domingo, 7 de novembro de 2010

Morte e Imortalidade Na MItologia Grega: Sibila de Cumas (José Jackson Coelho Sampaio)



Entre as 10 grandes profetizas da antiguidade grega, sempre se destacou a Sibila de Cumas. Nascida em Éritras, na Jônia, numa caverna do monte Córico, de pai humano e mãe ninfa, a jovem, desde o nascimento, demonstrou possuir, com muita competência, o dom da profecia. 




Competência e originalidade, pois sempre formulava suas profecias em versos e as registrava. Acompanhando o sol da cultura grega, que já se afastava do leste do Mediterrâneo e se deslocava para a península itálica, ainda jovem a Sibila mudou-se para Cumas, cidade do litoral da Campânia, ao sul de Nápoles.
            Em Cumas a profetiza cresceu em feitos e fama até ser cognominada de Deífoba, isto é, semelhante às deusas. Conta-se que ela levou Enéias, príncipe troiano, para visitar Anquises, seu pai recentemente morto, nos territórios de Hades. Conta-se que ela foi ao rei romano Tarquínio, o Soberbo, no século VI aC para lhe oferecer, por um preço altíssimo, nove livros de suas profecias organizadas, mas o rei barganhou e ela destruiu três livros, re-ofertando os seis restantes pelo mesmo preço, o rei barganhou novamente e ela destruiu mais três livros, re-ofertando os três últimos pelo mesmo preço original. O rei, desesperado, comprou os três Livros Sibilinos restantes pelo preço que, no início, pagaria os nove. Conta-se que o original destes livros foi destruído no século I aC e que suas últimas cópias desapareceram no século V dC. Assim a Sibila de Cumas teria vivido, no mínimo, da Guerra de Tróia ao período dos sete Reis Romanos. O poeta Virgílio conta que a Sibila de Cumas profetizou o advento do triste deus cristão, aquele que é traído, agoniza, morre, ressuscita e inventa o pecado e a culpa. O que explicaria tanta longevidade?
            Em Cumas é que Apolo, o deus das profecias, a procura, a encontra, não esconde a admiração e a deseja. Mas, mesmo sabendo-se amada por Apolo, a Sibila se sabia humana, sujeita ao envelhecimento e à morte, e que seria mais um caso na parábola do deus. Ela então escolhe ser a sumo-sacerdotisa do deus, não a amante do deus e pede a ele um dom: diante do deus ela toma, no côvado das mãos, toda a areia de praia que pode segurar e diz querer viver tantos anos quantos grãos de areia houver ali. O deus não discute: será muito bom para ele tê-la por mais tempo, cuidando de seus templos, falando por ele para ajudar estes loucos humanos, enfrentando os estranhos novos tempos que pareciam estar na soleira. O deus não discute e lhe concede nove vidas de 110 anos, a medida mais longeva da vida humana, isto é, lhe concede 990 anos de vida. Este número representa o símbolo de uma longevidade mítica.
            Mas a Sibila esquecera um detalhe, detalhe de todo indiferente ao deus. Sibila não pede a permanência da juventude e então ela encolhe, emurchece, transforma a pele num pregueado de lama esturricada. Somente os olhos e a voz permanecem potentes. Conta-se que, para que o vento não a carregue e os animais domésticos não a devorem, ela é posta dentro de uma gaiola, ser de crostas escuras, mãos encarquilhadas, uma cigarra vinda das profundezas da terra e do tempo e que continua, com seus olhos potentes, a compreender o mundo e, com sua voz potente, a antecipar as sinas. Todos, em volta, morrem. Só a Sibila de Cumas não morre. Cem anos, trezentos anos, oitocentos anos, até a dor já passou além da dor, e a Sibila de Cumas não morre. 
            Conta Ovídio que, nas noites quentes da Campânia, as crianças ouviam a voz potente lamentar sua longa e velha vida. E as crianças, em algazarra, perguntavam: Sibila, o que anseias? E, em meio aos mais pungentes lamentos, a voz sussurrava, cava,: Ah, eu, anseio morrer.


sábado, 6 de novembro de 2010

Morte e Imortalidade Na MItologia Grega: Asclépio (José Jackson Coelho Sampaio)



O deus Apolo amava Corônis, neta da musa Érato. Mas Corônis preferiu ser amante de um mortal, que envelheceria com ela, do que amante de um deus que a abandonaria, logo surgissem as marcas mortais do envelhecimento. 




Um corvo branco foi informar esta traição a Apolo que o flechou, para todo sempre enegrecendo-o, e depois, com as mesmas flechas, matou Corônis, incendiando-a, imolando-a pelo fogo. De seu útero em chamas, Apolo resgatou o filho, semi-divino, nos seus seis meses de gestação, ao qual deu o nome de Asclépio. Este filho, nascido das brasas da escolha materna pela mortalidade humana, foi entregue ao Centauro Quíron para ser criado e este o educou nas artes da cura, na descoberta dos lugares adequados para uma vida saudável, na preparação de ervas para os tratamentos, na identificação das águas para os banhos propiciatórios e no mistério dos elixires extraídos do sangue da Górgona.
            A fama de Asclépio correu mundo e ele estabeleceu um culto próprio, para que a força das crenças na mente impulsionasse as vontades; um sistema de formação de curadores, assim multiplicando multiplicadores de seus próprios dons; outro sistema de serviços de cura, em articulação com os esportes para a movimentação do corpo e em articulação com as artes para que a tragédia, a comédia e a poesia estimulassem a inteligência e a criatividade. Asclépio promovia a saúde, prevenia e tratava doenças, inventava ungüentos, bálsamos, elixires e estilos de vida. Mas, um dia, alcançada a excelência no seu nível, desejou muito mais, desejou contrapor-se diretamente a Hades, surrupiando-lhe mortos, e começou a ressuscitar.
            Zeus, furioso com a ousadia, pediu aos Cíclopes a preparação de um raio especial e com ele fulminou Asclépio. Apolo, pai furioso, fiel à memória divina de um grande amor mortal, mata os Cíclopes que haviam forjado o raio. Depois, culpado, responsável, disposto a restabelecer a hierarquia e a governabilidade do Olimpo, oferece a Zeus uma expiação: com a aparência humana, servirá, como pastor, ao jovem rei Admeto, filho de Feres. A tragédia está sempre à espreita destas promiscuidades entre deuses e humanos e Apolo, ao perceber que Admeto morrerá muito cedo, embriaga as Moiras, as encarregadas do trânsito dos corpos mortais ao Hades, e elas, confusas e fascinadas pelos poderes do deus, aceitam levar outra pessoa no lugar de Admeto. A noiva de Admeto, Alceste, oferece-se para a troca. Mas então, para Admeto, impõe-se morrer ou viver sem seu amor, outra forma de morte. Apolo encontra uma solução, quando chama Héracles para lutar com as Moiras, na condição de, se Héracles vencesse, as Moiras voltariam para Hades de mãos abanando, sem a colheita daquele dia. Héracles venceu e Apolo decidiu que era hora de voltar ao Olimpo, pois cada decisão sua, no mundo dos humanos, envolto na simpatia que eles despertavam, estava sempre fadada a mudar tragicamente algum curso das coisas.
            É interessante acompanhar as bifurcações da estória de Asclépio, desde que sai da Tessália e ganha o mundo grego, um mundo que nos deixa de herança, como pensa Nietzsche, duas grandes vertentes culturais: aquela denominada apolínea, da ordem, da clareza, do pensamento, da razão, da consciência, e aquela denominada dionisíaca, da revolução, da obscuridade, da imaginação, do irracional, do inconsciente. Asclépio integra-se nas duas vertentes, quando também é incorporado aos ritos místicos e mágicos de Elêusis, primitivos, iniciáticos, dionisíacos.
            Mas, voltando ao caminho principal, Apolo retorna ao Olimpo e consagra a memória e as cinzas de Asclépio como terapêuticas, estabelecendo, definitivamente, as regras de seu culto, que se espalhará pelo Mediterrâneo, pelas Cíclades, com centro em Delos, pela Attica, com centro na lateral sul da Acrópole de Atenas, entre os montes e os ventos de Epidauro, onde se estabelece o festival anual denominado Epidauria. A imortalidade de Asclépio se faz no céu, como constelação de estrelas, a Constelação de Ofiúco. A imortalidade de Asclépio também se faz na terra: a arte da Medicina nasceu, em nome de Apolo, de Asclépio, de suas filhas, Higéia (condição de saúde) e Panacéia (capacidade de cura), e de um cajado em torno do qual uma serpente repousa e nos observa, sibilante, com fármacos no gume dos dentes.
            E hoje, novamente, introduzimos nossas digitais eletrônicas na engenharia genética e ousamos ressuscitar. É possível prever que outros castigos se avizinhem e, desta vez, não haverá apenas um semi-deus para atrair os raios ciclópicos e ser destruído em nosso lugar: seremos todos dizimados... Talvez?


