terça-feira, 24 de julho de 2012

Morte: Desalento e Humanidade (Erasmo Ruiz)









Todo mundo morre. Afirmativa aparentemente banal, se expressa
 como uma das raras verdades absolutas. Ninguém
duvida que morrerá um dia. Aprendemos essa lição desde a mais tenra infância.






Entretanto, saber que morreremos  não parece livrar-nos do temor sobre o que
acontecerá quando morrermos, seja pelas inúmeras possibilidades que se
apresentam (morrer com dor, violentamente, repentinamente, serenamente etc),
como sobre o que virá, ou não, depois que morrermos.  A morte é a senhora do desconhecimento.





Ainda assim, ela parece irmanar os homens pelo que provoca.
Precisamos de rituais para oferecer sentidos a algo que parece não ter sentido,
nas palavras de Goethe, uma impossibilidade que de repente acontece. O vazio
deixado pela morte precisa ser de alguma forma preenchido, nem que
parcialmente, pela fé de que o fim não é absoluto, pelas elegias que divinizam
a vida comum do morto, pelo remoer da memória que afirma ao mundo que aquela
vida valeu a pena ser vivida.





Quando agimos dessa forma, ao que parece, falamos ao mundo
como se olhássemos um espelho na esperança de que farão  mesmo quando partirmos. Talvez a dor maior
não seja a morte do corpo  mas a sensação
de que a lembrança do que  fomos um dia
se perderá no limbo da memória dos que ficam, como no poema de Manuel Bandeira
intitulado “A Morte Absoluta”, que no final depois de tantas mortes da
identidade do morto se interroga sobre o nome que o tempo apagou de um túmulo.





A morte nos solidariza com todos. É nessa dor meio sem nome,
mas que todos parecem ser capazes de sentir,  que podemos trilhar mais facilmente os elos
que ligam nossa humanidade a humanidade de outros homens. Nesse momento milhões
de seres humanos sofrem intensamente inúmeras perdas. A maior parte delas
parece não nos dizer respeito. Mas basta aproximar um pouco o olhar para nos
percebermos ali, mesmo que estejamos a milhares de quilômetros.





No início do sec. XVII o poeta  John Donne nos avisava que nenhum homem é uma
ilha que se isola em si mesmo. Pelo contrário, ele é parte de um continente.
Caso um pedaço dessa terra seja levado pelo mar, os homens que ficam sentem-se
diminuídos. Por isso afirma que a morte de qualquer homem o diminui porque ele faz
parte do gênero humano. Por isso, “Não perguntes por quem os sinos dobram, eles
dobram por ti.”





Em meios a tantas mortes, essa semana me senti diminuído
pelas tristes imagens do que acontece na Síria, pela morte do publicitário abordado
pela polícia, a criança de dois anos espancada e morta no automóvel pelo
próprio pai, mais alguns moradores de rua 
chacinados por gente que não os percebe como seres humanos e assim agem
como monstros, enfim, em meio a tantas mortes deparei-me com uma imagem que
encarnava o desalento.





Estamos acostumados a ver os atores de cinema como seres
paradoxalmente próximos porém inatingíveis. Inconscientemente nosso psiquismo
se desenvolveu buscando parte dos seus atributos de poder e beleza. Raramente os
percebemos de fato como são, seres humanos por trás dos personagens que
representam.  Assim, ao ver o ator
Sylvester Stallone debruçado por sobre o caixão do filho, não vi Rock muito menos Rambo. Vi um ser humano imerso em profunda dor simbolicamente
beijando o esquife como se beijasse a fronte do filho.





Neste instante, minha alma
diminuiu de tamanho...ficou microscópica e vulnerável. Era eu ali chorando a
intensa dor da perda de um filho. Era eu ali a perguntar sobre o sentido que a
vida tem e porque não havia sido levado no lugar dele. Era eu pensando que
talvez um dia magicamente aquela ruptura pudesse ser recomposta e assim poder
beijar e abraçar o que parecia irremediavelmente perdido.





