sábado, 20 de agosto de 2011
"ubi est mors victoria tua ubi est mors stimulus tuus" (Ayala Gurgel)
Sabem aquelas conversas em fila de supermercado que lhe trazem verdadeiras epifanias? Pois é, hoje eu tive uma delas, sobre a morte. Encontrei em breves oito minutos com uma senhora maranhense, nascida e criada em casa dos outros, servindo-lhe a mesa e na lavagem de roupas, negra e com uma instrução invejável, inclusive conhecimento da língua latina. Ela viu meu anel no dedo anula direito e perguntou-me: "és doutor em quê?" ironizei e respondi-lhe: "isso não é um anel de doutorado, é apenas um fetiche que tenho com a morte". Ela voltou-se empertigada em seus aproximados setenta anos e um metro e meio de altura e inquiriu-me: "esse é do tipo de fetiche que não se vê todo dia, mas porque a morte te interessa tanto?" Respondi-lhe: "e não haveria de interessar?" A resposta seguinte foi a citação acima, só que completa:
"ubi est mors victoria tua ubi est mors stimulus tuus
stimulus autem mortis peccatum est virtus vero peccati lex"
Espantei-me ao ouvir tal citação e perguntei-lhe de onde ela sabia isso. Recebi outra pergunta como resposta: "tu entendestes o que eu disse?" "Sim", respondi-lhe, "significa mais ou menos 'Onde está, ó morte, a tua vitória? onde está, ó morte, teu estímulo? O estímulo da morte é o pecado, a verdadeira força do pecado é a lei'. Trata-se de uma citação bíblica, Coríntios, se não me engano" (aqui em casa verifiquei e sei que se trata de I Coríntios, 15:55-56).
O latim não foi o meu único espanto, mas a frase que ela disse a seguir: "Pois é, esse é um grande erro, achar que a morte pode ser debochada com versos". Perguntei-lhe se ela considerava a Bíblia um poema. Outra resposta: "não disse que a Bíblia era um poema, mas que está organizada em versos, isso todo mundo sabe."
É, todo mundo sabe que a Bíblia está organizada em versos (ou versículos), mas não paramos para pensar que ela possa ser um poema, embora os grandes livros sagrados orientais possam ser apresentados como poemas, sem nenhum problema. Nós, ocidentais, os que não gostamos de poesias, temos dificuldades para ler a Bíblia como um poema. Mas, esse é outro assunto. A conversa que tive com aquela senhora interessa-me mais, no momento.
Ela ainda me disse, e isso ficou comigo de forma bastante meditativa: "A morte é sempre a morte de alguém, a derrota ou a vitória da morte, é a vitória ou a morte dessa pessoa. Não vou me iludir e pensar que exista uma morte por aí que foi derrotada. Quem foi derrotada foi a pessoa. Eu trabalho e mantenho meu nome limpo, minha morte não vai depor contra mim. Tem gente, que quando morrer, vai ser uma vergonha. A morte vai ser uma derrota pra essa pessoa".
Não podia ficar calado e concordar prontamente, afinal, debater é comigo mesmo. Perguntei-lhe: "mas, a Bíblia está falando da morte eterna, se antes as pessoas pensavam que não havia nada depois da morte, agora têm a esperança de que irão ressuscitar". Ela só me olhou e disse, mansamente: "O senhor tem estudos e sabe que pode até haver outra vida, como prêmio ou castigo dessa, mas que depois da morte não tem mais nada a fazer. Se não fizer antes, depois tem mais tempo não. A morte pode não ser a última coisa que exista, mas ainda é o que tem de mais importante para ser pensado por quem tem juízo".
O sinal do caixa a chamou e tirou-a de mim, ela, que sequer seu nome a perguntei. Uma sábia mulher que me estimulou a meditar sobre a vitória da morte como a vitória de quem morre, afinal, a morte é imortal, quem morre somos nós.
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
Segredos do Tempo (Jacqueline Abrantes*)
Fim de tarde. Convite para um pouso sobre os versos de Alberto Caeiro: “É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol, uma nuvem passa a mão por cima da luz e corre um silêncio.”
O sol, antes de partir, derrama-se deixando atrás de si insuportável e triste beleza. Os pássaros se recolhem e o silêncio se espraia. Como se a dor embriagada de vermelho clamasse pelo vento da noite enquanto o corpo suplica para recolher-se ao som de triste melodia. Saudade. Triste lamento das rodas de um carro de boi pela estrada. Água corrente cansada de riacho. Vozes escutadas ao longe. Pavios acesos de lamparinas ao vento; lampejos na escuridão. Saudade sabor de sertão. Cheiro de mato. Rede vazia, parada. Vazio inconformado. “Ausência assimilada”, diria o poeta Drummond: “a ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim.”
Essa “ausência assimilada” e quieta da tarde convoca as lembranças dos que se foram. É possível ancorar a saudade no que está ainda vivo marcando corpo, gestos, palavras, sons, instantes...mãos de avó com cheiro de sabão feito em casa a passear pelos cabelos, avô fazendo contas “de cabeça”, cantigas entoadas noite a dentro.
Recentemente, a irmã de uma grande amiga se foi.
Na infância, seu corpo fora acometido por uma síndrome rara; negava-se a crescer. Não resistiu a uma pneumonia que se agravara. Em trinta e cinco anos vividos, permanecera pequena como uma criança. Sua irmã fora sua companhia até os últimos momentos. “Tenho direito à acompanhante. Sou especial.” Dissera à equipe do hospital no momento em que entrara na UTI.
