domingo, 30 de outubro de 2011

Lula, o Câncer e o SUS (Ayala Gurgel)






Já dizia Otto Lara Resende, "o mineiro é solidário no câncer". E isso, por incrível que pareça, foi uma máxima moral válida durante algum tempo nesse país, não só para os mineiros, mas para todos nós, os brasileiros. Disse "Foi", pois pelo menos é o que parece. Ela deixou de ser quando o personagem atingido pelo câncer é o ex-presidente dessa república, Luís Inácio "Lula" da Silva.








O fato de o Lula ter desenvolvido um câncer - agora especulado pela mídia em todas as suas dimensões, da etiologia ao prognóstico, desenvolveu junto com ele uma relativização dessa norma moral. Se algum dia não foi incomum os inimigos políticos se abraçarem e praticarem o perdão mútuo quando um dos adversários se tornava moribundo, ou um dos lados dar por satisfeita a vitória quando o outro lado era tocado por alguma desgraça, especialmente o câncer. Se algum dia o Rei de Troia pode entrar no acampamento do inimigo para recolher o corpo do filho morto e ninguém o tocou, pois estava de luto. Se a doença por causas desconhecidas, como o câncer, teve um profundo poder de despertar solidariedade nas pessoas, hoje, isso certamente mudou.





Há uma reviravolta moral, ou talvez até mesmo de perturbação mental, que faz com que algumas pessoas aproveitem o momento nosológico para comemorarem uma punição divina, como a nêmesis dos gregos: aquele que não foi atingido pela justiça dos homens, será atingido pela justiça divina. Cito Erasmo Ruiz (no facebook): 


Uma
coisa é criticar o Lula por aquilo que você acredita que seu governo
tenha feito de errado ou deixado de fazer. Agora, se você está feliz
pelo fato dele estar com câncer na laringe...bem...creio que você está
precisando de mais tratamento do que ele. Uma mistura de psicoterapia
com princípios éticos cairia muito bem!


No entanto, não quero discutir aqui se Lula é merecedor - fruto de alguma nêmesis ou consequência dos hábitos de vida - de um câncer ou não, se ele fez ou não um bom governo, se foi ou não eleito pelos nordestinos, se tem ou não a possibilidade de ser eleito novamente, se devemos ser solidários ou não com ele pelo fato de ter câncer. Quero sim, discutir um único ponto: um discurso que ecoa:


"Lula deveria ser atendido pelo SUS".





Isso sim é intrigante, principalmente quando o significado mais comum para essa sentença é algo do tipo:





"Lula deveria ser atendido pelo SUS, para que possa ser penalizado".





Isso leva a equacionar "ser atendido pelo SUS" com "ser penalizado", e sugere que ter um câncer não é mais uma penalização, ou não é uma penalização suficiente, o que poderia dar um significado mais extensional à sentença como:


"Lula deveria ser atendido pelo SUS, para que possa ser penalizado, uma vez que ter câncer não é uma pena suficiente".





Esse Lula deve ter feito algo de muito errado para merecer tal pena. Mas, que penalização seria essa? O que significa "ser atendido pelo SUS"?





A princípio, não deve ser algo bom, pois li no perfil de vários profissionais do SUS uma confissão de sadismo que apregoa "ser atendido pelo SUS" como "ter seu sofrimento aumentado e sua dignidade prejudicada". O SUS não é uma entidade metafísica à parte das ações cotidianas de cada profissional, político, usuário que o compõe. O atendimento do SUS é aquele que os profissionais que nele trabalham ministram. Assim, quando leio essa confissão de sadismo, imagino que o SUS seja, realmente, um bom lugar para punir as pessoas.