Os homens estão absortos no movimento intenso da vida. Um
torvelinho demarcado por rotinas e desejos de prazer marcam nossos passos a tal
ponto que nos esquecemos da efemeridade da vida. A morte nos lembra que tudo é
transitório e reveste de amplo sentido o tocar e o amar, o cheirar e o ouvir.
Mesmo que diminuídos, ficamos mais alertas para crescermos diante dos
verdadeiros tesouros que a vida pode proporcionar.


quinta-feira, 19 de abril de 2012

"Entre a Vida e a Morte": Reflexões a Partir de um Documentário da BBC (Erasmo Ruiz)

BETWEEN LIFE AND DEATH

Construir um documentário não é uma tarefa fácil. O primeiro engodo que se pode incorrer é a idéia de que, não sendo uma peça ficcional,o documentário sempre mostraria a "verdade" e, dessa forma, ganha quase de imediato a credibilidade pela forma como "tece" suas imagens. Ora, sabemos das inúmeras mentiras que podem ser urdidas a partir do que se faz numa ilha de edição.Este não é o caso do documentário "Entre a Vida e a Morte" produzido pela BBC.





Nele somos todos levados aos corredores e salas de cirurgia do Hospital de Addenbrooke em Cambridge (Reino Unido), um centro avançado em neurocirurgia e reabilitação. Lá nos deparamos como o drama de três famílias que tiveram seus entes queridos envolvidos em graves acidentes e estão entre a vida e a morte. Duas pessoas conseguirão manter suas vidas mas com grave comprometimento neurológico. Uma irá morrer.



Por 50 minutos adentramos nos dilemas bioéticos produzidos por tecnologias e práticas  que cada vez mais são capazes de manter a vida ao mesmo tempo em que recolocam em novos patamares problemáticas como a autonomia dos pacientes e formas de assistência que podem respeita-la bem como  manejar as problemáticas psicossociais trazidas pelos familiares.



Entre as cenas de vulnerabilidade dos pacientes nos são apresentados vídeos domésticos onde os vemos felizes e saudáveis antes dos acidentes. Dessa forma, somos forçados a nos perguntar de imediato: e se essa pessoa fosse meu irmão, como estaria me comportando? Caso ele estivesse consciente e diante de um quadro de severas perdas e solicitace pela suspensão do tratamento, eu respeitaria sua decisão mesmo que respaldada pelos profissionais de saúde? E seu estivesse nessa situação, desejaria morrer?



Como bem salientou Ayala Gurgel agora a pouco no seu perfil facebook, ao assistir o documentário não há como não pensar no trabalho de profissionais como a Dra Maria Goretti Maciel. Quem sabe um dia o trabalho do Hospital de Adenbrooke seja a norma em saúde. Estaremos então produzindo uma síntese harmônica entre os saberes do passado que hegemonicamente respeitavam a vontade do moribundo junto a todo um complexo arcabouço de conhecimentos colocados  a serviço do exercício dessa autonomia aqui e agora, inclusive como elemento fundamental para superação da vulnerabilidade extrema.



Quando acabamos de assistir ao documentário, entre tantas reflexões parecem ficar duas fortes marcas. A primeira é de que o avanço da ciência cria uma interface "cinza" entre a vida e a morte que parece se ampliar mais e mais, o que exige uma permanente crítica dos critérios utilizados para definir qual seria, caso a caso, a hora de cessar intervenções que ao invés de trazer esperança, a sufoca em meio a dor e sofrimentos desnecessários. A segunda é que havendo qualquer possibilidade para se exercitar a autonomia do paciente, mesmo  em situações onde a comunicação fique muito precarizada,  é um imperativo ético busca-la e prioriza-la.



Abaixo você poderá assistir o documentário diretamente aqui no blog da Thanatos



quinta-feira, 29 de março de 2012

As Frases Mortais de Millôr Fernandes (Erasmo Ruiz)



Ao saber da morte de Millôr Fernandes veio-me imediatamente a ideia de que homens como ele nao morrem, são como os livros que escreve, apenas mudam de página. Eu sei que é um pensamento consolador como tantos outros que temos diante da morte. Mas a arte tem essa espécie de dom, cria uma aura de magia ao afimar a pretensão de que as obras de um grande artista adquiriram o estatuto de “eternidade”. Não tenho dúvida que este é o caso de Millôr Fernandes.


 Apesar deste blog ser sobre a morte, não queria escrever um obtuário de Millôr pois já apareceram muitos, alguns excelentes. Também não proporei discussões em torno de falsas dicotomias: "era Millor um humorista escritor ou um escritor humorista?". Pensei em destacar de Millor o aspecto em que ele era mais genial, suas frases! E já que nesse blog não existe  tabu com relação a morte, o que ele nos dizia sobre ela?


