quarta-feira, 30 de março de 2011

A morte e a morte de José Alencar (Ayala Gurgel)



Essa semana, mais precisamente no dia 29 de março de 2011, morreu José Alencar Gomes da Silva, conhecido também como José Alencar, ex-vice-presidente da república.





Sua morte já era esperada, graças à sua pública trajetória de luta contra o câncer, o que o levou a várias internações no Sírio Libanês e a tratamentos experimentais nos EUA. Trajetória essa digna dos manuais de tanatologia que cai sob as mais diversas interpretações. Há quem a veja como passagem da negação à aceitação, transitando pelos mais diversos estágios descritos por Kübler-Ross; há quem veja como um exemplo de superação e vontade de viver; há quem veja como exemplo de fé e espiritualidade; há quem veja como fuga e esquiva diante da morte e do morrer; há quem veja como exemplo de obstinação terapêutica ou, até mesmo, de demonstração de poder econômico e político.



Não sei quantas nem quais são essas interpretações. Sei apenas que a morte de José Alencar não é da mesma natureza daquelas centenas de mortes diárias que não são lembradas. Par se ter uma ideia, aqui no Maranhão, mais de 50% das mortes são subnotificadas (a Comissão de Óbito só existe no papel). São pessoas que morrem à míngua, escondidas e nunca serão nomeadas. A morte de José Alencar é diferente disso. Ela já foi notificada (com o famoso FMO = Falência Múltipla dos Órgãos). Mas, não é apenas por isso que ela será lembrada. Isso é apenas um registro técnico. A morte de José Alencar será lembrada porque ela virou uma mercadoria. Isso mesmo, uma mercadoria.



A nossa sociedade cultua somente aquilo que dá lucro. Se uma coisa não dá lucro, ela será relegada a um canto qualquer da nossa existência. Se der lucro, será bem vinda e ocupará destaque nas nossas vidas. O lucro é o Deus contemporâneo.



O lucro tem muitas faces. Há o lucro religioso, o político, o social, o afetivo e, também, o econômico.



A morte de José Alencar já virou mercadoria. De todos os cantos aparecerem carpideiras e comensais querendo aparecer mais do que o falecido ou comer às suas custas. E isso só é possível em uma sociedade que o enlutamento já foi banalizado, que a dor não é mais respeitada, que a exposição sensacionalista supera tudo. Que as pessoas não deixam seus mortos em paz, elas precisam lucrar com isso.



José Alencar morreu, mas sua morte ainda irá render muito, como tem rendido. É o assunto mais comentado no twitter, é a notícia mais veiculada na TV aberta, é o principal ponto de pauta em todas as casas legislativas, é a principal manchete dos jornais. É o motivo de comoção e escárnio da vez. Será, sem dúvida, a biografia mais apelada e comparada por políticos e marqueteiros em busca do seu voto.



Um dia José Alencar fará parte do panteão fúnebre, mas, até lá, será cabo eleitoral como sempre foi, o que significa, que sua morte o deixou mais vivo do que nunca.

sexta-feira, 18 de março de 2011

A EXIT e o Suicídio Assistido: Você Ajudaria Alguém a se Matar? (Erasmo Ruiz)





A pergunta provavelmente surpreendeu você. Pode ser considerada um despropósito, afinal, a  maioiria de nós parece ter posicionamentos muito rígidos e contrários a prática do suicídio, ainda mais em circunstâncias onde podmos nos coloar num papel de auxiliar à concretização do ato suicida.







Mas talvez as coisas não seja tão simples assim. Caso qualquer um de nós tome a decisão de cometer suicídio - e aqui não vamos adentrar as inúmeras razões e contextos em que isso poderia acontecer - essa ação não seria passível de maior regulação. Na nossa legislação não existe nenhuma cláusula que criminalize o gesto em si. Isso só acontece se, ao tentar cometer suicídio, o próprio gesto de cometimento possa de alguma forma produzir dolo e/ou prejuízo a outras pessoas.



O que quero dizer é que, tomada a decisão, estamos áptos, com maior ou menor "competência", em realizar o que pretendemos. Mas e quando por determinadas circunstãncias uma pessoa esteja fisicamente limitada para realizar esta ação? Por exemplo, no caso de pessoas que estejam na condição de tetraplegia, como pode esse indivíduo por termo a própria vida?



Ou em situações onde a pessoa deixa expresso seu desejos de "sair de cena" deste mundo, no avançar de uma doença grave ela simplesmente pode estar em condições tão debilitadas que precisará da ajuda de alguém para tomar um conjunto de substâncias para poder rmorrer.



