terça-feira, 21 de junho de 2011
O Último Desejo É Inegável (Erasmo Ruiz)
Tantas e tantas pessoas morrerm sem realizar seus últimos desejos. Muitas nem sabem que estão morrendo. Tem suas autonomias cerceadas em nome do amor e do afeto, diagnósticos ocultados numa coonspiração entre profissionais de saúde e familiares. Mas será que não podemos roubar alguma coisa quando assim agimos?
Outras vezes não realizar o último desejo é uma opção, expressão melancólica do negar a própria morte, afinal, assumir que se realiza o último desejo é enfaticametne assumir a verdade da própria morte como algo que não pode ser evitado.
Outras vezes o último desejo nos coloca o desafio da "piscina de macarrão" de Patch Adans. Lembram-se do filme? Uma doce velhinha as portas da morte compartilha com todos a fantasia que sempre teve de mergulhar numa piscina de macarrão. Pois Patch não mede esforços para realizar a fantasia, radicalizando o princípio paliativista de cuidado que acolhe TODAS as necessidades do paciente.
O direito ao último desejo é consagrado inclusive aos criminosos condenados a morte. A marioria das legislações no coidente lhes oferece uma última refeição a sua escolha bem como oportunidades de receber visitas em dias e horários não usuais, afinal, a pessoa vai morrer. Existem relatos comoventes de como condenados passaram suas últimas horas na companhia de familiares e amigos.
O último desejo é tão imoportante que deveria ser garantido por lei e seu não atendimento criminalizado como "omissão de socorro humanitário". Aqui cabe lembrar inclusive que o último desejo é invocado poeticametne em outras situações de morte, como a perda de amor como nos ensina Noel Rosa:
Nunca Mais quero seu beijo
Mas meu último desejo
Você não pode negar
Pensando que Noel Rosa morreu jovem e de tuberculose, talvez ele expressasse esse verso com relação a prórpria morte já que no Brasil dos anos 30 o diagnóstico de tuberculose era compatível com uma sentença mortal.
Por isso não causa espanto essa notícia que nos chega dos Estados Unidos onde um morador de rua de 57 chamado Kevin McClain foi levado para uma emergência onde se constatou que tinha câncer de pulmão em estágio avançado, com poucos dias de vida. Ele morou durante anos dentro de um carro na companhia de sua cadela de estimação, na verdade sua única e verdadeira amiga.
O animal foi levado para um abrigo onde foi depois de poucos dias adotado. No hospital, ao saber do diagnóstico, Kevin expressou seu último desejo: receber a visita de sua grande amiga. É isto que vemos nessa foto, um momento terno, humano, triste porém cheio de potência de vida e amor.
Estamos preparados para acolher a morte nos nossos locais de trabalho em saúde? Quantos de nós seríamos refratários a realização desta necessidade se Kevin estivesse próximo de nós? Quantos no dia-a-dia em nome das rotinas e da pretensa preservação da normalidade podem impedir que gestos humanos como este se efetivem?
Uma das mensagens sábias do passado é que não podemos negar o último desejo de alguém. Existem muitas justificativas de ordem ética ou mesmo religiosas para isso. Mas talvez a verdadeira razão seja muito mais simples. Ao atender ao último desejo de alguém nos mostramos socialmente dignos para que nossos últimos desejos também sejam atendidos no futuro.
Kevin provavelmennte morrerá em paz tendo gravado em seu olhar as despedidas de sua cadelinha e sabendo que ela está num lar que a adotou. Quantos e quantos desejaram que esse ritual se reproduzisse não só com animais de estimação mas também com pais, irmãos, esposos, amigos... isso é uma das coisas que sonegamos quando não acolhemos a morte!
sexta-feira, 10 de junho de 2011
17 Coisas para Fazer Antes de Morrer: Aprendendo a Viver com Alice Pyne (Erasmo Ruiz)
Muita gente acha de mau gosto falar sobre morte. Não é o caso de Alice Pyne (15 anos) que está morrendo no Reino Unido de um linfoma que resiste a todas as formas conhecidas de tratamento. Semana passada seu médico declarou que ela teria pouco tempo de vida.
Esperaríamos que Alice assumisse a postura "bem comportada" de morrer "em paz" longe da vista das pessoas. Mas não foi isso o que correu, afinal, estamos em tempos de internet. Assim, Alice resolveu fazer um blog para compartilhar com todos o que está aconteccendo. (Acesse Aqui)
Errou quem acha que encontrará relatos pungentes e dramáticos de uma adolescente lamentando que não terá filhos ou não cursará uma universidade. Pelo contrário. Ela comunica a todos o que está acontecendo e pede sugestões sobre uma lista de coisas a realizar antes de morrer.