Antes, uma advertência do Millôr: “Fiquem tranquilos os poderosos que tem medo de nós: nenhum humorista atira para matar”. Eu completaria dizendo que, apesar disso, Millôr poderia nos matar de rir. Por exemplo, quando se referia implicitamente sobre a morte ele avisa: “O otimista não sabe o que o espera” já que “o cadáver é que é o produto final. Nós somos apenas a matéria prima.”


De um sarcasmo a toda prova, Millor refletia o tempo todo sobre a vida. Colocou em prática a assertiva dos romanos que já avisavam que rindo satirizamos os costumes. Ah, e como ele nos fazia rir, tendo até nosso maior objeto de temor como combustível para a piada. E “profeticamente” antevendo a própria morte ele dizia que “quando eu morrer só acreditarei na sinceridade de uma homenagem - o agente funerário não cobrar o enterro”.


E ele tinha razão. Sabemos o quanto podemos aumentar de maneira suspeita o que os mortos eram e acrescentar virtudes que nunca tiveram: "A ocasião em que a inteligência do homem mais cresce, sua bondade alcanlça limites insuspeitados e seu caráter uma pureza inimaginável é nas primeiras 24 horas depois de sua morte".


Na vida, segundo Millôr, viramos cópias pois “todo homem nasce origuinal e morre plágio”. E quanta coisa há para se fazer entre esses dois pontos. Millor acreditava em Deus. Mas sua crença era como seu humor, irônica e sarcástica. Em conversa com Deus ele diz: “Sabemos que VOCÊ, aí de cima, não tem mais como evitar o nascimento e a morte. Mas não pode, pelo menos, melhorar um pouco o intervalo?”.


Maldita liberdade essa a qual estamos condenados já que a “morte é compulsória mas a vida não!”. Somos livres para atuar nesse intervalo entre nascer e morrer e todos desejamos por alguma velhice. Ainda assim, para Millôr, existe vantagem em se morrer jovem: “a única vantagem de se morrer moço é que economizamos a velhice”.


Millôr era um mestre do humor fino. Alguém que olhava o cotidiano e era capaz de fazer piada da conversa do liquidificador com o fogão. A piada sempre esteve diante de nós, mas só Millôr era capaz de vê-la. Um exímio jogador das palavras. E diante da morte, ri e nos faz rir ao contatar “que o dedo do destino não tem impressão digital”,


Sigamos então mais uma vez os conselhos dos romanos que nos avisam para aproveitarmos bem o dia até porque, como reforça a maxíma de Millôr , “um dia, mais dia menos dia, acaba o dia-a-dia”.


Finalizando, para aqueles que tem um medo imobilizador da morte, Millôr teria deixado algumas sinalizações que podem ser alentadoras ou, com certeza, revestir a tragédia com alguma graça: “a morte é dramática, o enterro cômico e os parentes ridículos”. Quanto a este escritor de blogs, vou seguindo adiante tentando aproveitar o máximo pois “estou jurado de morte, mas continuo cheio de vida!”.


domingo, 25 de março de 2012

Chico Anysio: a autonomia e a distanásia (Ayala Gurgel)



"Eu não tenho medo da morte, tenho pena de morrer". Com esse mote, Francisco Anysio Paula Filho, o Chico Anysio, tornou autorizado o debate sobre os procedimentos médicos em torno de sua morte e a questão da autonomia e respeito à vontade soberana do moribundo.





A frase, dita em meio a uma entrevista logo depois que ele tinha se recuperado de 110 dias de internação, dos quais 78 em UTI, foi levada bastante a sério por médicos e familiares nos episódios clínicos seguintes. E não deveria?





Por um aspecto, eminentemente teórico, a assistência ao ator de 82 anos caracteriza uma prática obstinada de procedimentos distanásicos: uma terceira internação (22 de dezembro de 2011) com quadro clínico apresentando hemorragia digestiva seguida de pneumonia, falência renal e dependência tecnológica de ventilação mecânica, vindo de uma internação prolongada (110 dias em decorrência de dificuldade aguda respiratória culminando em uma angioplastia) e outra de 22 dias com infecção urinária, cuja alta foi revertida logo em seguida. O resultado, por mais desejado que não fosse, contradizia o esperado: parada cardiorrespiratória e falência múltipla
dos órgãos decorrente de choque séptico causado por infecção pulmonar.



