sábado, 23 de janeiro de 2010

Amor de Mãe se engana? (Ayala Gurgel)



Coração de mãe é capaz de cada coisa. Acredito que se trata de um tipo de amor filogenético para o qual muitos torcemos o nariz. Um tipo de amor que é capaz de fazer de tudo para o bem de sua cria, inclusive ajudá-la a morrer em paz.

Atualmente um caso em Londres me chamou a atenção para isso, e ele me fez lembrar outro, na França. E certamente, existem outros por aí.



Na França, a mãe de Vicent Humbert implorou ao governo Chirac que concedesse salvo conduto ao médico que tivesse a coragem de praticar eutanásia com seu filho, que também concordava e implorava pelo ato.

O governo francês, no auge de sua arrogância negou a petição atribuindo falta de motivação para a vida por parte de Humbert e sua mãe: "você precisa é arranjar um motivo para viver", disse Chirac para um moribundo que estava em estado vegetativo e viu sua agitada vida de bombeiro voluntário ser interrompida e com ela tudo aquilo que ele compreendia como viver.



Como ninguém atendia aos apelos da mãe e do filho, ela decidiu ajudá-lo a morrer, lhe aplicando, com a ajuda do médico, uma injeção letal.



Nesses dias, em Londres, a mãe de Thomaz Inglis, fez algo parecido. Frances Inglis cujo filho vivia em estado vegetativo desde 2008, após cair de uma ambulância e sofrer uma lesão cerebral irreversível, injetou uma dose letal de heroína em seu filho.



Ela, com 57 anos, mãe de três filhos, justificou sua ação explicando que sentia que não tinha mais remédio para libertar seu filho, Thomas, do "inferno em vida" que vivia. A ação recebeu apoio de várias pessoas. O filho mais velho, Alex, de 26 anos, disse que toda a família a apoiava e não consideram que houve um assassinato, mas um valente ato de amor.



No entanto, do mesmo modo que a mãe de Humbert, a de Thomaz foi condenada a prisão perpétua. O juiz, Brian Barker, disse que, independente de sua intenção, tratava-se de um assassinato.



O que o amor dessa mãe quer nos dizer? Será que esse tipo de amor é como aquele de Antígona, que desafia as leis do Tirano que deseja regular a vida e a morte dos seus súditos? Será que o atual formato de lidarmos com a morte e o morrer não é um tipo de tirania política do Estado sobre a morte? As pessoas não podem mais nem morrer em paz? Ou melhor, elas não têm mais nem o direito de morrer?

Confesso que gostaria muito de saber o significado do tipo de amor dessas mães.

sábado, 9 de janeiro de 2010

A Morte Como espetáculo: Sangue e Homicídios na TV (Erasmo Ruiz)



Pensava que era uma peculiaridade da cidade em que vivo. As estações locais de Tv competem entre si com programas que tema violência e a morte como chamarizes. Mas nos últimos anos em minhas andanças por outros locais do país comecei a perceber um certo padrão. A fórmula é largamente utilizada. Existe a figura de um âncora que dramatiza verbalmente o conteúdo já dramático das imagens. As câmeras acabam com o pudor da morte. Em passsado recente, as cenas de crime eram mostradas de forma ampla e irrestrita não importando muito o estado em que se encontrasse o cadáver. Muito sangue, eviscerações, o sofrimento e a indiferença das pessoas no entorno, a coleta de delcarçãoes de policiais e peritos. Recentemte, por força de medida judicial, há uma trucagem eletrônica que quase imediatamente desfoca o corpo, que agora é "narrado" pelo repórter, extremamente preciso em descrever o que está vendo. Diante de nós a massa sanguinolenta que vai sendo refocada em nossas mentes. O horário quase sempre é no entorno do almoço. Entre uma e outra garfada do rotineiro feijão com arroz, recebemos doses cavalares da estética de violência que acontece nas ruas. Sempre racionalizei meu interesse por este tipo de programa como especulação cienttífica. Mas existem outros componentes que explicam o grande sucesso e a ausência de receio dos patrocinadores em associarfem suas marcas com a presença de cadáveres ensaguentados. Como a morte e suas decorrências - o falar sobre ela e a sua visibildiade mais crua - ainda se expressa como tabu, esses programas cumpririam o papel de verdadeiras "revistas pornográficas da morte", onde o que menos interessa é o contexto biográfico dos dramas e sim sua visibilidade explícita. Mas raramente teremos a oportunidade de ver nestes "entretenimento mórbido" o crime passional na classe média mas sim o eterno ritual de dor e sofrimento da ausência de políticas de segurança pública e lazer para as camadas mais pobres da população. E é destes locais que vem o grosso da audiência, um enorme Brasil que não se vê representado em canto algum da produção cultural ou, quando se vê, percebe-se de forma caricata como a miséria e pobreza pouco convincente das novelas e filmes nacionais. A periferia que se vê sangrando em sua juventude, devorada pelo tráfico e pelo aparato repressivo, (re)vê parte do seu drama nos cadáveres silenciosos velados nas calçadas sob o patrocínio do remédio para prisão de ventre ou da loteria que sorteará R$ 120.000,00 no final de semana. Entre um bloco e outro de notícias, a voz indignada do locutor que acaba sendo uma espécie de para-raios da catarse de descontentamento de quem sabe a hora que sai mas que não sabe como chegará em casa. Será esse mesmo descontentamento que levará nosso locutor a ocupar um importante cargo eletivo, ele mesmo beneficiário da tragédia cotidiana e da super-exposição da morte despudorada durante o almoço. Vejam! No ar, mais um campeão de audiência da pornografia da morte, onde os que já morreram nos saúdam num patrocínio de remédios para tantas mazelas dos corpos dos vivos, com destaque para obesidade, constipações, varizes e homorróidas! Estamos lá, todos "saudáveis" a contemplar a morte na(da) perifieria no útero seguro de nossas salas. Quem sabe um de nós não ganhará na loteria?