Contudo, nem só de sadismo vivem as confissões acerca do SUS. Li, também no facebook, no perfil da Maria Goretti Maciel a seguinte declaração:


Que
coisa horrível essa de todo mundo comemorando a doença de uma pessoa!!!
Sei que o Lula neste momento precisa e muito de Cuidados Paliativos, o
que dificilmente terá. Câncer de cabeça e pescoço maltrata, mutila, dói e
faz sofrer!! E há serviços no SUS como o Hospital de Barretos ou o IMIP
no Recife que, entre outros, têm equipes muito competentes de CP e bom
tanto para o Câncer. Nestes, acho que o eterno presidente Lula seria
muito bem acolhido, tratado e paliado à altura, como desejamos para
todos os brasileiros e brasileiras que o lula ajudou a sair da linha da
miséria. Miséria são os maus sentimentos. Para estes não há tratamento
nem solução.


Isso quer dizer que o SUS pode ser também um lugar acolhedor, que respeita a dignidade do moribundo e alivia sua dor e sofrimento. E, como o SUS é feito por seus trabalhadores, do mesmo jeito que há esses sádicos assumidos, há também quem aposte na qualidade, na atenção, na solidariedade, no profissionalismo. Nessa perspectiva, "ser atendido pelo SUS" não pode ser compreendido como uma punição, mas como uma forma de acolhimento. A sentença ficaria assim:


"Lula deveria ser atendido pelo SUS, para que possa ser acolhido, uma vez que ter câncer traz muito sofrimento e precisa de tratamento adequado".


É essa postura que nós da Thanatos procuramos desenvolver. Não importa quem seja o moribundo, o vemos como um ser humano, portador de direitos e merecedor de nossas melhores habilidades e empenho no acolhimento de sua história, no alívio de sua dor e controle dos sintomas. Pois, sabemos que há coisas que não nos compete julgar, por mais que queiramos e estejamos inclinados a fazê-lo.





Com base nisso, também quero dizer, reforçando o que Maria Goretti Maciel disse:


Lula deveria ser atendido pelo SUS








Não Tenho Medo da Morte (Gilberto Gil)





Gilberto Gil nos ensina a diferença entre "morte" e "morrer" nessa inteligente página da música popular brasileira.









não tenho medo da morte

mas sim medo de morrer

qual seria a diferença

você há de perguntar

é que a morte já é depois

que eu deixar de respirar

morrer ainda é aqui

na vida, no sol, no ar

ainda pode haver dor

ou vontade de mijar

a morte já é depois

já não haverá ninguém

como eu aqui agora

pensando sobre o além

já não haverá o além

o além já será então

não terei pé nem cabeça

nem figado, nem pulmão

como poderei ter medo

se não terei coração?

não tenho medo da morte

mas medo de morrer, sim

a morte e depois de mim

mas quem vai morrer sou eu

o derradeiro ato meu

e eu terei de estar presente

assim como um presidente

dando posse ao sucessor

terei que morrer vivendo

sabendo que já me vou

então nesse instante sim

sofrerei quem sabe um choque

um piripaque, ou um baque

um calafrio ou um toque

coisas naturais da vida

como comer, caminhar

morrer de morte matada

morrer de morte morrida

quem sabe eu sinta saudade

como em qualquer despedida.

domingo, 23 de outubro de 2011

A Má-Notícia e o exercício ilegal da profissão (Ayala Gurgel)







Já destaquei aqui várias vezes que a comunicação de más-notícias não é uma tarefa fácil ou agradável para a maioria das pessoas. Quero destacar também que os comportamentos de fuga e esquiva que permeiam essa questão podem incorrer em erros morais e jurídicos prejudicando os pacientes e profissionais.






Um desses erros mais comuns acontece quando o profissional delega a outro o anúncio da má notícia, não importando a razão para isso.





Ora, a responsabilidade do anúncio do conteúdo de um diagnóstico é de responsabilidade do profissional que o fez. É seu dever anunciá-lo e um direito do paciente querer ou não sabê-lo, em quantidade e qualidade. Se o diagnóstico é médico, é dever do médico anunciá-lo, se da enfermagem, dever do enfermeiro, se social, do assistente social e assim sucessivamente.