Os médicos já sabiam de sua terminalidade, se não antes, no início de janeiro quando retiraram a ventilação mecânica e houve piora do quadro, submetendo-o a novos procedimentos invasivos e inúteis (lapartotomia exploradora para saber os motivos de sangramento intestinal) e hemodiálise. Esse quadro, graças às drogas, apresentou melhora ao custo de danos irreparáveis em seu sistema imunológico global, culminando em retorno da pneumonia e da dependência de ventilação mecânica, cuja consequência inevitável e iminente seria a morte.



Contudo, essa ciência não foi suficiente para afastar qualquer possibilidade menos invasiva e distanásica de tratamento. A insistência em manter os procedimentos abusivos foi reforçada e mantida até o final (especialmente as sessões de hemodiálise), quando, em 21 de março de 2012, o quadro clínico apresentava queda
da pressão arterial e falência dos rins, e na tarde de 23 de março, a morte.



Existem alternativas a esse paradigma assistencial, que segundo alguns é mantido por três elementos básicos:


  1. a subjetividade médica (o orgulho, a ideia de morte como fracasso, uma ideia equivocada de esperança e o paternalismo hipocrático);

  2. o despreparo acadêmico (muitos profissionais estão desatualizados nas questões éticas, humanistas e paliativistas); e,

  3. a empresa médica (esses procedimentos geram muitos lucros, não só sociais, mas especialmente econômicos)


Contudo, a composição teórica que apresenta esse quadro como uma prática distanásica pode encontrar algumas dificuldades, aos moldes da Bioética principialista norte-americana, especialmente quando encontramos uma manifestação explícita do paciente autorizando qualquer prática que lhe salve a vida.



Vejamos algumas razões que justificariam a distanásia que foi praticada em seu caso:




  1. O ator creditava à oração do povo o motivo de sua recuperação. Não tinha sido o trabalho da equipe médica, mas Deus quem o salvara. E esse não poderia fazê-lo novamente, em internações futuras? O mesmo povo que foi atendido uma vez, não poderia ser atendido novamente?

  2. O ator manifestou o desejo de viver até os 100 anos, pois isso satisfaria o sonho de ver os seus netos crescidos;

  3. O ator e seus familiares acreditavam em uma potencialidade médica de reverter o quadro clínico e prolongar a vida, bem como desejavam isso para si;

  4. O arrependimento pela escolha de ser fumante durante anos justificaria agora as ações terapêuticas para apagar um erro do passado;

  5. O ator declarava ter problemas psiquiátricos e que era acompanhado há 18 anos para cuidar de uma depressão, o que poderia ser agravado diante da informação de que era paciente terminal, sem possibilidades terapêuticas de cura e que morreria em breve.


A pergunta que colocamos é: essas foram mesmo as condições consideradas para se praticar o que foi feito ou estão apenas em um contexto de justificativa? O fato de um paciente manifestar certos desejos e vontades  distanásicos, bem como apresentar certos riscos psiquiátricos, são fortes o suficiente para não apresentarmos alternativas paliativistas? Devemos considerar tão soberana a sua vontade nesses casos, especialmente quando não a consideramos em outros? Foram dadas essas alternativas? Chegou-se a falar em cuidados paliativos para o ator e seus familiares?



Outras questões: o luto que a família do ator, e seus fãs, enfrentam agora, não poderia ter sido mais amenizado se houvesse uma fala mais honesta sobre a terminalidade dele? Essa forma de morte permitiu ao ator e seus familiares realizarem os seus rituais de despedidas? A morte do ator é uma consequência de uma escolha (ser fumante) e a forma de sua morte é uma consequência de suas crenças na medicina e em uma força salvífica sem limite, isso não pode agravar as reações ao "fracasso terapêutico" que era esperado?