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Morte e Imortalidade Na MItologia Grega: Tântalo (José Jackson Coelho Sampaio)



Pelas milhares de estórias entrecruzadas da Mitologia Grega, deduz-se o tríptico das grandes reivindicações humanas: o domínio do conhecimento, a auto-suficiência sexual e a imortalidade. 




Os deuses nos tiram a capacidade de produzir conhecimento e transformá-lo em incremento das condições de vida, mas Prometeu nos ampara com  o domínio do fogo, a idade do bronze, a ciência e a tecnologia. Como castigo pelo domínio do fogo, os deuses nos tiram a auto-suficiência sexual primitiva, macho e fêmea nos separando e criando a confusão dos desejos nunca simétricos, biunívocos, mas Dafne e Cloé, dois adolescentes da ilha de Lesbos, inventam o amor humano, restituindo-nos à indivisibilidade, por meio do amor, então de partes separadas, tornamo-nos um. Mas, em torno da imortalidade, os castigos são inúmeros e violentos, exponencialmente crescentes, em troca das mínimas e provisórias vitórias.
            Assim também temos a estória de Tântalo, um humano filho de Zeus com a ninfa Plouto, esposo de Hipodâmia, pai de Pélops, Níobe, Atreu e Tiestes, também de Crisipo, com outra ninfa, filho querido, porém bastardo diante dos olhos e das vinganças de Hipodâmia. Rei da Lídia, ele foi cumulado pelo pai divino com todas as possibilidades da prosperidade. Considerado o mais rico de todos os humanos, ele foi admitido nos banquetes e conselhos dos deuses. Porém sua lealdade estava com os seres humanos e mentia, trapaceava, roubava para favorecê-los. Na saída dos banquetes, Tântalo sempre furtava néctar e ambrosia do Olimpo para dar aos humanos, a fim de que se tornassem imortais.
            Os deuses sabiam, mas nada podiam fazer. Afinal, ele era filho de Zeus. O Grande Olímpico percebia, mas espreitava, aguardava pretextos, sabia do desequilibrado orgulho humano e esperava. Tântalo haveria de construir a própria armadilha, os deuses nada perderiam por esperar. Então Tântalo decidiu emular a Lídia com o Olimpo e convidou os deuses para um banquete em seu palácio.
            O que mais Tântalo desejava testar nos deuses era a onisciência, a capacidade de tudo saber e prever. Resolveu mandar ferver em caldeirão o próprio filho, o primogênito Pélops, e ofereceu-o, em tempero de louro, orégano e alecrim, como o prato principal do banquete. A descuidada Deméter, preocupada com outros assuntos, ainda mordeu-lhe um ombro, mas Zeus percebeu a tempo: fez Pélops retornar à vida, deu-lhe um novo ombro, uma prótese de marfim, decretou a imediata morte de Tântalo e seu envio a Hades. Mais ainda, prescreveu-lhe o castigo da eterna sede, da eterna fome e da eterna insegurança. Colocou-o numa área encantada, sobre a qual, toda vez que ele forcejasse os limites, o monte Sípilo ameaçasse desabar e, sob a sombra deste monte, destinou fontes de água e uvas: as águas abundantes imediatamente secavam quando delas Tântalo aproximava a sua boca sedenta; as uvas abundantes imediatamente desapareciam no ar quando delas Tântalo aproximava a sua boca faminta. Carência, sede e fome, onde havia antes o dom da prosperidade e onde jorram os frutos da abundância, eis o castigo terrível.


Continua em próxima postagem


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Morte e Imortalidade na Mitologia Grega: Endimião (José Jackson Coelho Sampaio)

         
  Também herdeiro de Prometeu, Deucalião e Heleno, nasce Endimião de Cálice, uma das mais felizes filhas de Éolo. Considerado o mais belo dos homens sobre a terra, tornou-se o primeiro rei bucólico da Élida. Forte e sereno, impetuoso e gentil, vitorioso nos esportes e nas caçadas, sensual e amoroso, o jovem rei somente não se sentia à vontade nos afazeres do governo.




