quinta-feira, 29 de março de 2012

As Frases Mortais de Millôr Fernandes (Erasmo Ruiz)



Ao saber da morte de Millôr Fernandes veio-me imediatamente a ideia de que homens como ele nao morrem, são como os livros que escreve, apenas mudam de página. Eu sei que é um pensamento consolador como tantos outros que temos diante da morte. Mas a arte tem essa espécie de dom, cria uma aura de magia ao afimar a pretensão de que as obras de um grande artista adquiriram o estatuto de “eternidade”. Não tenho dúvida que este é o caso de Millôr Fernandes.


 Apesar deste blog ser sobre a morte, não queria escrever um obtuário de Millôr pois já apareceram muitos, alguns excelentes. Também não proporei discussões em torno de falsas dicotomias: "era Millor um humorista escritor ou um escritor humorista?". Pensei em destacar de Millor o aspecto em que ele era mais genial, suas frases! E já que nesse blog não existe  tabu com relação a morte, o que ele nos dizia sobre ela?


Antes, uma advertência do Millôr: “Fiquem tranquilos os poderosos que tem medo de nós: nenhum humorista atira para matar”. Eu completaria dizendo que, apesar disso, Millôr poderia nos matar de rir. Por exemplo, quando se referia implicitamente sobre a morte ele avisa: “O otimista não sabe o que o espera” já que “o cadáver é que é o produto final. Nós somos apenas a matéria prima.”


De um sarcasmo a toda prova, Millor refletia o tempo todo sobre a vida. Colocou em prática a assertiva dos romanos que já avisavam que rindo satirizamos os costumes. Ah, e como ele nos fazia rir, tendo até nosso maior objeto de temor como combustível para a piada. E “profeticamente” antevendo a própria morte ele dizia que “quando eu morrer só acreditarei na sinceridade de uma homenagem - o agente funerário não cobrar o enterro”.


E ele tinha razão. Sabemos o quanto podemos aumentar de maneira suspeita o que os mortos eram e acrescentar virtudes que nunca tiveram: "A ocasião em que a inteligência do homem mais cresce, sua bondade alcanlça limites insuspeitados e seu caráter uma pureza inimaginável é nas primeiras 24 horas depois de sua morte".


Na vida, segundo Millôr, viramos cópias pois “todo homem nasce origuinal e morre plágio”. E quanta coisa há para se fazer entre esses dois pontos. Millor acreditava em Deus. Mas sua crença era como seu humor, irônica e sarcástica. Em conversa com Deus ele diz: “Sabemos que VOCÊ, aí de cima, não tem mais como evitar o nascimento e a morte. Mas não pode, pelo menos, melhorar um pouco o intervalo?”.


Maldita liberdade essa a qual estamos condenados já que a “morte é compulsória mas a vida não!”. Somos livres para atuar nesse intervalo entre nascer e morrer e todos desejamos por alguma velhice. Ainda assim, para Millôr, existe vantagem em se morrer jovem: “a única vantagem de se morrer moço é que economizamos a velhice”.


Millôr era um mestre do humor fino. Alguém que olhava o cotidiano e era capaz de fazer piada da conversa do liquidificador com o fogão. A piada sempre esteve diante de nós, mas só Millôr era capaz de vê-la. Um exímio jogador das palavras. E diante da morte, ri e nos faz rir ao contatar “que o dedo do destino não tem impressão digital”,


Sigamos então mais uma vez os conselhos dos romanos que nos avisam para aproveitarmos bem o dia até porque, como reforça a maxíma de Millôr , “um dia, mais dia menos dia, acaba o dia-a-dia”.


Finalizando, para aqueles que tem um medo imobilizador da morte, Millôr teria deixado algumas sinalizações que podem ser alentadoras ou, com certeza, revestir a tragédia com alguma graça: “a morte é dramática, o enterro cômico e os parentes ridículos”. Quanto a este escritor de blogs, vou seguindo adiante tentando aproveitar o máximo pois “estou jurado de morte, mas continuo cheio de vida!”.


domingo, 25 de março de 2012

Chico Anysio: a autonomia e a distanásia (Ayala Gurgel)



"Eu não tenho medo da morte, tenho pena de morrer". Com esse mote, Francisco Anysio Paula Filho, o Chico Anysio, tornou autorizado o debate sobre os procedimentos médicos em torno de sua morte e a questão da autonomia e respeito à vontade soberana do moribundo.





