domingo, 29 de agosto de 2010

Cemitérios Cheios de Vida: Pelos Caminhos de Novo Hamburgo (Erasmo Ruiz)





Quando, se pensa em cemitérios bonitos logo vem a mente o Père Lachaise, em Paris, que, além da beleza de sua arte tumular, traz também uma lista enorme de "hóspedes" ilustres.





Mas, os cemitérios podem chamar a atenção por outras formas de beleza, ou, infelizmente, por algo que deixou de ser a regra e se transformou em desonrosa exceção.



Recentemente, Luciana Abreu, uma grande amiga, viajou com sua família para as serras gaúchas. Seguiu a  trilha usual dos turistas. Entre a beleza da arquitetura europeia e deliciosos chocolates e bons vinhos, Luciana notou algo que também a encantou.







Seguindo viagem entre Gramado e Novo Hamburgo (por volta de 70 km) ela percebeu alguns cemitérios a beira da estrada, com  cercas baixas, próximos a  pequenas igrejas e escolas.



Meu olhar arguto para a morte também vê cemitérios à beira das estradas próximos a cidades pequenas, mas o padrão que encontro pode se resumir a uma única palavra: abandono!  Túmulos mal mantidos, mato crescendo e ferrugem tomando conta de cercas e portões.







O que chama  a atenção nas fotos tiradas por Luciana é justamente o contrário. Encontramos túmulos limpos, brilhando, e mesmo os antigos mostram sinais de que as pessoas ainda se importam com eles. E, o mais importante, muita vida simbolizada pelas flores e seu colorido.



Seriam as marcas da cultura europeia trazidas pela imigração, marcas estas que já teriam desaparecido em parte nos países de origem? Nota-se aqui um zelo pela memória, uma aura de respeito a identidade dos mortos como estratégia que fala muito mais à identidade dos vivos.







Claro, são especulações que precisam ser suportadas por estudos mais aprofundados. Mas é digno de nota a beleza das fotos e a sensação de que os mortos estão sendo "bem cuidados". Sinalização talvez de que por aqueles lados os vivos tenham uma relação melhor com a morte.



sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Idealizações Sobre a Morte (Erasmo Ruiz)



Como você idealiza a morte? A pergunta pode parecer ausente de sentido já que, a princípio, a maioria das pessoas pensa na morte como algo horrível. Não queremos aqui retirar da morte seu caráter avassalador na medida em que seu acontecimento coloca nossas vidas de cabeça para baixo ao retirar  o convívio de pessoas tidas simbolicamente como insubstituíveis. Essa mera constatação coloca a morte como um evento essencialmente doloroso e impactante.


Tendemos a agir em acordo com nossas crenças e valores. Significa dizer que somos profetas prontos a realizar nossas próprias profecias. Por conta da ausência do se preparar para a morte, ela comparece restrita ao que tem de mais terrível. Daí é fácil configurá-la como um monstro sendo popular até hoje vê-la como uma ceifeira, um esqueleto vestido de preto arrancando a alma das pessoas.


Os filósofos desde a Grécia antiga nos ensinam que teríamos de buscar uma relação mais saudável com a morte. Na “Apologia de Sócrates” temos sintetizado o discurso socrático sobre isso. Afinal, o que pode ser a morte a não ser duas coisas: ou o fim absoluto que nos brinda com a  ausência radical de sensações inclusa as mais terríveis como as sensações dolorosas ou, então, a possibilidade maravilhosa do reencontro dos que já se foram, a descoberta de que a consciência da vida não termina com o fim da vida orgânica.


Na “Carta a Meneceu” Epicuro nos alerta que vida e morte são fenômenos estanques e dissociados pois enquanto existimos a morte não é nada e quando a morte existir nada seremos. O problema no entanto é que, se a morte não está presente enquanto vivemos, a consciência da morte se dá pela morte dos outros como algo pertinente a nossa individualidade. Ao constatar isso como que nos tornássemos epicuristas covardes na medida em que, diferente dos gregos, não queremos mais discutir a morte e sim fugir o tempo todo dela. Para isso colabora decididamente o discurso da medicina ao transformar o morte num “ponto” (“diagnóstico da morte”, “hora da morte”, “causa mortis”), como se morrer fosse uma simples intercorrência e não algo que acontece na vida de todos.


