Já dizia Otto Lara Resende, "o mineiro é solidário no câncer". E isso, por incrível que pareça, foi uma máxima moral válida durante algum tempo nesse país, não só para os mineiros, mas para todos nós, os brasileiros. Disse "Foi", pois pelo menos é o que parece. Ela deixou de ser quando o personagem atingido pelo câncer é o ex-presidente dessa república, Luís Inácio "Lula" da Silva.
O fato de o Lula ter desenvolvido um câncer - agora especulado pela mídia em todas as suas dimensões, da etiologia ao prognóstico, desenvolveu junto com ele uma relativização dessa norma moral. Se algum dia não foi incomum os inimigos políticos se abraçarem e praticarem o perdão mútuo quando um dos adversários se tornava moribundo, ou um dos lados dar por satisfeita a vitória quando o outro lado era tocado por alguma desgraça, especialmente o câncer. Se algum dia o Rei de Troia pode entrar no acampamento do inimigo para recolher o corpo do filho morto e ninguém o tocou, pois estava de luto. Se a doença por causas desconhecidas, como o câncer, teve um profundo poder de despertar solidariedade nas pessoas, hoje, isso certamente mudou.
Há uma reviravolta moral, ou talvez até mesmo de perturbação mental, que faz com que algumas pessoas aproveitem o momento nosológico para comemorarem uma punição divina, como a nêmesis dos gregos: aquele que não foi atingido pela justiça dos homens, será atingido pela justiça divina. Cito Erasmo Ruiz (no facebook):
No entanto, não quero discutir aqui se Lula é merecedor - fruto de alguma nêmesis ou consequência dos hábitos de vida - de um câncer ou não, se ele fez ou não um bom governo, se foi ou não eleito pelos nordestinos, se tem ou não a possibilidade de ser eleito novamente, se devemos ser solidários ou não com ele pelo fato de ter câncer. Quero sim, discutir um único ponto: um discurso que ecoa:
"Lula deveria ser atendido pelo SUS".
Isso sim é intrigante, principalmente quando o significado mais comum para essa sentença é algo do tipo:
"Lula deveria ser atendido pelo SUS, para que possa ser penalizado".
Isso leva a equacionar "ser atendido pelo SUS" com "ser penalizado", e sugere que ter um câncer não é mais uma penalização, ou não é uma penalização suficiente, o que poderia dar um significado mais extensional à sentença como:
"Lula deveria ser atendido pelo SUS, para que possa ser penalizado, uma vez que ter câncer não é uma pena suficiente".
Esse Lula deve ter feito algo de muito errado para merecer tal pena. Mas, que penalização seria essa? O que significa "ser atendido pelo SUS"?
A princípio, não deve ser algo bom, pois li no perfil de vários profissionais do SUS uma confissão de sadismo que apregoa "ser atendido pelo SUS" como "ter seu sofrimento aumentado e sua dignidade prejudicada". O SUS não é uma entidade metafísica à parte das ações cotidianas de cada profissional, político, usuário que o compõe. O atendimento do SUS é aquele que os profissionais que nele trabalham ministram. Assim, quando leio essa confissão de sadismo, imagino que o SUS seja, realmente, um bom lugar para punir as pessoas.
Contudo, nem só de sadismo vivem as confissões acerca do SUS. Li, também no facebook, no perfil da Maria Goretti Maciel a seguinte declaração:
Isso quer dizer que o SUS pode ser também um lugar acolhedor, que respeita a dignidade do moribundo e alivia sua dor e sofrimento. E, como o SUS é feito por seus trabalhadores, do mesmo jeito que há esses sádicos assumidos, há também quem aposte na qualidade, na atenção, na solidariedade, no profissionalismo. Nessa perspectiva, "ser atendido pelo SUS" não pode ser compreendido como uma punição, mas como uma forma de acolhimento. A sentença ficaria assim:
"Lula deveria ser atendido pelo SUS, para que possa ser acolhido, uma vez que ter câncer traz muito sofrimento e precisa de tratamento adequado".
É essa postura que nós da Thanatos procuramos desenvolver. Não importa quem seja o moribundo, o vemos como um ser humano, portador de direitos e merecedor de nossas melhores habilidades e empenho no acolhimento de sua história, no alívio de sua dor e controle dos sintomas. Pois, sabemos que há coisas que não nos compete julgar, por mais que queiramos e estejamos inclinados a fazê-lo.
Com base nisso, também quero dizer, reforçando o que Maria Goretti Maciel disse:
Lula deveria ser atendido pelo SUS




