THANATOS

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A experiência da morte, a expropriação do saber e os transtornos psiquiátricos (Ayala Gurgel)











Não é preciso morrer para experimentar a própria morte. Passamos por inúmeras situações ao longo da vida que nos aproximam da experiência existencial da morte. Alguns sábios antigos diziam que é para irmos nos acostumando com a morte definitiva. Em muitos casos, essa experiência é acompanhada de dor e sofrimento. Os pacientes com transtornos psiquiátricos passam por essas experiências, e, juntos com seus familiares, têm muitas dificuldades para superação. A ajuda profissional nesses casos é fundamental, sem perder de vista o carinho e compreensão daqueles que o acompanham. O filme Uma Mente Brilhante é um desses casos.




FICHA TÉCNICA



Título original: A
Beautiful Mind



Idioma: inglês americano



Lançamento: 2001 (EUA)



Direção: Ron Howard



Atores principais: Russell
Crowe (John Forbes Nash Jr), Ed Harris (William Parcher), Jennifer
Cornelly (Alicia Nash), Paul Bettany (Charles), Adam Goldberg (Sol),
Vivien Cardone (Marcee), Judd Hirsch (Helinger), Josh Lucas (Hansen)
e Anthony Rapp (Bender).



Duração: 135 min



Gênero: drama






SINOPSE DO FILME








O filme tomou como base a biografia de John Nash, escrita por Sylvia
Nasar, e tem como pano de fundo a questão da esquizofrenia e da
pressão do mundo acadêmico. O enredo começa com a chegada do jovem
Nash à Universidade de Princenton, em 1947, onde é recebido com uma
palestra bastante «motivadora» sobre a necessidade da busca por uma
«ideia original». Nessa universidade, Nash apresenta aos poucos uma
personalidade antissocial e se recusa à participar das atividades
rotineiras da universidade, ou pelo menos a faz a contragosto, tais
como ministrar aulas, conviver com os colegas, cortejar mulheres. Já
nessa época, começam a aparecer os surtos esquizofrênicos, um dos
quais – e bastante recorrente – é com o amigo imaginário
Charles. Esse incentiva Nash a procurar a sua «ideia original» fora
das quatro paredes do seu quarto, o que o leva a se inspirar em
fontes não convencionais, como o movimento dos pombos no parque, de
um time de futebol americano e até nos do roubo de uma carteira.
Nenhum destes três estudos o ajuda. Será em uma conversa de bar, em
meio à elaboração de uma estratégia de «paquera», que Nash
encontraria inspiração para a sua «ideia original»: uma teoria
revolucionária com aplicação à economia moderna e que contradizia
o reinado de Adam Smith na área. Com isso, ele consegue que a
universidade aceite e financie sua pesquisa. Contudo, o
reconhecimento pelo seu trabalho aconteceria somente em 1953, após
ele ter realizado alguns trabalhos no Pentágono a decifrar códigos
russos. No desenrolar da trama, Nash (na qualidade de professor)
conhece uma aluna, Alicia, com a qual viria a casar e ter um filho, e
passa a enfrentar novas crises esquizofrênicas, dessa vez com a
ideia de ser perseguido por desconhecidos. Isso o leva ao seu maior
desafio: o de lutar por sua recuperação mental e trazer de volta a
sua credibilidade como matemático. O filme termina com o
reconhecimento pelo qual Nash tanto ansiava: o Prêmio Nobel de
Economia em 1994, pelo seu contributo na Teoria dos Jogos.








COMENTÁRIOS








Em Michel Foucault, a grande questão é a do espaço, ou melhor, da
espacialização dos saberes, dos poderes e do controle sobre os
corpos. Nessa intenção, ele criou em A Casa dos Loucos
a categoria
geografia da
verdade
,
para descrever a situação ambivalente da troca de lugar da verdade
(o de onde ela é produzida para o onde ela é interpretada) e a
assunção do poder sobre a verdade (o discurso hegemônico que se
apropria da verdade e o devolve ao local onde ela foi produzida como
autoridade interpretativa). Nesse sentido, a verdade, que desde a
idade clássica estava associada à loucura ou ao adivinho, produzida
na periferia social (geográfica ou geopolítica), perde sua força
genuína e é deslocada para o discurso elaborado filosoficamente. O
que é dito precisa agora de demonstração através da lógica e
deve, necessariamente, fazer um novo tipo de sentido: o sentido
extrínseco da verdade. Aqueles que não conseguem produzir esse tipo de saber são anátemas, estão mortos socialmente.