Sei que esse assunto é desagradável e pode provocar um debate interminável. Mas não podemos estar indiferentes a esta situação posto que ela está acontecendo a todo momento, o que implicou que alguns países e Estados Norteamericanos intentassem alguma forma de regulação onde o ato de ajudar alguém a se matar fosse descriminalizado. O caso mais notório é o que acontece na Suiça onde a prática do suicídio assisitido é regulamentada, contando inclusive com a colaboração de organismos da sociedade civil para sua implementação.



Por isso convidamos você a assistir ao doumentário "EXIT". Ele nos mostra um pouco do cotidiano de uma associação que  auxilia pessoas vítimas de doenças para que não prolonguem uma dolorosa agonia ou que, pelo menos, num certo quadro de previsibildiade, poder evita-la. Há quase vinte anos grupos de voluntários acompanham o cotidiano de pessoas portadoras de doenças crônicas ou de graves deficiências para ajuda-las a alcançar uma saída mais digna dessa vida onde suas vontades sejam respeitadas e a autonomia exercida. O nome desta associação é o título do documentário





Embora essa questão seja muito polêmica, o documentário nos ajuda a diluir estereótipos que poderiam nos levar a perceber as pessoas que fazem parte dessa associação ou de outras que defendam a prática do suicídio assisitido como "frias", "insensíveis", "desumanas" ou de "afrontarem contra a dignidade da vida humana". Para mim é um excelente material que nos provoca a discutir sobre a qualidade de vida das pessoas no final de suas existências ou então a refazer o sentido que damos a expressão "dignidade da vida humana".



Isso nos leva a colocar algumas questões em discussão, por exemplo: não seria a busca do suicídio assisitido um dos efeitos da falta de autonomia dos pacientes diante da morte e do morrer, um grito de desespero contra a distanásia? Ou então, um fenômeno social mais restrito àqueles países e culturas que afirmam a supremacia das liberdades individuais frente as determinações coletivas? Afinal, de quem é a vida? Ela pode ser vista como um elemento correlato a uma propriedade individual que a torna portanto um bem que pode ser usufruído e disposto apenas pela minha vontade? Com a palavra o leitor!!



Abaixo vocês podem assistir ao documentário a partir de links do Youtube:

























segunda-feira, 14 de março de 2011

A Morte Simbólica: Outras formas de morrer (Erasmo Ruiz)

 

Quem é de Fortaleza vai logo entender. Gostaria de convida-los a assisitir um ótimo filme no "Cine Diogo". Bom, ninguém por aqui vai atender ao meu convite pelo simples fato de que o Cine Diogo não existe mais ha pelo menos 9 anos. Transformou-se num decadente shoping de galeria onde se pode comprar um pouquinho de tudo.







Assim, o Cine Diogo faz parte da lembrança dos mais velhos, uma referência de não eixstência que se perde no passado e alimenta sentimentos de nostalgia: ali alguém pode ter roubado seu primeiro beijo ou conhecido o amor de sua vida.



Interessante isso. Uma coisa não precisa estar viva para morrer pois também morrem as idéias, os conceitos, os lugares. Quando alguém perde um emprego pode estar perdendo muitas coisas além do seu trabalho: perde a companhia dos amigos, pede projetos identitários de carreira, perde dinheiro, perde um papel que afirmava aos outros parte de quem era.



Algo parecido acontece quando perdemos um grande amor. A pessoa de fato não morreu...mas morre o projeto de compartilhar a vida, morrem as idealizações que fazemos dos filhos que ainda não tivemos, morre a idéia romântica de envelhecer juntos. E quando nos separamos, a depender das circunstâncias,  podem morrer as amizades. Nessa hora descobrimos quem de fato era nosso amigo, amigo da parceira ou amigo dos dois.



E tem gente que "mata" o filho quando descobre que ele tem uma opção sexual diferente da esperada. Tem pais que "matam" outros filhos quando descobrem que não seguirão  a profissão que desejam para eles. E ainda hoje em dia tem pais que "matam" os filhos por causa de religião ou de escolhas afetivas.



Aposentados são particularmente sensíveis a morte simbólica. Quando deixam a ativa se deparam com uma lista sem fim de perdas para elaborarem e correm o risco de começar as fazer o estágio de especialista em solidão. Não porque querem mas para muitos os velhos devem morrer em vida antes de morrerem de fato.



Mas enganam-se aqueles que pensam que as crianças não tem que administrar suas mortes simbólcias. Na verdade, muitas delas fazem isso "alegremente". São aquelas crianças que diligentemente, sob a imposição das necesidades do mercado, vão assassinando a infância com requintes de crueldade. Roupas, brinquedos, maquiagens, comportamentos de consumo vão sinalizando que o tempo hoje parece correr mais depressa.