            E sua beleza mortal atraiu Apolo em uma de suas encarnações humanas. O deus, sob forma de jovem caçador, apareceu no palácio da Élida e pediu pouso, assumindo assim o papel de viajante visitante, sujeito aos direitos e deveres da hospitalidade. Entre Apolo humanizado e o rei Endimião foi se tecendo um forte vínculo, primeiro pelos ritos da hospitalidade, depois pela admiração derivada dos feitos nas caçadas, em seguida pelas tramas do carinho entre homens jovens e livres e belos, por fim se impôs o desejo e o amor. Eles se amaram com intensidade e constância, mas o deus tinha outros ingentes afazeres e o tempo marcava o mortal, reduzindo-lhe, ou tornando opaco, o esplendor juvenil. O deus se afasta.
            Mas antes de se afastar, ele entretém com Endimião longas conversas, demoradas e esclarecedoras confidências, e oferece-lhe um dom. Endimião pede a imortalidade da própria beleza e juventude. Para quem é imortal, a imortalidade é uma característica dada, não uma conquista, resultante de alguma luta ou mérito. Apolo diz se é o que rei quer, o rei terá, e, em seguida, ainda sob forma humana, se afasta pelos campos.  O rei da Élida percebe que as maturações de seu corpo estacionaram, mas que um certo langor, uma preguiça, uma sonolência deixam cada vez mais seus músculos lassos, reduzem cada vez mais sua vontade de governar, tomar decisões, julgar, premiar, punir.
            Endimião renuncia ao trono e deixa que os filhos decidam a sucessão numa corrida de carros. Seu espírito sensível concebe e oferece uma última regra: que a corrida seja aberta a outros, caçadores, guerreiros, não seja restrita aos filhos. Um estrangeiro ganha a corrida e a geração de Éolo perde o reino da Élida. Mas Endimião já não presenciou o desenrolar destes acontecimentos: saíra pela estrada, com sua roupa de caça, suas sandálias, seu alforje de flechas, na mesma direção pela qual partira seu amor, apenas revelado no final como o deus Apolo. Ao entardecer, à entrada de uma das frescas e secas cavernas do monte Latmos, Endimião se recolhe e adormece, para nunca mais acordar.
            Sim, os deuses são traiçoeiros. A imortalidade, mantidas a eterna juventude e a beleza, tinha um preço, o da vida em metabolismo basal. O sangue corre nas veias, os pulmões, suavemente, respiram, o coração, mais suavemente ainda, pulsa, porém com o corpo imóvel e a consciência fora da queima dos carvões da vigília, reduzida à prontidão onírica. Naquela caverna do monte Latmos, jaz Endimião e pelo arco do céu, como faz diariamente, Selene, a deusa Lua, passa com seu carro de luz fria e azul. O foco da luz azul encontra o corpo de Endimião e o averigua. Selene se encanta. Selene se apaixona. Jamais vira o esplendor da beleza em perfeito repouso. Jamais vira a beleza humana em seu esplendor. Ela toma os freios do carro lunar, pela primeira vez, e desce à terra. E enquanto ela contempla o jovem adormecido, a terra fica um tempo sem o brilho mortiço do luar.
            Após a amorosa contemplação, Selene se decide. Pelo menos uma vez por mês estacionará o carro da lua ao lado do monte Latmos e, suave, sutil, felina, deitará ao lado do ápice da beleza humana masculina. Os seres humanos compreenderão e podem inventar seus pequenos simulacros de lua para amenizar os períodos noturnos de escuridão. O mais formoso de todos está dormindo, mas vive, o corpo é levemente morno, o ar evola das narinas como brisa delicada, o sexo vez por outra intumesce e solta sêmem sobre a grama. Selene não tolera este desperdício de sêmem. Aconchega-se ao belo adormecido, assenta-se sobre seu membro viril e, nas noites sem luar, engendra filhos. Passividade onírica e fértil: eósforos, fósforos, hésperos, ninfas do amanhecer, ninfas do entardecer, faíscas de pedras, pirilampos, fogos fátuos, faíscas orgânicas de coisas mortas em putrefação. O poeta Homero contou a descendência destes pequenos fogos fugidios, todos filhos de Selene e Endimião. As contas do poeta chegaram a dez mil possibilidades. Pelo menos ganhamos estes simulacros de luz, além daqueles derivados de nossa humana oficina criativa.



Continua em próxima postagem

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Aprendendo a Morrer Com Mário Quintana (Erasmo Ruiz)





Continuo a insistir: a poesia é um dos poucos redutos onde podemos aprender um pouco da arte de morrer. Não isso que vemos na TV, as mortes cenográficas, dolorosas, dramáticas. Nem a morte que vemos nos hospitais, os abandonos nos quartos, o lidar com o corpo vivo porém morto à vida num leito de UTI.



Falo de preparação, não como uma espera ansiosa mas que tematiza o morrer como algo que expressa também o meu viver para que ele seja mais intenso, porque sabemos agora focar o existente como seu real valor de singularidade e beleza. E quem nos ajuda a (re)encontrar esse valor é a percepção de que a morte faz parte do viver.



Hoje falaremos de Mario Quintana. Para mim este poeta gaucho tem a virtude de tornar pesada uma pena e leve um cofre de banco. Mostra sutilezas e complexidades ocultas naquilo que vemos todos os dias e que aprendemos a não "ver" mais. Mario Quintal extrai ouro daquilo que nos acostumamos a chamar de banalidade..



Quintana falou muito sobre a morte, fez inclusive piada dela ao nos lembra que “A morte é a libertação total: a morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos”. Então, não temos mais que nos preocupar com o fato dos lençóis ficarem sujos com a terra do nosso calçado, aliás, talvez a morte seja isso mesmo, a ausência total das preocupações e, por isso, exercício pleno de uma liberdade que não se exercita..



Quintana pode ser um ótimo companheiro de jornada se quisermos discutir a morte. Recomendo essa discussão a todos e, particularmente, aos trabalhadores de saúde já que eles, muito provavelmente, cuidarão do nosso morrer. A questão é: como estão cuidando hoje em dia? Minha resposta é afirmar que o cuidar não pode estar reduzido a mera monitoração de sinais clínicos, de um corpo reduzido a suas funções biológicas. As pessoas a beira da morte perdem a singularidade, se transformam em massas biológicas a beira da dissolução. Nós somos muito mais do que isso!



O morrer grita pelo exercício de outras necessidades: expressa os quereres especialmente reservados para o fim da vida, pela simples razão qie são percebidas como sinais da despedida do mundo e de tudo que amamos. Assim, quando formos falar de morte nos hospitais, por que não pensarmos em Mario Quintana? Vejam por exemplo este soneto:



Minha Morte Nasceu...

Mário Quintana para Moysés Vellinho



Minha Morte nasceu quando eu nasci

Despertou, balbuciou, cresceu comigo

E dançamos de roda ao luar amigo

Na pequenina rua em que vivi



Já não tem aquele jeito antigo

De rir que, ai de mim, também perdi

Mas inda agora a estou sentindo aqui

grave e boa a escutar o que lhe digo



Tu que és minha doce prometida

Nem sei quando serão nossas bodas

Se hoje mesmo...ou no fim de longa vida



E as horas lá se vão loucas ou tristes

Mas é tão bom em meio as horas todas

Pensar em ti, saber que tu existes



(Fonte: QUINTANA, Mário Poesia Completa. Rio de Janeiro:Nova Aguilar; 2005)





Quanta leveza para um tema costumeiramente denso e amedrontador...a morte como um ente que nos acompanha desde o nascimento....como uma namorada de infância com quem um dia, cedo ou tarde, nos casaremos. Já utilizei este poema para estimular trabalhadores de saúde em rodas para tematizarem as suas experiências pessoais com a morte, suas primeiras lembranças. O resultado foi muito bom. As pessoas trouxeram recordações, expressaram lutos mal elaborados, produziram ligações com as experiências de morte vividas no cotidiano.