As conseqüências disso nas práticas de saúde são trágicas. A morte é tomada como “fracasso” profissional. O que se convencionou chamar de obstinação terapêutica pode então ser parte de uma farsa onde a equipe mobiliza suas energias para que as pessoas não digam que tudo o que era possível não tenha sido feito. O que alimenta hoje grupos a buscarem regulações legais para a permissão da eutanásia ativa ou do suicídio assistido se reveste muitas vezes da necessidade de recobrar autonomia frente a um aparato tecnológico que é utilizado para negar a morte a qualquer preço, mesmo que este preço signifique trazer dor e sofrimento inútil para quem está morrendo. Diante da tragédia do congelamento da agonia, trata-se então de fugir dessa morte pela própria vontade


Vinícius de Moraes possui extensa obra que nos remete a pensar na morte. Em boa parte dela o poeta nos convida a buscar representações onde a morte aparece de uma forma branda, quase como uma recompensa depois de longa e intensa vida. Por exemplo, em seu “ O Haver” o poeta nos fala de como na velhice temos uma mudança radical na perspectiva de  nosso olhar sobre a vida que impacta em tudo que sentimos dela. O poema é longo mas convido o leitor para sua parte final:


Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio

Pelo momento a vir, quando, emocionada

Ela virá me abrir a porta como uma velha amante

Sem saber que é a minha mais nova namorada.


A morte pode ser isso, um encontro que na verdade já está sendo pensado ou até planejado há muito tempo. Como diziam os poetas românticos, uma boda há muito prometida. Se na vida nossa consciência flerta o tempo todo com a morte, no futuro esse flerte irá se transformar em relação de compromisso. Impedir esse encontro na hora em que foi marcado é como que paralisar o casamento quando a noiva está se encaminhando para o altar...uma caminhada que se iniciou desde o instante do nascimento. Imagine então a ansiedade vivida pelos convidados da cerimônia? Quem iria querer uma vida em suspenso indefinido diante do seu desfecho?


Podemos continuar vendo a morte como um horrendo esqueleto que ceifa a vida. Mas também podemos investir na doce amada prometida. Claro, as escolhas não precisam necessariamente seguir nessa dicotomia. Mas é preciso mudar o quadro de horror absoluto em que vivemos. A mesma tecnologia que renega a morte pode ser utilizada para abrir os caminhos para que ela chegue em paz!








  








domingo, 22 de agosto de 2010

A Janela (Traduzido por Ricardo Teixeira*)





Dois homens, ambos gravemente doentes, ocupavam o mesmo quarto de hospital. Um deles podia sentar em seu leito por uma hora, todas as tardes, para ajudar a drenar os pulmões. Seu leito ficava próximo à única janela do quarto. O outro tinha que passar o tempo todo deitado.


Os homens conversavam por horas a fio. Falavam de suas mulheres e famílias, seus lares, seus trabalhos, suas férias. E todas as tardes, quando o homem próximo à janela passava a sua hora sentado, descrevia para seu colega de quarto todas as coisas que podia ver pela janela. O homem do outro leito começou a viver para aqueles períodos de uma hora em que seu mundo se alargava e se enchia de vida por todas as atividades e cores do mundo exterior.



A janela dava para um parque com um lago maravilhoso, disse o homem. Patos e cisnes brincavam na água, enquanto crianças velejavam seus barcos de brinquedo. Amantes caminhavam de braços dados entre flores de todas as cores. Grandes e velhas árvores davam graça à paisagem e tinha-se uma linda vista da cidade distante. Enquanto o homem próximo à janela descrevia todos esses deliciosos detalhes, o homem do outro lado do quarto fechava os olhos e imaginava a cena pitoresca.



Numa tarde quente, o homem próximo à janela descreveu a passagem de uma parada. Embora o outro homem não pudesse ouvir a banda, ele podia vê-la com seu olho interior, na medida em que o cavalheiro da janela a retratava com palavras. Inesperadamente, um estranho pensamento invadiu sua mente:



Por que ele teria o privilégio de ver tudo enquanto eu não posso ver nada?



