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quinta-feira, 29 de março de 2012

As Frases Mortais de Millôr Fernandes (Erasmo Ruiz)



Ao saber da morte de Millôr Fernandes veio-me imediatamente a ideia de que homens como ele nao morrem, são como os livros que escreve, apenas mudam de página. Eu sei que é um pensamento consolador como tantos outros que temos diante da morte. Mas a arte tem essa espécie de dom, cria uma aura de magia ao afimar a pretensão de que as obras de um grande artista adquiriram o estatuto de “eternidade”. Não tenho dúvida que este é o caso de Millôr Fernandes.


 Apesar deste blog ser sobre a morte, não queria escrever um obtuário de Millôr pois já apareceram muitos, alguns excelentes. Também não proporei discussões em torno de falsas dicotomias: "era Millor um humorista escritor ou um escritor humorista?". Pensei em destacar de Millor o aspecto em que ele era mais genial, suas frases! E já que nesse blog não existe  tabu com relação a morte, o que ele nos dizia sobre ela?


Antes, uma advertência do Millôr: “Fiquem tranquilos os poderosos que tem medo de nós: nenhum humorista atira para matar”. Eu completaria dizendo que, apesar disso, Millôr poderia nos matar de rir. Por exemplo, quando se referia implicitamente sobre a morte ele avisa: “O otimista não sabe o que o espera” já que “o cadáver é que é o produto final. Nós somos apenas a matéria prima.”


De um sarcasmo a toda prova, Millor refletia o tempo todo sobre a vida. Colocou em prática a assertiva dos romanos que já avisavam que rindo satirizamos os costumes. Ah, e como ele nos fazia rir, tendo até nosso maior objeto de temor como combustível para a piada. E “profeticamente” antevendo a própria morte ele dizia que “quando eu morrer só acreditarei na sinceridade de uma homenagem - o agente funerário não cobrar o enterro”.


E ele tinha razão. Sabemos o quanto podemos aumentar de maneira suspeita o que os mortos eram e acrescentar virtudes que nunca tiveram: "A ocasião em que a inteligência do homem mais cresce, sua bondade alcanlça limites insuspeitados e seu caráter uma pureza inimaginável é nas primeiras 24 horas depois de sua morte".


Na vida, segundo Millôr, viramos cópias pois “todo homem nasce origuinal e morre plágio”. E quanta coisa há para se fazer entre esses dois pontos. Millor acreditava em Deus. Mas sua crença era como seu humor, irônica e sarcástica. Em conversa com Deus ele diz: “Sabemos que VOCÊ, aí de cima, não tem mais como evitar o nascimento e a morte. Mas não pode, pelo menos, melhorar um pouco o intervalo?”.


Maldita liberdade essa a qual estamos condenados já que a “morte é compulsória mas a vida não!”. Somos livres para atuar nesse intervalo entre nascer e morrer e todos desejamos por alguma velhice. Ainda assim, para Millôr, existe vantagem em se morrer jovem: “a única vantagem de se morrer moço é que economizamos a velhice”.


Millôr era um mestre do humor fino. Alguém que olhava o cotidiano e era capaz de fazer piada da conversa do liquidificador com o fogão. A piada sempre esteve diante de nós, mas só Millôr era capaz de vê-la. Um exímio jogador das palavras. E diante da morte, ri e nos faz rir ao contatar “que o dedo do destino não tem impressão digital”,


Sigamos então mais uma vez os conselhos dos romanos que nos avisam para aproveitarmos bem o dia até porque, como reforça a maxíma de Millôr , “um dia, mais dia menos dia, acaba o dia-a-dia”.


Finalizando, para aqueles que tem um medo imobilizador da morte, Millôr teria deixado algumas sinalizações que podem ser alentadoras ou, com certeza, revestir a tragédia com alguma graça: “a morte é dramática, o enterro cômico e os parentes ridículos”. Quanto a este escritor de blogs, vou seguindo adiante tentando aproveitar o máximo pois “estou jurado de morte, mas continuo cheio de vida!”.