Como todo tabu, depois que percebemos que não haverá necessariamente punições por quebra-lo, a porta se escancara e as pessoas meio que perdem o medo, pelo menos de falar, e percebem que o medo da morte e do morrer que as deixa tão vulneráveis, na verdade é o medo de todos. Assim, nos tornamos fortes quando percebemos que o medo é algo que pertence ao mundo, elemento que tipifica a condição humana.



Mas Quintana tem mais a nos dizer:



Este quarto



Este quarto de enfermo, tão deserto

de tudo, pois nem livros eu já leio

e a própria vida eu a deixei no meio

como um romance que ficasse aberto...



Que me importa este quarto, em que desperto

como se despertasse em quarto alheio?

Eu olho é o céu! Imensamente perto,

o céu que me descansa como um seio.



Pois só o céu é que está perto, sim,

tão perto e tão amigo que parece

um grande olhar azul pousado em mim.



A morte deveria ser assim:

um céu que pouco a pouco anoitecesse

e a gente nem soubesse que era o fim..."



(Fonte: QUINTANA, Mário Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; 2005)



Aqui Mario Quintana apresenta a percepção da morte por quem está morrendo ou, pelo menos, uma idealização do que ela deveria ser. O olhar do moribundo parece expressar esperança nas promessas de um céu que significa descanso, o fim das dores e sofrimento. Compara a morte a este mesmo céu que a semelhança do dia, cede espaço para a noite inexorável, um manto que nos cobre e nos livra da ansiedade de saber que é o fim. Novamente, uma bela metáfora da morte que nos afasta das representações terríveis e dolorosas.



A partir dessa leitura as pessoas podem ser estimuladas a falar das experiências que vivem nos hospitais, no cotidiano do trabaho, podem compartilhar os sentidos que tem dado a morte, as percepções do que seriam a mortes dolorosas (física e psiquicamente) e como poderiam atuar para minimizar a dor e vulnerabilidade de pacientes e familiares.



Vamos terminando por aqui, encerrando da melhor maneira possível, claro, com Mário Quintana:



INSCRIÇÃO PARA UM PORTÃO DE CEMITÉRIO



Na mesma pedra se encontram,

Conforme o povo traduz,

Quando se nasce - uma estrela,

Quando se morre - uma cruz.

Mas quantos que aqui repousam

Hão de emendar-nos assim:

"Ponham-me a cruz no princípio...

E a luz da estrela no fim!"


Morte e Imortalidade na Mitologia Grega: Sísifo (José Jackson Coelho Sampaio)



Sinto que tenho ido a funerais, nos últimos anos, mais do que poderia. Sinto que tenho discutido sobre a morte e o morrer, mais do que gostaria, com os colegas que estudam Tanatologia e com os que pesquisam a ocorrência do homicídio ou do suicídio. Então, quando o cenho franze, as comissuras labiais se aprofundam e o olhar, além de seco, fica muito vago, reaparece um velho escape: a fantasia. 




Mas, nos labirintos da mente, a memória de mortos queridos surpreende, nos aparentemente fugazes lampejos da poesia expressam-se os balanços existenciais com seus deves e seus haveres, e a Mitologia Grega, bem, esta castiga aos que almejam a imortalidade. E seguindo estes passos tortuosos da fantasia, sem metas e sem garantias, percorri as estórias seguintes.




SÍSIFO
Na transição entre os deuses e os humanos surgem os Titãs, e um deles, Prometeu, adota o crescimento e a libertação dos humanos como sua missão. Além disso, dele descendem inúmeras linhagens de mortais, como a de Sísifo, filho de Éolo, por sua vez filho de Heleno, nascido de Deucalião, primogênito de Prometeu.
            Um Titã não era imortal, mas Prometeu, depois de todas as ações de apoio aos humanos e de sofrer extraordinários castigos infligidos por Zeus, obteve, do cansado e contemplativo Centauro Quíron, o dom da própria imortalidade. Quíron, filosoficamente, abdicou de sua condição de imortal, transferindo-a a Prometeu, também num ato de desafio a Zeus. Dos incêndios de Faetonte e dos dilúvios de Zeus, Deucalião nos salva. Heleno foi a matriz de todos os gregos. Com o mundo apaziguado e os humanos adubando as sementes da civilização, Éolo reinou, com sabedoria, por muitos e muitos anos, na Tessália, mas ele gerou reis trágicos, vagantes como os ventos e condenados a perecer nas mãos de seus sucessores.  Entre seus filhos, nasce Sísifo, com suas espertezas, seus dribles na morte e seu posterior castigo, burocraticamente repetitivo, tedioso e banal.
            Sísifo não recebeu o dom da imortalidade de qualquer amigo imortal que dela tenha abdicado, como foi o caso de Prometeu. Sísifo não ganhou a imortalidade de presente de um deus, em nome do amor e do prazer correspondido, como acontecerá com seu sobrinho Endimião. Sísifo também não ganhou a imortalidade como presente de um deus satisfeito com maravilhosos serviços prestados, no caso exemplar da Sibila de Cumas. Sísifo trapaceou com o Hades alguns anos a mais de vida: esperteza de curto prazo a ser purgada pela eternidade.
            Sísifo, filho de Tântalo, fundou a cidade de Corinto, no istmo do Peloponeso, a falsa ilha de Pélops, e ali cultivou o vasto território da esperteza, enfrentando e ganhando de deuses e de filho de deuses. Certa feita, ele venceu as artimanhas de Autólico, filho do deus Hermes, que mudava a cor do gado que roubava para não serem reconhecidos pelos proprietários. Sísifo marcou os cascos de suas reses e assim conseguiu identificá-las e recuperá-las.
            Ousando desafiar a condição humana, naquilo que nos faz fundamentalmente diferentes dos deuses, Sísifo encurralou com malícias e aprisionou por muito tempo o próprio senhor do mundo ínfero, do mundo dos mortos, o deus Hades. E por todo este tempo nenhum ser humano morreu, até que Zeus descobriu o que houvera e instruiu o deus Ares a libertar Hades que, vingativo, mata Sísifo. Mas nosso herói, no momento da morte, recomenda à sua esposa Mérope que se esqueça dele, isto é, que esqueça de prestar-lhe os devidos funerais e deixe seu corpo insepulto. Com o argumento de ser necessário e imperioso punir a esposa por tal desfeita, tamanho ultraje, Sísifo, queixando-se amargamente, consegue de Hades a autorização para re-viver, por apenas o mínimo tempo necessário à exemplação de Mérope.
            Percebendo-se vivo, Sísifo celebra com a esposa a esperteza dos dois e não volta para Hades. Driblador da morte, ele vai permanecendo entre os vivos, refém das delícias e dos achaques da vida, até o inevitável declínio da velhice sonolenta, na fronteira da demência e da inutilidade. Hades recebe o velho Sísifo com absoluta frieza, nada move seus músculos divinos, nada trai seus desígnios divinos. Uma tarefa estava reservada ao velho driblador, ao arqui-manhoso: rolar uma pedra redonda e pesada até ao alto de uma montanha íngreme, do topo da qual sempre cai, e então rolá-la novamente morro acima... outra vez.... mais outra vez... sem variar o ritmo... moto perpétuo.
            Hermes não puniu Sísifo pela vitória sobre Autólico: deve ter soltado boas gargalhadas no Olimpo. Mas, pela pequeníssima vitória sobre a morte, que terror lhe foi imputado, sem drama, a frio, esforço vazio, rolar uma pedra pela eternidade. Nos nossos dias, invertemos o jogo: o castigo de Sísifo não vem depois da morte, na constante dinâmica de Deus ou do Diabo ou na perfeita pureza do Nada, mas, sim, durante a vida, nas condições da alienação universalizada e sutil, pois é no cotidiano do trabalho e de suas ausências que a pedra, sem musgo, rola sobre nossos músculos.


