiveram produções intensas não só em qualidade mas também em quantidade. No início da sessão em que estive havia mais ou menos 20 pessoas numa cinema que comportava 300 poltronas. No final do filme, 10 espectadores ainda permaneciam. Fiquei pensando no que havia determinado que tantos saíssem antes que o filme terminasse. Os risos que ouvi diante do choro de Fanny ao saber da morte do amado deu-me uma pista. Nossa sociedade não consegue conviver com a morte na sua expressão mais dolorosa representada pela perda e pelo amor que já se intui inconcluso. Precisamos do espetáculo dos evisceramentos dos filmes de terror, das horrendas mortes dos vilões ou do massacre de Jesus no filme de Mel Gibson. Aprendemos a rir com a morte na estética do cinema-espetáculo. Desamparados, a maioria de nós parece não ser mais capaz de expressar a emoção da dor. Nesse sentido, um amor romântico sem clichê é realmente um amor de morte, mas com carinho, ternura e até júbilo. Para assisitir a esse filme, desarme-se! Não queira um mero entretenimento, um escapismo dos problemas, um relaxamento das questões mal resolvidas. Talvez você fique sufocado com o grande alerta dos personagens. Eu fiquei engasgado pelas coisas que ainda não vivi. Como nos mostra Keats, pensar na morte nos leva a imaginar tudo o que não veremos e, talvez, dessa maneira, vamos vivendo cheios de esperança em fazer aquilo que a morte pode potencialmente nos furtar:
SONETO Quando fico a pensar poder deixar de ser antes que a minha pena haja tudo traçado, antes que em algum livro ainda possa colher dos grãos que semeei o fruto sazonado; quando vejo na noite os astros a brilhar - vasto e obscuro Universo, impenetrável mundo! - quando penso que nunca hei de poder traçar sua imagem com arte e em sentido profundo; quando sinto a fugaz beleza de alguma hora que não verei jamais - como doce miragem – turva-se a minha mente, e a alma em silêncio chora um impulsivo amor. E a sós, me sinto à margem do imenso mundo, e anseio imergir a alma em nada até que a glória e o amor me dêem a hora sonhada! Que a vida possa então ser brilhante e intensa como a paixão do filme, como a poesia de Keats!terça-feira, 23 de junho de 2009
Livros de Auto-Ajuda para Morrer (Erasmo Ruiz)

A cada contemporaneidade a morte se apresenta sob novos matizes e cabe a cada nova geração o trabalho de criar e/ou recriar formas de se lidar com ela. Esta afirmação, a princípio óbvia, configura hoje uma situação frente às questões apresentadas pela morte e o morrer muito diferente de antes. Se no passado parecia haver um conjunto de concepções de mundo que oferecia um suporte psicossocial para o enfrentamento da morte, aquilo que os filósofos chamam de uma “Ars Moriendi” (arte de morrer), parece que hoje em dia essa arte se configura como um conjunto de ações e pensamentos que nos levam ao escapismo frente a tudo que a morte pode expressar.
Em sendo essa tese verdadeira, talvez isso nos ajude a entender porque livros como “Por um Fio” (Drauzio Varela), “A Última Grande Lição” (Mitch Albom) ou “A Lição Final” (Randy Pausch) se tornaram sucesso de vendas. Com objetivos relativamente distintos, eles parecem funcionar como uma auto- ajuda tanática frente a uma sociedade que não colocou como uma de suas metas socializar as pessoas para a experiência da morte. Eis então um interessante paradoxo: pelo tema estar interditado, ele suplica por ser encontrado, estudado, conhecido! Caro leitor. Se quiseres ganhar um bom dinheiro e souberes escrever, então , ensine as pessoas como morrer! Com relação a morte, estamos sem rituais. As senhas não estão claras. As certezas esboroaram!
A similaridade entre todos esses autores está nas conclusões que sinalizam. Para breve estaremos postando comentários para cada um dos livros que, ao seu modo, são interessantes e importantes de serem lidos. No momento, cumpre destacar que afirmam com todas as letras que estamos desperdiçando nossas vidas com objetivos fúteis, e a futilidade parece ser tudo aquilo que nos ensinaram a achar importante: dinheiro, carreira, prestígio. Por conta desses ícones da vida contemporânea, prestamos menos atenção em nossos filhos, na natureza e em todas as muitas belezas desse mundo.
A preciosidade de pensar na morte residiria justamente nisso: ao nos lembrarmos cotidianamente de que vamos morrer, nossas escolhas podem ser mais ponderadas no sentido de nossa existência e nem tanto daquilo que exigem que façamos. Não é esse o dilema de “A Morte de Ivan Ilitch” (Leon Tolstoi,) quando o personagem em desespero descobre que a vida até aquele momento de fato não havia sido vivida e que o tempo para controlar o seu destino estava se escoando?
Caso o leitor queira desfrutar da auto ajuda tanática, recomendo que se comece pela ficção de Tolstoi, onde o personagem central, alguém que lentamente está morrendo, nos narra a sensação de abandono e a crise existencial de não ter descoberto a tempo o que desejaria ser na vida e não o que ele, pela força das convenções, acabou sendo. É muito difícil não se identificar com a narrativa. E é por isso que muitos interrompem a leitura para não se compromissarem consigo mesmo para mudar a própria existência.
Feita a leitura de Tolstoi, estamos prontos para receber as lições de Varella, Albom e Pasch. As terríveis conseqüências de não se lidar com a morte se apresentarão com uma nitidez avassaladora. A virtual constatação de uma mediocridade de existência poderá então nos levar a simplesmente viver a aventura dificílima, mas ao mesmo tempo maravilhosa, de tentarmos junto com a miríade de outros seres humanos, sermos nós mesmos, como nos ensina Mario Quintana:
"As outras crianças, uma queria ser médica, outro pirata, outro engenheiro, ou advogada, ou general. Eu queria ser pajem medieval...Mas isso não é nada. Hoje eu queria ser uma coisa mais louca: eu queria ser eu mesmo!"




