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sábado, 6 de novembro de 2010

Morte e Imortalidade Na MItologia Grega: Asclépio (José Jackson Coelho Sampaio)



O deus Apolo amava Corônis, neta da musa Érato. Mas Corônis preferiu ser amante de um mortal, que envelheceria com ela, do que amante de um deus que a abandonaria, logo surgissem as marcas mortais do envelhecimento. 




Um corvo branco foi informar esta traição a Apolo que o flechou, para todo sempre enegrecendo-o, e depois, com as mesmas flechas, matou Corônis, incendiando-a, imolando-a pelo fogo. De seu útero em chamas, Apolo resgatou o filho, semi-divino, nos seus seis meses de gestação, ao qual deu o nome de Asclépio. Este filho, nascido das brasas da escolha materna pela mortalidade humana, foi entregue ao Centauro Quíron para ser criado e este o educou nas artes da cura, na descoberta dos lugares adequados para uma vida saudável, na preparação de ervas para os tratamentos, na identificação das águas para os banhos propiciatórios e no mistério dos elixires extraídos do sangue da Górgona.
            A fama de Asclépio correu mundo e ele estabeleceu um culto próprio, para que a força das crenças na mente impulsionasse as vontades; um sistema de formação de curadores, assim multiplicando multiplicadores de seus próprios dons; outro sistema de serviços de cura, em articulação com os esportes para a movimentação do corpo e em articulação com as artes para que a tragédia, a comédia e a poesia estimulassem a inteligência e a criatividade. Asclépio promovia a saúde, prevenia e tratava doenças, inventava ungüentos, bálsamos, elixires e estilos de vida. Mas, um dia, alcançada a excelência no seu nível, desejou muito mais, desejou contrapor-se diretamente a Hades, surrupiando-lhe mortos, e começou a ressuscitar.
            Zeus, furioso com a ousadia, pediu aos Cíclopes a preparação de um raio especial e com ele fulminou Asclépio. Apolo, pai furioso, fiel à memória divina de um grande amor mortal, mata os Cíclopes que haviam forjado o raio. Depois, culpado, responsável, disposto a restabelecer a hierarquia e a governabilidade do Olimpo, oferece a Zeus uma expiação: com a aparência humana, servirá, como pastor, ao jovem rei Admeto, filho de Feres. A tragédia está sempre à espreita destas promiscuidades entre deuses e humanos e Apolo, ao perceber que Admeto morrerá muito cedo, embriaga as Moiras, as encarregadas do trânsito dos corpos mortais ao Hades, e elas, confusas e fascinadas pelos poderes do deus, aceitam levar outra pessoa no lugar de Admeto. A noiva de Admeto, Alceste, oferece-se para a troca. Mas então, para Admeto, impõe-se morrer ou viver sem seu amor, outra forma de morte. Apolo encontra uma solução, quando chama Héracles para lutar com as Moiras, na condição de, se Héracles vencesse, as Moiras voltariam para Hades de mãos abanando, sem a colheita daquele dia. Héracles venceu e Apolo decidiu que era hora de voltar ao Olimpo, pois cada decisão sua, no mundo dos humanos, envolto na simpatia que eles despertavam, estava sempre fadada a mudar tragicamente algum curso das coisas.
            É interessante acompanhar as bifurcações da estória de Asclépio, desde que sai da Tessália e ganha o mundo grego, um mundo que nos deixa de herança, como pensa Nietzsche, duas grandes vertentes culturais: aquela denominada apolínea, da ordem, da clareza, do pensamento, da razão, da consciência, e aquela denominada dionisíaca, da revolução, da obscuridade, da imaginação, do irracional, do inconsciente. Asclépio integra-se nas duas vertentes, quando também é incorporado aos ritos místicos e mágicos de Elêusis, primitivos, iniciáticos, dionisíacos.
            Mas, voltando ao caminho principal, Apolo retorna ao Olimpo e consagra a memória e as cinzas de Asclépio como terapêuticas, estabelecendo, definitivamente, as regras de seu culto, que se espalhará pelo Mediterrâneo, pelas Cíclades, com centro em Delos, pela Attica, com centro na lateral sul da Acrópole de Atenas, entre os montes e os ventos de Epidauro, onde se estabelece o festival anual denominado Epidauria. A imortalidade de Asclépio se faz no céu, como constelação de estrelas, a Constelação de Ofiúco. A imortalidade de Asclépio também se faz na terra: a arte da Medicina nasceu, em nome de Apolo, de Asclépio, de suas filhas, Higéia (condição de saúde) e Panacéia (capacidade de cura), e de um cajado em torno do qual uma serpente repousa e nos observa, sibilante, com fármacos no gume dos dentes.
            E hoje, novamente, introduzimos nossas digitais eletrônicas na engenharia genética e ousamos ressuscitar. É possível prever que outros castigos se avizinhem e, desta vez, não haverá apenas um semi-deus para atrair os raios ciclópicos e ser destruído em nosso lugar: seremos todos dizimados... Talvez?