As escolas com sua diversidade curricular precoce atestam isso. Muitas crianças de 3 ou 4 anos já devem dar justificativas aos pais porque não tiraram "notas" mais altas. Mas o futuro exige um homem polivalente. Assim, colocamos os filhos para aprender natação, inglês, violão, tudo ao mesmo tempo. As crianças vão um pouco esquecendo de brincar, se tornam adultos em miniatura. Para quem duvidar, pergunto. Por que algumas lojas começaram a disponibilizar soutiens com bojo para meninas de 8 anos? De onde veio a necessidade de se querer ter seios antes do tempo? Assim, vamos matando simbolicamente  as coisas sem perceber que estamos morrendo um poquinho a cada dia!

quarta-feira, 9 de março de 2011

Nas Fronteiras da Arte e do Bizarro: A Fotografia de Joel-Peter Witkin (Erasmo Ruiz)



A depender de gostos estéticos e do espírito do momento histórico, arte e o que seria chamado de "bizarro" podem se fundir de tal maneira que não chegamos a determinar com clareza os limites práticos de cada conceito.





Que o digam os artistas considerados de vanguarda num momento e, depois (in)voluntários ditadores de normas e regras estéticas. Por exemplo, Monet foi execrado pela crítica embasada por valores classicistas quando expôs seus quadros pela primeira vez. Depois, quem não rezasse a cartilha do impressionismo teve que enfrentar sua dose de preconceito.



Quando pensamos nas infinitas possibilidades que a fotografia nos apresenta, em particular após o uso radical dos programas de computador e a popularização definitiva da fotografia digital, parece novamente ficar difícil divisar limites.



Pela nossa ótica, esse é o caso de Joel-Peter Witikin. Esse fotógrafo norteamericano, nascido em 1939, foi fortemente influenciado por sua formação religiosa mesclada pelo interesse estético em corpos e comportamentos considerados "anômalos". Juntou-se a isso a experiência durante a guerra do Vietnã onde, enquanto fotógrafo militar, registrava fotografias técnicas para a perícia de mortes acidentais durante treinamentos militares.







Não mostraremos aqui as fotos mais chocantes de Joel-Peter. Para quem quiser exercer a virtude (ou defeito, quem sabe?) da curiosidade, no final do post disponibilizamos um link para o google imagens.No entanto, gostaríamos de destacar o que vemos de interessante em Joel-Peter: a sua ousadia em meio ao tabu da morte, de lidar com ela artisticamente de uma forma muito propositiva.





Em muitas de sua fotografias o cadáver, ou partes de corpos, se transforma em objeto a ser fotografado a partir de composições artesanais feitas pelo próprio fotógrafo. Alguns poderão imediatamente identificar em Joel-Peter uma problemática para estudiosos de psicopatologia. Seria então alguém a materialziar suas mais terríveis alucinações com relação a corpos deformados e pedaços de cadáveres? Ou um artista radical e genial tensionando praticamente no limite o sentido de liberdade anarquista que pode ser exercido pela arte?







O interessante talvez seja nos libertarmos de tal dicotomia, afinal, Schumann, Van Gogh e muitos outros já nos mostraram que as duas coisas podem andar juntas. Ah, e se o artista  vive da sua arte é sinal então de que em sendo ela a materialização do seu delírio, sua arte tem servido bem à economia psíquica de muitos que são considerados "normais". Assim, a morbidade meio psicótica  apontada no autor também seria do mundo que consome e admira suas composições.



Enfim, fica assim registrada essa provocação em nosso blog. Estamos aqui para falar das mais amplas possibildiades de se pensar e olhar a morte. E  Joel-Peter nos apresenta uma delas e, com certeza, gostemos ou não, é um olhar muito original!



Link para o Google Imagens

domingo, 6 de março de 2011

A Morte do Sr Lazarescu (Erasmo Ruiz)



Eu adoro o carnaval...pelos dias de folga que a festa permite. Momento de colocar a vida em ordem, um pouco de trabalho chato da rotina de professor e, ao mesmo tempo, permite que a gente coloque em dia a lista interminável de filmes ainda não vistos.









Neste carnaval tive a alegria e a tensão de assistir "A Morte do Sr Lazarescu", uma produção romena de 2006 do Diretor Cristi Puiu,   muito elogiada na época de seu lançamento embora os elogios não fossem unânimes. Particularmente, gostei do filme. Mas vamos a um breve resumo do seu enredo.



O Sr Lazarescu é um home de mais de 60 anos que repentinamente começa a sentir dores abdominais e desconforto físico generalizado. A sua primeira dificuldade é sensibliizar alguém para o seu problema. Decide chamar uma ambulância mas isso é um luxo diante da precariedade do serviço de saúde que desloca suas ambulâncias para casos considerados mais graves. O fato de ser alcoolista também não sensibiliza os vizinhos que "diagnosticam" seus sintomas como reflexos de mais uma bebedeira. Começa então sua saga por inúmeros serviços de saúde onde ele é empurrado de um lado para o outro como um objeto inútil sem qualquer esclarecimento sobre o que estaria acontecendo com ele.