O
sentido extrínseco da verdade é, como atesta Gioggio Colli em o
Nascimento da
Filosofia
,
a
posse e a reviravolta de discursos até então marginalizados para o
centro da produção dos saberes. Assim, discursos como a retórica e
a dialética assumem o lugar da poética e da mitologia como os
discursos privilegiados para a obtenção da verdade., excluindo todas as outras formas de apropriação do saber como ilegítimas; como saberes loucos ou loucos saberes.


Esse tipo de
reviravolta produziu na sociedade de então o parecimento de novas
instituições detentoras do saber. O oráculo, a caverna, o
andarilho, o sábio distante, o ermitão e o louco cedem lugar ao
quase sábio (filósofo), ao retórico, a academia, à ágora, à
aulética, à dialética, ao conselho e às câmaras políticas. E,
nessa passagem, a espontaneidade com a qual o saber era produzido e o
mistério no qual era envolto, cede lugar às tecnologias de ensino e
de aprendizagem, e, pela primeira vez no ocidente, não há saber que
não possa ser ensinado nem pessoa que não possa aprender.



É
evidente que essa passagem, lenta e gradual, não deixou de conservar
algumas exclusões. Contudo, elas se mantiveram por questões
políticas e de estruturação social, não por características
inerentes
ao
modelo. Porém, por outro lado,
esse
modelo tem gerado certas pressões sobre o saber como produção
humana e colocado graus hierárquicos nessa produção. Não se
admira,
por
exemplo, que a capacidade crítica de um gênio da matemática não
seja valorada da mesma forma que a de um aluno iniciante no assunto.
Essas gradações se mantiveram e tem contribuído para estruturar
todo o sistema educacional ocidental. O saber está na genialidade
das ideias. É justamente esse gancho que o filme
Uma
Mente Brilhante

passa a explorar.



O filme começa já com a demonstração de forças do uso do
conhecimento: o conhecimento não é para a obtenção da verdade,
pura e simples, mas para dominar o mundo. Essa é uma das razões
pelas quais a pressão por ideias genuínas e publicações em
periódicos respeitáveis é justificada. A competição entre os
melhores cientistas (pressão por uma ideia original) terá como
prêmio o reconhecimento da comunidade internacional e uma
superinflação do ego, além de, é óbvio, retorno financeiro para
os envolvidos (estado, agências de fomento, instituições de
pesquisa e o próprio pesquisador). Nessa perspectiva, a geografia
da verdade
elaborada por Michel
Foucault é também uma geopolítica da verdade.



Geopolítica da verdade no sentido de que a verdade perde o seu valor
intrínseco e passa a ser secundada pela relação de poder que a sua
posse permite. Essa relação, no caso citado, não está associada
exclusivamente à mentalidade criativa, mas à adequação dessa
mentalidade a regras sociais e acadêmicas bem precisas. Não basta
ser um gênio se não conseguir se expressar em modelos acadêmicos
bem definidos. Assim, a genialidade de Nash tem como maior
concorrente a sua condição mental: a esquizofrenia.



Com o Nascimento
da Clínica

Michel Foucault assegura a tese de que a condição do paciente com
transtorno
psiquiátrico

é superior à condição nosológica de ter determinada lesão
orgânica ou não. O problema emblemático entre o organicismo e o
psicologicismo para determinar as condições da doença, transtorno
ou disfunção psiquiátrica, que tem ocupado determinada tradição
psiquiátrica desde Phili
ppe
Pinel,
passando principalmente pelas preocupações de Jacques Lacan, é
deslocado para a questão das condições existenciais do paciente.


Essa condição é tanática. Tanática no sentido de que a sua experiência de mundo é negada como válida e seu ser é considerado como socialmente morto. Ele não é mais sujeito, é apenas objeto da caridade, do cuidado e das instituições que se apregoam responsáveis por isso. Ele não se pertence, pertence à empresa psiquiátrica. Como pessoa, está morto.



