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sábado, 17 de setembro de 2011

Por um fio: O liame da vida e da morte na mitologia (Dario Junior)



“Essa foi por pouco”, “por um triz”, “por um fio”, todas são expressões que encontramos corriqueiramente em nossa vida cotidiana, mas muitos falam e não percebem sobre o que estão falando. Quando falo que estou por um fio posso estar me referindo à fragilidade de um fio, mas porque falo exatamente a figura do fio? O que a faz ser tão recorrente? 
             Ao ser indagado sobre tais questões penso na fatalidade, a predestinação grega que remonta a figura da moira. Esta personagem mitológica que sofreu algumas alterações ao longo do tempo. Inicialmente era tida como uma entidade, o destino individual já traçado para cada um, sendo que cada vivente tinha a sua própria moira, daí provém à expressão: “cada um tem sua própria sorte”.



Impessoal e inflexível como o próprio processo de vida e morte a moîra representa uma lei que nem os próprios deuses podem transgredir, sem colocar em perigo a ordem do universo é ela que impede o deus de ajudar seu herói no momento em que ele corre perigo.


Em outros são apresentadas como três entidades distintas: Cloto (Nona), Láquesis (Décima) e Átropos (Morta), sendo cada uma responsável por uma função na ordem do mundo. Sendo estas as reais responsáveis por nossa vida sempre estar por um fio.
            
            A vida devemos a Cloto que é a fiandeira, ela é encarregada de fiar e puxar o fio de nossa vida. Láquesis é a sorteadora, sua função é enrolar o fio da vida e sortear aquele que deve ser entregue a Átropos, a inflexível, a que não volta atrás, aquela que tem o dever de cortar o fio da vida.
            
           No período mitológico não se tinha as concepções que temos sobre como se dá os processos de adoecimento, mas tinham a certeza que temos hoje, que todo ser nascente também deverá um dia morrer, ao passo que não cabe a nós, mortais, saber o momento em que Láquesis pegará o nosso fio.
           
          A incerteza enquanto a este momento é fundamental, embora, por vezes, a medicina tenha conseguido saber mais sobre os processos de adoecimento, tente esconder de Láquesis o fio correspondente a sua vida a deusa sempre o encontra e oferece-o a sua irmã. Mas, a incerteza de quanto tempo terá: de Cloto a 


          Átropos é que faz com que a vida tenha que ser vivida, como não sabe quando o momento chegará devemos preencher diversas tapeçarias com este fio, tomarmos cuidado com ele, mas que este cuidado não se reflita em medo de viver a própria vida. Láquesis não deve ser tida como a que leva a morte, mas como aquela que lhe lembra de que você é um ser finito e como tal deve viver uma boa vida, para quando sentir que seu fio foi entregue a Átropos, acolher a Thanátos em uma boa morte.
           

domingo, 10 de julho de 2011

O Mito de Aurora e os Moribundos: Até Quando Adiar a Morte? (Dario Junior*)





Ao nascermos temos por companheira inseparável a iminência da morte. Não vivemos pensando em como ela chegará, mas, um dia, ela sempre chega; não fazendo distinção entre ricos, pobres, brancos, negros, todos vão morrer. 