Acontece, porém, que ao se esquivar de anunciar os resultados de um diagnóstico porque seu conteúdo pode gerar desconforto ou outra reação aversiva a si mesmo ou ao paciente e delegar essa função a outro, o profissional que assim procede incorre em erro ético e legal. Ele deixa, por um lado, de exercer a sua obrigação profissional para com o paciente de cuidar dele até o final, de cede-lhe as informações importantes e necessárias para o seu cuidado e, quando não, quebra do sigilo profissional. Contudo, o mais grave, é que esse profissional, ao delegar a outro uma tarefa sua, está permitindo de forma ativa a exercício ilegal de sua profissão.





Nenhum médico pode delegar ao assistente social a cirurgia que tem que fazer, contudo, delega a esse mesmo assistente ter que anunciar o resultado dos procedimentos - quando não saiu de acordo com o desejado.





Tomo o médico como exemplo porque é a variável mais comuns nesses casos, chegando a ter esse comportamento legitimado por algumas instituições de saúde que já institucionalizaram o assistente social ou o psicólogo como o responsável por esse anúncio. Contudo, nenhum profissional pode delegar a outro uma função sua. isso incorre em exercício ilegal da profissão e pode trazer muitas complicações, tanto para o profissional que o faz quanto para o paciente. E, em nenhuma hipótese, a instituição tem poder para desfazer essa cláusula pétria da ética profissional: cabe somente ao profissional responder por sua atuação profissional.




Esse protecionismo ao médico e ingenuidade de muitos gestores corrompe a noção de trabalho em equipe e torna resistente a mudança de paradigmas comportamentais dentro das ações de saúde mais pactuados com uma ética humanizadora.

domingo, 16 de outubro de 2011

A ausência e o medo do fim no filme Melancolia (Sarah de Sousa)



Melancholia é o novo filme do diretor Lars von Trier. Ele conta a história dos últimos dias antes de um Planeta chamado Melacolia colidir com a Terra.
Nesse tempo Justine (Kirsten Dunst), que celebra seu casamento com Michael (Alexander Skarsgård), vai ao longo da trama demostrando sua angústia de viver permeada por cenas de uma tristeza vaga que aos poucos a domina e a faz questionar a natureza da humanidade. Sua irmã Claire (Charlotte Gainsbourg) gosta de ter os fatos sobre seu controle, ao contrário de Justine que parece conformada, desenvolve um pavor do fim, a iminência da perda a faz entrar em fuga dos acontecimentos. Vários questionamentos vão surgindo na mente dos que assistem a película: como lidar como o medo da morte diante de uma ameaça eminente? É possível deixar, como Justine, que o sentimento de conservação nos abandone? A relação entre dois personagens com perspectivas diferentes trás um conflito chave: como se portar diante do fim?


Seria o medo que Claire possui o resultado de uma vida ‘’não vivida’’? Existirá algum ser humano que considere sua vida em plenitude ao ponto de esquecer tal temor?


O enredo se desenvolve com a visão da inevitabilidade e uma espécie de ‘’eu sabia’’ em Justine, toda sua melancolia é transformada em um sentimento de profecia quando o planeta parece cada vez mais próximo da Terra.


Claire vê tudo como o fim do  que conhece e pode controlar: seu filho, seu marido, sua irmã depressiva que necessita de seus cuidados. Compreender o que parecia inevitável estava além daquilo que permite para si.



O filme é provocante e termina com a certeza de não há escapatória, o mundo acabará e a humanidade terá seu final dramático.



Veja aqui o trailer de "Melancolia":













quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Meu Mundo É Hoje (Wilson Batista)





Em algumas oportunidades estaremos deixando aqui músicas que nos façam refletir sobre a vida e a morte. Vamos começar então com essa pérola de Wilson Batista na interpretação de Paulino da Viola.