Talvez
a própria experiência clínica de Michel Foucault como paciente
psiquiátrico o tenha sensibilizado a deslocar a questão da
nosologia para a terapêutica. Da condição metafísica da doença
para a polític
o-existencial
do controle sobre os corpos. Esse controle exige certa ortopedia
social
que separa os
discursos
racionais, lúcidos e que devem ser aceitos e reforçados (o gesto da
entrega das canetas é uma forma de reconhecimento a esse tipo de
discurso) contra aqueles conhecimentos que não devem ser aceitos (as
alucinações, por exemplo). Nessa perspectiva, o olhar da análise
psiquiátrica feita por Michel Foucault cai sobre as condições
ambientais nas quais o paciente psiquiátrico, até antes mesmo de
ser paciente, está inserido e como se articula às pressões
decorrentes desse ambiente.



No
caso do Dr Nash Jr, o
ambiente estressante pode ser
colocado como fator eliciador para os aparecimentos sucessivos e
quase ininterruptos de seus surtos esquizofrênicos. Contudo, não é
a esquizofrenia em si que se constitui um problema, é o desafio
profissional de fazer sucesso a partir da concepção de uma ideia
original. Por isso, de acordo com o filme e diferente do que sua
biografia conta, somente quando consegue o equilíbrio entre uma vida
de paciente psiquiátrico e a de professor acadêmico com a ajuda de
sua esposa, Alicia Nash, é que suas ideias passam a ser reconhecidas
e aceitas academicamente. Isso não significa, na ótica de Michel
Foucault a redenção da loucura ou da condição psiquiátrica do
paciente, ao contrário, é um reforçador do discurso de que somente
com o
assujeitamento à
condição
disciplinar
imposta, como aparece em Vigiar
e Punir,

que o paciente psiquiátrico está considerado apto a ser reconhecido
no mundo. A loucura foi dominada.
Postado por Erasmo Ruiz às 05:04 Um comentário:
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Marcadores: Geografia da Verdade, Michel Foucault, Morte Social, Psiquiatria

domingo, 22 de maio de 2011

Carpe Diem!

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Caros e Caras! Este blog incia uma nova fase. Continuaremos a falar de morte, afinal, não são muitos a falarem dela da nossa forma, de maneira franca, honesta, direta e financeiramente desinteressada. Alias, não são apenas as empresas funerárias que ganham dinheiro com ela. Muitos "tanatólogos" mercantilizam o falar sobre a morte e o morrer.



Correm boatos que tem até gente enriquecendo com isso. Mas este não é nosso objetivo. Queremos ao falar da morte que todos tenham uma existência melhor e, quem sabe, um dia possam sair dessa vida sem dor e sofrimento. Caso você queira pagar para ouvir sobre a morte e o morrer, a escolha é sua. Mas nós não queremos o seu dinheiro (ufa, você encontrou alguém que não quer!), e aqui você poderá encontrar muito da informação que precisa e olha só, de graça!



Vamos então ampliar nossos horizontes? Falando de morte, volta e meia, daremos indicações de atividades de lazer que sejam interessantes, indicaremos filmes, vinhos bons e baratos, falaremos de música, viagens com trajetos originais, muitas informações sobre qualidade de vida, tudo isso mesclado com algum humor, reflexões ou conversa fiada mesmo. Queremos nos divertir. Você também não quer?



Assim, todas as vezes que você ver um Post com a expressão "Carpe Diem", ele falará muito de vida principalmente porque vamos morrer um dia. Em tempo. Esta expressão vem desse poema de Horácio:





"sejam muitos os invernos que Júpiter te atribuiu,

ou seja o último este, que contra a rocha extenua

o Tirreno: sê sábia, filtra o vinho e encurta a esperança,

pois a vida é breve. Enquanto falamos, terá fugido

ávido o tempo: aproveita o dia de hoje [Carpe Diem],

muito pouco acredita no que virá"







Eram sábios esses romanos! Sempre aproveite o dia. Aproveite a vida!