            Os avanços da medicina proporcionaram aos indivíduos o conhecimento de muitos dos processos que ocasionavam a morte, entretanto, ao passo que alguns dos segredos desta senhora são revelados sua presença é retirada da sociedade, um estranhamento que gestou um verdadeiro tabu. Não falamos sobre a morte, fingimos não saber que um dia ela irá chegar, colocamos nossa esperança em uma medicina que, algumas vezes, vende a vida e juventude eternas, tomando a morte como sua grande inimiga,  tendo o mito de Asclépio como paradigma, pois este conseguia fazer as pessoas voltar do mundo dos mortos.
            Muitos médicos tomam por incumbência lutar contra a morte, mesmo que esta se apresente de uma forma natural. Para que esta luta? O mito de Asclépio é utilizado de uma forma alegórica: da morte que pôde ser evitada. Contudo, tantos outros proporcionam uma visão sobre o processo de morrer: uma forma de fechamento, de conclusão necessária para os vivos.
Dente os mitos relacionados à morte temos o da deusa Aurora. Esta roga ao Pai dos deuses que conceda a seu amante a vida eterna. Pedido atendido pelo senhor do Olimpo. No entanto os anos passam, a deusa permanece bela e seu formoso amante apresenta um aspecto decrépito, não estando contente com sua virtual imortalidade.
            Será que o amante ansiava tornar-se imortal, ou Aurora, para não ficar sem ele o amaldiçoou, tendo a melhor das intenções, com a imortalidade?
            Durante a guerra de Tróia, Zeus, o senhor dos deuses, chora a morte de um de seus filhos na guerra, pois, nem ele, poderia mudar o destino que a moira traçou.
            Muitos profissionais de saúde tomam Thanatos como grande inimigo. Contudo, será que quando agem assim pensam no que será melhor para seu paciente, ou, assim como Aurora, para não perder (falhar) com um paciente o impedimos de seu inevitável e, por vezes, desejoso encontro com Thanatos, em uma luta em que até o senhor mais poderoso do Olimpo não pode advogar, muitos profissionais advogam, não pelo bem de seus pacientes, mas neles personificados em troféus, o “senhor da vida”, que se esquece do detalhe de também ser mortal.
            Ser um profissional de Saúde, não é empreender uma luta Sísifa, na qual lutaremos contra a morte a todo custo, mas lutaremos por uma vida que valha a pena ser vivida, pois, caso contrário, poderemos do mesmo feitio que Aurora proporcionar que as pessoas de que cuidamos consigam uma vida sem qualidade apenas para como uma resposta aos nossos anseios e questões a respeito da morte.
            Se lutarmos pelo direito de viver, também deveremos lutar pelo direito de se morrer com dignidade.


*Dario Junior é Acadêmico de Psicologia da Universidade Estadual do Ceará (UECE)

domingo, 7 de novembro de 2010

Morte e Imortalidade Na MItologia Grega: Sibila de Cumas (José Jackson Coelho Sampaio)



Entre as 10 grandes profetizas da antiguidade grega, sempre se destacou a Sibila de Cumas. Nascida em Éritras, na Jônia, numa caverna do monte Córico, de pai humano e mãe ninfa, a jovem, desde o nascimento, demonstrou possuir, com muita competência, o dom da profecia. 