Continua em Próxima postagem

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Morte e Imortalidade na Mitologia Grega: Endimião (José Jackson Coelho Sampaio)

         
  Também herdeiro de Prometeu, Deucalião e Heleno, nasce Endimião de Cálice, uma das mais felizes filhas de Éolo. Considerado o mais belo dos homens sobre a terra, tornou-se o primeiro rei bucólico da Élida. Forte e sereno, impetuoso e gentil, vitorioso nos esportes e nas caçadas, sensual e amoroso, o jovem rei somente não se sentia à vontade nos afazeres do governo.




            E sua beleza mortal atraiu Apolo em uma de suas encarnações humanas. O deus, sob forma de jovem caçador, apareceu no palácio da Élida e pediu pouso, assumindo assim o papel de viajante visitante, sujeito aos direitos e deveres da hospitalidade. Entre Apolo humanizado e o rei Endimião foi se tecendo um forte vínculo, primeiro pelos ritos da hospitalidade, depois pela admiração derivada dos feitos nas caçadas, em seguida pelas tramas do carinho entre homens jovens e livres e belos, por fim se impôs o desejo e o amor. Eles se amaram com intensidade e constância, mas o deus tinha outros ingentes afazeres e o tempo marcava o mortal, reduzindo-lhe, ou tornando opaco, o esplendor juvenil. O deus se afasta.
            Mas antes de se afastar, ele entretém com Endimião longas conversas, demoradas e esclarecedoras confidências, e oferece-lhe um dom. Endimião pede a imortalidade da própria beleza e juventude. Para quem é imortal, a imortalidade é uma característica dada, não uma conquista, resultante de alguma luta ou mérito. Apolo diz se é o que rei quer, o rei terá, e, em seguida, ainda sob forma humana, se afasta pelos campos.  O rei da Élida percebe que as maturações de seu corpo estacionaram, mas que um certo langor, uma preguiça, uma sonolência deixam cada vez mais seus músculos lassos, reduzem cada vez mais sua vontade de governar, tomar decisões, julgar, premiar, punir.
            Endimião renuncia ao trono e deixa que os filhos decidam a sucessão numa corrida de carros. Seu espírito sensível concebe e oferece uma última regra: que a corrida seja aberta a outros, caçadores, guerreiros, não seja restrita aos filhos. Um estrangeiro ganha a corrida e a geração de Éolo perde o reino da Élida. Mas Endimião já não presenciou o desenrolar destes acontecimentos: saíra pela estrada, com sua roupa de caça, suas sandálias, seu alforje de flechas, na mesma direção pela qual partira seu amor, apenas revelado no final como o deus Apolo. Ao entardecer, à entrada de uma das frescas e secas cavernas do monte Latmos, Endimião se recolhe e adormece, para nunca mais acordar.
            Sim, os deuses são traiçoeiros. A imortalidade, mantidas a eterna juventude e a beleza, tinha um preço, o da vida em metabolismo basal. O sangue corre nas veias, os pulmões, suavemente, respiram, o coração, mais suavemente ainda, pulsa, porém com o corpo imóvel e a consciência fora da queima dos carvões da vigília, reduzida à prontidão onírica. Naquela caverna do monte Latmos, jaz Endimião e pelo arco do céu, como faz diariamente, Selene, a deusa Lua, passa com seu carro de luz fria e azul. O foco da luz azul encontra o corpo de Endimião e o averigua. Selene se encanta. Selene se apaixona. Jamais vira o esplendor da beleza em perfeito repouso. Jamais vira a beleza humana em seu esplendor. Ela toma os freios do carro lunar, pela primeira vez, e desce à terra. E enquanto ela contempla o jovem adormecido, a terra fica um tempo sem o brilho mortiço do luar.
            Após a amorosa contemplação, Selene se decide. Pelo menos uma vez por mês estacionará o carro da lua ao lado do monte Latmos e, suave, sutil, felina, deitará ao lado do ápice da beleza humana masculina. Os seres humanos compreenderão e podem inventar seus pequenos simulacros de lua para amenizar os períodos noturnos de escuridão. O mais formoso de todos está dormindo, mas vive, o corpo é levemente morno, o ar evola das narinas como brisa delicada, o sexo vez por outra intumesce e solta sêmem sobre a grama. Selene não tolera este desperdício de sêmem. Aconchega-se ao belo adormecido, assenta-se sobre seu membro viril e, nas noites sem luar, engendra filhos. Passividade onírica e fértil: eósforos, fósforos, hésperos, ninfas do amanhecer, ninfas do entardecer, faíscas de pedras, pirilampos, fogos fátuos, faíscas orgânicas de coisas mortas em putrefação. O poeta Homero contou a descendência destes pequenos fogos fugidios, todos filhos de Selene e Endimião. As contas do poeta chegaram a dez mil possibilidades. Pelo menos ganhamos estes simulacros de luz, além daqueles derivados de nossa humana oficina criativa.