Equipe da Thanatos
Postado por Erasmo Ruiz às 16:33 Nenhum comentário:
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Marcadores: Carpe Diem

terça-feira, 17 de maio de 2011

Drogas Ilícitas para uma Boa Morte (Erasmo Ruiz)

 Este post não fará coro aos inúmeros que já existem pela internet num discurso conservador e ultrapassado de ser "contra as drogas" ou de identificar nelas "o inferno na Terra". As posições dicotômicas que são obsevadas no debate "Contra x a Favor" da discriminalização ocultam os muitos caminhos existentes nas interfaces. Como alguém que trabalha com tanatologia e defende a humanização dos cuidados em saúde o que inclui a humanização dos cuidados no  final da vida, sinto-me no dever de trazer uma perspectiva diferente quando pensamos drogas ilícitas como possível meio para implemetnar a qualidade de vida de pacientes tidos como fora de possibilidades terapêuticas.





Quando notamos a presença das drogas ilícitas na imprensa, o que parece ficar destacado é o uso junto a problemática criminal. Terríveis assassinatos estão associados ao seu uso, seja situações onde o homicida estava sob o efeito da droga, seja as inúmeras chacinas onde a mão do tráfico comparece  de forma indelével. Situações de insegurança púbica como as vivenciadas pelo Rio de Janeiro estão sempre super expostas e servem como sianzlizadores evidentes que as atividades no entorno do consumo e venda de drogas seriam responsáveis por uma cadeia sem fim de crimes. Diante da necessidade de consumir e na ausência do dinheiro para tal, teremos a configuração do usuário como um criminoso em potencial, que não medirá esforços para chegar até onde precisa.



Mas quando vozes levantam-se pela descriminalização ou, até em uma atitude mais tímida, pedem uma certa revisão de características psicossociais que estigatizam os usuários e/ou os efeitos fisiológicos das drogas, os meios de comunicação e a maioria das pessoas cerram fileira para inibir essas manifestações. Pois esta é a vantagem de se ter um blog como forma de epressão. Não temos a audiência do Jornal Naconal mas nossa percepção não será suprimida por "zelosos" editores ou será descaracterizada em ilhas de edição.



Por exemplo, você sabia que a maconha pode ser utilizada como um medicamento para reduzir os efeitos colaterais dos quimioterápicos no tratamento de câncer? Ou que a mesma maconha produz bons efeitos no tratamento do glaucoma? Ou que ela é um potente estimulador do apetite? Ou que já foram relatados importantes efeitos analgésicos especialmente indicados para algumas situações pós cirurgicas? Ou que ela pode ser utilizada no controle de espasmos musculares, comuns em situações como as da esclerose múltipla?Ou que o ecstasy é relatado omo importante droga que minimiza os efeitos psiquiátricos do estresse pós-traumático? Ou que a psilocibina (encontrada em alguns cogumelos) pode ser usada no combate de algumas cefaléias e para reduzir ansiedade, notadamente em moribundos?



Mas agora, o que gostaríamos de destacar como mais interessante para a temática deste blog. Drogas estigmatizadas como "ilícitas" podem ser utilizadas para implementar a qualidade de morte repondo sensações de bem estar e ombatendo, a depender dos casos, quadros simtomáticos que causam dor e apatia. No final do post disponibilizamos um link com matéria do jornal "Boston Gobe"  intitulada "A Good Death". Suscintamente, o artigo fala sobre a retomada de pesquisas nos EUA sobre o uso clínico de drogas psicodélicas depois de 40 anos de silêncio.



Algumas coisas são promissoras, por exemmplo, o uso do ecstasy para minimizar os impactos do medo e da ansiedade diante do processo de morrer devolvendo inclusive capacidades virtualmente coprometidas como poder sair da cama, passear e ouvir música entre pacientes fora de possibilidades terapêuticas. Ou seja, podemos e devemos discutir a utilização de todos os meios disponíveis para que pessoas possam lidar o melhor possível com as problemáticas no final da vida.



Assim, por que não atrelarmos à discussão do uso de opiáceos o uso de drogas que possam capacitar a manutençãso de consciência e a alegria de viver o máximo que for possível? Por que em meio a estes debates apaixonados não podemos abrir portas para espaços de interface onde pudéssemos reavaliar de forma radical o sentido das ilicitudes quando pensamos a questão do uso de drogas?