As questões em torno da morte e do morrer não são as mais fáceis e não envolvem apenas subjetividades ou procedimentos técnicos; envolvem todas as industrias capitalistas existentes, das empresas médicas à indústria cultural. Afinal, o que seria melhor para um ícone da globo: definhar como um moribundo em sua casa ou morrer às escondidas em uma UTI?





para ler mais sobre Chico Anysio, acesse: http://pt.wikipedia.org/wiki/Chico_Anysio

segunda-feira, 19 de março de 2012

A Morte Está Proibida: Sucupira é na Itália (Erasmo Ruiz)





Imagine se você pudesse ir para um lugar em que simplesmente a morte não acontecesse. Como nos ensinou o mestre Saramago em "As Intermitências da Morte", um mundo onde a morte não existisse seria completamente inviável pois ela produz impactos na vida social e econômica que mal imaginamos.  E os aspectos existenciais? Caso não pudéssemos mais morrer milhares de pessoas ficariam presas a uma distanásia sem fim com o tempo "congelado" no ápice de suas agonias.







Na cidade Italiana de Falciano de Massico morrer tornou-se ILEGAL. Isso mesmo. O prefeito da cidade emitiu um decreto proibindo a população de partir dessa para melhor, de bater as botas e de ver o capim pela raiz. Nessa simpática cidadezinha italiana a 50 kms de Nápoles, os cidadãos não podem ir para o além!



Alguém então diria. Como esse prefeito se arvora  a ter uma atitude divina? Calma. A proibição só vai durar até que a cidade construa seu novo cemitério. A cidade de Falciano dividia o cemitério com outra cidade que passa hoje por uma explosão demográfica, não a cidade e sim o cemitério. Como as cidades não entraram em um acordo sobre como expandir o espaço do cemitério, o prefeito de Falciano decretou que as mortes não podem mais ocorrer!



Óbvio dizer que o prefeito fez apenas uma provocação. Queria chamar  a atenção de todos para que o problema fosse resolvido. Lembrei-me imediatamente de uma deliciosa novela de Dias Gosmes do início dos anos 70 chamada "O Bem Amado" que posteriormente virou mini-série e mais recentemente um filme estrelado por Marco Nanini.







Na novela o personagem central, o prefeito Odorico Paraguassu (brilhantemente interpretado pelo saudoso Paulo Gracindo) comanda a pequena cidade de Sucupira. É um populista do pior tipo. Inescrupuloso, é capaz das piores armações para conseguir o que deseja. Na verdade, Odorico é uma mistura perversa de tudo o que o país tem de pior na sua classe política, mas com pintadas de sarcasmo e bom humor que tornam o personagem rigorosamente irresistível.





Toda trama da novela se articula em torno da construção do cemitério da cidade, obra ansiada ha muito anos já que os moradores eram enterrados em  outra localidade. Pois bem. No momento em que o cemitério fica pronto, ninguém mais morre para que a obra seja inaugurada. Isso coloca em xeque o futuro político de Odorico. Seguem-se inúmeras situações hilárias!



Esperamos que quando o problema da falta de espaço no cemitério de Falciano de Massico for resolvido existam novos moradores para que a obra possa ser inaugurada. Caso não, talvez uma nova Sucupira com seu respectivo Odorico renasça na Itália.





Discurso de Odorico Paragassu em "O Bem Amado" (1973)



A propósito. Até o momento dois moradores desobedeceram o decreto do prefeito mas não há notícias de que tenham sido punidos.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Eutanásia e Morte (In)digna: Campanha Publicitária Transforma Candidatos Presidenciais em Moribundos (Erasmo Ruiz)





Na França existe uma combativa organização cuja sigla é ADMD (Associação pelo Direito de Morrer Dignamente),  que defende a legaliização da prática da eutanásia. Nos últimos dias lançou uma campanha onde apresenta candidatos franceses a presidência da república em instigantes montagens fotográficas representados como pacientes moribundos. No anúncio uma pergunta é feita: "Senhor Candidato. Devemos coloca-lo em tal situação para que mude seu posicionamento sobre a eutanásia?". Os anúncios ainda instigam os franceses para que não sejam roubados em sua última expressão de liberdade.







O debate sobre a legalização da prática da eutanásia é interminável. No entanto, nas últimas décadas,parece ter ganho espaço a perspectiva de alguma forma de regulamentação de uma prática que se sabe existir com maior ou menor visibilidade em muitos serviços de saúde. Alias, este é um forte argumento para aqueles que defendem a regulamentação da eutanásia,qual seja, a ausência de regras claramente postas faz com que pacientes possam estar sendo mortos sem critério algum, de maneira clandestina e indigna.