Isso não parecia justo. Enquanto o pensamento fermentava, o homem se sentiu, inicialmente, envergonhado. Mas na medida em que o tempo passava e ele continuava deixando de desfrutar a vista, sua inveja degenerava em ressentimento e, em pouco tempo, o tornou amargo. Ele começou a remoer os pensamentos e se tornou incapaz de dormir. Ele tinha que ficar na janela! – esse pensamento, agora, controlava sua vida.



Uma noite, bem tarde, enquanto o homem deitado fitava o teto, o homem próximo à janela começou a tossir. Ele sufocava com os fluídos em seus pulmões. O homem deitado assistia imóvel, na penumbra do quarto, enquanto o homem da janela lutava tentando alcançar o botão para chamar ajuda. Em menos de cinco minutos, a tosse e o sufocamento pararam, junto com o som da respiração. Agora, só havia o silêncio... Um silêncio mortal.



Na manhã seguinte, a enfermeira do dia chegou trazendo água para os banhos. Quando encontrou o corpo sem vida do homem junto à janela, entristeceu-se e chamou os atendentes do hospital para que o levassem – sem esforço, nem barulho. Quando julgou ser o momento apropriado, o homem deitado perguntou se ele poderia mudar para o leito próximo à janela. A enfermeira ficou feliz em fazer a mudança e, no momento em que se assegurou que ele estava confortável, o deixou só.



Lentamente, dolorosamente, apoiou-se em um de seus cotovelos para dar sua primeira olhada. Finalmente, ele teria a alegria de ver tudo por si mesmo. Ele se esticou e girou lentamente para olhar através da janela ao lado de seu leito.



Tudo que viu foi um muro branco.


* Ricardo Teixeira é Consultor da Política Naconal de Humanização (PNH), médico sanitarista, docente e pesquisador vinculado ao Centro de Saúde Escola Samuel Barnsley Pessoa (Butantã) / Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP.

Epitáfio: Você já Pensou no Seu? (Erasmo Ruiz)





Epitáfios são pequenos textos escritos nos túmulos.A palavra deriva do grego sendo que "epi" designa "acima" ou "parte superior" e "tafos" que quer dizer "túmulo".





Durante muitos séculos foi costume o uso destes texto que poderiam exprimir em síntese o que havia sido a vida do morto. Em algumas situações derivava diretamente de sua vontade mas,na maioria das vezes era uma frase escrita sem consulta ao morador do túmulo.



Como nos ensina Norbert Elias "a Morte é um Problema dos Vivos". Assim, os textos dos epitáfios exprimem muito mais os sentimentos que os vivos tem da morte e do morto, desejos de afirmação da memória que possam suplantar a vida de quem morreu e manter relativamente incólume sua identidade. Além disso, sua marcante ausência nos dias de hoje sinaliza certa necessidade coletiva que afirma uma "arte de fugir da morte" o que implica numa tentativa de "assassinar" a memória do morto como recurso de interdição da morte mesmo nos espaços que a afirmem..



É muito difícil que a nossa vontade transcenda a  própria vida. Aliás, já é um exercício exaustivo exerce-la enquanto vivemos. Depois da morte dependemos dos vivos para que a vontade tenha ainda algum poder. Assim, o epitáfio pode ser um elemento decisivo para afirmar desejos de individualidades. Mas pobre do indivíduo quando sua vida é também determinante de um coletivo infinitamente maior do que ele.



Tomemos o exemplo de Tancredo Neves, quase presidente do Brasil. Em algumas entrevistas, sempre com muito  bom humor, Tancredo falava sobre seu epitáfio, que seria mais ou menos assim: "Aqui Jaz Muito a Contragosto  Tancredo de Almeida Neves". Quando ele morre, sua família correu para na verdade afirmar a identidade de homem público e, dessa forma temos sem "seu" epitáfio o seguinte: "Terra minha amada, tu terás os meus ossos o que será a última identificação do meu ser com este rincão abençoado."