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Aprendendo a Morrer Com Mário Quintana (Erasmo Ruiz)





Continuo a insistir: a poesia é um dos poucos redutos onde podemos aprender um pouco da arte de morrer. Não isso que vemos na TV, as mortes cenográficas, dolorosas, dramáticas. Nem a morte que vemos nos hospitais, os abandonos nos quartos, o lidar com o corpo vivo porém morto à vida num leito de UTI.



Falo de preparação, não como uma espera ansiosa mas que tematiza o morrer como algo que expressa também o meu viver para que ele seja mais intenso, porque sabemos agora focar o existente como seu real valor de singularidade e beleza. E quem nos ajuda a (re)encontrar esse valor é a percepção de que a morte faz parte do viver.



Hoje falaremos de Mario Quintana. Para mim este poeta gaucho tem a virtude de tornar pesada uma pena e leve um cofre de banco. Mostra sutilezas e complexidades ocultas naquilo que vemos todos os dias e que aprendemos a não "ver" mais. Mario Quintal extrai ouro daquilo que nos acostumamos a chamar de banalidade..



Quintana falou muito sobre a morte, fez inclusive piada dela ao nos lembra que “A morte é a libertação total: a morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos”. Então, não temos mais que nos preocupar com o fato dos lençóis ficarem sujos com a terra do nosso calçado, aliás, talvez a morte seja isso mesmo, a ausência total das preocupações e, por isso, exercício pleno de uma liberdade que não se exercita..



Quintana pode ser um ótimo companheiro de jornada se quisermos discutir a morte. Recomendo essa discussão a todos e, particularmente, aos trabalhadores de saúde já que eles, muito provavelmente, cuidarão do nosso morrer. A questão é: como estão cuidando hoje em dia? Minha resposta é afirmar que o cuidar não pode estar reduzido a mera monitoração de sinais clínicos, de um corpo reduzido a suas funções biológicas. As pessoas a beira da morte perdem a singularidade, se transformam em massas biológicas a beira da dissolução. Nós somos muito mais do que isso!



O morrer grita pelo exercício de outras necessidades: expressa os quereres especialmente reservados para o fim da vida, pela simples razão qie são percebidas como sinais da despedida do mundo e de tudo que amamos. Assim, quando formos falar de morte nos hospitais, por que não pensarmos em Mario Quintana? Vejam por exemplo este soneto:



Minha Morte Nasceu...

Mário Quintana para Moysés Vellinho



Minha Morte nasceu quando eu nasci

Despertou, balbuciou, cresceu comigo

E dançamos de roda ao luar amigo

Na pequenina rua em que vivi



Já não tem aquele jeito antigo

De rir que, ai de mim, também perdi

Mas inda agora a estou sentindo aqui

grave e boa a escutar o que lhe digo



Tu que és minha doce prometida

Nem sei quando serão nossas bodas

Se hoje mesmo...ou no fim de longa vida



E as horas lá se vão loucas ou tristes

Mas é tão bom em meio as horas todas

Pensar em ti, saber que tu existes



(Fonte: QUINTANA, Mário Poesia Completa. Rio de Janeiro:Nova Aguilar; 2005)





Quanta leveza para um tema costumeiramente denso e amedrontador...a morte como um ente que nos acompanha desde o nascimento....como uma namorada de infância com quem um dia, cedo ou tarde, nos casaremos. Já utilizei este poema para estimular trabalhadores de saúde em rodas para tematizarem as suas experiências pessoais com a morte, suas primeiras lembranças. O resultado foi muito bom. As pessoas trouxeram recordações, expressaram lutos mal elaborados, produziram ligações com as experiências de morte vividas no cotidiano.



Como todo tabu, depois que percebemos que não haverá necessariamente punições por quebra-lo, a porta se escancara e as pessoas meio que perdem o medo, pelo menos de falar, e percebem que o medo da morte e do morrer que as deixa tão vulneráveis, na verdade é o medo de todos. Assim, nos tornamos fortes quando percebemos que o medo é algo que pertence ao mundo, elemento que tipifica a condição humana.