Em seus escritos, fora encontrada uma linda história de uma menina que, repousando em uma nuvem, ansiava por descobrir os segredos do senhor tempo perguntando-lhe “quanto tempo o tempo tinha”.
Lembranças do tempo dela... na praia, nas festas entre os amigos, na cama rodeada por sobrinhos, brincando na cadeira de rodas ou passeando nos braços de alguém. Um sorriso era a sua marca em qualquer que fosse o tempo.
Naquela manhã, o sorriso permanecera iluminando seu rosto. Sobre o véu branco de bordas rendadas, um lírio repousava delicado no alto de suas pequenas mãos.
Nos olhos de sua mãe e dos amigos, nos abraços, nas palavras não pronunciadas, era possível sentir os instantes/tempos da vida que se tornam eternos: na dor que nos religa, na ternura que nos une, na confirmação dos nossos afetos, da nossa vulnerabilidade e força. Porque precisamos do outro para que ele nos faça viver. Precisamos do outro para sentir que cada ser é especial.
“Você nos tornou pessoas melhores”. Foram as palavras ternamente ditas pela irmã ao se despedir.
O outro que se foi ainda está em nós. Tornou-nos alguém melhor. Fez-nos mergulhar com alegria e intensidade na beleza das coisas simples; nas coisas divinas do mundo das quais nos falava o poeta Vinícius: “a coisa mais divina que há no mundo é viver cada segundo como nunca mais..." Segundos vividos que de tão intensos duram uma eternidade; tornam-se “ausências assimiladas” dentro de nós.
Talvez este seja um dos segredos do tempo.
*Jacqueline Abrantes é Enfermeira da Estratégia de Saúde da Família no Município de Natal-RN
sábado, 6 de agosto de 2011
FELIZ ANIVERSÁRIO AYALA
Quando alguém faz aniversário nos lembramos da morte. Mau agouro? Tendência a ser abolsutametne mórbido? Não! Basta que pensemos na música "Parabéns a Você". Nela expressamos o que de mais importante podemos desejar para quem afetivamos: felicidades e muitos anos de vida. Ora, quando desejamos muitos anos de vida, parte desse desejo é impulsionado pela morte. Querer muitos anos para alguém expressa a constatação da finitude da vida. E a morte está logo ali do lado do bolo a nos exortar o aproveitamento da existência Assim meu grande amigo Ayala, neste 7 de agosto desejamos muita alegria, boas polêmicas (sei que gostas delas) e que o pensar e o lidar com a morte continue produzindo a fertilidade dos seus belos estudos, textos e a energia para continuar lutando pela implementação dos cuidados paliativos. Grande abraço meu amigo!
ERASMO RUIZ
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
Comentários sobre o Filme "Zorba: O Grego": Um Hino a Existência! (Erasmo Ruiz)
Fui provocado por um email mandado por Paulo Eliézer, estudante de medicina da UECE que tenho o prazer de ter como aluno. Comentava a respeito de dois links do youtube mostrando o imortal Anthony Quinn dançando na famosa cena de "Zorba o Grego" aos 49 anos e, depois, num show, que reproduzia a cena aos 84 anos. Imediatamente me veio a idéia de comentar a respeito do filme e do vídeo em que o velho ator voltava a dançar.
Zorba é um filme feito em 1964 que tem seu roteiro inspirado a partir do livro de mesmo nome do escritor grego Nikos Kazantzakis. Um escritor chamado Basil, de origem grega e britânica, volta a terra natal de seu pai, a ilha de Creta, esperando com esse retorno superar uma crise de criatividade. Enquanto aguarda o embarque no navio que o levará a Creta, conhece Zorba, um grego de origem camponesa de modos simples, rústicos, uma pessoa intensa e ativa. Um de seus apelidos é "Epidemia" pois por onde chega ele espalha o caos.
Imediatamente surge uma relação de simpatia entre os dois. Zorba pede a ele para seguir junto na viagem. Assim, poderia ser interprete e cozinheiro. Basil compartilha seus planos de reativar uma antiga mina. Quando descobre que Zorba tem experiência em mineração, resolve contratá-lo imediatamente.
Com o passar do tempo, a relação de trabalho entre os dois acaba sendo suplantada pela relação de amizade. Zorba é a antítese de seu chefe. Enquanto ele é cheio de vida, Basil é recatado é tímido. Enquanto Zorba não mede esforços para buscar tudo o que a vida pode oferecer de belo e prazeroso, incluso o amor carnal, Basil acha que os prazeres da vida poderão distraí-lo de seus obejtivos.
No encontro desses dois personagens, um hino à intensidade da vida e uma crítica a mortificação da existência produzida pelos valores de base cristã vão sendo tecidos. Ao assisitir o filme não há como não deixar de questionar os rumos que estamos dando à nossa existência. No final das contas ,talvez Pablo Picasso estivesse certo quando nos alertava que o problema principal da vida não é a morte mas sim morrermos enquanto vivemos, ao postergar a existência e a intensidade da vida, dexiando-as num segundo plano frente a valores e objetivos que nos são impostos.
O filme é puro cinema como arte. Envelheceu nesses quase 50 anos de forma digma, aliás, como envelheceu Anthony Quinn que, a julgar pela sua biografia, teve muito de Zorba em sua vida. Abaixo a cena do filme e, trinta e cinco anos depois, Quinn-Zorba ainda cheio de vida nos alertando que a existência é uma dádiva e a mortificação da vida, um pecado mortal contra o existir!
O FILME
O SHOW
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