Outras vezes, fica a homenagem a obra do artista, como ocorre com Cazua. Um das suas mais famosas músicas dá a idéia de que o tempo simbolizaria uma forma de eternidade, um ciclo que sempre retorna reafirmando o novo com base no antigo. No seu túmulo encontramos então que "O Tempo Nâo Para"





O estudo dos epitáfios pode ser uma boa fonte para analisarmos o que cada época parece pensar de si mesma ao buscar elaborar a morte com base numa diversidade de sentidos que acaba por se entrelaçarem. Mas encerro meu post por aqui pensando no meu epitáfio que poderá ser mais ou menos o seguinte: "Quem sabe tenha descoberto, ou não, o grande mistério da vida. Para mim isso não importa mais. Mas para você que está lendo essa mensagem tenho um conselho. VIVA A VIDA INTENSAMENTE. O resto é conversa mole"!



E você caro leitor, já pensou no seu epitáfio?

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Psicologia e Morte (Ayala Gurgel)





O Blog Psicologia dos Psicólogos  no endereço http://psicologiadospsicologos.blogspot.com/2009/09/psicologia-da-morte.html traz esse cartoon bastante reflexivo, afinal, a morte também é motivo de riso.

Psicologia e Morte (Larissa Lacerda)

 

Bifulco e Lochida destacam que uma das causas do despreparo dos profissionais para lidar com a morte é a ênfase na formação técnico–cientifica no ensino do cursos da área de saúde, proporcionando pouco espaço para abordagem dos aspectos emocionais e sociais do ser humano, o que muitas vezes faz a morte ser relacionada com derrota, perda e frustração. Juqueira e Kóvacs, por sua vez, afirmam que “[...] a dificuldade em lidar com a morte se deve ao afastamento das grandes tradições que preparavam as pessoas para o momento final” e relaciona essa formação inadequada ao fato de que a sociedade tenha expulsado o culto à morte, se afastando de refletir e tratar do assunto.
A morte significa sempre um desafio para quem recebe treinamento para manter a vida, como é o caso dos profissionais de saúde. Diante desse quadro de temor da morte, pesquisadores verificam a necessidade de serem oferecidos cursos que abordem o tema da morte e do morrer para permitir ao aos profissionais de saúde o enfrentamento dessas situações.
Para o psicólogo, especificamente, o tema da morte passou a fazer parte do seu cotidiano profissional não só nos hospitais, como em outros campos de trabalho.  Por  exemplo, há a necessidade de abordar o tema da morte quando os alunos falam sobre a morte do avô ou animal de estimação, entre as situações. No contexto organizacional, o psicólogo pode deparar-se em várias situações de “morte”, como por exemplo, o falecimento de colegas, acidentes variados, e suicídio que necessitam de uma intervenção psicológica. Na prática clínica, essas situações são ainda mais comuns, em que esses profissionais precisam estar atentos a sinais que indicam o inicio de processos mórbidos e de autodestruição, podendo comparecer tentativas de suicídio e hábitos de risco (como consumo de álcool e drogas) além de intervir nos processos de enlutamento, perdas ou separações de pessoas significativas. O trabalho com idosos é outra modalidade de ação para o psicólogo e como esse grupo se caracteriza por estar cronologicamente mais próximo da morte física, falar sobre a morte é demanda frequente.
No âmbito hospitalar, o psicólogo tem sido inserido nas equipes multidisciplinares atuando em campos como oncologia, nefrologia, ortopedia, maternidades, etc nos trabalhos de preparação cirúrgica, acompanhamento pré e pós-operatório, trabalho com familiares, atendimento a pacientes terminais, trabalho de grupos além de apoio, suporte e troca com a equipe de saúde, entre outros. Nesse contexto, trabalhar a questão da morte, principalmente em cuidados paliativos com pacientes fora de recursos terapêuticos de cura são essenciais.
Desse modo, percebe-se que a temática da morte é presente na atuação do psicólogo, independente do seu ambiente de trabalho e por isso, faz-se necessário uma formação nos cursos de Psicologia capaz de preparar esse profissional para poder lidar com a questão da morte.
Um estudo realizado com a equipe multiprofissional de Cuidados Paliativos da Unifesp-EPM através de um questionário semiestruturado com questões sociodemograficas e seis questões abertas visou investigar o tipo de formação em nível de graduação de profissionais que integram essa equipe e sua possível repercussão sobre sua escolha profissional. Além disso, a pesquisa teve como objetivos específicos: identificar formação geral e especifica do profissional da Unifesp-EPM que lida com a morte e inferir a necessidade de intervenção nos cursos de graduação da aérea da saúde, para uma possível implementação do ensino dos Cuidados Paliativos. Os resultados apresentados mostram que a temática morte nos cursos de graduação é ausente na maioria dos cursos, pois 93,3% dos 15 participantes responderam que houve falta de formação para morte.
Outra pesquisa realizada com 23 alunos do 7º período do Curso de Psicologia da Universidade Federal de Rondônia buscou compreender como os alunos lidavam com a temática da morte e do morrer. Os resultados encontrados mostraram que a maioria dos alunos concordou que não se fala sobre morte e morrer no Curso de Psicologia e que as questões relativas a essa temática não entraram no programa de nenhuma disciplina.
Assim, visto a importância da educação para lidar com a morte, destaca-se que a morte deveria ser um dos objetivos dos cursos da área de saúde, buscando-se compreender o significado da morte, os processos de morrer, o pesar do luto, etc.  Além disso, Juqueria e Kóvacs afirmam que na graduação de Psicologia, textos sobre a morte e morrer deveriam ser estudados nas disciplinas de Psicologia do Desenvolvimento I, II e III, Psicologia Escolar e Problemas de aprendizagem, Psicologia Hospitalar, Comunitária, Social e Técnicas de Aconselhamento Psicológico. Essas autoras questionam se há uma negação da morte no currículo do Curso de Psicologia, evidenciando se está preparando profissionais para o mercado de trabalho no qual estarão em contato constante com a morte nos consultórios, hospitais, escolas ou nas empresas.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Educação para a Morte na Enfermagem. Isso existe? (Mariana Farias)