Mas Quintana tem mais a nos dizer:



Este quarto



Este quarto de enfermo, tão deserto

de tudo, pois nem livros eu já leio

e a própria vida eu a deixei no meio

como um romance que ficasse aberto...



Que me importa este quarto, em que desperto

como se despertasse em quarto alheio?

Eu olho é o céu! Imensamente perto,

o céu que me descansa como um seio.



Pois só o céu é que está perto, sim,

tão perto e tão amigo que parece

um grande olhar azul pousado em mim.



A morte deveria ser assim:

um céu que pouco a pouco anoitecesse

e a gente nem soubesse que era o fim..."



(Fonte: QUINTANA, Mário Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; 2005)



Aqui Mario Quintana apresenta a percepção da morte por quem está morrendo ou, pelo menos, uma idealização do que ela deveria ser. O olhar do moribundo parece expressar esperança nas promessas de um céu que significa descanso, o fim das dores e sofrimento. Compara a morte a este mesmo céu que a semelhança do dia, cede espaço para a noite inexorável, um manto que nos cobre e nos livra da ansiedade de saber que é o fim. Novamente, uma bela metáfora da morte que nos afasta das representações terríveis e dolorosas.



A partir dessa leitura as pessoas podem ser estimuladas a falar das experiências que vivem nos hospitais, no cotidiano do trabaho, podem compartilhar os sentidos que tem dado a morte, as percepções do que seriam a mortes dolorosas (física e psiquicamente) e como poderiam atuar para minimizar a dor e vulnerabilidade de pacientes e familiares.



Vamos terminando por aqui, encerrando da melhor maneira possível, claro, com Mário Quintana:



INSCRIÇÃO PARA UM PORTÃO DE CEMITÉRIO



Na mesma pedra se encontram,

Conforme o povo traduz,

Quando se nasce - uma estrela,

Quando se morre - uma cruz.

Mas quantos que aqui repousam

Hão de emendar-nos assim:

"Ponham-me a cruz no princípio...

E a luz da estrela no fim!"


domingo, 19 de setembro de 2010

Poemas Mortais à Mulher Amada: Tanatologia Poética com Baudelaire (Erasmo Ruiz)

                                 Túmulo de Baudelaire
Agora a conversa é de homem para homem. Em algum momento da vida, lá pelo final da adolescência você, apaixonado pela mulher da sua vida, simplesmente não sabia o que fazer  para resolver a questão.


Numa hora como essa recorre-se aos amigos mais experientes, ao pai ou ao irmão mais velho, livros de autoajuda são bem vindos, internet...as opções são variadas.


E as respostas também são: "declara-se a ela"; "convide-a para ir ao cinema, de preferência um filme romântico e depois diga tudo o que está sentindo"; "mande flores com um pacote de chocolates" etc. Claro, se você possui dotes poéticos acima das rimas de "amor" com "flor" pode ter sido aconselhado a fazer um poema.


Hoje em dia não passaria pela cabeça da maioria dos mortais ao tentar seduzir o amor da sua vida, falar em morte. Mas que coisa de mau gosto! Ora, amor é algo que em tese oporia-se a morte, pois fala de vida, de libido, de paixão e de intensidade.


Mas numa época onde a morte era vista com outros olhos, mais presente e visível, menos interdita. Numa época em que as explicações gerais iam perdendo espaço para outras que colocavam em dúvida as certezas de uma pós vida e da eternidade, cabia então chamar à razão  aquela pobre dama que mesmo diante dos desejos do corpo, negava seus amores ao suplicante poeta.