Num mundo mediado por relaçoes econômicas onde a busca da lucratividade é a ordem do dia, falar de drogas que podem ser plantadas no fundo do quintal e que poderiam ser utilizadas para minimizar os efeitos de quimioterápiocos e/ou tornar as pessoas menos ansiosas diante da morte pode, entre outrs coisas, ferir muitos interesses comerciais. Não seria esse o principal motivador de empresas de telecomunicação?



Em nome de proteger os intereses da segurança de nossos filhos, assumem uma postura extremanente repressiva mesmo no que tange a abrir o assunto para discussão. No entanto, são sempre muito solíícitas ao dinheiro da publicidade de bebidas alcoólicas que estimulam o enorme consumo associando suas mensagens às festas e uma vida repleta de alegria e prazer. Claro, em muitas situações trágicas nossos filhos podem morrer ou matar em acidentes de trânsito porque estavam sob forte efeito da bebida alcoólica  ingerida na festa. Era lícito! Mas ate à morte foram preservados dos efeitos nefastos que a discussão sobre o uso das drogas ilícitas poderia produzir.



Pela busca de uma morte mais digna temos que abrir as portas de nossas consciências à novas possibilidades. Por que não analisar o uso de drogas tidas como ilíictas não só da forma como costumeiramente fomos doutrinados a pensar? Existem mais coias entre a licitude e a ilicitude do que poderia pensar nosso estúpido conformismo.  



AQUI vocês podem acessar o artigo do Boston Globe
Postado por Erasmo Ruiz às 06:39 Nenhum comentário:
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Marcadores: Cuidados Paliativos, Drogas, Morrer, Morte, tanatologia

domingo, 15 de maio de 2011

O Último Post: Blog Como Espaço de Memória (Thyciane Nunes*)

 
Derek Miller, 41, who died from colon cancer last week.
              Derek Miller



“Protegidas” pela tela do computador, as pessoas sentem-se instigadas a dividir com o mundo os aspectos mais íntimos de suas vivências. Até mesmo a morte, assunto constantemente evitado, tratado sempre com tanto receio, ganhou uma nova abordagem dentro das relações do universo virtual.



Apesar de extremamente expostos, os usuários de sites de relacionamentos sentem-se a vontade para expressar sua dor.  No Orkut,  é comum vermos manifestações de “luto” no status de quem sofre pela perda  de alguém. Além disso, por diversas vezes, o perfil do ente querido que partiu ainda é visto por aqueles que o amam e sentem saudades, como um meio de comunicação. Continuar enviando "scraps" para sua página pessoal é uma nova forma de manter viva a memória de quem se foi.



Essas ferramentas informacionais desempenham hoje um papel importante para a compreensão, aceitação e conforto perante a morte do próximo. Mas e quando somos colocados frente a perspectiva de nossa própria finitude?



Derek Miller, escritor canadense, encontrou na blogosfera um modo de lidar com esta questão. No dia 4 de maio, seu texto intitulado “The Last Post” (O Último Post), publicado por uma amiga, foi visualizado por aproximadamente 3 milhões de visitantes... somente na primeira hora. O texto não dá margem para sentimentalismos e começa com um sucinto “Aqui está ele. Estou morto, e este é o último post do meu blog”. Fala que instruiu os familiares e amigos para que a mensagem fosse publicada após seu falecimento para, em seguida, ele mesmo “anunciar” a sua morte no dia 3 de maio, aos 41 anos, de complicações do estágio 4 de câncer colorretal em metástase”. Enfatiza que esse desfecho já era esperado por todos e lamenta por sua família que este acontecimento tenha tornado-se “parte de suas vidas, infelizmente”.





É certo que a curiosidade acerca da “mensagem póstuma” trouxe notoriedade a história, mas a trajetória desta merece tanta atenção quanto seu desenlace.



Formado em Biologia Marinha, Derek Miller era conhecido no Canadá por conta de seu site, o Penmachine.com, quando em 2007 foi diagnosticado com câncer. A partir de então, pelos próximos 4 anos, assuntos corriqueiros comentados no blog passariam a dividir espaço com relatos sobre a nova rotina no tratamento contra a doença. 