A frase, dita em meio a uma entrevista logo depois que ele tinha se recuperado de 110 dias de internação, dos quais 78 em UTI, foi levada bastante a sério por médicos e familiares nos episódios clínicos seguintes. E não deveria?





Por um aspecto, eminentemente teórico, a assistência ao ator de 82 anos caracteriza uma prática obstinada de procedimentos distanásicos: uma terceira internação (22 de dezembro de 2011) com quadro clínico apresentando hemorragia digestiva seguida de pneumonia, falência renal e dependência tecnológica de ventilação mecânica, vindo de uma internação prolongada (110 dias em decorrência de dificuldade aguda respiratória culminando em uma angioplastia) e outra de 22 dias com infecção urinária, cuja alta foi revertida logo em seguida. O resultado, por mais desejado que não fosse, contradizia o esperado: parada cardiorrespiratória e falência múltipla
dos órgãos decorrente de choque séptico causado por infecção pulmonar.



Os médicos já sabiam de sua terminalidade, se não antes, no início de janeiro quando retiraram a ventilação mecânica e houve piora do quadro, submetendo-o a novos procedimentos invasivos e inúteis (lapartotomia exploradora para saber os motivos de sangramento intestinal) e hemodiálise. Esse quadro, graças às drogas, apresentou melhora ao custo de danos irreparáveis em seu sistema imunológico global, culminando em retorno da pneumonia e da dependência de ventilação mecânica, cuja consequência inevitável e iminente seria a morte.



Contudo, essa ciência não foi suficiente para afastar qualquer possibilidade menos invasiva e distanásica de tratamento. A insistência em manter os procedimentos abusivos foi reforçada e mantida até o final (especialmente as sessões de hemodiálise), quando, em 21 de março de 2012, o quadro clínico apresentava queda
da pressão arterial e falência dos rins, e na tarde de 23 de março, a morte.



Existem alternativas a esse paradigma assistencial, que segundo alguns é mantido por três elementos básicos:


  1. a subjetividade médica (o orgulho, a ideia de morte como fracasso, uma ideia equivocada de esperança e o paternalismo hipocrático);

  2. o despreparo acadêmico (muitos profissionais estão desatualizados nas questões éticas, humanistas e paliativistas); e,

  3. a empresa médica (esses procedimentos geram muitos lucros, não só sociais, mas especialmente econômicos)


Contudo, a composição teórica que apresenta esse quadro como uma prática distanásica pode encontrar algumas dificuldades, aos moldes da Bioética principialista norte-americana, especialmente quando encontramos uma manifestação explícita do paciente autorizando qualquer prática que lhe salve a vida.



Vejamos algumas razões que justificariam a distanásia que foi praticada em seu caso:




  1. O ator creditava à oração do povo o motivo de sua recuperação. Não tinha sido o trabalho da equipe médica, mas Deus quem o salvara. E esse não poderia fazê-lo novamente, em internações futuras? O mesmo povo que foi atendido uma vez, não poderia ser atendido novamente?

  2. O ator manifestou o desejo de viver até os 100 anos, pois isso satisfaria o sonho de ver os seus netos crescidos;

  3. O ator e seus familiares acreditavam em uma potencialidade médica de reverter o quadro clínico e prolongar a vida, bem como desejavam isso para si;

  4. O arrependimento pela escolha de ser fumante durante anos justificaria agora as ações terapêuticas para apagar um erro do passado;

  5. O ator declarava ter problemas psiquiátricos e que era acompanhado há 18 anos para cuidar de uma depressão, o que poderia ser agravado diante da informação de que era paciente terminal, sem possibilidades terapêuticas de cura e que morreria em breve.


A pergunta que colocamos é: essas foram mesmo as condições consideradas para se praticar o que foi feito ou estão apenas em um contexto de justificativa? O fato de um paciente manifestar certos desejos e vontades  distanásicos, bem como apresentar certos riscos psiquiátricos, são fortes o suficiente para não apresentarmos alternativas paliativistas? Devemos considerar tão soberana a sua vontade nesses casos, especialmente quando não a consideramos em outros? Foram dadas essas alternativas? Chegou-se a falar em cuidados paliativos para o ator e seus familiares?