Assim, temos Baudelaire num gesto absolutamente sedutor...pelo menos nos idos de 1857:




Remorso póstumo


Quando fores dormir, ó bela tenebrosa,
Num negro mausoléu de mármores, e não
Tiveres por alcova e morada senão
Uma fossa profunda e uma tumba chuvosa;


Quando a pedra, oprimindo essa carne medrosa
E esses flancos sensuais de morna lassidão,
Impedir de querer e arfar teu coração
E teus pés de seguir a trilha aventurosa,


O túmulo, que tem um confidente em mim
- Porque o túmulo sempre há de entender o poeta _,
Na insônia sepulcral dessas noites sem fim,


Dir-te-á: "De que serviu, cortesã incompleta,
Não ter tido o que em vão choram os mortos sós?
_ E o verme te roerá como um remorso atroz.
(Charles Baudelaire,"Les Fleurs Du Mal", Tradução de Guilherme de Almeida)



Caro Leitor! Se sentires que sua amada seja sensível a tais argumentações, então use e abuse da genialidade de Baudelaire. Mas creio que estas aproximações poéticass sobre a morte no século XIX seriam meio que incompreendidas pela maioria das mulheres de hoje em dia.
Particularmente, acho a idéia do túmulo ser um confidente do poeta a pensar na morte em noites de insônia muito representativa dessa época em que a tuberculose graçava sem controle convidando ao lirismo das metáforas sobre o efêmero. E coittado do verme cheio de remorso devorando a intensa beleza daquelas carnes sem vida. Chego a pensar que se Bauldelaire continuasse o poema expressaria inveja do pobre verme!


Mas deixando o sarcasmo para lá. O poema é lindo! Mas essa beleza soa meio incompreensível para os dias de hoje. A maioria das pessoas sonha em seduzir com  ícones do consumo, com o espetáculo do frenesi da vida chafurdando nos significados rasteiros do oceano de mercadorias.


Interessante captar as nuances de uma epoca onde a morte junto com o mel, as flores e o arco-iris, fazia parte do construto de metáforas que na verdade eram artimanhas para a exaltação da vida!

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Na companhia da Morte com Manuel Bandeira (Erasmo Ruiz)



Imagine-se muito jovem sabendo que é portador de uma doença praticamente incurável. Qual seria sua reação? Cair em profunda depressão? Pensar seriamente no suicídio? Optar por uma vida absolutamente desregrada disfarçada no eufemismo de "intensidade"?


Para nossa sorte, diante da possibilidade de morrer muito jovem, Manuel Bandeira, acometido pela tuberculose numa época exigua em terapêuticas, produziu algumas reflexões sobre a morte. Uma delas já foi comentada nesse blog (vide post aqui). Hoje retomo Bandeira em mais três poemas. Vamos ao primeiro:


Preparação para a Morte


A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
– Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.




O poema possui uma notável beleza e profundidade. fala sobre o encantamento da vida, do que ela tem de mais arrebatadora, seu caráter aparentemente inexplicável, dai a idéa de que ela seja um milagre em todas as suas manifestações. Mas então o poeta nos apresenta a morte como algo que não é milagre. Talvez pelo fato dela ser onipresente e comum. Por que seria a morte adjetivada como "bendita"?


Para o poeta ela terminaria o milagre. Talvez devêssemos ser tomados pela angustia da iminência da morte para perceber este sentido em Bandeira. O milagre da vida pode se tornar sufocante se imerso na dor e no sofrimento. Um vellho que antevê a morte escreveria esse poema. mas dentro dele continua pulsando o jovem de "Penumotórax"




Pneumotórax


Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.

A vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Tosse, tosse, tosse.



Mandou chamar o médico:

- Diga trinta e três.

- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...

- Respire.



- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.

- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.



Do meu ponto de vista é esse Bandeira de "Pneumotórax" que estará presente até o fim de sua vida meio que fantasmático em quase todos os poemas sobre a morte. A preparação para a morte ainda muito jovem exigiu dele reflexões intensas sobre o viver e a constatação da impotência do se impedir a morte levou a construção de potência de vida.



Diante da ausência de possibilidades concretas de se intervir na tuberculose, restava pensar na morte e tocar um tango pode ser então o movimento da vida, sua intensidade, lubricidade e também tragédia. Asl etras dos tangos nos remetem invariavelente para estas três vertentes. Por consequência, é preciso viver o milagre:





Poemeto Erótico





Teu corpo claro e perfeito,

- Teu corpo de maravilha

Quero possuí-lo no leito

Estreito da redondilha...