Competência e originalidade, pois sempre formulava suas profecias em versos e as registrava. Acompanhando o sol da cultura grega, que já se afastava do leste do Mediterrâneo e se deslocava para a península itálica, ainda jovem a Sibila mudou-se para Cumas, cidade do litoral da Campânia, ao sul de Nápoles.
            Em Cumas a profetiza cresceu em feitos e fama até ser cognominada de Deífoba, isto é, semelhante às deusas. Conta-se que ela levou Enéias, príncipe troiano, para visitar Anquises, seu pai recentemente morto, nos territórios de Hades. Conta-se que ela foi ao rei romano Tarquínio, o Soberbo, no século VI aC para lhe oferecer, por um preço altíssimo, nove livros de suas profecias organizadas, mas o rei barganhou e ela destruiu três livros, re-ofertando os seis restantes pelo mesmo preço, o rei barganhou novamente e ela destruiu mais três livros, re-ofertando os três últimos pelo mesmo preço original. O rei, desesperado, comprou os três Livros Sibilinos restantes pelo preço que, no início, pagaria os nove. Conta-se que o original destes livros foi destruído no século I aC e que suas últimas cópias desapareceram no século V dC. Assim a Sibila de Cumas teria vivido, no mínimo, da Guerra de Tróia ao período dos sete Reis Romanos. O poeta Virgílio conta que a Sibila de Cumas profetizou o advento do triste deus cristão, aquele que é traído, agoniza, morre, ressuscita e inventa o pecado e a culpa. O que explicaria tanta longevidade?
            Em Cumas é que Apolo, o deus das profecias, a procura, a encontra, não esconde a admiração e a deseja. Mas, mesmo sabendo-se amada por Apolo, a Sibila se sabia humana, sujeita ao envelhecimento e à morte, e que seria mais um caso na parábola do deus. Ela então escolhe ser a sumo-sacerdotisa do deus, não a amante do deus e pede a ele um dom: diante do deus ela toma, no côvado das mãos, toda a areia de praia que pode segurar e diz querer viver tantos anos quantos grãos de areia houver ali. O deus não discute: será muito bom para ele tê-la por mais tempo, cuidando de seus templos, falando por ele para ajudar estes loucos humanos, enfrentando os estranhos novos tempos que pareciam estar na soleira. O deus não discute e lhe concede nove vidas de 110 anos, a medida mais longeva da vida humana, isto é, lhe concede 990 anos de vida. Este número representa o símbolo de uma longevidade mítica.
            Mas a Sibila esquecera um detalhe, detalhe de todo indiferente ao deus. Sibila não pede a permanência da juventude e então ela encolhe, emurchece, transforma a pele num pregueado de lama esturricada. Somente os olhos e a voz permanecem potentes. Conta-se que, para que o vento não a carregue e os animais domésticos não a devorem, ela é posta dentro de uma gaiola, ser de crostas escuras, mãos encarquilhadas, uma cigarra vinda das profundezas da terra e do tempo e que continua, com seus olhos potentes, a compreender o mundo e, com sua voz potente, a antecipar as sinas. Todos, em volta, morrem. Só a Sibila de Cumas não morre. Cem anos, trezentos anos, oitocentos anos, até a dor já passou além da dor, e a Sibila de Cumas não morre. 
            Conta Ovídio que, nas noites quentes da Campânia, as crianças ouviam a voz potente lamentar sua longa e velha vida. E as crianças, em algazarra, perguntavam: Sibila, o que anseias? E, em meio aos mais pungentes lamentos, a voz sussurrava, cava,: Ah, eu, anseio morrer.