(continuará em próxima postagem)


terça-feira, 2 de novembro de 2010

O que Pensar no Dia de Finados? (Erasmo Ruiz)









A pergunta pode parecer desprovida de sentido, afinal, o nome do dia já nos alerta que devemos (ou deveríamos) celebrar a memória daqueles que já morreram.



A origem do dia de finados se perde no remoto passado do cristianismo. Durante séculos, os cristãos realizaram peregrinações aos túmulos daqueles que haviam morrido em martírio. Com o tempo desenvolveu-se a crença que a visita a estes túmulos favorecia a ocorrência de milagres. Mas o que acontecia à memória dos mortos comuns, aqueles que não haviam sido mortos pela sua fé? A maioria era relegada ao esquecimento.



Assim, em alguns momentos do ano, buscou-se celebrar um período onde os mortos comuns pudessem ser relembrados e serem objeto de intercessão dos fieis. A partir do século XI a Igreja incorpora oficialmente essas celebrações e é no século XIII que o 2 de novembro passa a ser comemorado logo após o dia de todos os santos (1 de novembro).



O que se percebe é que. nos últimos anos, essa data parece estar perdendo sua importância dada a transformação de hábitos e costumes impostos pela mercantilização da sociedade. Lembro-me que na minha infância (40 anos trás) as rádios tocavam música ambiente por todo o dia e as pessoas eram estimuladas a permanecerem em casa. Qualquer comportamento tido como mais extrovertido era recriminado pelos mais velhos. Meu imaginário foi povoado por histórias de punição divina daqueles que teimavam em achar que o dia dos mortos era um dia como outro qualquer.



Hoje, podemos ir ao cinema, passear no zoológico e alimentar os macacos sem culpa. A laicização da morte e o redesenho da sua inserção no profano pode fazer com que parte de nós passe o dia de hoje sem pensar na morte e no morrer.



Mas é neste ponto que peço mais a atenção de todos. Talvez o papel mais importante do dia de hoje não seja tanto a celebração da mermória dos mortos mas também nos lembrarmos de maneira inequívoca da nossa própria finitude. Em dias mais próximos ou distantes, seremos nós mesmos os "homenageados" neste dia. O que torna o dia de finados algo mais desalentador não é tanto o fato de ser um dia sobre a morte mas talvez o fato de que no dia específico sobre ela, parte de nós vai se esquecendo daqueles que nos precederam neste mundo.



O medo da morte esconderia então um medo maior, que sempre esteve ao lado do medo de morrer, o medo de ser esquecido. A conclusão é singela. Se quase todos não se lembram ou não sabem do nome de seus tataravós, significa dizer então que nossos tataranetos não saberão mais dos nossos nomes. Estará cumprida então a profecia do poema "Morte Absoluta" de Manoel Bandeira:



Morrer.

Morrer de corpo e de alma.

Completamente.



Morrer sem deixar o triste despojo da carne,

A exangue máscara de cera,

Cercada de flores,

Que apodrecerão – felizes! – num dia,

Banhada de lágrimas

Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.



Morrer sem deixar porventura uma alma errante...

A caminho do céu?

Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?



Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,

A lembrança de uma sombra

Em nenhum coração, em nenhum pensamento,

Em nenhuma epiderme.



Morrer tão completamente

Que um dia ao lerem o teu nome num papel

Perguntem: "Quem foi?..."



Morrer mais completamente ainda,

– Sem deixar sequer esse nome.



Podemos assim, tirar duas metas no "Dia de Finados". A primeira é que se lembrar daqueles que já partiram não traz necessariamente vida aos mortos mas a nós mesmos. Pode ser um dia em que demarcamos melhor as nossas individualidades e podemos perceber nossas virtudes e defeitos como parte da herança que nos foi legada. Celebrar a memória faz com que possamos nos olhar no espelho da história e, de forma mais diligente e consciente, buscar melhorar a própria imagem. A segunda é trazer à tona a percepção cristalina de que esse dia não pode ser percebido com indiferença, é trazer a morte para a equação da vida como algo que nos faz refletir sobre escolhas e caminhos. A morte nos lembra que a vida é preciosa demais para ser desperdiçada! Assim, no dia de finados, celebremos também a busca da plenitude da vida!

domingo, 17 de outubro de 2010

Thanatos no mundo





O blogue da THANATOS saúda seus mais de 50.000 acessos. Pessoas de todo o mundo que estão preocupadas com informação de qualidade acerca dos estudos e pesquisas sobre a morte e o morrer.
Se você quiser divulgar o seu trabalho sobre tanatologia, envie-nos um e-mail. Faça parte dessa comunidade virtual que cresce a cada dia, presente em três continentes.


O mapa abaixo dá uma ideia desse alcance (fonte: administradora do blogue):

















Brasil
 (9.217)




Estados Unidos
 (1.505)




Portugal
 (498)




Rússia
 (328)




Holanda
 (130)




Alemanha
 (106)




Ucrânia
 (100)




Japão
 (84)




Letônia
 (64)




Canadá
 (40)

terça-feira, 12 de outubro de 2010

O Convívio com a Morte no Exercício Profissional (Erasmo Ruiz)



O texto aqui apresentado é um resumo da exposição feita no 9o Congresso Brasileiro de Dor, realizado em Fortaleza entre 6 e 9 de outubro de 2010, durante o Simpósio Satélite de Cuidados Paliativos. A apresentação no formato "power point" pode ser vista acima.