Meu Mundo É Hoje





Eu sou assim

Quem quiser gostar de mim eu sou assim

Eu sou assim

Quem quiser gostar de mim eu sou assim



Meu mundo é hoje

Não existe amanhã pra mim

E sou assim

Assim morrerei um dia

Não levarei arrependimentos

Nem o peso da hipocrisia



Eu sou assim...



Meu mundo é hoje...



Tenho pena daqueles

Que se agacham até o chão

Enganando a si mesmos

Com dinheiro, posição

Nunca tomei parte

Desse enorme batalhão

Pois sei que além de flores

Nada mais vai no caixão



(Wilson Batista)

domingo, 9 de outubro de 2011

Claro Como o Dia – O’kelly fazendo da morte sua última empreitada (Adriana Mendonça)










Título: Claro Como o Dia


Subtítulo: Como a Certeza da
Morte Mudou a Minha Vida



Autor: Eugene O´Kelly


Tradução: Regina Lyra


Assunto: Biografia/Memória


Editora: Nova Fronteira


Data de Lançamento: 2006


















Com três tumores no cérebro, Eugene
O'Kelly, ex-presidente mundial da KPMG, usou as habilidades de
executivo para transformar a morte iminente numa experiência
positiva



















“O que você faria se soubesse
que seu tempo está acabando? Esta é uma história verdadeira.
Quando foi ao consultório médico no dia 24 de maio de 2005, o
executivo Eugene O´Kelly tinha uma agenda cheia de planos e
projetos, capazes de mantê-lo ocupado durante décadas. Menos de uma
semana depois, teve que reformular radicalmente essa agenda para um
período de cem dias: era o tempo que lhe restava de vida. O´Kelly
tinha câncer cerebral e morreu em setembro daquele ano.”








Diante da morte anunciada, ele não
se desesperou. Ao contrário, considerou-se abençoado por poder
planejar em detalhes seus últimos meses. O curto prazo foi dado
quando Eugene era presidente de uma das maiores empresas de
consultoria do mundo, a KPMG. O fato de ter os dias contados não o
fez perder o hábito de planejar tudo, mas foi mudando sua maneira de
encarar a vida que conseguiu transformar seus últimos dias nos
melhores que já tinha vivido superando o peso da morte anunciada.








O plano de Eugene era utilizar do
seu poder e experiência em administração para planejar cada parte
da sua partida, desde se despedir de tudo até mesmo a criação
desse livro; "Meu projeto era transformar esse período numa
experiência positiva para todas as pessoas próximas, assim como
torná-lo os melhores dias da minha vida", escreveu O'Kelly.








Será que é mesmo possível lidar
com a morte de forma construtiva? Pode-se transformar esse período
terrível no melhor de sua vida? Perguntas essas contraditórias que
para alguém que vive hoje se escondendo do fantasma da morte pode
parecer impossível, mas para alguém como Eugene que estava
convivendo com a chegada “prematura” dessa visita “acidental”
não havia como ignorar. E a melhor escolha, talvez, foi a de
planejar da melhor forma possível. E assim foi feito.








O primeiro passo foi pedir
demissão da empresa, de forma onde a mesma não sofresse com o
distanciamento de um presidente tão talentoso. Eugene participou
diretamente do processo de escolha e adaptação do seu substituto. A
partir daí, planejou em uma folha de papel – com o rascunho já
distorcido pela dificuldade em escrever por conta dos tumores –
todas as tarefas a serem cumpridas nos 3 meses de vidas que poderiam
chegar. Dentre os afazeres estão o funeral (onde até a música foi
escolhida), despedida dos parentes e amigos. O plano era fazer de
cada momento vivido a partir daí fosse um “momento perfeito”, o
que o autor critica que deve ser plano de todos e não só daqueles
com a data final marcada. "Alguns amigos e colegas pareciam
ofendidos com  minha atitude pragmática, como se estivesse
negando a possibilidade de um milagre", escreveu ele em sua
autobiografia.









