sábado, 26 de junho de 2010

Empresa americana aumenta faturamento com caixões GG (Anna Mochel)





A obesidade é uma doença com alta taxa de morbiletalidade. Um risco à população e mais uma fatia para o mercado das empresas médicas e indústria farmacêutica. A indústria da morte não poderia ficar de fora. Havendo mais pessoas obesas, haverá mais defuntos enormes e, certamente, precisaremos de caixões maiores, conhecidos como Golias. O Portal Globo (G1) traz uma excelente reportagem sobre o assunto. Vale a pena conferir. A matéria está intitulada: Obesidade seria motivo da boa fase dos negócios. A Caixões Goliath já produziu modelo de 2 metros de largura. LINK DA NOTÍCIA http://g1.globo.com/planeta-bizarro/noticia/2010/06/empresa-americana-aumenta-faturamento-com-caixoes-gg.html?utm_source=g1&utm_medium=email&utm_campaign=sharethis

quarta-feira, 23 de junho de 2010

São João e Morte Com Manuel Bandeira (Erasmo Ruiz)





Aos poucos as festas juninas vão perdendo um certo ar de ingenuidade. A industrialização da festa, os mecanismos da mercantilziação e espetacularização transformam o "São João" em bem econômico.

As quadrilhas ganham figurinos elaborados, participam de concursos, buscam patrocínio. As empresas de turismo vendem maravilhosos pacotes, uma verdadera caravana pelo nordeste, onde a ferocidade do cangaceiro jaz subserviente como um ícone na canga do mercado.
Tem noiva, noivo, padre, tudo tão estilizado que parece perder sua raiz na memória. E a comida arduamente preparada em tacho e pilão pode agora ser comprada na mercearia ao lado.
Recebi agora a pouco da grande amiga Sheylla este poema de Manuel Bandeira que havia lido na saída de minha adolescência. Hoje posso revê-lo sem nenhuma ambiguidade e rememorar todos aqueles que pularam fogueira comigo e que agora dormem o mesmo sono que um dia dormirei
Eita velho "Mané", fonte inesgotável de reflexões sobre a minha e a sua mortalidade. Por que não, então, um São João com morte para celebrarmos a vida e a memória? Para tornar o gosto do milho mais intenso, para sentir mais forte o perfume do quentão, para cair nos braços da noiva da quadrilha é bom refletir com Bandeira!
Profundamente
(Manuel Bandeira)
Quando ontem adormeci Na noite de São João Havia alegria e rumor Estrondos de bombas luzes de Bengala Vozes cantigas e risos Ao pé das fogueiras acesas. No meio da noite despertei Não ouvi mais vozes e risos Apenas balões Passavam errantes Silenciosamente Apenas de vez em quando O ruído de um bonde Cortava o silêncio Como um túnel. Onde estavam os que há pouco Dançavam Cantavam E riam Ao pé das fogueiras acesas? - Estavam todos dormindo Estavam todos deitados Dormindo Profundamente Quando eu tinha seis anos Não pude ver o fim da festa de São João Porque adormeci Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo Minha avó Meu avô Totônio Rodrigues Tomásia Rosa Onde estão todos eles? - Estão todos dormindo Estão todos deitados Dormindo. Profundamente.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

A morte digna de Quincas Berro d'Água (Ayala Gurgel)



Morrer não é o mesmo para todos. Já disse isso antes e repito. O mito de que a morte é um juiz imparcial que não faz distinções é apenas um mito. Se a morte é um tipo de justiça, é a justiça do viver. Jorge Amado sabia disso e transcreveu para a forma de livro, em 1958, na obra  A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água, que em 1961 já estava no teatro e em 1978, na TV, e, finalmente, esse ano chegou aos cinemas, sob a direção de Sérgio machado.


O filme mantém a mesma preocupação do romance com a apresentação de uma morte justa para Joaquim Soares da Cunha, funcionário público, pai e marido exemplar, mas que depois de se aposentar tornou-se um exemplar malandro nas vielas de Salvador, capital da Bahia.


Os primeiros a se preocuparem em oferecer-lhe uma morte à altura foram seus familiares: a filha, Vanda, principalmente. Era preciso narrar um fim digno ao homem exemplar que se fora. Então, tudo bem se ele virara comendador no estrangeiro. O importante era que não se soubesse que tão digna família tinha um patrono bem ali, na esbórnia, deitado em camas de prostitutas e a beber entre os negros, frequentando os terreiros e, o mais inadmissível, sendo mais feliz do que o que já fora em toda a sua vida.


Morto e enterrado, Joaquim Soares da Cunha recebeu o fim merecido, virara comendador para uns e nascera como Quincas para outros.


Esse último também morreu. E dessa vez, de forma tão indigna quanto a primeira. O  Rei dos vagabundos da Bahia, o Cachaceiro-mor de Salvador, o filósofo esfarrapado da rampa do mercado, o senador das gafieiras... ser encontrado morto, em seu mísero quarto no subúrbio, pego pelos males do coração... quanta inglória para um homem tão digno.


Se Vanda, Leonardo, tia Marocas e Eduardo não podiam aceitar o fato de vê-lo ali, em meio a tanta imundície física e moral, muito menos o poderiam Mestre Manuel, Quitéria, Negro Pastinha, Curió e Pé-de-Vento. Não pelas mesmas razões, é óbvio, mas porque tamanho homem, no dia do seu aniversário, não podia partir sem uma festa à altura. A sua festa.
Nascer, viver, vencer... todos os atos da vida merecem festas, bebidas, bolo, música... a morte, o grand finale vai ser isso? essa coisa sem graça? isso é indigno de um homem como Quincas. Os amigos lhe preparam o que qualquer amigo faria: uma despedida a altura. E, onde muitos veem comédia, eu vejo um ato bravo de dignidade, de respeito à memória do morto, uma forma bastante criativa e saudável de se despedir, de fechar seus rituais de luto.