Começamos nossa exposição convidando os presntes a refletirem sobre os dados da pesquisa da Revista "The Economist" sobre o índice de qualidade de morte onde o Brasil ocupava o 38o lugar, a frente apenas de Uganda e Índia. Concluimos que isso acontecia porque no Brasil se morria mau, principalmente pela forma que os pacientes moribundos eram assisitidos em correlação com a usência de uma rede efetiva de cuidados paliativos. Dados recentes sianlizam que o Brasil teria algo em tornod e 355 leitos para cuidados paliativos, número este claramente insuficiente.



Assim, parece que nosso convívio com a morte é caracterizado por comportamentos que afirmam sua negação, o que leva os pacientes a serem cuidados de forma inadequada. A consequência disso é a amplificação do sofrimento de pacientes e faamiliares bem como o desgaste físico e emocional dos profissionais de saúde. Foi enfatizado que isso não se dá necessariamnre porque as pessoas sejam perversas, muito pelo contrário.



Os profissionais aprendem a lidar com a morte apenas a partir da significação da dor de experiências negativas. No início de suas carreiras, ao estabelecerem vínculos afetivos com os pacientes, acabam perdendo muitos deles, um após o outro. Aqui utilizamos a metáforo da adolescente que vai perdendo seus parceiros afetivos. Com o passar do tempo não conseguirá mais estabelecer vinculações emocionais onde haja maior envolvimento por conta do medo da perda que fatalmente ocorrerá novamente.



Há que se buscar então uma nova forma de se lidar com a morte que se afaste de representações negativas de cunho belicista ("luta contra a morte", "enfrentamento da morte", "combate cintra a morte") por outras que vejam a morte como um aspecto da existência humana que devemos entender para produzirmos saúde e vida. As metáforas de "enfrentamento" são altamente frustrantes na medida em que nos coloca num falso jogo competitivo onde sempre perderemos a luta.



Na sua parte final a exposição avança para maneiras como abordar a problemática da morte nos serviços destacando para as necessidades de se mudar a ambiência da morte (necrotérios humanizados que permitam ambiente adequado e a realização de pre-velório), legitimação dos comportamentos de luto (crítica sobre a medicalização da dor e do sofrimento decorrentes das perdas já que estas expressões seriam naturais e não propriamente "doenças") e busca de alternativas para que os "ruídos" no entorno da morte possam ser trabalhados de maneira adequada no espaço institucional (formação de rodas de discussão onde os trabalhadores possam falar sobre o próprio sofrimento decocrrente da perda de pacientes bem como buscar soluções para tornar o trabalho no entorno da morte mais humanizado, construindo modificações na forma como é realizado).



Encerrando, buscamos enfatizar que em termos da vulnerabildiade e do sofrimento não existem diferenças entre pacientes e nós no papel de cuidadores. Ao mesmo tempo em que buscamos construir nossa felicidade, somos seres que também temos que aprender a lidar com perdas e com nossas vulnerabilidades. Essa problmemática é fundamental para todos os trabalhadores de saúde mas tem sua marca mais evidente no trabalhador médico que pode ser vítima do seu próprio narcisismo ao ser responsabilizado pela manutenção do bem mais importante para qualquer ser humano: a vida!. Ainda assim, acreditar ser um "super-herói" não muda a realidade de que os "herois" sofrem, envelhecem e morrem.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

9o Congresso Brasileiro de Dor: Simpósio Satélite Discute Cuidados Paliativos e a Convivência com a Morte





Desde 6 de outubro está sendo realizado em Fortaleza o 9o Congresso Brasileirto da Dor (9oCBDOR). Um painel vasto de muitos estudos , novas terapêuticas, utilização de práticas ancestrais (como a acumputura chinesa) e novos medicamentos que combatem a dor formam um amplo panorama de atividades que abrangem as muitas áreas e disciplinas profissionais que lidam com a temática.



Embora a presença de médicos seja majoritária, este ano, o congresso abriu suas portas também aos pacientes que tem participado de algumas atividades onde relatam seus sintomas, sofrimentos e trajetórias oferecendo um caráter mais sensível e humanizador a programações que normalmente enfatizam intensamente os conteúdos de ordem técnica.



Chama a atenção na grade de programação (que pode ser visualziada aqui)  atividades de cunho interdisciplinar ressaltando a importância de enfoques com olhares mais abrangestes pois a dor é um fenômeno que não pode ser reduzido apenas às suas manifestações biológicas.



Participarmos de um dos simpósios satelites intitulado de "Cuidados Paliativos", por sinal, muito concorrido. Tivemnos a grata satisfação de desfrutar da copanhia da Dra Inês Melo coodenadora do Serviço de Cuidados Paliativos do Hospital da UNIMED em Fiortaleza que expôs sobre o Tema "Cuidados Paliativos: Princípios Básicos", e também da Dra Judymara Lauzi Gozzani que expôs sobre a temática "Opioides e Cuidados Paliativos". Coube a nós, por fim, desenvolvermos o tema "O convívio com a Morte no Exercício Profissional".



Para breve postaremos uma síntese de nossa fala no 9o CBDOR

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

IV CONGRESSO INTERNACIONAL DE CUIDADOS PALIATIVOS (dia 07/10/10)



Abertura dos trabalhos no horário, com a sessão Encontros com o professor, distribuídos em três salas: auditório 01: Náusea e vômito em cuidados paliativos, com Veruska Menegattti Hatanaka, auditório 02: Hipodermóclise, com Eliete Azevedo, e auditório 03: Luto em cuidados paliativos (encontro da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia), com Maria Helena Franco., que, por sinal, foi a sala mais disputada.




Na sessão plenária, Lawrence Librach falou sobre as estratégias políticas usadas no Canadá para a construção de uma educação para os cuidados paliativos. Ele destacou aspectos gerais e outros particulares considerados importantes para a implementação dessas estratégias. Entre essas, consideradas muito importantes, estão as influências da sociedade atual (novas epidemias e tecnologias médicas, consumismo e acesso a informação) e micro-forças, dentre as quais o papel das lideranças e das instituições envolvidas com o projeto de cuidados paliativos.
Igualmente falou sobre sua experiência na construção do Temmy Latner Centre for Palliative Care, no Canadá, destacando-o como um processo articulado com essas forças e tendo que enfrentar dificuldades das mais diversas ordens, embora o tenha apresentado como um projeto sem volta. As dificuldades foram mais facilmente enfrentadas com a criação de um coletivo que reuniu lideranças e interessados em uma política de cuidados paliativos. Mais informações, segundo ele, podem ser obtidas no site: www.goldstandardsframework.nhs.uk.