Esse livro aborda principalmente a
morte e o tempo e a forma como lidamos com ambos. A questão
principal apresentada é o fato de estarmos no hoje e não vivemos o
presente. Da mesma forma que o futuro é incerto pra alguém em
estado terminal, como O’Kelly, quanto é para um neonato. Com a
certeza da incerteza fazer com que seja vivido todos os dias da sua
vida. Nas páginas do livro registram-se os prazeres proporcionados
por essa descoberta e até mais do que isso, conta como Eugene se
sentiu orgulhoso ao levar a cabo seu projeto de transformar a morte
na última grande aventura de sua vida.





“Morrer é uma empreitada
difícil” (O’Kelly)













“O último capítulo do livro
teve que ser escrito pela mulher de Eugene O'Kelly, Corinne. Mais do
que ter criado um fundo para auxiliar pacientes com câncer, da
considera que a dedicação dos últimos dias do marido as pessoas
que mais gostava foi a prova de que de fez o melhor que podia.”


 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A (I)Mortalidade de Steve Jobs

O mundo está bem mais próximo do que no passado. Maravilhas da ficção científica fazem parte do nosso cotidiano. Vemos a imagem das pessoas que amamos nos telefones, e conversamos com elas. Nossos gostos e sensações são transmitidos a milhares de quilômetros. Tocamos nas telas dos computadores e eles nos obedecem. Carregamos nossos livros, músicas e fotos em dispositivos móveis do tamanho e diâmetro de um cartão de crédito. Mais recentemente, nossos computadores ficaram reduzidos a uma tela brilhante de cristal líquido: os “tablets”. Em tudo isso e mais um pouco, habita a alma de Steve Jobs.



Ontem Jobs saiu de cena. Tentou manter-se ativo até muito próximo de seu fim. Lutou durante anos contra um câncer. Morreu como todo mundo tem que morrer um dia. Mas estava longe de ser uma pessoa comum. Seus “brinquedos” invadiram nossa vida de tal forma que não nos damos conta da sua importância, tal a trivialidade de um jovem ouvindo seu Ipod ou de alguém usando um Iphone


Mas quero destacar dois pontos com relação a morte de Steve Jobs, afinal, meu olhar teima em pensar a morte boa parte do tempo...claro...cumpro a assertiva de Norbert Elias quando afirmava que “a morte é um problema dos vivos”. Não deixa assim de chamar a atenção como os admiradores de Steve tem deixado mensagens usando seus perfis nas redes sociais. Podemos dizer sem medo de cometer equívoco que milhares e milhares de pessoas estão enlutadas porque Steve Jobs morreu.








A internet tornou-se um veículo natural para que expressemos nossas paixões, indignações, inclinações políticas, condutas sexuais, interesses de consumo. Com a percepção e elaboração da morte não é diferente. Volta e meia nos perfis das redes nos deparamos com mensagens de luto, com pessoas que trocam suas fotos por sinalizações de suas perdas, colocando a velha faixa que ficava presa na lapela agora estendida virtualmente nas imagens e mensagens. Qual o objetivo? Talvez o mesmo de antes. Expressar coletivamente a dor e receber apoio por isso, diminuir a sensação de solidão que a morte provoca afinal, morrer é a ação solitária mais coletiva que existe no campo de nossa experiência prática.


Outra coisa que chama a atenção nas homenagens a Steve Jobs é como seus inventos agora passam a ser utilizados como veículos de expressão da dor e da celebração da memória. Em muitos lugares foram deixados Iphones e Ipads com a imagem de Jobs ornada com flores reais e mensagens de pesar. Em passado próximo, usávamos imagens esculpidas  do morto, depois desenhos ou fotos. Agora, estamos mesclando artefatos tecnológicos com símbolos tradicionais de pesar. Parece que algumas coisas mudam para permaneçam exaltando e satisfazendo as mesmas necessidades.








