Mostrando postagens com marcador autonomia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador autonomia. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 19 de abril de 2012

"Entre a Vida e a Morte": Reflexões a Partir de um Documentário da BBC (Erasmo Ruiz)

BETWEEN LIFE AND DEATH

Construir um documentário não é uma tarefa fácil. O primeiro engodo que se pode incorrer é a idéia de que, não sendo uma peça ficcional,o documentário sempre mostraria a "verdade" e, dessa forma, ganha quase de imediato a credibilidade pela forma como "tece" suas imagens. Ora, sabemos das inúmeras mentiras que podem ser urdidas a partir do que se faz numa ilha de edição.Este não é o caso do documentário "Entre a Vida e a Morte" produzido pela BBC.





Nele somos todos levados aos corredores e salas de cirurgia do Hospital de Addenbrooke em Cambridge (Reino Unido), um centro avançado em neurocirurgia e reabilitação. Lá nos deparamos como o drama de três famílias que tiveram seus entes queridos envolvidos em graves acidentes e estão entre a vida e a morte. Duas pessoas conseguirão manter suas vidas mas com grave comprometimento neurológico. Uma irá morrer.



Por 50 minutos adentramos nos dilemas bioéticos produzidos por tecnologias e práticas  que cada vez mais são capazes de manter a vida ao mesmo tempo em que recolocam em novos patamares problemáticas como a autonomia dos pacientes e formas de assistência que podem respeita-la bem como  manejar as problemáticas psicossociais trazidas pelos familiares.



Entre as cenas de vulnerabilidade dos pacientes nos são apresentados vídeos domésticos onde os vemos felizes e saudáveis antes dos acidentes. Dessa forma, somos forçados a nos perguntar de imediato: e se essa pessoa fosse meu irmão, como estaria me comportando? Caso ele estivesse consciente e diante de um quadro de severas perdas e solicitace pela suspensão do tratamento, eu respeitaria sua decisão mesmo que respaldada pelos profissionais de saúde? E seu estivesse nessa situação, desejaria morrer?



Como bem salientou Ayala Gurgel agora a pouco no seu perfil facebook, ao assistir o documentário não há como não pensar no trabalho de profissionais como a Dra Maria Goretti Maciel. Quem sabe um dia o trabalho do Hospital de Adenbrooke seja a norma em saúde. Estaremos então produzindo uma síntese harmônica entre os saberes do passado que hegemonicamente respeitavam a vontade do moribundo junto a todo um complexo arcabouço de conhecimentos colocados  a serviço do exercício dessa autonomia aqui e agora, inclusive como elemento fundamental para superação da vulnerabilidade extrema.



Quando acabamos de assistir ao documentário, entre tantas reflexões parecem ficar duas fortes marcas. A primeira é de que o avanço da ciência cria uma interface "cinza" entre a vida e a morte que parece se ampliar mais e mais, o que exige uma permanente crítica dos critérios utilizados para definir qual seria, caso a caso, a hora de cessar intervenções que ao invés de trazer esperança, a sufoca em meio a dor e sofrimentos desnecessários. A segunda é que havendo qualquer possibilidade para se exercitar a autonomia do paciente, mesmo  em situações onde a comunicação fique muito precarizada,  é um imperativo ético busca-la e prioriza-la.



Abaixo você poderá assistir o documentário diretamente aqui no blog da Thanatos



quinta-feira, 21 de abril de 2011

Autonomia de Moribundo Vira Manchete (Erasmo Ruiz)

                                                             Donna Shaw, 17 anos



Um velho adágio do jornalismo nos ensina que "Quando o cão morde o homem, não é notícia; quando o homem morde o cachorro, é notícia". Assim, o que chama atenção do jornalismo não será o fato de que milhares de aviões tenham pousado com seus passageiros sãos e salvos mas sim o único acidente do dia em que morreram dezenas de pessoas.





Assim, chama a atenção a notícia que nos chega do Reino Unido onde uma adolescente de 17 anos chamada Donna Shaw morreu de um raro tipo de câncer ósseo. Embora o fato de uma pessoa tão jovem morrer seja muito triste, o que qualificaria esse evento para se transformar em notícia?



O que chamou a atenção dos jornalistas foi justamente o inusitado. Aqui, o "homem que mordeu o cão" é a narrativa de como Donna minuciosamente planejou todas as etapas de seu funeral, desde a roupa que deveria usar no caixão até quem carregaria a urna funerária bem como as músicas que tocariam na cerimônia e, claro, deixou instruções expressas sobre o que deveria ser feito de seu corpo.



Óbvio, os mortos deixam de ter vontade no instante em que abandonam a condição de vivos. Dessa forma, foi fundamental o papel da mãe de Donna em realizar todas as suas últimas vontades. Para tal, ela deu enormes exemplos de dedicação ao abandonar inclusive o trabalho para poder cuidar da filha nos seus últimos dias. Outro detalhe importante, Donna morreu em casa.



Fiquei muito triste com essa notícia. Não só pela morte da adolescente em si, fato que toca imediatamente alguém que tem um filho na mesma idade. O que me entristeceu mais foi saber desse fato enquanto uma notícia jornalística. A autonomia dos moribundos tornou-se algo tão raro hoje em dia que, quando acontece, transforma-se imediatamente em manchete.