sábado, 6 de novembro de 2010

Morte e Imortalidade Na MItologia Grega: Asclépio (José Jackson Coelho Sampaio)



O deus Apolo amava Corônis, neta da musa Érato. Mas Corônis preferiu ser amante de um mortal, que envelheceria com ela, do que amante de um deus que a abandonaria, logo surgissem as marcas mortais do envelhecimento. 




Um corvo branco foi informar esta traição a Apolo que o flechou, para todo sempre enegrecendo-o, e depois, com as mesmas flechas, matou Corônis, incendiando-a, imolando-a pelo fogo. De seu útero em chamas, Apolo resgatou o filho, semi-divino, nos seus seis meses de gestação, ao qual deu o nome de Asclépio. Este filho, nascido das brasas da escolha materna pela mortalidade humana, foi entregue ao Centauro Quíron para ser criado e este o educou nas artes da cura, na descoberta dos lugares adequados para uma vida saudável, na preparação de ervas para os tratamentos, na identificação das águas para os banhos propiciatórios e no mistério dos elixires extraídos do sangue da Górgona.
            A fama de Asclépio correu mundo e ele estabeleceu um culto próprio, para que a força das crenças na mente impulsionasse as vontades; um sistema de formação de curadores, assim multiplicando multiplicadores de seus próprios dons; outro sistema de serviços de cura, em articulação com os esportes para a movimentação do corpo e em articulação com as artes para que a tragédia, a comédia e a poesia estimulassem a inteligência e a criatividade. Asclépio promovia a saúde, prevenia e tratava doenças, inventava ungüentos, bálsamos, elixires e estilos de vida. Mas, um dia, alcançada a excelência no seu nível, desejou muito mais, desejou contrapor-se diretamente a Hades, surrupiando-lhe mortos, e começou a ressuscitar.
            Zeus, furioso com a ousadia, pediu aos Cíclopes a preparação de um raio especial e com ele fulminou Asclépio. Apolo, pai furioso, fiel à memória divina de um grande amor mortal, mata os Cíclopes que haviam forjado o raio. Depois, culpado, responsável, disposto a restabelecer a hierarquia e a governabilidade do Olimpo, oferece a Zeus uma expiação: com a aparência humana, servirá, como pastor, ao jovem rei Admeto, filho de Feres. A tragédia está sempre à espreita destas promiscuidades entre deuses e humanos e Apolo, ao perceber que Admeto morrerá muito cedo, embriaga as Moiras, as encarregadas do trânsito dos corpos mortais ao Hades, e elas, confusas e fascinadas pelos poderes do deus, aceitam levar outra pessoa no lugar de Admeto. A noiva de Admeto, Alceste, oferece-se para a troca. Mas então, para Admeto, impõe-se morrer ou viver sem seu amor, outra forma de morte. Apolo encontra uma solução, quando chama Héracles para lutar com as Moiras, na condição de, se Héracles vencesse, as Moiras voltariam para Hades de mãos abanando, sem a colheita daquele dia. Héracles venceu e Apolo decidiu que era hora de voltar ao Olimpo, pois cada decisão sua, no mundo dos humanos, envolto na simpatia que eles despertavam, estava sempre fadada a mudar tragicamente algum curso das coisas.
            É interessante acompanhar as bifurcações da estória de Asclépio, desde que sai da Tessália e ganha o mundo grego, um mundo que nos deixa de herança, como pensa Nietzsche, duas grandes vertentes culturais: aquela denominada apolínea, da ordem, da clareza, do pensamento, da razão, da consciência, e aquela denominada dionisíaca, da revolução, da obscuridade, da imaginação, do irracional, do inconsciente. Asclépio integra-se nas duas vertentes, quando também é incorporado aos ritos místicos e mágicos de Elêusis, primitivos, iniciáticos, dionisíacos.
            Mas, voltando ao caminho principal, Apolo retorna ao Olimpo e consagra a memória e as cinzas de Asclépio como terapêuticas, estabelecendo, definitivamente, as regras de seu culto, que se espalhará pelo Mediterrâneo, pelas Cíclades, com centro em Delos, pela Attica, com centro na lateral sul da Acrópole de Atenas, entre os montes e os ventos de Epidauro, onde se estabelece o festival anual denominado Epidauria. A imortalidade de Asclépio se faz no céu, como constelação de estrelas, a Constelação de Ofiúco. A imortalidade de Asclépio também se faz na terra: a arte da Medicina nasceu, em nome de Apolo, de Asclépio, de suas filhas, Higéia (condição de saúde) e Panacéia (capacidade de cura), e de um cajado em torno do qual uma serpente repousa e nos observa, sibilante, com fármacos no gume dos dentes.
            E hoje, novamente, introduzimos nossas digitais eletrônicas na engenharia genética e ousamos ressuscitar. É possível prever que outros castigos se avizinhem e, desta vez, não haverá apenas um semi-deus para atrair os raios ciclópicos e ser destruído em nosso lugar: seremos todos dizimados... Talvez?


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Morte e Imortalidade Na MItologia Grega: Tântalo (José Jackson Coelho Sampaio)



Pelas milhares de estórias entrecruzadas da Mitologia Grega, deduz-se o tríptico das grandes reivindicações humanas: o domínio do conhecimento, a auto-suficiência sexual e a imortalidade. 