Outras questões: o luto que a família do ator, e seus fãs, enfrentam agora, não poderia ter sido mais amenizado se houvesse uma fala mais honesta sobre a terminalidade dele? Essa forma de morte permitiu ao ator e seus familiares realizarem os seus rituais de despedidas? A morte do ator é uma consequência de uma escolha (ser fumante) e a forma de sua morte é uma consequência de suas crenças na medicina e em uma força salvífica sem limite, isso não pode agravar as reações ao "fracasso terapêutico" que era esperado?





As questões em torno da morte e do morrer não são as mais fáceis e não envolvem apenas subjetividades ou procedimentos técnicos; envolvem todas as industrias capitalistas existentes, das empresas médicas à indústria cultural. Afinal, o que seria melhor para um ícone da globo: definhar como um moribundo em sua casa ou morrer às escondidas em uma UTI?





para ler mais sobre Chico Anysio, acesse: http://pt.wikipedia.org/wiki/Chico_Anysio

segunda-feira, 19 de março de 2012

A Morte Está Proibida: Sucupira é na Itália (Erasmo Ruiz)





Imagine se você pudesse ir para um lugar em que simplesmente a morte não acontecesse. Como nos ensinou o mestre Saramago em "As Intermitências da Morte", um mundo onde a morte não existisse seria completamente inviável pois ela produz impactos na vida social e econômica que mal imaginamos.  E os aspectos existenciais? Caso não pudéssemos mais morrer milhares de pessoas ficariam presas a uma distanásia sem fim com o tempo "congelado" no ápice de suas agonias.







Na cidade Italiana de Falciano de Massico morrer tornou-se ILEGAL. Isso mesmo. O prefeito da cidade emitiu um decreto proibindo a população de partir dessa para melhor, de bater as botas e de ver o capim pela raiz. Nessa simpática cidadezinha italiana a 50 kms de Nápoles, os cidadãos não podem ir para o além!



Alguém então diria. Como esse prefeito se arvora  a ter uma atitude divina? Calma. A proibição só vai durar até que a cidade construa seu novo cemitério. A cidade de Falciano dividia o cemitério com outra cidade que passa hoje por uma explosão demográfica, não a cidade e sim o cemitério. Como as cidades não entraram em um acordo sobre como expandir o espaço do cemitério, o prefeito de Falciano decretou que as mortes não podem mais ocorrer!



Óbvio dizer que o prefeito fez apenas uma provocação. Queria chamar  a atenção de todos para que o problema fosse resolvido. Lembrei-me imediatamente de uma deliciosa novela de Dias Gosmes do início dos anos 70 chamada "O Bem Amado" que posteriormente virou mini-série e mais recentemente um filme estrelado por Marco Nanini.







Na novela o personagem central, o prefeito Odorico Paraguassu (brilhantemente interpretado pelo saudoso Paulo Gracindo) comanda a pequena cidade de Sucupira. É um populista do pior tipo. Inescrupuloso, é capaz das piores armações para conseguir o que deseja. Na verdade, Odorico é uma mistura perversa de tudo o que o país tem de pior na sua classe política, mas com pintadas de sarcasmo e bom humor que tornam o personagem rigorosamente irresistível.





Toda trama da novela se articula em torno da construção do cemitério da cidade, obra ansiada ha muito anos já que os moradores eram enterrados em  outra localidade. Pois bem. No momento em que o cemitério fica pronto, ninguém mais morre para que a obra seja inaugurada. Isso coloca em xeque o futuro político de Odorico. Seguem-se inúmeras situações hilárias!



Esperamos que quando o problema da falta de espaço no cemitério de Falciano de Massico for resolvido existam novos moradores para que a obra possa ser inaugurada. Caso não, talvez uma nova Sucupira com seu respectivo Odorico renasça na Itália.





Discurso de Odorico Paragassu em "O Bem Amado" (1973)



A propósito. Até o momento dois moradores desobedeceram o decreto do prefeito mas não há notícias de que tenham sido punidos.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Eutanásia e Morte (In)digna: Campanha Publicitária Transforma Candidatos Presidenciais em Moribundos (Erasmo Ruiz)





Na França existe uma combativa organização cuja sigla é ADMD (Associação pelo Direito de Morrer Dignamente),  que defende a legaliização da prática da eutanásia. Nos últimos dias lançou uma campanha onde apresenta candidatos franceses a presidência da república em instigantes montagens fotográficas representados como pacientes moribundos. No anúncio uma pergunta é feita: "Senhor Candidato. Devemos coloca-lo em tal situação para que mude seu posicionamento sobre a eutanásia?". Os anúncios ainda instigam os franceses para que não sejam roubados em sua última expressão de liberdade.