Teu corpo é tudo o que cheira...

Rosa... flor de laranjeira...

Teu corpo branco e macio

É como um véu de noivado...



Teu corpo é pomo doirado...

Rosal queimado do estio,

Desfalecido em perfume...

Teu corpo é a brasa do lume...


Teu corpo é chama e flameja
Como à tarde os horizontes...
É puro como nas fontes
A água clara que serpeja,


Que em cantigas se derrama...
Volúpia de água e da chama...
A todo momento o vejo...
Teu corpo... a única ilha


No oceano do meu desejo...
Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa, flor de laranjeira...


Estar cheio de vida, ou, como nos mostra Bandeira em outro poema, "absorto em vida", pode nos fazer passar ao largo da morte pois a vida carece de total sentido apriori do próprio viver. O milagre da vida nos trai ao sinalizar que um dia ele termina.


Mas, ainda assim, viver significa aproveitar ou, então, se aproveitar da oportunidade miraculosa que é a vida. Afinal caro leitor, não somos milagres probabilísticos? Eu, você...todos nós somos medalhistas olímpicos de uma corrida de milhões de espermatozoides. Aproveitem o milagre enquanto ele pode ser desfrutado pois um dia a bendita morte ira por fim a ele.


Uma das melhores formas de aproiveitar o milagre da vida pode ser cultuar a maravilhosa poesia de Manuel Bandeira!















sexta-feira, 16 de julho de 2010

Romantismo e Morte: "O Brilho de Uma Paixão" (Erasmo Ruiz)

 