Mas quero destacar algo que passa desapercebido nas centenas de obituários de Jobs que teimam em destacar seu papel de gênio inventor e visionário mas que se omitem em conjecturar sobre os possíveis motivadores da tal genialidade de Jobs. Em 2005 Steve Jobs foi chamado para fazer um discurso na formatura de alunos da Universidade de Stanford. O discurso, (veja vídeo no final deste post), segue a linha tradicional dos discursos de formatura: fala de sacrifício, exorta os jovens a buscarem seus sonhos, compartilha da própria biografia como um fator motivador para quem vai começar a trilhar a própria estrada. Mas existe algo em sua fala que foge ao padrão. Em discursos de formatura não ouvimos ninguém falar sobre a morte. Pois foi justamente o que Jobs fez:


“Quando eu tinha 17 anos, eu li uma citação mais ou menos assim: “Se você viver cada dia como se fosse o último, algum dia provavelmente você vai acertar”. Aquilo me impressionou, e desde então, nos últimos 33 anos, eu tenho olhado no espelho cada manhã e perguntado a mim mesmo: “Se hoje fosse o último dia da minha vida, eu ia querer fazer o que eu vou fazer hoje?” E sempre que a resposta foi “Não” por vários dias seguidos, eu soube que eu tinha que mudar alguma coisa.


Aqui vemos o quanto pensar na morte parece meio que nos redirecionar para os sentidos que vamos dando ou construindo para nossas vidas. Trilhar a existência como se todo o dia fosse o último faz com que possamos nos questionar cotidianamente em busca de uma vida mais livre e plena, nos transforma em críticos mais severos do próprio caminho que vamos trilhando.


“Lembrar que eu logo vou estar morto é a ferramenta mais importante que eu já encontrei pra me ajudar a fazer grandes escolhas na vida. Porque quase tudo – toda a expectativa exterior, todo o orgulho, todo o medo de dificuldades ou falhas – estas coisas simplesmente somem em face da morte, deixando apenas o que é realmente importante. Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de achar que você tem algo a perder. Você já está nu. Não há razão para não seguir seu coração.


Impossível não pensar em Montaigne quando nos dizia que perder o medo da morte nos torna livre de toda a sujeição. Jobs alerta que diante da condição de finitude estamos nus. Com essa metáfora afirma nossa vulnerabildiade diante da vida e, se assim é, para que ter medo de coisas tão pequenas? Ter que morrer um dia deveria nos livrar do fardo das convenções. Elas simplesmente desaparecem diante de tudo o que a morte pode representar em nossas vidas pois lembrar diuturnamente que não mais estaremos aqui nos impulsiona a buscar as boas escolhas, percebendo o quanto o nosso tempo de fato é precioso!


“Ninguém quer morrer. Mesmo as pessoas que querem ir para o céu não querem morrer pra chegar lá. E mesmo assim, a morte é o destino que todos nós compartilhamos. Ninguém nunca escapou a ela. E é como deveria ser, porque a Morte é muito provavelmente a melhor invenção da Vida. É o agente de mudança da Vida. Ela tira o velho do caminho pra dar espaço pro novo. Por enquanto o novo são vocês, mas algum dia não muito distante, vocês gradualmente vão se tornar os velhos e sair do caminho. Me desculpe por ser tão dramático, mas é totalmente verdade. Seu tempo é limitado, então não gaste vivendo a vida de outra pessoa. Não caia na armadilha do dogma – que é viver com os resultados do pensamento de outra pessoa. Não deixe o ruído da opinião alheia sufocar sua voz interior. E mais importante, tenha coragem de seguir seu coração e sua intuição. Eles de alguma forma já sabem o que você realmente quer se tornar. Tudo o mais é secundário.”