Muitos defenderão a ideia de que o próprio ato da eutanásia é indigno por si mesmo pois o homem que e requer não seria em ultima instância proprietário de seu corpo e sua vida, seja porque pertenceria à alguma entidade metafísica, seja porque a vida individual deve se submeter aos ditames do interesse coletivo.



Outros defenderão o princípio da dignidade no sentido de fruição daquilo que a vida pode nos dar de bom e belo, nossa capacidade de fruir o gosto e o cheiro das coisas, nossa necessidade de apreciar um quadro de Monet ou um belo por de sol, nossa alegria em maximizar prazer e assim se afastar de toda dor e sofrimento. Por este argumento, a dor é sempre inimiga da beleza e diante das vicissitudes do sofrimento, seja físico e/ou psíquico, é correto abreviar o caminho, buscar um atalho e morrer longe de tudo o que causa desconforto.



Mas e se a dor e o sofrimento puderem ser manejados de forma adequada? E se existirem técnologias que possam trazer o máximo de conforto possível em situações onde isso pareceria improvável? Haveria a necessidade de garantir legislações para que as pessoas pudessem fugir dos tratamentos fúteis, dos terapeutas obstinados, dos labirintos indecifráveis de exames médicos desnecessários quando se está perto de sair de cena? Muitos paliativistas são contra a eutanásia por acharem que o cuidado paliativo é a resposta ao grito de desespero motivado pelo medo do sofrimento provocado por trabalhadores de saúde e familiares bem intencionados que podem não nos deixar morrer em paz.



Imaginando a história humana, as vezes a vejo como um túnel onde centenas de gerações marcham por um longo e árduo caminho que parece nos conduzir a uma luta feroz e até genocida em nome de um conceito abstrato aparecido pela primeira vez escrita em uma tábua de argila datada de mais de 5000 anos de idade: LIBERDADE!



Das pirâmides para as galés romanas passando pelas muralhas de Cosntantinopla às "plantations" de cana de açúcar e chegando à barbárie dos campos de concentração, os homens querem ser LIVRES! E para tal, afirmam o tempo todo que são humanos em suas múltiplas possibilidades e diferenças. Talvez em futuro próximo se descubra que o último espaço a ser conquistado são os limites insondáveis dos nossos corpos.  Talvez assim se chegue a uma solução para a eutanásia. Caso sejamos de fato donos de nossas vidas, este seria um bem tão precioso que não pode ser reduzida a algo que se perde de forma tão banal mas que também deve ser mantida com prazer, alegria e dignidade.



Quando a publicidade da ADMD coloca as imagens de políticos a beira da morte não é apenas a busca de suas empatias com o tema que se acaba conquistando. Um olhar um pouco mais arguto também poderá se ver nessas imagens. Todos nós um dia poderemos estar em camas de hospitais a espera da morte. O quanto do nosso sofrimento será suportável? Teremos diante de nós possibilidades claramente asseguradas de que esse sofrimento poderá ser minimizado? Mas ainda assim não teríamos o direito de sair um pouco ante de cena já que o "filme" não agrada mais? Temos ou devemos ter a posse definitiva do que se convernciona chamar de vida pessoal? Caso a resposta seja sim, então poderemos disponibilizar de nossas vidas da foma como desejarmos.



São muitas perguntas. Temos a difícil tarefa de construir respostas que se transformem em ações práticas! E só faremos isso na medida em que formos mais empáticos com quem está morrendo, seja pela busca da legalização da eutanásia, seja pela difusão de práticas paliativistas.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Os Maiores Arrependimentos dos Moribundos (Erasmo Ruiz)

THE TOP FIVE REGRETS OF THE DYING: A Life Transformed by the Dearly Departing by Bronnie Ware





Uma enfermeira paliativista chamada Bronnie Ware, que faz aconselhamento com pessoas nos seus últimos meses de vida, escreveu recentemente um livro intitulado "The Top Five Regrets of the Dying". Bronnie afirma algo aparentemente óbvio mas que a maioria de nós - por não sabermos e/ou não querermos lidar com a morte - tendemos a passar ao largo: podemos aprender muito com as pessoas que estão morrendo pois elas apresentam precisa clareza de pensamento crítico sobre o que foi a sua vida e, o mais importante para quem fica, como essa vida poderia ter sido melhor vivida.