Quando ouvimos a expressão "romantismo" ou "romântico", os estereótipos nos remetem imediamente às visões das pessoas apaixoonadas, aqueles que não tem medo ou vergonha de expressar afetos e sentimentos, invariavelmente de maneira exagerada. Alguns podem remeter a memória às quase sempre enfadonhas aulas de literatura onde estudantes ficam tentando reter as sinópses que os professores reportam sobre livros e poemas de autores famosos que jamais lerão. Mas, estaríamos preparados para adentrar ao mundo do romantismo? Ou, melhor dizendo, o que seria expressar amor e afeto na sociedade burguesa na Europa Ocidental no primeiro quarto do século XIX? No mês passado assisti ao filme "Brilho de uma Paixão", da diretora neozelandesa Jane Campion (que cinéfilos remeterão imediatamente ao belo "O Piano"). Sai do cinema com a sensação de ter sido atropelado por um trem de êxtase e tristeza. Mas, antes de configurar meus sentimentos em relação ao filme, vamos a sua história. O filme fala do relacionamento de John Keats (poeta inglês) com Fanny Brawne. Num mundo onde as telenovelas ensinam adolescentes a engravidarem para "prenderem" os namorados, o filme marca a diferenciação básica da afetividade romântica, vivenciada como casta, quase platônica, com a aura da fatalidade de uma juventude que a qualquer momento será ceifada pela morte. A história dessa relação é narrada com ternura, emoldurada por belas paisagens mas sem cair no engodo dos clichês de filme de época que prendem os espectadores com eficientes direções de arte que escondem histórias vazias. Não há vilões ou uma trama que intenta separar a vida dos amantes, pelo contrário. É a fatalidade de uma sociedade marcada pelas péssimas condições sanitárias que transforma a tuberculose na doce musa, a morte no colo da mulher amada com vestes esvoaçantes nos convidando para as bodas definitivas. Os personagens não estão fazendo juras eternas nem o poeta declama poemas melosos para a sua amada. Na verdade, lutam desesperados para escaparem daquilo que sabem ser seu destino: a separação! Em parte, ela já está demarcada pelas convenções sociais pois o poeta não tem meios financeiros para desposar sua amada. Mas a pior separação é aquela determninada pela morte! O filme é de uma beleza plástica intensa.A trilha sonora, de estilo minimalista, está lá como uma boa moldura que nunca deve chamar muita atenção mas sim destacar nosso olhar em direção a pintura. No entanto, o público não está mais acostumado a essa forma de expressão artística, muito menos a maneira como esse amor, intenso e singelo, é tratado no filme. Ainda é preciso destacar Brown, melhor amigo do poeta que tenta preserva-lo da paixão de Fanny, direcionando-o ao aperfeiçoamento de sua arte. Não é o vilão da nossa estória. Pelo contrário. O que move seu gesto é o amor pela arte do poeta e a intuição de que a doença irá ceifa-lo mais cedo ou mais tarde...e como foi cedo. John Keats morre longe de sua amada aos 25 anos de idade. Boa parte de seus poemas foram mal recebidos pela crítica ainda durante a vida do autor. Só depois da sua morte puderam perceber a beleza de sua poesia. O embate de Brown e Fanny, com diálogos cheios de sarcasmo e ironia, é um dos pontos altos do filme. Um dos belos momentos é quando Fanny e Keats em seus quartos, separados apenas por uma parede, se "tocam" imaginado como seria viver a plenitude daquele amor. E ainda há a cena da despedida dos dois em que estão deitados na cama e que ela chega a insinuar a possibilidade de fazer amor com o poeta. Ele recusa! Esse era seu maior sacrifício. Não toca-la sexualmente era a forma de preserva-la para viver as possibilidades de um casamento. Para nossa mentalidade acostumada a ver cenas de sexo na sessão da tarde pode parecer algo muito estranho isso tudo, ainda assim, belo e intenso! A cena mais tocante é o momento em que Fanny recebe a notícia da morte de seu amado. Seu pranto é uma das coisas mais intensas que já vi numa tela de cinema. Nos transporta à dor do personagem, nos coloca no tempo congelado do filme. Essa percepção da morte, presente e intensa, talvez nos ajude a entender como poetas como Keats ou músicos como Schubert e Chopin, apesar de viverem tão pouco tempo, tiveram produções intensas não só em qualidade mas também em quantidade. No início da sessão em que estive havia mais ou menos 20 pessoas numa cinema que comportava 300 poltronas. No final do filme, 10 espectadores ainda permaneciam. Fiquei pensando no que havia determinado que tantos saíssem antes que o filme terminasse. Os risos que ouvi diante do choro de Fanny ao saber da morte do amado deu-me uma pista. Nossa sociedade não consegue conviver com a morte na sua expressão mais dolorosa representada pela perda e pelo amor que já se intui inconcluso. Precisamos do espetáculo dos evisceramentos dos filmes de terror, das horrendas mortes dos vilões ou do massacre de Jesus no filme de Mel Gibson. Aprendemos a rir com a morte na estética do cinema-espetáculo. Desamparados, a maioria de nós parece não ser mais capaz de expressar a emoção da dor. Nesse sentido, um amor romântico sem clichê é realmente um amor de morte, mas com carinho, ternura e até júbilo. Para assisitir a esse filme, desarme-se! Não queira um mero entretenimento, um escapismo dos problemas, um relaxamento das questões mal resolvidas. Talvez você fique sufocado com o grande alerta dos personagens. Eu fiquei engasgado pelas coisas que ainda não vivi. Como nos mostra Keats, pensar na morte nos leva a imaginar tudo o que não veremos e, talvez, dessa maneira, vamos vivendo cheios de esperança em fazer aquilo que a morte pode potencialmente nos furtar: SONETO Quando fico a pensar poder deixar de ser antes que a minha pena haja tudo traçado, antes que em algum livro ainda possa colher dos grãos que semeei o fruto sazonado; quando vejo na noite os astros a brilhar - vasto e obscuro Universo, impenetrável mundo! - quando penso que nunca hei de poder traçar sua imagem com arte e em sentido profundo; quando sinto a fugaz beleza de alguma hora que não verei jamais - como doce miragem – turva-se a minha mente, e a alma em silêncio chora um impulsivo amor. E a sós, me sinto à margem do imenso mundo, e anseio imergir a alma em nada até que a glória e o amor me dêem a hora sonhada! Que a vida possa então ser brilhante e intensa como a paixão do filme, como a poesia de Keats!