Os deuses nos tiram a capacidade de produzir conhecimento e transformá-lo em incremento das condições de vida, mas Prometeu nos ampara com  o domínio do fogo, a idade do bronze, a ciência e a tecnologia. Como castigo pelo domínio do fogo, os deuses nos tiram a auto-suficiência sexual primitiva, macho e fêmea nos separando e criando a confusão dos desejos nunca simétricos, biunívocos, mas Dafne e Cloé, dois adolescentes da ilha de Lesbos, inventam o amor humano, restituindo-nos à indivisibilidade, por meio do amor, então de partes separadas, tornamo-nos um. Mas, em torno da imortalidade, os castigos são inúmeros e violentos, exponencialmente crescentes, em troca das mínimas e provisórias vitórias.
            Assim também temos a estória de Tântalo, um humano filho de Zeus com a ninfa Plouto, esposo de Hipodâmia, pai de Pélops, Níobe, Atreu e Tiestes, também de Crisipo, com outra ninfa, filho querido, porém bastardo diante dos olhos e das vinganças de Hipodâmia. Rei da Lídia, ele foi cumulado pelo pai divino com todas as possibilidades da prosperidade. Considerado o mais rico de todos os humanos, ele foi admitido nos banquetes e conselhos dos deuses. Porém sua lealdade estava com os seres humanos e mentia, trapaceava, roubava para favorecê-los. Na saída dos banquetes, Tântalo sempre furtava néctar e ambrosia do Olimpo para dar aos humanos, a fim de que se tornassem imortais.
            Os deuses sabiam, mas nada podiam fazer. Afinal, ele era filho de Zeus. O Grande Olímpico percebia, mas espreitava, aguardava pretextos, sabia do desequilibrado orgulho humano e esperava. Tântalo haveria de construir a própria armadilha, os deuses nada perderiam por esperar. Então Tântalo decidiu emular a Lídia com o Olimpo e convidou os deuses para um banquete em seu palácio.
            O que mais Tântalo desejava testar nos deuses era a onisciência, a capacidade de tudo saber e prever. Resolveu mandar ferver em caldeirão o próprio filho, o primogênito Pélops, e ofereceu-o, em tempero de louro, orégano e alecrim, como o prato principal do banquete. A descuidada Deméter, preocupada com outros assuntos, ainda mordeu-lhe um ombro, mas Zeus percebeu a tempo: fez Pélops retornar à vida, deu-lhe um novo ombro, uma prótese de marfim, decretou a imediata morte de Tântalo e seu envio a Hades. Mais ainda, prescreveu-lhe o castigo da eterna sede, da eterna fome e da eterna insegurança. Colocou-o numa área encantada, sobre a qual, toda vez que ele forcejasse os limites, o monte Sípilo ameaçasse desabar e, sob a sombra deste monte, destinou fontes de água e uvas: as águas abundantes imediatamente secavam quando delas Tântalo aproximava a sua boca sedenta; as uvas abundantes imediatamente desapareciam no ar quando delas Tântalo aproximava a sua boca faminta. Carência, sede e fome, onde havia antes o dom da prosperidade e onde jorram os frutos da abundância, eis o castigo terrível.


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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Morte e Imortalidade na Mitologia Grega: Endimião (José Jackson Coelho Sampaio)

         
  Também herdeiro de Prometeu, Deucalião e Heleno, nasce Endimião de Cálice, uma das mais felizes filhas de Éolo. Considerado o mais belo dos homens sobre a terra, tornou-se o primeiro rei bucólico da Élida. Forte e sereno, impetuoso e gentil, vitorioso nos esportes e nas caçadas, sensual e amoroso, o jovem rei somente não se sentia à vontade nos afazeres do governo.