Embora o filme se anuncie como uma comédia, não esperem por humor fácil nesse filme. Se você for trabalhador de saúde e se pegar rindo entre uma cena e outra, há alguma coisa errada e com certeza não será com o filme. O diretor é extremamente objetivo em mostrar um drama peculiar aos pobres e miseráveis mas que pode não parecer ter muito sentido se você usufrui de algumas das benécias da classe média. Fala de solidão e abandono, aquela solidão terrível sentida pelos velhos em meio a pessoas que mal lhes dirigem a palavra, aquela solidão que faz o indivíduo se olhar no espelho e ansioso perceber que está sozinho diante da própria morte mesmo que o mundo esteja do seu lado.



O realismo do filme pode ser extremamente desagradável, principalmente quando fica claramente exposto que todos os profissionais que manuseiam o corpo do Sr Lazarescu não se importam com seu destino enquanto ser hmano já que ele é esquadrinhado como uma coisa, uma máquina velha com problemas em algumas peças. E todas essas pessoas tem que manejar a própria vida e, de certa forma, estão também solitárias numa sociedade que cada vez mais exalta o individualismo.





Preso entre um humor mórbido e a tragédia, o personagem do filme e seus cenários constroem um mundo em desencanto, pincelam aquilo que parece existir de pior na contemporaneidade resumida na figura fria e cínica dos médicos e de quase todas as enfermeiras. O alento vem de uma das enfermeiras que insiste em estar ao lado de Lazarescu por toda sua jornada.



Mas o que me deixou mais triste foi perceber que muito do filme já encontrei pela minha vida pessoal. Antes a arte de "A Morte do Sr Lazarescu" fosse algum exagero surreal ou uma metáfora da Romenia pós socialismo. Não,  o filme não tem nenhuma pretensão metafórica. É apenas uma denúncia do que acontece na vida de milhares de pessoas anônimas nos corredores de hospitais sem resolutividade. Esses rostos anônimos com biografias anônimas para aqueles que os atendem, caminham em busca desesperada de salvação mas esbarram nos muros da burocracia das instituições com o fel do tempero da indiferença e do individualismo.



O filme se passa em Bucareste na Romênia mas está acontecendo agora mesmo em qualquer cidade brasileira!

sexta-feira, 4 de março de 2011

Vencer e Morrer no Basquete! (Erasmo Ruiz)



Uma das metáforas mais recorrentes sobre a morte é seu caráter traiçoeiro. Ela espreita a cada esquina diriam os antigos poetas. Ela pode ser sorrateira escreveriam os romancistas.







A questão é que as metáforas na verdade são construídas a partir dos tijolos da realidade. Vejam este caso.



Nos Estados Unidos, durante um campeonato colegial de basquete, uma disputada partida só tem seu desfecho nos segundos finais quando Wes Leonard, um jovem de 16 anos, marca  a cesta que desempata a partida e dá a vitória ao seu time.





A quadra é invadida, a torcida em delírio comemora a vitória por 57 a 55 e o autor da cesta é abraçado. Depois do abraço, cai desmaiado, é levado as pressas para o hospital onde é declarado morto.



E ai está ele,no alto da foto, sorrindo feliz com seu triunfo poucos segundos antes de deixar esta vida. Muitas vezes digo aos meus alunos sobre a impropriedade do termo "paciente terminal", já que "terminal" somos todos nós desde o momento em que somos concebidos.



Paciente terminal é um rótulo prepotente que nos diz que a pessoa que está morrendo no leito de hospital irá embora daqui a pouco como se nós mesmos não pudéssemos ir antes já que a condição de mortalidade relativamente nos iguala ao moribundo. Enfim, em muitos sentidos, somos tão vulneráveis quanto um paciente que agoniza na UTI.



Wes Leonard nos mostrou isso. Um jovem aparentemente saudável, transpirando vida e alegria morre logo após seu triunfo. Fosse numa arena romana e algum poeta o imortalizaria dizendo que sua beleza encantou Apolo que o teria levado embora  em seu carro solar.



Mas ainda existe um certo encantamento nisso tudo. Muitas pessoas diante de uma experiência gratificante acabam dizendo: "eu poderia morrer agora". Óbvio dizer que não se deseja a morte em si, mas o momento oferece tanto encantamento e prazer como se dissesse que a vida valeu a pena e que nada de ruim poderia acontecer a partir dali!



A luta pela vitória, a cesta decisiva, a consagração e o triunfo...a morte que fecha a vida em seu ápice!