Henrique Parsons segue Lawrence e fala sobre o EPEC Brasil. Sua fala começa justamente recapitulando a origem do EPEC e como ele está sendo «nacionalizado». EPEC significa Educação em Cuidados Paliativos e Cuidados no Final da Vida. O projeto tem algumas dificuldades no Brasil por questões ideológicas (há quem seja contra), por ignorância (não sabe o que é ) e por falta de informações (há muitos praticando sem saber o que faz). A vantagem dessa educação é que todas essas pessoas vão morrer e todas elas precisarão de cuidados. A geração futura deve ser o nosso foco, pois é essa que cuidará da geração atual. O EPEC não forma paliativista, ele apenas fornece ferramentas pedagógicas e ideológicas, o que forma o paliativista é a prática cotidiana em lidar com as pessoas em fim de vida. As competências básicas dessa formação envolvem a relação família, sociedade, paciente e profissional, o que envolve habilidades como comunicação. Ao explicar a metodologia da EPEC Brasil, Henrique mostra a abrangência (online 80% e presencial 20%) e o público (que, segundo ele, ainda estará muito voltado para os médicos). A metodologia ainda envolve chats, foruns, treinamentos e provas. Ele termina sua fala evocando Vila-Lobos com uma educação não sobre pássaros empalhados, mas pássaros vivos que possam voar. Seu e-mail é: hparsons@mdanderson.org.


No debate, Henrique Parsons promete o início do EPEC Brasil para 2011, com a possibilidade de uma turma formada em final de 2012.


Após a sessão plenária, cafezinho e visita aos posteres. Apresentações de todo o Brasil sobre os mais diversos aspectos em cuidados paliativos. O pessoal de psicologia e enfermagem arrasando. Meus parabéns.


A sequência nos trouxe às sessões de temas livres. No anfiteatro, Simpósio do CFM, Declaração antecipada de Vontade, Diretiza antecipada como instrumento jurídico, Terminalidade e decisões no atendimento à criança, O médico como agente da autonomia. Na sala 2, Controvérsias em cuidados paliativos, Terapia renal substitutiva, Uso de antimicrobianos no final da vida. Sala 2, Perfil de atendimento da equipe de cuidados paliativos em um hospital universitário, Critérios de identificação de demanda para cuidados paliativos e de regulação no contexto do SUS, Educação em cuidados paliativos na rede municipal de saúde de Campinas, Estudo comparativo por grupo etário de pacientes em cuidados paliativos atendidos em um hospital universitário, Protocolos de avaliação como ferramenta clínica e científica no campo dos cuidados paliativos. Na sala 3, Psicologia e cuidados paliativos, cuidados com o profissional que atua em cuidados paliativos, Assistência ao adulto e formação profissional, Assistência à criança, ao adolescente e ao neonato.





Á tarde do dia 07


Sessão plenária II: Cuidados paliativos como um direito do cidadão, coordenado por Ligia Py. Os palestrantes Ayala Gurgel e Cláudia Burlá apresentaram, respectivamente, os temas O direito à autonomia e à dignidade e A prática clínica como instrumento do direito. Na sua fala, Ayala destacou a relação dialética entre dignidade e autonomia, mas fez questão de destacar que ambos os conceitos são historicamente determinados e que comportam inúmeras contradições. No final, chamou atenção para o cuidado de evitar que tal especialidade médica não se torne uma mercadoria a mais como outra qualquer. Claudia destaca, a partir de uma fala de Rubem Alves (O Médico) de que os cuidados paliativos são uma realidade necessária e que deve tocar mais a alma do que o corpo.


Nova sessão de visitas aos posteres. São, ao todo, 136 trabalhos, oriundos de instituições de todo o país, com as mais diversas metodologias, dentre as quais relato de caso, estudos descritivos e análise das narrativas são as mais destacadas.


A última sessão da tarde, troca de experiências, foi dividida por salas, sendo no Anfiteatro o tema Educação em cuidados paliativos durante a graduação, contando com a presença de Reinaldo Ayer, Lawrence Librach, Rita de Cássia Macieira e Maria Júlia Paes da Silva; na sala 1, Interface dos cuidados paliativos com outras áreas do saber, contando com a presença de Maria Goretti, Alfredo Helito, Chei Tung Teng, Eduardo Siqueira; a sala 2, Caso clínico com narrativa oral de paciente em cuidado paliativo internado em domicílio, contando com a presença de Julieta Fripp, Fábio Olivieri, Rosmari Vieira e Marília Othero; na sala 3, Experiências brasileiras em cuidados paliativos, contando com a presença de Marília Othero, Julieta Fripp, Mirela Rebello e Antonina Pontes.


À noite, a ANCP ofereceu um jantar para os conferencistas, na Lellis Trattoria.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

IV CONGRESSO INTERNACIONAL DE CUIDADOS PALIATIVOS



O evento acontece no Instituto de Estudos e Pesquisa do Hospital Sírio Libanês e tem como tema Educar Para Paliar, cuja organização, à cargo da ANCP (Academia Nacional de Cuidados Paliativos), conta com o apoio do CFM (Conselho Federal de Medicina), AMB (Associação Médica Brasileira), MS (Ministério da Saúde), FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). A médica Maria Goretti, anfitriã e mestre de cerimônia do congresso, destaca para o fato de no Brasil ainda não há a especialidade de paliativista, mas isso não impede de que os paliativistas brasileiros sejam chamados assim, pois de fato eles são palia ativistas.


Na abertura, a médica Silvia Barbosa, presidente da ANCP relembrou o mito de Quíron para mostrar como é importante lembrar da dor e do sofrimento. Ela é uma dimensão de humanidade que não pode ser esquecida, justamente para saber o que deve ser feito para cuidar daquele que se encontra em situações de dor e sofrimento. Ao encontro dessa lembrança mitológica estão os cuidados paliativos.


O cerimonial dá destaque para a vergonha que o Brasil passa por não ter estruturado como política de saúde os cuidados paliativos, como apareceu recentemente na classificação dada pela The Economist.


O médico Roberto Bettega, representante da Associação Latino-Americana de Cuidados Paliativos, compondo a mesa de abertura, destaca o crescimento que os cuidados paliativos vêm tendo no Brasil, embora ainda precise de uma organização mais estruturada no âmbito das políticas governamentais. Essa estrutura poderia dar mais visibilidade aos cuidados paliativos e aparecer como ação nos indicadores de saúde.


O médico Roberto D'Ávila, presidente do Conselho Federal de Medicina, quebrando o protocolo e vindo para junto do público, destaca seu entusiasmo com a causa que a ANCP tem abraçado. Ele acredita que essa ação é uma ação romântica – aquela que nela mesma traz a sua recompensa, e que não diz respeito só ao paciente que é auxiliado, mas ao próprio trabalho profissional. Ele retoma o mito de Quíron e mostra que a associação feita com Esculápio traz simbolismos que podem se afastar dos cuidados paliativos. É o caso quando Esculápio não permite mais que ninguém morra, precisando da intervenção de Hades e Zeus, culminando com a morte de Esculápio, para que as pessoas voltem a morrer. Assume que a criação da Câmara Técnica em Terminalidade dentro do CFM foi um passo importante, mas ainda há muito a fazer. E promete: «ainda esse ano sairá uma resolução criando a área de cuidados paliativos como uma especialidade médica».