terça-feira, 23 de junho de 2009

Livros de Auto-Ajuda para Morrer (Erasmo Ruiz)

A cada contemporaneidade a morte se apresenta sob novos matizes e cabe a cada nova geração o trabalho de criar e/ou recriar formas de se lidar com ela. Esta afirmação, a princípio óbvia, configura hoje uma situação frente às questões apresentadas pela morte e o morrer muito diferente de antes. Se no passado parecia haver um conjunto de concepções de mundo que oferecia um suporte psicossocial para o enfrentamento da morte, aquilo que os filósofos chamam de uma “Ars Moriendi” (arte de morrer), parece que hoje em dia essa arte se configura como um conjunto de ações e pensamentos que nos levam ao escapismo frente a tudo que a morte pode expressar.


Em sendo essa tese verdadeira, talvez isso nos ajude a entender porque livros como “Por um Fio” (Drauzio Varela), “A Última Grande Lição” (Mitch Albom) ou “A Lição Final” (Randy Pausch) se tornaram sucesso de vendas. Com objetivos relativamente distintos, eles parecem funcionar como uma auto- ajuda tanática frente a uma sociedade que não colocou como uma de suas metas socializar as pessoas para a experiência da morte. Eis então um interessante paradoxo: pelo tema estar interditado, ele suplica por ser encontrado, estudado, conhecido! Caro leitor. Se quiseres ganhar um bom dinheiro e souberes escrever, então , ensine as pessoas como morrer! Com relação a morte, estamos sem rituais. As senhas não estão claras. As certezas esboroaram!



A similaridade entre todos esses autores está nas conclusões que sinalizam. Para breve estaremos postando comentários para cada um dos livros que, ao seu modo, são interessantes e importantes de serem lidos. No momento, cumpre destacar que afirmam com todas as letras que estamos desperdiçando nossas vidas com objetivos fúteis, e a futilidade parece ser tudo aquilo que nos ensinaram a achar importante: dinheiro, carreira, prestígio. Por conta desses ícones da vida contemporânea, prestamos menos atenção em nossos filhos, na natureza e em todas as muitas belezas desse mundo.



A preciosidade de pensar na morte residiria justamente nisso: ao nos lembrarmos cotidianamente de que vamos morrer, nossas escolhas podem ser mais ponderadas no sentido de nossa existência e nem tanto daquilo que exigem que façamos. Não é esse o dilema de “A Morte de Ivan Ilitch” (Leon Tolstoi,) quando o personagem em desespero descobre que a vida até aquele momento de fato não havia sido vivida e que o tempo para controlar o seu destino estava se escoando?



Caso o leitor queira desfrutar da auto ajuda tanática, recomendo que se comece pela ficção de Tolstoi, onde o personagem central, alguém que lentamente está morrendo, nos narra a sensação de abandono e a crise existencial de não ter descoberto a tempo o que desejaria ser na vida e não o que ele, pela força das convenções, acabou sendo. É muito difícil não se identificar com a narrativa. E é por isso que muitos interrompem a leitura para não se compromissarem consigo mesmo para mudar a própria existência.





Feita a leitura de Tolstoi, estamos prontos para receber as lições de Varella, Albom e Pasch. As terríveis conseqüências de não se lidar com a morte se apresentarão com uma nitidez avassaladora. A virtual constatação de uma mediocridade de existência poderá então nos levar a simplesmente viver a aventura dificílima, mas ao mesmo tempo maravilhosa, de tentarmos junto com a miríade de outros seres humanos, sermos nós mesmos, como nos ensina Mario Quintana:


"As outras crianças, uma queria ser médica, outro pirata, outro engenheiro, ou advogada, ou general. Eu queria ser pajem medieval...Mas isso não é nada. Hoje eu queria ser uma coisa mais louca: eu queria ser eu mesmo!"