quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A Vulnerabilidade Humana como Objeto da Arte: A Obra de Ron Mueck (Erasmo Ruiz)



A escultura sempre causou enorme impacto. Durante milênos, enquanto outras formas de manifestação artística encontravam-se ainda pouco desenvolvidas, a escultura cumpria o papel de literalmente materializar os sonhos e mitos em uma realidade palpável. Não é estranho portanto que desde suas mais remotas origens, escultura e religiosidade já andassem de mãos dadas, meio que trazendo os deuses à presença dos homens. Do perfeccionismo greco-romano passando pelo gótico e chegando a renascença, tivemos inúmeras manifestações da escultura como veículo de expressão das idéias sobre a morte e o morrer. Óbvio dizer que uma história da relação entre a escultura e formas de representação da morte exigiria um processo de enorme fôlego que extrapola em muito os estreitos limites da linguagem de um blog. No entanto, queria destacar a obra do escultor australiano Ron Mueck por aquilo que traria de aparentemente novo e/ou inusitado. Quuando olhamos para a virada do século XIX para o século XX, encontraremos uma tentativa de desconstruir a herança clacissista em todas as manifestações artísticas. Não havia limites para o que se podia fazer em arte e isso se afirma como um princípio. Se por um lado essa idéia abre possibildades para que gênios como Picasso, Miró ou Stravinsky ganhem cada vez mais espaço, por outro nos leva a uma expressão artística onde o abstracionismo radical faz com que percamos os limites do que de fato é humano na arte. Ficaram notórias situações onde renomados críticos de arte avaliaram positivamente o talento artístico de macacos e elefantes não sabendo evidentemente sobre a real localização destes artistas na escala evolutiva. Com a revolução do uso de novos materiais abriu-se um novo campo de possibilidades nas artes e a escultura não poderia ficar a margem. Se ainda hoje o Davi de Michelângelo é capaz de nos fazer suspender o fôlego, ainda assim olhamos para um material que em nada expressa as características reais da morfologia do corpo humano. Estamos diante do mármore esculpido com maestria e percebemos isso no primeiro olhar. E se Michelângelo tivesse tido acesso a técncas que lhe permitissem reproduzir a pele de Davi com a aparência hiperrealista? É esta a proposta de Ron Mueck. Herdeiro do saber de familiares fabricantes de brinquedos, Mueck leva às últimas consequências a capacidade de reproduzir a aparência real do corpo humano em situações de cotidiano, com ênfase a busca de expressar nossas vulnerabilidades. Ele abre mão de um ideal estético de beleza e, como um Velasquez que se tornasse escultor, vai em busca de corpos que quebram os nossos paradigmas estéticos. Quer materializar a vulnerabilidade da velhice, a dependência absoluta do ser humano recém nascido, os estados depressivos tão comuns nos grandes centros urbanos e, o que nos interessa mais de perto, quer expressar a morte de uma forma absolutamente pessoal. Entre suas esculturas duas parecem chamar especial atenção. Um bebê gigantesco estica-se num movimento como se tomasse fôlego para um longo choro em busca de alimento. Estamos diante da impotência de não podermos tomar aquela criança nos braços e acalenta-la, um sinal inequívoco de que muitas de nossas dores não poderão ser aplacadas e que parte das primitivas necessidades que trazemos conosco jamais serão plenamente satisfeitas. Outra escultura mostra o reverso do nascimento ou, como muitos desejam, uma forma de renascimento. Mueck esculpe com extremo realismo o cadáver do próprio pai. Ao nos depararmos com a imagem não somos poupados com idéias de sono. Pelo contrário. A imagem mostra um homem nú no entorno dos 60 anos com a morte já deixando suas incrições no corpo. A nudez nos remete a imagem do bebê. Mostra toda a fragilidade da vida diante do seu desfecho e o quanto sofremos novamente diante de nossa impotência de superar uma situação que nos esbofeteia com sua irreversibilidade. Antes que acusem Mueck de um gosto mórbido lembremos que a imagem esculpida é a de seu pai, que ele busca magicamente imortalizar a partir da arte, um lembrete de que mesmo quando pensamos na morte, há espaço suficiente para expressarmos nosso amor, um amor que tenta manter vivo numa cápsula de memória a presença materializda do pai real e/ou simbólico.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Apresentador da BBC admite na TV ter matado parceiro doente de Aids

Um apresentador da BBC revelou ter sufocado seu ex-parceiro que sofria de Aids para poupá-lo de uma "dor terrível".

Ray Gosling, 70, contou aos telespectadores do programa "Inside Out" que tinha um pacto com seu antigo parceiro --cujo nome ele não revelou--, de pôr fim à sua vida caso a dor da doença se tornasse insuportável e não houvesse mais esperança de tratamento.

Em seu programa, que abordou o tema da morte, o apresentador de Nottingham disse que o momento veio quando médicos comunicaram que não havia mais opções para reverter a doença.



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http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u694720.shtml

Britânicos aprovam suicídio assistido

O suicídio assistido de doentes terminais é apoiado por 73% dos britânicos, segundo uma pesquisa da rede BBC. Quase três de cada quatro entrevistados acham aceitável que um parente ou amigo ajude um ente querido em estado terminal a se suicidar. No entanto, o apoio à prática caiu para 48% quando se perguntou às mesmas pessoas se esse tipo de eutanásia era aceitável caso a pessoa não estivesse em fase terminal



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http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u687169.shtml

Eluana, a lei e a eutanásia na Itália



O presidente da Itália, Giorgio Napolitano, informou nesta sexta-feira que se recusa a assinar o decreto-lei aprovado pelo Conselho de Ministros do país que permitir impedir a eutanásia de Eluana Englaro, 37, há 17 anos em estado vegetativo. "O texto aprovado não desfaz objeções de inconstitucionalidade indicadas, e o presidente considera que não pode aprová-lo", afirmou uma nota da Presidência.



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http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u499966.shtml

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Realizar a vontade do morto: libertação ou escravidão (Ayala Gurgel)



A paz das pessoas enlutadas muitas vezes é conseguida pela mediação da realização de algum ritual envolvendo o processo de desapego com a pessoa falecida. Em alguns casos, esses rituais envolvem a realização de desejos, ou caprichos, como querem alguns. O fato é que muitos sobreviventes se mostram mais aliviados com a morte de um ente querido quando conseguem realizar algum desejo que ficou encomendado para ser realizado post mortem, chamado tecnicamente de vontade póstuma.





A "missão" deixada pelo falecido é como uma última etapa que precisa ser feita e fechada, para ele finalmente poder descansar em paz. Na verdade, para que os que ficam poderem descansar em paz, ou melhor, conviverem com essa perda. Assim, a realização desse último desejo é uma ferramenta importante para o estabelecimento de uma nova vida sem a presença física daquela pessoa que morreu.







A realização de vontades post mortem pode ser uma ferramenta importante para a virada na vida de uma pessoa enlutada, contudo pode ser, igualmente, uma cadeia que nunca libertará essa pessoa da vontade do morto. Algumas pessoas ficam prisioneiras dessa vontade e não reconhecem o limite para deixar de tentar realizar o impossível ou parar de realizá-la. Algumas vontades são extremamente pervesas e ferem a pessoa que se põe a realizá-la, e seus envoltos. Outras vontades, travestidas até de certo humanismo, têm como fim submeter as vontades dos sobreviventes aos planos, desejos e ideiais do falecido. Assim, a realização do último desejo pode ser tanto a libertação quanto a escravidão da pessoa morta... o processo como isso é vivido dirá se um ou outro...