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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Comentários sobre o Filme "Zorba: O Grego": Um Hino a Existência! (Erasmo Ruiz)



Fui provocado por um email mandado por Paulo Eliézer, estudante de medicina da UECE que tenho o prazer de ter como aluno. Comentava a respeito de dois links do youtube mostrando o imortal Anthony Quinn dançando na famosa cena de "Zorba o Grego" aos 49 anos e, depois, num show, que reproduzia a cena aos 84 anos. Imediatamente me veio a idéia de comentar a respeito do filme e do vídeo em que o velho ator voltava a dançar.



Zorba é um filme feito em 1964 que tem seu roteiro inspirado a partir do livro de mesmo nome do escritor grego Nikos Kazantzakis. Um escritor chamado Basil, de origem grega e britânica, volta a terra natal  de seu pai, a ilha de Creta, esperando com esse retorno superar uma crise de criatividade. Enquanto aguarda o embarque no navio que o levará a Creta, conhece Zorba, um grego de origem camponesa de modos simples, rústicos, uma pessoa intensa e ativa. Um de seus apelidos é "Epidemia" pois por onde chega ele espalha o caos.





Imediatamente surge uma relação de simpatia entre os dois. Zorba pede a ele para seguir junto na viagem. Assim, poderia ser interprete e cozinheiro. Basil compartilha seus planos de reativar uma antiga mina. Quando descobre que Zorba tem experiência em mineração, resolve contratá-lo imediatamente.





Com o passar do tempo, a relação de trabalho entre os dois acaba sendo suplantada pela relação de amizade. Zorba é a antítese de seu chefe. Enquanto ele é cheio de vida, Basil é recatado é tímido. Enquanto Zorba não mede esforços para buscar tudo o que a vida pode oferecer de belo e prazeroso, incluso o amor carnal, Basil acha que os prazeres da vida poderão distraí-lo de seus obejtivos.





No encontro desses dois personagens, um hino à intensidade da vida e uma crítica a mortificação da existência produzida pelos valores de base cristã vão sendo tecidos. Ao assisitir o filme não há como não deixar de questionar os rumos que estamos dando à nossa existência. No final das contas ,talvez Pablo Picasso estivesse certo quando nos alertava que o problema principal da vida não é a morte mas sim morrermos enquanto vivemos, ao postergar a existência e a intensidade da vida, dexiando-as num segundo plano frente a valores e objetivos que nos são impostos.





O filme é puro cinema como arte. Envelheceu nesses quase 50 anos de forma digma, aliás, como envelheceu Anthony Quinn que, a julgar pela sua biografia, teve muito de Zorba em sua vida. Abaixo a cena do filme e, trinta e cinco anos depois, Quinn-Zorba ainda cheio de vida nos alertando que a existência é uma dádiva e a mortificação da vida, um pecado mortal contra o existir!









O FILME













O SHOW

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Que Tal Visitar um Cemitério? (Erasmo Ruiz)


Vamos falar um pouco sobre cemitério. Quando esta palavra aparece pode vir uma associação de imagens em nossas mentes, todas elas provavelmente muito tristes. É que o cemitério sempre foi apresentado a nós em momentos de dor muito intensa, no terrível instante em que definitivamente temos que nos despedir de alguém que amamos. Desnecessário dizer que tudo isso faz a gente pensar em nós mesmos, na nossa morte o que, para alguns, coloca em xeque valores muito arraigados, crenças que antes não tínhamos dúvidas. Por outro lado, pode fortalecer nossas certezas. Estar num cemitério, portanto, nos deixa um pouco expostos, nos faz lembrar de momentos difíceis já enfrentados e de outros que ainda virão, afinal, um dos preços de se estar vivo é a crescente elaboração das perdas, é refletir cotidianamente sobre todos que já partiram. Mas, partem para onde? Estamos em busca mais ou menos ansiosa por esta e outras respostas.