Análise do direcionamento dado por docentes dos períodos iniciais do curso de Enfermagem de uma universidade pública às questões tanatológicas assim como suas convicções pessoais quanto à mesma temática mostraram evidências de afastamento acadêmico com a questão da morte. A pesquisa foi uma abordagem qualitativa envolvendo técnicas de entrevistas com questões semi-estruturadas que avaliaram a relação dos docentes dos três primeiros períodos do curso de Enfermagem. Os resultados foram submetidos à construção de categorias quanto ao sentido e significado. A entrevista contempla as seguintes perguntas: 1) Quanto tempo você tem de formado? 2) Há quanto tempo participa do processo de formação dos alunos do Curso de Enfermagem? 3) Durante sua formação acadêmica, você ouviu algum dos seus professores falarem em sala de aula sobre a morte? Se sim, o que você ouviu? 4) Você participou de algum evento que teve como tema a questão da morte? Se sim, qual? 5) Você costuma falar desses assuntos em sala de aula? Por quê? 6) Você leu ou está lendo alguma literatura sobre o assunto? Se sim, qual? 7) Você fala tranqüilamente sobre a morte ou esse tema lhe incomoda? 8) Em quem você se espelha para lidar com essas questões? Por quê? 9) Você se considera um modelo para os alunos, no tocante a essa questão? Sem entrar em detalhes nas respostas, verificou-se uma postura de distanciamento dos docentes quanto às questões tanatológicas com relação às abordagens dentro de sala de aula assim como seu interesse pessoal, não participação em eventos e escassas leituras sobre o tema. Apesar de apresentarem tal temática em sua formação, sendo esta de caráter já maduro, e falarem tranquilamente no assunto, em sua atuação não se verifica um perfil que privilegie tal temática, pois quando sua abordagem ocorre existem motivos com focos diversos e sem objetivo concreto. A média de tempo em que exercem a função evidencia a perpetuação desta sua postura, o que sinaliza o afastamento acadêmico com relação às questões da morte e morrer.