domingo, 3 de janeiro de 2010

Suicídio Assistido e Direitos Civis: Montana reconhece a relação (Anna Mochel)

Com base na proteção às liberdades individuais, inclusive na tomada de decisões sobre a própria morte e limites da vida, o Estado de Montana, nos EUA, aprovou a prática de suicídio assistido, configurando-se como o terceiro estado norte-americano (ao lado de Oregon e Washington) a reconhecê-la.



Diferente de outras discussões, o suicídio assistido não está fundamentado em um direito social, como a assistência integral ao ser humano, nem em um direito político, o que o faz ser um ato autônomo, voluntário, pessoal e intransferível, atuando exclusivamente na seara dos direitos civis. O suicida é, ele mesmo, o autor do ato e único responsável por sua decisão. A assistência é apenas uma forma de garantir o exercício dessa liberdade, que não pode ser coibida ou incentivada.



Por enquanto, a autorização é apenas uma decisão da Suprema Corte Estadual e não altera a constituição local. Ou seja, ela tem valor jurídico limitado, podendo ser revogado pela própria Corte. O mesmo ocorre em Oregon e Washington, onde o suicídio assistido foi legalizado por meio de referendos em 1997 e 2008, respectivamente, mas a prática também ainda não foi reconhecida nestes estados como direito constitucional.

Aborto de anencéfalos em pauta esse ano no STF (Anna Mochel)

Esse ano haverá decisões no STF (Supremo Tribunal Federal) sobre algumas questões polêmicas que interessam diretamente aos tanatólogos e bioeticistas, dentre as quais, a do direito sobre o aborto de fetos anencéfalos.

A decisão está agendada para março deste ano e já vem sendo discutida há quase seis meses, especialmente após a suspensão da liminar do Ministro Marco Aurélio que concedera esse direito a várias mulheres, cuja matéria rendeu um importante curta (Quem São Elas?) dirigido por Débora Diniz.

A ação em favor do aborto de fetos anencéfalos foi ajuizada no STF em junho de 2004, pela CNTS (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Saúde, e já se encontra pronta para ser julgada, com as manifestações de todos os interessados no tema — igreja, médicos e cientistas. No ano passado, o tribunal fez audiência pública durante três dias para discutir a matéria. Agora, será julgado o mérito do caso.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Suicídio na Mídia: O caso Leila Lopes (Erasmo Ruiz)