Derek miller

Entretanto, no fim de 2010 o câncer atingiu a fase terminal e os leitores do blog puderam acompanhar gradativamente a piora significativa que Derek descrevia de seu estado de saúde. A deterioração física, marcada por tosses e dores abdominais constantes veio seguida pelo desgaste  psicológico, desencadeado pela necessidade de usar fraldas e a perda progressiva de sua mobilidade\e independência.



Ciente de sua condição, Derek não poderia deixar de tocar no tema “medo”, e salienta que o que teme não é a morte por si só, mas o sofrimento presente no processo de morrer:“Não tive medo da morte - do momento em si - ou do que vem depois, que era (e é) nada. Ao longo do tempo, permaneci um tanto receoso do processo de morrer, da fraqueza e da fadiga crescentes, da dor, de se tornar menos e menos eu mesmo à medida que me aproximava dela.”.



Mas é importante sabermos que nem tudo se resumiu às angústias da doença. Várias postagens são repletas de declarações de amor apaixonadas à sua esposa Airdrie, com quem viveu 16 anos e às duas filhas do casal; Marina (13 anos) e Lauren (11 anos). A docilidade com que fala de sua família e o entusiasmo pela vida e tudo de bom que ela tem a oferecer são o verdadeiro legado de Derek no registro de sua luta diária.

 

"O mundo, na verdade todo o universo, é um lugar lindo, surpreendente, maravilhoso. Sempre há mais a se descobrir. Não olho para trás nem me arrependo de nada, e espero que minha família possa encontrar uma maneira de fazer o mesmo. O que é verdade é que as amei."



Airdri respeitará a vontade do marido e manterá o site funcionando como um memorial da vida de Derek.







*Thyciane Nunes é acadêmica do Curso de Serviço Social da Universidade Estadual do Ceará
Postado por Erasmo Ruiz às 14:59 Nenhum comentário:
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Marcadores: blogosfera, luto virtual, Morte

terça-feira, 10 de maio de 2011

Morte e Pintura: Alguns Quadros de Edvard Munch (Erasmo Ruiz)



Edvard Munch (Auto Retrato Com Cigarrilha)



Todo um imenso volume de história da arte poderia ser composto a partir da temática da morte. Episódica em alguns, a morte pode  ser o grande tema nas mãos de outros. Este é o caso de Edvard Munch (1863-1944), pintor norueguês.



Notabilizado pelo quadro "O Grito", o pintor tem uma obra extensa e muito dela retrata seus dramas internos.  Munch foi assolado pela morte desde a mais tenra infância. Primeiro, a morte da mãe quando tinha 5 anos e, depois, a mnorte da irmã querida por tuberculose quando ela tinha 15 anos de idade. Como o próprio Munch disse certa feita ao definir sua obra "a doença, a loucura e a morte foram os anjos negros que velavam meu berço e que me acompanharam por toda a vida".





Nesta pintura (mãe morta e criança)  temos o corpo da mulher morta na cama praticamente transparente sinalizando com clareza que não possui mais vida. O tom esverdeado da parede "abraça" os personagens presentes na pintura como que expressando a doença mortal que agora faz parte também de todos. A garotinha expressa seu espanto e medo diante da morte. Tapa os ouvidos numa atitude negadora e ao mesmo tempo parece clamar por uma ajuda que não vem dos adultos. Ela está inapelavelmente sozinha diante da morte da mãe pois os adultos apressados se ocupam das intercorrências mais práticas e imediatas da morte. Munch parece nos cobrar aquilo que as pessoas não estão fazendo na pintura. Quase que somos forçados a entrar no quadro e abraçar a menina!