Para ter acesso aos resultados dessa pesquisa, fazer contato com gurgel.ufma@gmail.com

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Medicina Privada Propõe Ortotanásia de Araque (Erasmo Ruiz)



Mal o país começou a assistir sérias discussões sobre os cuidados no final da vida e os planos de “saúde” (melhor seria dizer mercantilização da vida) já começam a colocar as suas garras necrófagas de fora. Em noticia que transcrevo na íntegra no final deste post, grupos de medicina privada defendem ardorosamente a ortotanásia como forma de reduzir custos e minimizar os impactos dos reajustes dos planos. O raciocínio é singelo. Altos custos para tratamentos fúteis no final da vida são desnecessários pois não produziriam cura. Assim, buscam formas de legitimar a cessação arbitrária destes tratamentos para que os mesmos não impactem nos custos. Ou seja, os planos de saúde são caros por causa dos pacientes fora de possibilidades terapêuticas!
Primeiramente é necessário delimitar conceitos. A ortotanásia é um termo que nada tem haver com a forma que é pensada por estes grupos. Ortotanásia significa rigorosamente o seguinte: uma morte natural sem a interferência da ciência, permitindo possibilidades de morte digna e sem sofrimento.



Desta forma, tenta-se evitar formas de intervenção que só prolongariam inutilmente a vida, produzindo o que é chamado de distanásia (aumento do processo agônico sem contrapartida de qualidade de vida). Neste sentido, continuar atuando terapeuticamente com estes pacientes (utilizando-se por exemplo de técnicas de manutenção artifical como respiradouros ou buscar ressucitação cardíaca) seria uma ação que atentaria contra a dignidade da vida.
Em tese estes argumentos seriam defensáveis do ponto de vista bioético embora existam evidentes dificuldades em se definir o que seria um paciente fora de possibilidades terapêuticas a depender da diversidade de estados clínicos. Para complexificar ainda mais, a autonomia do paciente seria um direito irrestrito? Poderia ele recusar ativamente tratamentos mesmo que seja considerado com possibilidades terapêuticas? Mas voltemos a notícia. O que ela colocaria como mais pernicioso é o argumento em defesa do que é chamado de ortotanásia como uma medida para redução de custos. Ora, se as mazelas do corpo até aquele momento foram regulamentadas por um contrato que delimita as intervenções que podem ou não podem ser feitas, um corpo em ameaça explícita de dissolução exigiria técnicas de manutenção e suporte cada vez mais onerosas. Enfim, não se pode gastar dinheiro com quem não irá continuar pagando por tratamentos futuros.
Aqui não estamos falando em ortonásia para prevenir dor e sofrimentos inúteis. Estamos falando na verdade de “mistanásia”, a morte que se dá pelas condições sociais do sujeito termos mais utilizado quando morre o miserável de frio ao relento da rua, quando morre a criança de amebíase por ser desnutrida, quando morre o idoso desassistido em campos de concentração apelidados de asilos. Agora os planos de saúde estão inaugurando uma espécie de mistanásia para a classe média: a morte decretada porque os planos ficam onerosos e não porque podemos e devemos lidar melhor com as pessoas que estão morrendo.
Notem que a notícia em nenhum momento fala de “cuidados paliativos”. Ela também não fala de sistemas de “homecare” muito menos de “hospices”. O que se intenta é legitimar a violência de IMPOR a suspensão do tratamento terapêutico pura e simplesmente. Não podemos sujeitar que a esperança e traços de cultura com relação a morte desapareçam da noite para o dia. Muitas famílias vêem a continuação da atuação terapêutica como possibilidade efetiva de cura. Isso foi alimentado por muitos anos de uma medicina que se via como uma entidade que luta contra morte. Precisamos mudar esse paradigma para a produção de vida e felicidade. Não viveremos para sempre, mas, enquanto vivermos, temos que viver com dignidade o que implica também em morrer com dignidade.
Do meu ponto de vista, buscar a prática de cuidados paliativos é a melhor solução para quem está vivenciando o fim da vida. Entretanto, impor a negação da atuação terapêutica pode ser configurado pelas pessoas como abandono e desassistência. E isso pode ser tão desumano quanto a distanásia!
Basta de mercantilização da vida! Basta de buscar redução de custos com falsos discursos humanitários!
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