O homem é um animal que busca significados para tudo o que faz. As coisas que aparentemente eram vazias de sentido hoje, podem ganhar novas percepções amanhã. Flores consideradas sem graça se transformam na pura encarnação da beleza se relacionadas ao amor que sentimos, por exemplo, se forem presenteadas por quem amamos. Quando olhamos a história percebemos que isso ocorre com a mais variada expressão de características e emoções humanas. O que é valorado por um grupo e/ou sociedade em determinado período poderá ser considerado algo pejorativo em outro momento histórico. Assim, o shuicídio a partir do devinir histórico será visto ora como gesto de brauvura e despreendimento, ora como afronta aos designios de Deus, ora como expressão de doença e/ou sifrimento mental. A depender como se configura o modo de produção de verdades, o que era um problema filosófico ou ético poderá se transformar em problemática sanitária. Recentemente a imprensa teve que lidar com a situação de Leila Lopes, uma bela atriz com a carreira em decadência e que certa vez esteve em evidência como atriz de telenovelas na Rede Globo. Recentemente "desceu" ao mais baixo nível que alguém no meio artístico pode chegar para buscar exposição: participou da produção de filmes pornográficos. Muitos de nós se lembrarão dela como a "Professorinha Lu" da novela "Renascer". O suicídio sempre foi tratado na imprensa de forma camuflada. Só ganha cores mais claras na medida em que se torne impossível esconder o fato. A desculpa recorrente é a idéia de que se o suicídio for noticiado isso criaria uma verdadeira "epidemia" motivando mais pessoas a cometerem suicídios. Creio que o elemento que determina essa visão "envergonhada" do suicídio diz mais respeito a nossa tradição religiosa. O suicida é antes de tudo um "criminoso" que atenta contra a vontade Deus, rouba-lhe a primazia de controlar a duração da vida. Por este ato blasfêmico, num passado não muito distante, era negado aos suicidas o sepultamento em igrejas ou em terrenos consagrados nos cemitérios. Caso ficasse demonstrado depois do sepultamento de alguém que esta pessoa havia cometido suicídio, o corpo poderia ser exumado, levado a uma sala de julgamento para a devida condenação. A situação extremamente mórbida era secundarizada diante da necessidade de regular uma afronta ao poder que era tradicionalmente explicado e legitimado com bases ideológicas de cunho religioso. Há relatos sobre cadáveres de suicidas que eram arrastados por cavalos. Óbvio dizer que a "pena" não atingia mais o morto mas objetivava disciplinar os vivos. Voltamos portanto ao caso de Leila Lopes. Foi impossível esconder o fato de que ela havia cometido suicídio. Vazaram informações iniciais da perícia que sinalizava para a presença de veneno de rato na comida ingerida pela atriz. Assim, isso colocava à imprensa a tarefa de falar sobre um assunto sobre o qual não estava acostumada e mais,, de oferecer um sentido a pergunta que a maioria das pessoas faria: "por que ela se matou?'. Uma rápida pesquisa pela internet mostrará que o conjunto das racionalizações caminha ora para explicações de base psicológica (estaria a atriz em crise depressiva), ora pelo próprio preconceito de classe social ( a atriz não teria suportado a perda de uma vida de luxo e riqueza e agora estar vivendo num padrão de classe média etc). Volta e meia visibiliza-se insinuações de que se tonar atriz de filmes pornográficos já seria um indício de que as coisas não andavam bem etc etc. Quase nenhuma palavra sobre sentidos existenciais que poderiam levar a atriz a fazer o que fez. Quase nenhuma palavra que informasse ao grande público sobre as dificuldades existentes hoje no campo da psicologia e da psiquiatria para buscar um acordo teórico mínimo que dê conta da complexidade da questão do suicídio. O jornalismo rasteiro e superficial se deu conta que tem que ser rasteiro e superficial para acompanhar um estilo de público ávido por informações rasteiras e superficiais porque aprendeu a absorver informações rasteiras e superficiais. Para "entendermos" alguma coisa da nossa realidade tornou-se lugar comum a imolação da verdade diante do altar da necessidade de informações tão profundas quanto um pires. Talvez estivesse certo Renato Russo em "Pais e Filhos": Estátuas e cofres E paredes pintadas Ninguém sabe o que aconteceu Ela se jogou da janela do quinto andar Nada fácil de entender Assim, uma posição minimamente honesta (se a honestidade pode ser delimitada em parâmetros) seria a busca de conjunto de informações que desse conta da complexidade dos gestos humanos e, ao mesmo tempo, da complexidade de visões e significações de quem produz e consome essas informações. Ler sobre o suicídio de qualquer ser humano é ler um pouco sobre nós mesmos, é avaliar nossas (im)possibilidades diante da vida que levamos, é inclusive questionar a necessidade que temos de bisbilhotar a vida alheia principalmente se o "alheio" for uma celebridade. Afinal de contas, para que saber do suicídio de Leila Lopes e especular sobre as razões que a levaram a esse caminho? Teríamos nos transformado em verdadeiros Sherlocks sem brilho a buscar indícios que "expliquem" superficialmente a complexidade da existência? Fecho os olhos e revejo a beleza de uma mulher que a partir da ingenuidade de seu personagem na novela buscava realizar as fantasias mais básicas dos telespectadores: amar, namorar, viver! Diante do suicídio da atriz, cabe a pergunta do quanto situações como essas não seriam formas sutis de homicídio social numa cultura que supervaloriza o "vencer na vida" onde a vitória é estar o tempo todo exposto aos olhos curiosos de milhões que gostariam de estar dentro da telinha. Mas cá estou eu cometendo o mesmo erro, reduzindo um gesto humano à banalidade superficial de uma explicação psicossociológica. Que fique vivo na memória o encantador sorriso da Professorinha Lu!