O debate sobre a legalização da prática da eutanásia é interminável. No entanto, nas últimas décadas,parece ter ganho espaço a perspectiva de alguma forma de regulamentação de uma prática que se sabe existir com maior ou menor visibilidade em muitos serviços de saúde. Alias, este é um forte argumento para aqueles que defendem a regulamentação da eutanásia,qual seja, a ausência de regras claramente postas faz com que pacientes possam estar sendo mortos sem critério algum, de maneira clandestina e indigna.



Muitos defenderão a ideia de que o próprio ato da eutanásia é indigno por si mesmo pois o homem que e requer não seria em ultima instância proprietário de seu corpo e sua vida, seja porque pertenceria à alguma entidade metafísica, seja porque a vida individual deve se submeter aos ditames do interesse coletivo.



Outros defenderão o princípio da dignidade no sentido de fruição daquilo que a vida pode nos dar de bom e belo, nossa capacidade de fruir o gosto e o cheiro das coisas, nossa necessidade de apreciar um quadro de Monet ou um belo por de sol, nossa alegria em maximizar prazer e assim se afastar de toda dor e sofrimento. Por este argumento, a dor é sempre inimiga da beleza e diante das vicissitudes do sofrimento, seja físico e/ou psíquico, é correto abreviar o caminho, buscar um atalho e morrer longe de tudo o que causa desconforto.



Mas e se a dor e o sofrimento puderem ser manejados de forma adequada? E se existirem técnologias que possam trazer o máximo de conforto possível em situações onde isso pareceria improvável? Haveria a necessidade de garantir legislações para que as pessoas pudessem fugir dos tratamentos fúteis, dos terapeutas obstinados, dos labirintos indecifráveis de exames médicos desnecessários quando se está perto de sair de cena? Muitos paliativistas são contra a eutanásia por acharem que o cuidado paliativo é a resposta ao grito de desespero motivado pelo medo do sofrimento provocado por trabalhadores de saúde e familiares bem intencionados que podem não nos deixar morrer em paz.



Imaginando a história humana, as vezes a vejo como um túnel onde centenas de gerações marcham por um longo e árduo caminho que parece nos conduzir a uma luta feroz e até genocida em nome de um conceito abstrato aparecido pela primeira vez escrita em uma tábua de argila datada de mais de 5000 anos de idade: LIBERDADE!



Das pirâmides para as galés romanas passando pelas muralhas de Cosntantinopla às "plantations" de cana de açúcar e chegando à barbárie dos campos de concentração, os homens querem ser LIVRES! E para tal, afirmam o tempo todo que são humanos em suas múltiplas possibilidades e diferenças. Talvez em futuro próximo se descubra que o último espaço a ser conquistado são os limites insondáveis dos nossos corpos.  Talvez assim se chegue a uma solução para a eutanásia. Caso sejamos de fato donos de nossas vidas, este seria um bem tão precioso que não pode ser reduzida a algo que se perde de forma tão banal mas que também deve ser mantida com prazer, alegria e dignidade.



Quando a publicidade da ADMD coloca as imagens de políticos a beira da morte não é apenas a busca de suas empatias com o tema que se acaba conquistando. Um olhar um pouco mais arguto também poderá se ver nessas imagens. Todos nós um dia poderemos estar em camas de hospitais a espera da morte. O quanto do nosso sofrimento será suportável? Teremos diante de nós possibilidades claramente asseguradas de que esse sofrimento poderá ser minimizado? Mas ainda assim não teríamos o direito de sair um pouco ante de cena já que o "filme" não agrada mais? Temos ou devemos ter a posse definitiva do que se convernciona chamar de vida pessoal? Caso a resposta seja sim, então poderemos disponibilizar de nossas vidas da foma como desejarmos.



São muitas perguntas. Temos a difícil tarefa de construir respostas que se transformem em ações práticas! E só faremos isso na medida em que formos mais empáticos com quem está morrendo, seja pela busca da legalização da eutanásia, seja pela difusão de práticas paliativistas.