Em reportagem ao jornal "The Guardian" Bronnie afirma: "Quando questionados sobre desejos e arrependimentos, alguns temas comuns surgiam repetidamente". Foi com base nesses depoimentos que a enfermeira chegou ao seu "Top Five" do arrependimento. Vamos à lista:







1) Eu gostaria de viver a vida que eu quisesse e não a vida que as pessoas esperavam que eu vivesse.  Esse foi o arrependimento mais comum. Bronnie encontra repetidamente nas falas coletadas a percepção de que quando chegamos ao final da vida e olhamos para trás percebemos uma lista de sonhos não vividos e que grande parte disso aconteceu em função de decisões que foram tomadas pelas próprias pessoas. Por ais que invoquemos as determinações sociais do que somos, em momentos chave podemos exercer nossas escolhas e assim seremos constituídos pelo peso de nossas decisões.





2) Eu gostaria de não tr tabalhado tanto. Fala detectada principalmente entre os homens que no final da vida perceberam que o tempo investido no trabalho lhes roubou maior contato com os filhos e parceiras. Em muitas circustãncias do cotidiano não podemos estar na escola para levar o trazer nossos filhos, não assisitmos o desenho animado favorito dele. Nãos nos lembramos de datas significativas como o casamento ou o aniversário de quem amamos. star no limiar da morte parece nos cobrar sobre tudo isso. 





3)Eu queria ter tido a coragem de expressar meus sentimentos. O arrependimento centra-se na percepção de que para ficar em paz com os outros as pessoas optaram por não expressar com clareza seus sentimentos o que evou a uma existência medíocre, não se tornando de fato o que eles queriam ou poderiam ser. Bronnie identifica a constituição de percepções amarguradas da vida, o que pode ter sido a raiz de muitos problemas de saúde, incluso aqueles que estão levando a pessoa a morte.





4) Eu gostaria de ter ficado mais em contato com meus amigos. A percepção do final da vida trouxe em questão a importância dos velhos e fiéis amigos, do quanto o contato com eles era banalizado pelo cotidiano. Muitos dos que participaram dos depoimentos ficaram tão envolvidos com a própria vida que abandonaram suas amizades. Aqui fica clara a percepção do quanto a solidão pode tornar mais angustiante a perspectiva da morte.





5) Eu gostaria de ter me permitido ser mais feliz.  Aqui Bronnie destaca  que o problema central é a pessoa estar presa a velhos hábitos, ao conforto relativo de tudo o que parece ser familiar. Para ser feliz muitas vezes precisamos estar abertos a mudanças. O trágico é perceber isso no final da vida junto a constatação de que não há mais tempo para mudar as consequências de certas escolhas ou mesmo de na verdade não as ter feito.





Claro que inúmeras críticas poderiam se feitas a este trabalho. Por exempo, ele não traria a clara marca de uma sociedade que vivencia o extremos do desenvolvimento capitalista e toda suas consequências na criação de pessoas cada vez mais individualistas, que aprenderam que uma existência só pode ser significada a partir de tudo o que pode ser obtido no emprego/trabalho? 





Vejo com nitidez aquilo que o psicanalista Erick Fromm identificou um dia lá pelos anos 50 e 60 como as consequências psicológicas da alienação no sentido marxista: vidas embasadas mais no "ter" do que no "ser", que vão construindo a apoteose da busca da riqueza financeira pela riqueza, exacerbando uma estética do individualismo e buscando sentido das coisas de uma forma externa a própria coisa. Ou seja, não importaria tantos o trabalho que se faz mas sim o dinheiro que se obtêm por ele. Não importa mais que eu sou mas sim o que posso comprar e consumir. 





Entretanto, existiriam culturas onde esse arrependimento mudasse o seu prisma? Ou, melhor dizendo, o que entendemos como arrependimento mudaria no exame das muitas culturas ou mesmo nas inúmeras diferenças regionais, de classe social ou espaços urbanos? Existe aqui o velho problema de se reduzir fenômenos complexos ao reino das tipologias como se elas pudessem dar conta de explicar e entender os inúmeros projetos de hominização. 