Creio que chegará o dia em que falar sobre as últimas vontades de amigos e entes queridos seja algo simples e belo, um exercício lírico de tentar relembrar poéticos momentos. Sonho com o dia em que fortalecer a autonomia dos que estejam morrendo seja a regra e que a diferença e o incomum seja o oposto. Neste dia então viremos a este blog e daremos a seguinte notícia: "Família é publicamente criticada ao não realizar os últimos desejos do filho". Pena que isso ainda não seja manchete.





Leia a íntegra da notícia AQUI









terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Eluana, a lei e a eutanásia na Itália



O presidente da Itália, Giorgio Napolitano, informou nesta sexta-feira que se recusa a assinar o decreto-lei aprovado pelo Conselho de Ministros do país que permitir impedir a eutanásia de Eluana Englaro, 37, há 17 anos em estado vegetativo. "O texto aprovado não desfaz objeções de inconstitucionalidade indicadas, e o presidente considera que não pode aprová-lo", afirmou uma nota da Presidência.



Leia mais em:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u499966.shtml

domingo, 26 de abril de 2009

Podemos Viver Até o Fim! (Erasmo Ruiz)





Um dos problemas com a morte é uma certa insistência das pessoas em nos "matarem" antes do tempo. Basta receber o rótulo de "paciente terminal" para que um lento e cruel ritual se inicie num misto de abandono e onipotência terapêutica. Os pacientes podem acabar sendo mantidos vivos o maior tempo possivel sem receberem, na maioria das vezes, qualquer contrapartida em termos de qualidade de vida.

Mas, e se fôssemos cuidados até o fim sob um novo paradigma, que fortalecesse a idéia de cuidado paliativo, onde somos mantidos vivos não em função de se lutar contra a morte e sim para, com algum nível satisfatório de conforto e bem estar, vivermos e termos tudo aquilo que a vida pode ainda oferecer de bom.

Ao rompermos o manto de hipocerisia que cerca a morte, podemos então perceber o quanto a vida é ainda mais bela e forte, mesmo no apagar de suas luzes. Basta que a gente possa ter a coragem de ver o tremeluzir da chama e perceber que ela ainda ilumina e nos ensina a viver mais e melhor. A incapacidade de se lidar com a morte ou medo de te-la ao nosso lado não pode nos afastar daqueles que a estão vivenciando. No entanto, boa parte das vezes é o que acabamos fazendo. Produzimos um tipo de solidão especial, a solidão "acompanhada" onde fingimos farsas ("o senhor ainda vai viver muitos anos") oi racionalizamos nossas fugas ("não adianta ir no quarto agora pois o paciente vai morrer de qualquer jeito mesmo"). Estamos presentes mas fustigamos quem vai morrer com nossa ausência frente às suas principais necessidades

As fotos mostradas a seguir me foram enviadas por Ayala Gurgel, membro dessa rede, Professor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), filósofo com doutorado em Políticas Públicas e, como eu, um defensor ardoroso de que os cudiados paliativos sejam cada vez mais implementados em nossas instituições de saúde. Esses anos todos desenvolvi um certo ceticismo sobre tudo aquilo que vem da Internet, afinal, quem aqui não recebeu aquele email fantástico falando do rapaz que estava bebendo no bar com uma bela garota e acorda numa banheira de hotel sem um dos rins?

Assim, sai pela net pesquisando para ver se a história era real e, de fato aconteceu mesmo. Trata-se de fotos que mostram os últimos 5 dias de vida de Katie Kirkpatrick, uma jovem de 21 anos acometida de câncer no cérebro. Depois de muito lutar, ela começa a realizar seus rituais de fechamento da vida. Um deles, era se casar com o namorado.



Essa foto foi tirada um pouco antes do casamento de Katie realizado em 11 de janeiro de 2005. Ela passa horas tomando medicações para controlar a dor. O namorado (Nick) aguarda pelo término de mais uma das sessões de aplicação destes medicamentos.



Aqui Katie se prepara para a cerimônia. Seu vestido teve de ser ajustado várias vezes pois a doença a debilita mais e mais e a perda de peso é constante.



Um "acompanhante" inesperado na festa de casamento foi o tubo de oxigênio. O casal emocionado que os observa são os pais de Nick que acompanham o namoro dos dois desde a adolescência do casal.



Aqui a cerimônia de casamento, igual a tantas outras a mão ser pelo fato de que já sabemos de antemão que a noiva não só realiza o seu desejo no presente mas também o último..



E aqui está Katie em sua cadeira de rodas. Foge do estereótipo de alguém que sabe que vai morrer (afinal, não sabemos todos nós?). Está feliz ouvindo canções dos amigos na festa.



Mas seu estado orgânico é debilitado. Ela precisa dar uma paradinha para descansar e recarregar as poucas energias que ainda tem.



Kate morreu 5 dias depois de seu casamento. E ainda assim, ela pode cometer o "atrevimento" de tentar ser feliz até o final. E isso só foi possível porque a farsa foi superada e ela pode ser cuidada de uma maneira a permanecer conectada com a experiência do viver. Não passou seus últimos momentos "depositada" numa UTI, afastada de quem amava. Pôde cumprir algumas passagens da vida que achava importante e que ainda era capaz de vivenciar. Viver não é ter um ponto de luz piscando nos monitores. Viver é poder até o fim apreciar tudo o que a vida pode nos oferecer em termos de beleza e felicidade, mesmo às portas do final.