Em "A Criança Doente" estamos agora diante da garotinha anterior só que com 15 anos. Ela jaz vulnerável sofrendo de tuberculose aos 15 anos. Aqui Munch parece nos levar à pessoa que  ajoelhada ao lado da menina sofre intensamente a expectativa de que a qualquer momento a morte chegará definitivamente.\A menina tem o olhar distante, parece já entregue e indiferente ao sofrimento de quem vai ao seu lado.O olhar perdido anseia a paz que só se encontra no fim de um horizonte agora alcançável. Quando olho essa pintura imagino o sofrimento de tantas pessoas que estão agora vivenciando as suas perdas e do quanto muitas vezes somos impotentes e trazer algum conforto nesse momento crucial. Novamente, o teor da solidão diante do sofrimento é realçado





Já em "Ao leito de Morte" nos deparamos com os comportamentos dos enlutados. O morto nos é mostrado deitado sem feições, propositadamente colocado de costas. O quarto tem uma iluminação precária por velas que estão dispostas fora da nossa visão pois só vemos as sombras projetadas nas paredes. Somos forçados a olhar os semblantes pouco definidos das pessoas mas que nos mostram suas emoções básicas que parecem oscilar da resignação passando por profunda tristeza e indo até a súplica pelo impossível, aquele desejo mágico e infantil de que o morto retorne a vida. Mais no canto direito do quadro existe apenas uma pessoa que nos fita diretamente. Ela nos diz com todas as letras: A Morte virá para todos, inclusive para você que nos vê em tanto sofrimento. A opacidade maior do rosto que contorna olhos mais humanos dá um ar fantasmagórico a figura como se ela mesma fosse a morte a nos confrontar.





Aqui temos "Morte no Ambulatório". .A pessoa desenganada  e às portas da morte está sentada de costas na pintura. Temos as pessoas que expressam dor e sofrimento dotadas de uma palidez esverdeada que parece identificar a todos com a doença que está matando o ente amado, afinal, todos morremos um pouco quando perdemos alguém querido.  A attiude contemplativa do médico ao cruzar os braços para trás mostra que ele perdeu as esperanças, apenas observa. Munch é aquele personagem mais isolado no canto esquerdo. Não encontra consolo algum nas redes de solidariedade da família pois parece ter  a sensação de que nada poderá servir de lenitivo diante de dor tão extrema.



Assim, Munch nos deixa o legado de sua experiência com a morte. No fim as contas, os indivíduos não são ilhotas isoladas pois grande parte do que vivemos também é do mundo e da humanidade. Numa análise histórica mais "seca" poderíamos afirmar que a dor de Munch é a dor típica da família burguesa da Europa  Ocidental do fim do século XIX, sem a referência das redes sociais  extensas e comunitárias.



A dor que se sentia e público agora só pode ser vivida no universo do espaço doméstico. As dores e os ritos tornaram-se  expressões mais privadas e por isso mais solitárias. No entanto, se na época de Munch essa expressão tinha a marca do novo, hoje parece ser a regra de uma sociedade cada vez mais individualizada pelas marcas da mercantilização, da exaltação do cidadão consumidor, do indivíduo cada vez mais restrito a si mesmo.



 "O Grito" de Munch pode ser então o recado estrondoso de que, seja na vida, seja na morte, seja na vivência de nossas perdas, precisamos com urgência sair das amarras da solidão!



 
Postado por Erasmo Ruiz às 05:15 3 comentários:
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Marcadores: Arte, Morrer, Morte, Munch, Pintura, tanatologia

quarta-feira, 4 de maio de 2011

As Mortes e "Ressurreições" de Bin Laden (Erasmo Ruiz)





Para quem intui que a morte não seja um evento restrito apenas ao momento em que ela ocorre, pode-se morrer de muitas formas. A depender então como se morre, do conjunto de circunstâncias que levam alguém a morrer, teremos inúmeras possibilidades de que o morrer seja um elemento que transcenda a pessoa que morre, produzindo miríade de elementos de ordem simbólica que  sedimentarão os conteúdos da memória coletiva.





Essa é uma das lições que aprendemos por exemplo com Manuel Bandeira em seu poema "Morte Absoluta" (acesse o poema aqui), de que na verdade a morte do corpo é só a primeira das mortes. A definitiva é aquela que sedimenta as ações da nossa vida nos pântanos do esquecimento absoluto daqueles que permanecem vivos. Entretanto, alguns mortos desafiam o esquecimento e, de certa forma, permanecem presentes.



O  governo norteaamericano alardeou nos últimos dias que o terrorista Osama Bin Lade está morto. A ação de um grupo militar de elite pôs fim a vida do homem que será lembrado para sempre como uma das referências biográficas do início de século XXI. Mas deixamos uma pergunta no ar. Estará Bin Laden de fato morto?