Algumas coisas são típicas de uma adolescente, outras demonstra uma maturidade precoce, talvez até desenvolvida pela situação de estar doente. Mas isso de fato não é importtante. O mais interessante é destacar a própria ação de Alice em compartilhar sua situação e explicitar o que deseja fazer. Algumas pessoas comovidas estão até dispostas a ajuda-la.
Para todos fica a famosa "moral da história". Precisamos esperar um diagnóstico tão fatal e brusco para listarmos o que queremos fazer da nossa existência? Não falo só dos grandes sonhos que devoram a vida com o tempo necessário, mas de coisas absolutamente singelas como tirar uma fotografia com seu bicho de estimação.
Abaixo você vê a lista de Alice. Você também pode acessar seu blog, oferecer sugestões ou mesmo ajuda-la na realização dos seus desejos. Mas, enquanto isso, pense sobre a sua vida. Ela está sendo construída da forma como você desejaria? O que falta para ela ser melhor? E se você fosse Alice, o que desejaria fazer antes de morrer?
Dsejos de Alice:
| |||||||||||||||||
domingo, 5 de junho de 2011
Luto, ódio, vingança e perdão: ambivalências na trajetória de dor (Ayala Gurgel)
Nesse dia 05 de junho,
a jornalista Fernanda Aragão, do IG São Paulo, publicou uma
reportagem sobre a trajetória da dor de Massataka Ota, que teve o
filho de 8 anos assassinado durante um sequestro. A história dele
representa a de muitas outras pessoas, enlutadas por causa de uma
sociedade que despreza a vida humana em troca de muito pouco.
A história de dor e
sofrimento desse senhor começa com a notícia do sequestro do seu
filho e se acentua com a de sua morte. Morte que interditou muitos
sonhos de sua família e levou-o a uma realidade na qual o alcoolismo
e o desejo de vingança, longe do acompanhamento médico e
psicológico, foram os sintomas mais evidentes de que algo estava
errado, não só com a pessoa do sr. Ota, mas com toda a sociedade
que permitiu e reforça esse tipo de situação, além de exigir do
enlutado coerência onde falta sentido e retorno à normalidade onde
o normal é patológico.
A reportagem completa
pode ser acessada no site do IG:
http://saude.ig.com.br/minhasaude/bebia+meia+garrafa+de+uisque+por+dia+para+afogar+meu+odio/n1596998687969.html
O que quero destacar
aqui é que, casos como esses não são raros. As mais diversas
formas de violência, especialmente a violência armada motivada por
crimes contra o patrimônio e a vida, têm deixado órfãos e pais
enlutados por seus filhos (nota-se aqui que isso é tão estranho que
na nossa língua não há sequer uma palavra para designar esse
estado de luto – o do pai que perde o filho). E, junto com a dor e
sofrimento, o desejo de vingança, o ódio sendo alimentado por um
sistema inoperante, corrupto e pouco educador.
As perdas se somam e se
multiplicam quando observamos que as pessoas enlutadas vítimas de
violência não recebem a assistência devida e são pressionadas a
perdoar rapidamente, como se o perdão fosse a única terapêutica
viável (embora seja, em muitos casos, a única disponível) e manter
sentimentos como ódio e desejos como vingança fossem ainda mais
malévolos, e dessa vez, depondo não apenas contra a dor, mas também
contra o caráter do enlutado.
Ambivalências de
sentimentos e desejos são comuns e presentes em muitos enlutados.
Não há a dor pura quando se perde um filho dessa forma, logo, não
deve haver ortodoxia terapêutica nesses casos. Posicionamentos em
favor de determinados valores são meras valorações do terapeuta e
da sociedade que acabou de legitimar e favorecer a supressão da
pessoa amada. Voltar-se contra tudo o que aquela sociedade representa
não é somente uma atitude comum, mas até mesmo esperada. Assim,
sentimentos como ódio e desejos como vingança não devem depor
contra o enlutado, mas serem compreendidos como ambivalências desse
tipo de enlutamento.
E, se for verdade o que
Santo agostinho ensinava sobre o perdão (perdoar de verdade é
esquecer o motivo pelo qual se perdoou), podemos até dizer que não
se deve buscar, nesses casos, o perdão, mas apenas a remoção do
desejo de vingança.
Assinar:
Comentários (Atom)