            E sua beleza mortal atraiu Apolo em uma de suas encarnações humanas. O deus, sob forma de jovem caçador, apareceu no palácio da Élida e pediu pouso, assumindo assim o papel de viajante visitante, sujeito aos direitos e deveres da hospitalidade. Entre Apolo humanizado e o rei Endimião foi se tecendo um forte vínculo, primeiro pelos ritos da hospitalidade, depois pela admiração derivada dos feitos nas caçadas, em seguida pelas tramas do carinho entre homens jovens e livres e belos, por fim se impôs o desejo e o amor. Eles se amaram com intensidade e constância, mas o deus tinha outros ingentes afazeres e o tempo marcava o mortal, reduzindo-lhe, ou tornando opaco, o esplendor juvenil. O deus se afasta.
            Mas antes de se afastar, ele entretém com Endimião longas conversas, demoradas e esclarecedoras confidências, e oferece-lhe um dom. Endimião pede a imortalidade da própria beleza e juventude. Para quem é imortal, a imortalidade é uma característica dada, não uma conquista, resultante de alguma luta ou mérito. Apolo diz se é o que rei quer, o rei terá, e, em seguida, ainda sob forma humana, se afasta pelos campos.  O rei da Élida percebe que as maturações de seu corpo estacionaram, mas que um certo langor, uma preguiça, uma sonolência deixam cada vez mais seus músculos lassos, reduzem cada vez mais sua vontade de governar, tomar decisões, julgar, premiar, punir.
            Endimião renuncia ao trono e deixa que os filhos decidam a sucessão numa corrida de carros. Seu espírito sensível concebe e oferece uma última regra: que a corrida seja aberta a outros, caçadores, guerreiros, não seja restrita aos filhos. Um estrangeiro ganha a corrida e a geração de Éolo perde o reino da Élida. Mas Endimião já não presenciou o desenrolar destes acontecimentos: saíra pela estrada, com sua roupa de caça, suas sandálias, seu alforje de flechas, na mesma direção pela qual partira seu amor, apenas revelado no final como o deus Apolo. Ao entardecer, à entrada de uma das frescas e secas cavernas do monte Latmos, Endimião se recolhe e adormece, para nunca mais acordar.
            Sim, os deuses são traiçoeiros. A imortalidade, mantidas a eterna juventude e a beleza, tinha um preço, o da vida em metabolismo basal. O sangue corre nas veias, os pulmões, suavemente, respiram, o coração, mais suavemente ainda, pulsa, porém com o corpo imóvel e a consciência fora da queima dos carvões da vigília, reduzida à prontidão onírica. Naquela caverna do monte Latmos, jaz Endimião e pelo arco do céu, como faz diariamente, Selene, a deusa Lua, passa com seu carro de luz fria e azul. O foco da luz azul encontra o corpo de Endimião e o averigua. Selene se encanta. Selene se apaixona. Jamais vira o esplendor da beleza em perfeito repouso. Jamais vira a beleza humana em seu esplendor. Ela toma os freios do carro lunar, pela primeira vez, e desce à terra. E enquanto ela contempla o jovem adormecido, a terra fica um tempo sem o brilho mortiço do luar.
            Após a amorosa contemplação, Selene se decide. Pelo menos uma vez por mês estacionará o carro da lua ao lado do monte Latmos e, suave, sutil, felina, deitará ao lado do ápice da beleza humana masculina. Os seres humanos compreenderão e podem inventar seus pequenos simulacros de lua para amenizar os períodos noturnos de escuridão. O mais formoso de todos está dormindo, mas vive, o corpo é levemente morno, o ar evola das narinas como brisa delicada, o sexo vez por outra intumesce e solta sêmem sobre a grama. Selene não tolera este desperdício de sêmem. Aconchega-se ao belo adormecido, assenta-se sobre seu membro viril e, nas noites sem luar, engendra filhos. Passividade onírica e fértil: eósforos, fósforos, hésperos, ninfas do amanhecer, ninfas do entardecer, faíscas de pedras, pirilampos, fogos fátuos, faíscas orgânicas de coisas mortas em putrefação. O poeta Homero contou a descendência destes pequenos fogos fugidios, todos filhos de Selene e Endimião. As contas do poeta chegaram a dez mil possibilidades. Pelo menos ganhamos estes simulacros de luz, além daqueles derivados de nossa humana oficina criativa.



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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Morte e Imortalidade na Mitologia Grega: Sísifo (José Jackson Coelho Sampaio)



Sinto que tenho ido a funerais, nos últimos anos, mais do que poderia. Sinto que tenho discutido sobre a morte e o morrer, mais do que gostaria, com os colegas que estudam Tanatologia e com os que pesquisam a ocorrência do homicídio ou do suicídio. Então, quando o cenho franze, as comissuras labiais se aprofundam e o olhar, além de seco, fica muito vago, reaparece um velho escape: a fantasia. 




Mas, nos labirintos da mente, a memória de mortos queridos surpreende, nos aparentemente fugazes lampejos da poesia expressam-se os balanços existenciais com seus deves e seus haveres, e a Mitologia Grega, bem, esta castiga aos que almejam a imortalidade. E seguindo estes passos tortuosos da fantasia, sem metas e sem garantias, percorri as estórias seguintes.