Fique tranquilo, este não é mais um texto que urdirá uma nova teoria conspiratória. Na internet já podemos encontrar versões para todos os gostos e que em breve poderão  fazer parte de algum documentário sensacionalista  na TV. Queremos caminhar em outra direção.



Ora, não basta morrer para se tranformar num morto absolutamente digno de esquecimento. Partindo-se da premissa de que Bin Laden morreu na ação norteamericana (e não estamos duvidando disso), ele transformou-se num morto cujo cadáver não pode ser visto. Também não possui um túmulo para ser visitado. Partiu desse mundo da maneira que sempre aconselhou seus adeptos a fazerem. Na ótica do fundamentalismo islâmico, Bin Laden é um mártir imolado por defender a pureza dos princípios do Islão.



Existem aspectos psicossociais que fortalecem ainda mais essa ideia. Perdas e processos de luto para serem melhor elaborados precisam de evidências claras. É por isso que muitas pessoas não conseguem fechar o processo de luto se não tiverem visto o cadáver, ficam como que "congeladas" diante de um pensamento mágico que fica repetindo como um mantra: "não é possível que ele tenha morrido"!



É este talvez o maior efeito psicológico da forma como está sendo conduzido a exposição da morte de Bin Laden pelos norteamericanos e a imprensa de uma forma geral. Não se alimenta só os teóricos da conspiração com inúmeras suspeitas, alimenta-se principalmente os aspectos simbólicos de um mito que se energiza pela "paralisação" do tempo, pela imobilidade do sentimento de raiva e frustração dos adeptos do mártir que agora veneram definitivamente um morto sem corpo e sem túmulo, um morto simbolicamente mais vivo do que nunca!



E os efeitos da morte de Bin Laden nos EUA só respaldam os sentimentos de antagonismo dos muçulmanos, as diferenças de uma sociedade mercantil e pós-moderna frente a sociedades ideologicamente marcadas por valores pré-capitalistas. Não reporto apenas as manifestações de júbilo diante da morte de um inimigo, mas a sua transformação imediata em mercadoria. A efígie de Bin Laden estampa agora de calcinhas à canecas, camisetas e  preservativos. Sua imagem é apropriada exaustivamente, é o acontecimento do momento, é o produto da vez que eclipsou o casamento da princesa e os destinos dos personagens de novelas pelo planeta inteiro.





Novamente os telejornais prestam seu tradicional serviço de desinformação. São meras usinas de montagem de uma pretensa "verdade" que deve ser repetida a exaustão. Nesse sentido, para o civilizado mundo ocidental, a imagem de Bin Laden deve ser tratada  como um cão sarnento, digno de ter sido justiçado sem que em nenhum momento seja lembrado que o próprio Bin Laden é produto dos interesses da diplomacia americana na época da guerra fria e que o mesmo governo que o justiçou deveria, em tese, te-lo levado a julgamento caso de fato obedecesse os princípios de direitos humanos que apregoa pelo mundo afora. Assim, oscilando entre o martírio e a execução sumária, as imagens de Bin Laden vão permanecendo cada vez mais vivas e marcadas pelas trágicas cores dos interesses políticos mais abjetos.



Uma conclusão pode ser tirada desde já. Alguns homens, pensando-se nas  causas que defendem, podem ser mais valiosos mortos do que vivos. Hoje, para o mundo islâmico, existe o mártir dos mártires, a imagem do homem que deve ser seguido como exemplo, afinal, morreu da forma como sempre pediu aos seus seguidores para morrer. Neste sentido, mesmo morto, Bin Laden está mais vivo do que nunca. Mortos que não se transformam em cadáveres e possam se "abrigar" em túmulos são o esteio de novas lendas, mitos e até religiões!
Postado por Erasmo Ruiz às 13:51 2 comentários:
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Marcadores: espetacularização da morte, mercantilização, politica, Tanatologia.
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Quem sou eu

Erasmo Ruiz
Moro em Fortaleza. Sou psicólogo e professor universitário da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Aos poucos irei deixando por aqui uma compilação de poemas, crônicas, desabafos, idéias e questionamentos. Contatos pelo email: erasmohumaniza@gmail.com
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