O congresso foi precedido no dia 06 de outubro por quatro cursos sobre temas específicos de cuidados paliativos: Curso Casa do Cuidar (conceitos, princípios e indicações de cuidados paliativos), Curso Palliare (organização da assistência em cuidados paliativos), Curso Instituto Paliar (comunicação em cuidados paliativos) e Curso de Enfermagem (gerenciamento de Enfermagem em cuidados paliativos).

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Cobertura da Thanatos a Congresso sobre Dor e Cuidados Paliativos

A Thanatos dará cobertura a dois eventos que acontecerão essa semana sobre cuidados aos moribundos: o IV Congresso Internacional de Cuidados Paliativos, a ocorrer em São Paulo; e o IX Congresso Brasileiro de Dor, a ocorrer em Fortaleza, ambos no período de 06 a 09 de outubro de 2010. Ayala Gurgel (filósofo/tanatólogo) participará do primeiro e Erasmo Ruiz (psicólogo/tanatólogo), do segundo, ambos na qualidade de palestrantes. O objetivo é oferecer a quem frequenta o nosso blogue informações atualizadas sobre os dois eventos, cuja importância é inquestionável para a formação de recursos humanos na área da tanatologia.

A Thanatos fica muito feliz por ter sido convidada a participar dos dois eventos. É o reconhecimento da sociedade científica de que a seriedade, dedicação e competência com a qual fazemos nosso trabalho merece espaço nos grandes congressos sobre o assunto.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Obviedade Cientificamente Comprovada: Morrer em Casa Produz Saúde (Erasmo Ruiz)



 




Como é que é? Morrer em casa produz saúde? Mas como se a pessoa morreru?
Na verdade, a morte de qualquer ser humano não é algo redutível apenas a sua individualidade. Pelo contrário, impacta de forma decisiva em toda a sua rede social.
Pesquisa realizada pelo Instituto de Câncer Dana-Farber nos Estados Unidos mostra que morrer em hospitais além de comprometer a qualidade de vida dos moribundos, é fator decisivo para determinar maior risco de problemas de saúde entre os parentes e amigos que acompanham o paciente em seu processo de morrer.
 Em casa os pacientes receberiam formas de cuidados que aliviariam mais os sintomas estando,portanto,protegidos de condutas médicas que mudem o foco de cuidados paliativos para tratamentos mais agressivos que ofereceriam falsas possibilidades de cura. Assim, podendo morrer de uma forma mais tranquila,o próprio processo do morrer influenciaria as condutas daqueles que ficam.
 O estudo mostrou que " apesar de a maioria dos pacientes preferir passar seus últimos dias de vida em casa, quase a metade (44%) acaba morrendo em um hospital. Além disso, 8% das mortes ocorrem na UTI, onde os pacientes são submetidos aos chamados procedimentos desproporcionais.
Durante seis anos, os pesquisadores acompanharam 342 pacientes e algum amigo ou familiar que o acompanhava. Desse total, 19 morreram em UTI e 137 em casa. Após realizar entrevistas antes, durante e depois da morte, os pesquisadores notaram que 21% dos familiares daqueles que morreram na UTI desenvolveram estresse pós-traumático. Por outro lado, esse distúrbio foi notado em apenas 4,4% dos familiares dos pacientes que morreram em casa."


FONTE DA NOTÍCIA: Clique aqui

domingo, 19 de setembro de 2010

Poemas Mortais à Mulher Amada: Tanatologia Poética com Baudelaire (Erasmo Ruiz)

                                 Túmulo de Baudelaire
Agora a conversa é de homem para homem. Em algum momento da vida, lá pelo final da adolescência você, apaixonado pela mulher da sua vida, simplesmente não sabia o que fazer  para resolver a questão.


Numa hora como essa recorre-se aos amigos mais experientes, ao pai ou ao irmão mais velho, livros de autoajuda são bem vindos, internet...as opções são variadas.


E as respostas também são: "declara-se a ela"; "convide-a para ir ao cinema, de preferência um filme romântico e depois diga tudo o que está sentindo"; "mande flores com um pacote de chocolates" etc. Claro, se você possui dotes poéticos acima das rimas de "amor" com "flor" pode ter sido aconselhado a fazer um poema.


Hoje em dia não passaria pela cabeça da maioria dos mortais ao tentar seduzir o amor da sua vida, falar em morte. Mas que coisa de mau gosto! Ora, amor é algo que em tese oporia-se a morte, pois fala de vida, de libido, de paixão e de intensidade.


Mas numa época onde a morte era vista com outros olhos, mais presente e visível, menos interdita. Numa época em que as explicações gerais iam perdendo espaço para outras que colocavam em dúvida as certezas de uma pós vida e da eternidade, cabia então chamar à razão  aquela pobre dama que mesmo diante dos desejos do corpo, negava seus amores ao suplicante poeta.


Assim, temos Baudelaire num gesto absolutamente sedutor...pelo menos nos idos de 1857:




Remorso póstumo


Quando fores dormir, ó bela tenebrosa,
Num negro mausoléu de mármores, e não
Tiveres por alcova e morada senão
Uma fossa profunda e uma tumba chuvosa;


Quando a pedra, oprimindo essa carne medrosa
E esses flancos sensuais de morna lassidão,
Impedir de querer e arfar teu coração
E teus pés de seguir a trilha aventurosa,


O túmulo, que tem um confidente em mim
- Porque o túmulo sempre há de entender o poeta _,
Na insônia sepulcral dessas noites sem fim,


Dir-te-á: "De que serviu, cortesã incompleta,
Não ter tido o que em vão choram os mortos sós?
_ E o verme te roerá como um remorso atroz.
(Charles Baudelaire,"Les Fleurs Du Mal", Tradução de Guilherme de Almeida)



Caro Leitor! Se sentires que sua amada seja sensível a tais argumentações, então use e abuse da genialidade de Baudelaire. Mas creio que estas aproximações poéticass sobre a morte no século XIX seriam meio que incompreendidas pela maioria das mulheres de hoje em dia.
Particularmente, acho a idéia do túmulo ser um confidente do poeta a pensar na morte em noites de insônia muito representativa dessa época em que a tuberculose graçava sem controle convidando ao lirismo das metáforas sobre o efêmero. E coittado do verme cheio de remorso devorando a intensa beleza daquelas carnes sem vida. Chego a pensar que se Bauldelaire continuasse o poema expressaria inveja do pobre verme!


Mas deixando o sarcasmo para lá. O poema é lindo! Mas essa beleza soa meio incompreensível para os dias de hoje. A maioria das pessoas sonha em seduzir com  ícones do consumo, com o espetáculo do frenesi da vida chafurdando nos significados rasteiros do oceano de mercadorias.


Interessante captar as nuances de uma epoca onde a morte junto com o mel, as flores e o arco-iris, fazia parte do construto de metáforas que na verdade eram artimanhas para a exaltação da vida!