Pessoas como Jobs sempre existiram. Outros virão. Mas talvez possamos ter encontrado um dos segredos que existe por detrás dos produtos tecnológicos que ele criou. O que está por trás da insistência, da perseverança? O que existe por trás da busca constante por excelência? Alguns diriam que pessoas como Jobs nunca deixam de ser crianças na medida em que ainda se vêem presos a uma forma de pensamento mágico que instila a fantasia e comete o atrevimento de torná-la em parte realidade. Mas, junto a essa “criança” existe algo mais. A morte, semelhante a lenda budista, pousava todos os dias nos ombros de Jobs e lhe perguntava se ele estava preparado para ouvir seu trinar. Como ele nos ensinou, isso pode ser o grande impulsionador não só para fazer tablets, mas também para sermos mais felizes! 







sábado, 1 de outubro de 2011

Quando a idade significa proximidade da morte: um tempo limitado de prazeres? (Adriana Mendonça)













A morte não é a mesma para todos. Na velhice
ela é mais próxima, pois ao passar pela infância, adolescência,
idade adulta e um pouco da terceira idade, só há um final. No dia
primeiro de outubro comemora-se o dia internacional das pessoas
idosas. Essa data foi criada pela ONU (Organização das Nações
Unidas), então venho aqui nesse dia, refletir um pouco sobre a morte
para essas pessoas.





Por que quando o tempo for seu inimigo e as
linhas de expressão dominar sua face e sua vitalidade não for como
você gostaria, tudo que restará será bons momentos na memória? A
velhice é o fim? Ficará apenas a esperar o fatídico dia?





A morte do idoso começa com a memória, por
ser uma das primeiras coisas que sonda a morte, e traz aquele sentimento
de distância, de uma vida se esvaindo como um espiral se fechando.
Esse espiral é um símbolo recorrente para falar da morte na
terceira idade, pois é o “caminho” desde o nascimento até o
momento do fim, quando a espiral vai fechando e o caminho se
esgotando.










E a capacidade de escolha é influenciada pela
idade avançada? Não necessariamente precisa disso. Porém, hoje,
percebe-se que isso acontece com mais frequência que o contrário.
Pergunte-se por qual motivo um idoso não pode fazer uma escolha tão
radical quanto à de um jovem? Pelo fato de estar à espera da morte?
A boa morte vem daqueles que possuem uma boa vida, morrer faz parte
do viver. Chega um tempo em que a escolha é pequena, por exemplo,
escolher entre uma sopa ou um iogurte, ao mesmo tempo em que a morte
é a escolha que não se pode ter e quanto mais próximo dela se
parece estar, mais as demais escolhas não possuem mais aquela
importância. 
















A pessoa idosa muitas vezes é mal interpretada como depressiva pelo
fato de se negar a fazer coisas que antes adorava fazer ou que fazia
muito bem. O processo de despedida que pode ser confundido com
depressão. O estabelecimento das despedidas começa com a escolha do
distanciamento devido principalmente a lembrança que o mesmo traz.
Embora pareça cruel é assim que acontece e deve ser entendido como
um processo natural, simples e que é gerenciável. O que era um
estímulo em época que era recém-nascido parece uma despedida na
velhice. A pessoa nova procura conhecer, procurar aprender, procurar
criar a lembrança porque um dia ela vai se distanciar e vai lembrar.






Pessoas que chegam a uma idade mais avançada
ainda têm a chance de perder um ente querido que “deveria”
falecer após ela. Fica aquela dúvida no idoso: “Por que ele e não
eu?”, aquele sentimento de culpa por ter vivido mais e ainda estar
vivo enquanto comparado com a jovialidade do que partiu. É preciso
de força pra conseguir enxugar as lágrimas da saudade que vem bem
mais acentuada para quem não a aceita. É mais do que o vazio da
ausência, é o vazio de uma vida inteira se reduzindo a memórias.
Então grande maioria se deixa morrer. 









Julga-se um tempo limitado de prazeres,
enquanto na realidade pode-se viver em qualquer idade, mesmo que as
lembranças estejam na frente dos olhos quase os cegando. E fica a
dúvida: O que é a morte? Apenas um desligar, um apagão? Outro
caminho? O fim de um sofrimento? O encontro com outro que já partiu?