A maior justiça que a morte pode fazer a alguém, é deixá-la morrer como viveu.


A morte não é a mesma para todos, pela simples razão de que a vida também não o é. Uns são Joaquim, comendador, outros são Quincas, Berro d'Água... e todos somos mortais. Até lá, vivamos e comemoremos, amanhã a lua pode nos procurar em vão.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

"A Sete Palmos": A Dificuldade de Encarar o Morrer (Ney Ronaldy Oliveira Paula*)





Muito mais que um seriado triste e que fala somente na morte do início ao fim de seus episódios, “A Sete Palmos” nos leva a uma atmosfera em que a questão da morte é tratada de uma forma diferenciada, já que a visão que se tem, em geral, é a da família Fisher, uma família em que todos trabalham no ramo dos funerais ou são atingidos pelas consequências deste trabalho.

A empresa "Fisher & Sons" realiza funerais de uma série de pessoas que, frequentemente no início de cada capítulo, morrem de diferenciadas formas. Cada episódio se embasa no processo do velório e de todos os serviços funerários requisitados pelos familiares. Misturado a esse quadro peculiar, a história da família Fisher mostra-nos uma série de características um tanto estranhas, como podemos analisar logo no primeiro capítulo com a morte do patriarca da família. A atitude deliberada pela senhora Fisher é de gritar e gritar loucamente, num ato de puro desequilibrio. Mas, afinal, a família em que todos os seus membros tem que lidar diariamente com o prisma da morte não deveria ser mais bem preparada para uma situação como essa?

Outro ponto ressaltado nos episódios é o fato do filho homem mais novo esconder, até um certo momento, a sua homossexualidade. A filha mais nova com sinais de muita rebeldia, parece mostrar um pouco o quanto é difícil conviver sempre ao lado da morte, tão difícil em pequenos, mas marcantes, momentos de nossas vidas. O primogênito da família é um jovem homem que saiu de casa e volta no momento da morte do pai. A história começa para valer em saber se a empresa "Fisher & Sons" deveria continuar suas atividades ou fechar, vendida para empresas maiores que querem fazer o monopólio do ramo

.

Essa pequena explanação sobre o seriado se parece com a história de vida de algumas pessoas que vivem no mesmo ramo que a família Fisher. Em Fortaleza, no Ceará, uma família muito parecida continua com a empresa por muito tempo. Foi passada de geração a geração até chegar a um senhor muito simpático: meu pai. Minha família também trabalha com o ramo de funerárias. Passei minha infância entre caixões e vendo as mais variadas expressões estampadas nos faces de várias pessoas que passavam por aqueles já citados momentos curtos, porém marcantes. Quase sempre expressões de dor e sofrimento.

De várias reações poderia citar a da família que perdeu um jovem homem de 32 anos em um ataque cardíaco fulminante. A família estava triste, mas o que eu notava era o espanto, a perplexidade nos olhares de seus parentes. Uma pessoa tão nova, sem nenhum sinal de doença grave ou até mesmo problemas simples. Um homem que praticava esportes, vivia uma vida saudádel, na medida do possível. Como pode acontecer uma coisa dessas? "Pegadinhas" da vida (ou melhor, da morte). Voltando as cenas que merecem destaque, lembro da senhora, nunca soube sua idade, que morreu e ficou com a pele um tanto amarelada. Doença de fígado. A família pediu para que tentássemos fazer o melhor em relação a esconder a aparência muito degradante, pelos menos para a família, da senhora. Tentavam desviar a atenção do principal naquele momento, que não era a aparencia da senhora, era a falta dela, de seus cuidados com o rosto, como era delicada em seus cuidados mesmo depois das marcas do tempo mostrarem-se. Não estavam sofrendo menos, mas só adiando o sofrimento, a dor de perder alguém tão próximo. Como o caso da famĺia Fisher, que perdeu o patriarca. Todos os outros mortos não passavam de trabalho. Quando se depararam com a real situação, desabaram, mostrando que, mesmo tendo contato direto com velórios e cadáveres, ainda não tinham contato com a idéia de morrer, a qual veio à tona na morte do primeiro episódio.

Tento passar que a reflexão da morte não deve ter um caráter de superstição, de que ela estará mais próxima caso falarmos em tal . Próxima ela está de cada um de nós, sem que percebamos. Um fio finíssimo estabelece o limite da vida ou da morte. É claro que não devemos ficar paranóides a ponto de deixarmos de viver e passarmos a nos preocupar direto com o fato de que podemos deixar essa vida a qualquer momento, de que somos frágeis o bastante para sermos levados por algo que não imaginamos. A discussão da morte desse ser encarada como um modo de notarmos o quanto é bom vivermos e percebermos que o privilégio de viver é nos dado sem que notemos. Com isso, sabermos que a morte é uma possibilidade existente em nossas vidas traria um ar de maior liberdade, de maior gosto no que fazemos e assim, poderíamos desfrutar plenamente de momentos vivenciados e entendermos melhor do processo pelo qual cada um passsará.

* Ney Ronaldy é estudante de enfermagem e bolsista de Iniciação Científica em Projeto de Pesquisa coordenado pelo Professor Erasmo Ruiz