SÍSIFO
Na transição entre os deuses e os humanos surgem os Titãs, e um deles, Prometeu, adota o crescimento e a libertação dos humanos como sua missão. Além disso, dele descendem inúmeras linhagens de mortais, como a de Sísifo, filho de Éolo, por sua vez filho de Heleno, nascido de Deucalião, primogênito de Prometeu.
            Um Titã não era imortal, mas Prometeu, depois de todas as ações de apoio aos humanos e de sofrer extraordinários castigos infligidos por Zeus, obteve, do cansado e contemplativo Centauro Quíron, o dom da própria imortalidade. Quíron, filosoficamente, abdicou de sua condição de imortal, transferindo-a a Prometeu, também num ato de desafio a Zeus. Dos incêndios de Faetonte e dos dilúvios de Zeus, Deucalião nos salva. Heleno foi a matriz de todos os gregos. Com o mundo apaziguado e os humanos adubando as sementes da civilização, Éolo reinou, com sabedoria, por muitos e muitos anos, na Tessália, mas ele gerou reis trágicos, vagantes como os ventos e condenados a perecer nas mãos de seus sucessores.  Entre seus filhos, nasce Sísifo, com suas espertezas, seus dribles na morte e seu posterior castigo, burocraticamente repetitivo, tedioso e banal.
            Sísifo não recebeu o dom da imortalidade de qualquer amigo imortal que dela tenha abdicado, como foi o caso de Prometeu. Sísifo não ganhou a imortalidade de presente de um deus, em nome do amor e do prazer correspondido, como acontecerá com seu sobrinho Endimião. Sísifo também não ganhou a imortalidade como presente de um deus satisfeito com maravilhosos serviços prestados, no caso exemplar da Sibila de Cumas. Sísifo trapaceou com o Hades alguns anos a mais de vida: esperteza de curto prazo a ser purgada pela eternidade.
            Sísifo, filho de Tântalo, fundou a cidade de Corinto, no istmo do Peloponeso, a falsa ilha de Pélops, e ali cultivou o vasto território da esperteza, enfrentando e ganhando de deuses e de filho de deuses. Certa feita, ele venceu as artimanhas de Autólico, filho do deus Hermes, que mudava a cor do gado que roubava para não serem reconhecidos pelos proprietários. Sísifo marcou os cascos de suas reses e assim conseguiu identificá-las e recuperá-las.
            Ousando desafiar a condição humana, naquilo que nos faz fundamentalmente diferentes dos deuses, Sísifo encurralou com malícias e aprisionou por muito tempo o próprio senhor do mundo ínfero, do mundo dos mortos, o deus Hades. E por todo este tempo nenhum ser humano morreu, até que Zeus descobriu o que houvera e instruiu o deus Ares a libertar Hades que, vingativo, mata Sísifo. Mas nosso herói, no momento da morte, recomenda à sua esposa Mérope que se esqueça dele, isto é, que esqueça de prestar-lhe os devidos funerais e deixe seu corpo insepulto. Com o argumento de ser necessário e imperioso punir a esposa por tal desfeita, tamanho ultraje, Sísifo, queixando-se amargamente, consegue de Hades a autorização para re-viver, por apenas o mínimo tempo necessário à exemplação de Mérope.
            Percebendo-se vivo, Sísifo celebra com a esposa a esperteza dos dois e não volta para Hades. Driblador da morte, ele vai permanecendo entre os vivos, refém das delícias e dos achaques da vida, até o inevitável declínio da velhice sonolenta, na fronteira da demência e da inutilidade. Hades recebe o velho Sísifo com absoluta frieza, nada move seus músculos divinos, nada trai seus desígnios divinos. Uma tarefa estava reservada ao velho driblador, ao arqui-manhoso: rolar uma pedra redonda e pesada até ao alto de uma montanha íngreme, do topo da qual sempre cai, e então rolá-la novamente morro acima... outra vez.... mais outra vez... sem variar o ritmo... moto perpétuo.
            Hermes não puniu Sísifo pela vitória sobre Autólico: deve ter soltado boas gargalhadas no Olimpo. Mas, pela pequeníssima vitória sobre a morte, que terror lhe foi imputado, sem drama, a frio, esforço vazio, rolar uma pedra pela eternidade. Nos nossos dias, invertemos o jogo: o castigo de Sísifo não vem depois da morte, na constante dinâmica de Deus ou do Diabo ou na perfeita pureza do Nada, mas, sim, durante a vida, nas condições da alienação universalizada e sutil, pois é no cotidiano do trabalho e de suas ausências que a pedra, sem musgo, rola sobre nossos músculos.


(continuará em próxima postagem)