 Mas pensando na minha própria experiência, de tudo que já presenciei, li e ouvi, creio que existe muito sentido nas falas reveladas pelo livro de Bronnie Ware.  No final da vida, ao que parece, as pessoas sentem o peso insuportável de uma existência onde a liberdade de ser foi secundarizada ou mesmo tenha sido percebida como inexistente. E isso em sociedades que o tempo todo afirmam feito um mantra de que promovem a liberdade e que seus partícipes são livres. 





Estar vivendo os momentos finais parece nos tornar mais sedentos de uma existência livre. Talvez por isso Montaigne tenha afirmado um dia que aquele que tenha perdido o medo de morrer tenha de fato perdido o medo de toda e qualquer sujeição. A consciência mais plena da morte nos alerta que existir é a árdua e prazerosa tarefa de sermos nós mesmos.







domingo, 8 de janeiro de 2012

A Superação da Dor da Perda: "Vento no Litoral" de Renato Russo (Ney Ronaldy de Oliveira Paula)

Renato, em sua música Vento no Litoral, nos mostra a dor de quem sofre por não ter mais a pessoa que tanto gostava por perto. As lembranças, os planos... Tudo isto é quebrado por um fim antes do programado. Este é o problema. Temos a idéia de ter tudo planejado. E a morte não está em nossos planos. 


Tentamos esquecê-la. Deixamo-la de lado. O inesperado encontro com o inevitável. E quando nos deparamos com essa realidade presente em nossas vidas, não sabemos ao certo o que fazer. Perdemos o rumo. Envolvemo-nos em dor e angústia.
Para isso é que as palavras de Renato Russo apontam o caminho para a amenização do sofrimento.






"Eu deixo a onda me acertar

E o vento vai levando

Tudo embora…"




O vento, as ondas, a linha do horizonte... Todos em busca de mostrar que o sofrimento pode ser convertido em bom saudosismo. Saber que você já viveu tudo aquilo revela-nos que tudo valeu a pena e ainda valerá. As experiências passadas nos apontam que vale a pena viver as futuras.




"E quando vejo o mar

Existe algo que diz

Que a vida continua

E se entregar é uma bobagem…"





A bobagem de entregar a vida... Afinal, ainda temos muito que viver mesmo para aqueles com vidas desenganadas por médicos, que ouviram dizer que não passarão de uma semana... Para todos, a vida, sim, não vale ser entregue. Há de sabermos aproveitá-la. Este deve ser o objetivo de todos. Aproveitá-la com quem nos fazem felizes e, caso aconteça algo em nossa caminhada, que possamos saber que foi escolhido o que realmente importa.




"Lembra que o plano

Era ficarmos bem…"


O plano é esse. Sermos felizes. Fazer o que nos traz alegria. "Carpe diem"! Nossos dias são estes. Não haverá mais um 08/01/2012 para contarmos. O que fazemos de nossas vidas é o que podemos levar de nossas experiências. E até isso não se fica. Mas o plano... Sempre seguir em frente.




"Agimos certo sem querer

Foi só o tempo que errou"





O inesperado, presente em nossas vidas, muda rumos, e o tempo parece ser o maior vilão quando percebemos que não se pode mais voltar e reescrever nossa história. E isso nos faz refletirmos a respeito de que devemos escolher sempre o melhor para nós, para que não nos arrependamos. Quantos domingos em família nós não abdicamos para passar horas e horas nos dedicando ao trabalho?




Quantas sextas-feiras não saímos com nosso amor para uma noite romântica a fim de uma reunião interminável sobre um tema mais chato do que você poderia imaginar? Uma filha sem o pai devido este estar atolado no trabalho em busca do melhor para sua filha quando, na realidade, o melhor para ela era somente a presença dele do seu lado?




Quantos “me desculpe” não são pronunciados por egocentrismo e orgulho, quando, muitas vezes, estas palavras fazem um bem danado para quem as ouve e, talvez bem mais, para quem as fala?
Por esta música, o vocalista da Legião nos mostra a dificuldade de superar uma perda inestimável. Para isso, a de se seguir em frente, aproveitar nossas vidas, não deixando para descobrir o quanto elas são preciosas só no final, pois o que queremos é ser sempre felizes.




Não deixar para o final as coisas boas, pois o final pode ser agora. "Carpe diem" a todos!


Ney Ronaldy de Oliveira Paula