Bom... e se eu dissesse que o cemitério pode ser um lugar ótimo para fazermos perguntas e encontrarmos algumas respostas sobre a morte? Quer dizer que os mortos vão nos dar algumas respostas? Por incrível que possa parecer, isso é verdade. Mas não se preocupem. Em nossa visita a um cemitério não seremos assombrados por seus ilustres moradores. Se por um momento esquecermos nossos preconceitos, nossas experiências passadas e imaginarmos o cemitério como um lugar para ver e encontrar coisas novas, parte de nossas dúvidas poderão ser satisfeitas. Isso acontece quando buscamos beleza em gestos aparentemente simples, em coisas que o cotidiano faz com que deixemos para trás, em situações que rotulamos as coisas porque aprendemos que todo mundo faz do mesmo jeito. É como aquela história da moça que não dava a mínima para as margaridas que existiam em seu jardim até o dia em que ganhou um ramalhete delas do rapaz por quem estava apaixonada. Pronto, as margaridas deixaram de ser flores sem graça e passaram a ser cuidadas diuturnamente. Na verdade elas sempre estiveram ali, sempre foram margaridas só que agora significavam amor e felicidade.

O homem é assim, um animal querendo deixar sua marca neste mundo. Quando os arqueólogos estavam escavando Pompéia, aquela cidade do Império Romano destruída pela Erupção do Vesúvio à 1900 anos atrás, encontraram grafites em banheiros públicos. Repentinamente as mensagens deixadas ha tantos séculos recuperaram vida e começaram a nos falar de amores mal correspondidos, de dívidas não pagas, de agradecimentos a Afrodite pelo amor tanto tempo esperado. Olhemos os túmulos de um cemitério não como sinal de tristeza mas fundamentalmente como mensagens daqueles que já se foram e que ainda estão aqui nos comunicando o sonho de décadas atrás, nos falando sobre sentimentos e perdas, nos falando o que pensavam sobre a vida e a morte. Nunca devemos nos esquecer que parte dos mistérios desta vida, de seus significados e sentidos mais profundos, passa necessariamente pela forma como cada um de nós irá construir seu sentido de morte o que, no final das contas, mostra que a vida é um bem que vale a pena ser usufruído a cada precioso segundo.

Otávio Paz, escritor mexicano ganhador do prêmio Nobel, já falecido, dizia que a morte e a vida fazem parte de uma mesma totalidade, um fenômeno ainda incompreensível para a maioria das pessoas, principalmente porque o mercado de consumo transformou a nossa morte num bem comercializável. Desta maneira, o acontecer da morte foi secionado não só da vida de quem morreu, mas também da vida de quem ficou. Na verdade, vida e morte são uma coisa só a nos propor perguntas feito uma Esfinge que devora os melhores anos de nossas vidas por nossa obsessiva preocupação em decifrar-lhe os enigmas.

Nesta jornada concluímos, cedo ou tarde, que as respostas serão sempre inconclusivas. Na verdade encontrar o sentido da vida é uma tarefa ao mesmo tempo individual e coletiva. Individual porque o meu sentido só terá sentido por conta de toda minha experiência, minhas flores, meus medos, minhas dores, meus amores, serão diferentes de tudo que você presenciou porque as flores, tal como ganham sentido em meu cérebro, serão sempre minhas flores. Mas, parte da minha existência se incorpora a vida do vendedor de sapatos, do cobrador de ônibus, parte da minha vida se incorpora a de vocês quando conversamos e, neste exato momento, quando este texto está sendo lido. As respostas, portanto, só existem na medida que as procure sempre em mim e no outro. E, talvez, as respostas para o sentido da vida só podem ser encontradas na razão de morrer. E o morrer só terá algum sentido se vivermos uma vida onde possamos de alguma forma deixar nossa marca neste mundo.

E o cemitério é repleto de marcas. Basta querer vê-las, interpretá-las, senti-las. Caminhando pelas alamedas de um cemitério, poderemos olhando a nossa volta, apreciar as belezas de um museu a céu aberto, onde os pássaros podem livremente pousar nas estátuas enquanto usufruímos da beleza e pensamos na nossa própria vida ornada com aspectos da sua finitude. Ecos imaginários podem chegar aos nossos ouvidos: Amores não realizados, projetos de carreira inconclusos, vidas terminadas no auge da fama...mas outras vozes podem se fazer ouvir. A alegria de viver, a existência repleta de sonhos realizados, projetos construídos depois de árduo trabalho. Essa ciranda de virtuais espectros na verdade podem mostrar os caminhos que temos de fazer para viver mais plenamente. Somos senhores do agora e, portanto, responsáveis pelo que podemos fazer de nossas vidas. Neste sentido, estar num cemitério, pode nos encher de vida! A morte, a semelhança da espaçonave Enterprise de "Jornada Nas Estrelas", nos leva onde jamais estivemos. Por isso nosso medo vem de braços e abraços com a mais absoluta curiosidade. Assim, como diria o Dr Spock:"Vida Longa e Prosperidade"!