Continua em próxima postagem

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Na companhia da Morte com Manuel Bandeira (Erasmo Ruiz)



Imagine-se muito jovem sabendo que é portador de uma doença praticamente incurável. Qual seria sua reação? Cair em profunda depressão? Pensar seriamente no suicídio? Optar por uma vida absolutamente desregrada disfarçada no eufemismo de "intensidade"?


Para nossa sorte, diante da possibilidade de morrer muito jovem, Manuel Bandeira, acometido pela tuberculose numa época exigua em terapêuticas, produziu algumas reflexões sobre a morte. Uma delas já foi comentada nesse blog (vide post aqui). Hoje retomo Bandeira em mais três poemas. Vamos ao primeiro:


Preparação para a Morte


A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
– Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.




O poema possui uma notável beleza e profundidade. fala sobre o encantamento da vida, do que ela tem de mais arrebatadora, seu caráter aparentemente inexplicável, dai a idéa de que ela seja um milagre em todas as suas manifestações. Mas então o poeta nos apresenta a morte como algo que não é milagre. Talvez pelo fato dela ser onipresente e comum. Por que seria a morte adjetivada como "bendita"?


Para o poeta ela terminaria o milagre. Talvez devêssemos ser tomados pela angustia da iminência da morte para perceber este sentido em Bandeira. O milagre da vida pode se tornar sufocante se imerso na dor e no sofrimento. Um vellho que antevê a morte escreveria esse poema. mas dentro dele continua pulsando o jovem de "Penumotórax"




Pneumotórax


Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.

A vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Tosse, tosse, tosse.



Mandou chamar o médico:

- Diga trinta e três.

- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...

- Respire.



- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.

- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.



Do meu ponto de vista é esse Bandeira de "Pneumotórax" que estará presente até o fim de sua vida meio que fantasmático em quase todos os poemas sobre a morte. A preparação para a morte ainda muito jovem exigiu dele reflexões intensas sobre o viver e a constatação da impotência do se impedir a morte levou a construção de potência de vida.



Diante da ausência de possibilidades concretas de se intervir na tuberculose, restava pensar na morte e tocar um tango pode ser então o movimento da vida, sua intensidade, lubricidade e também tragédia. Asl etras dos tangos nos remetem invariavelente para estas três vertentes. Por consequência, é preciso viver o milagre:





Poemeto Erótico





Teu corpo claro e perfeito,

- Teu corpo de maravilha

Quero possuí-lo no leito

Estreito da redondilha...



Teu corpo é tudo o que cheira...

Rosa... flor de laranjeira...

Teu corpo branco e macio

É como um véu de noivado...



Teu corpo é pomo doirado...

Rosal queimado do estio,

Desfalecido em perfume...

Teu corpo é a brasa do lume...


Teu corpo é chama e flameja
Como à tarde os horizontes...
É puro como nas fontes
A água clara que serpeja,


Que em cantigas se derrama...
Volúpia de água e da chama...
A todo momento o vejo...
Teu corpo... a única ilha


No oceano do meu desejo...
Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa, flor de laranjeira...


Estar cheio de vida, ou, como nos mostra Bandeira em outro poema, "absorto em vida", pode nos fazer passar ao largo da morte pois a vida carece de total sentido apriori do próprio viver. O milagre da vida nos trai ao sinalizar que um dia ele termina.


Mas, ainda assim, viver significa aproveitar ou, então, se aproveitar da oportunidade miraculosa que é a vida. Afinal caro leitor, não somos milagres probabilísticos? Eu, você...todos nós somos medalhistas olímpicos de uma corrida de milhões de espermatozoides. Aproveitem o milagre enquanto ele pode ser desfrutado pois um dia a bendita morte ira por fim a ele.


Uma das melhores formas de aproiveitar o milagre da vida pode ser cultuar a maravilhosa poesia de Manuel Bandeira!















domingo, 3 de janeiro de 2010

Aborto de anencéfalos em pauta esse ano no STF (Anna Mochel)

Esse ano haverá decisões no STF (Supremo Tribunal Federal) sobre algumas questões polêmicas que interessam diretamente aos tanatólogos e bioeticistas, dentre as quais, a do direito sobre o aborto de fetos anencéfalos.

A decisão está agendada para março deste ano e já vem sendo discutida há quase seis meses, especialmente após a suspensão da liminar do Ministro Marco Aurélio que concedera esse direito a várias mulheres, cuja matéria rendeu um importante curta (Quem São Elas?) dirigido por Débora Diniz.

A ação em favor do aborto de fetos anencéfalos foi ajuizada no STF em junho de 2004, pela CNTS (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Saúde, e já se encontra pronta para ser julgada, com as manifestações de todos os interessados no tema — igreja, médicos e cientistas. No ano passado, o tribunal fez audiência pública durante três dias para discutir a matéria. Agora, será julgado o mérito do caso.