quarta-feira, 31 de março de 2010

Sobre a Morte e o Morrer (Erasmo Ruiz)





Um dia no início dos anos 60, uma médica e pesquisadora norte-americana que trabalhava num grande hospital foi procurada por estudantes que queriam estudar as “crises da vida humana” e que tinham escolhido por tema a morte. Ela então pensou que o óbvio seria conversar diretamente com as pessoas que estivessem passando pela experiência de morrer, aqueles declarados como moribundos. Eles, mais do que ninguém, saberiam dizer o que acontece com quem está morrendo, poderiam falar dos seus medos, desejos e necessidades e, o mais importante, a opinião sobre o que faziam com eles.
O que logo chamou a atenção na pesquisa foi perceber que num hospital com mais de 600 leitos não existia "ninguém" moribundo. Quando médicos e enfermeiras eram interrogados sobre pacientes que poderiam fazer parte da pesquisa, a resposta obtida era: "não existe ninguém morrendo em nosso setor".
Com o tempo, a pesquisadora percebeu que o simples fato de perguntar sobre isso despertava a agressividade dos trabalhadores, a ponto de uma enfermeira lhe perguntar: "Qual o prazer que você tem de se colocar no lugar de Deus?", Outra questionou: "De que serve dizer a um rapaz de 20 anos que ele só tem uma semana de vida?" Sistematicamente portas se fecharam, vozes se calaram. De posse das informações dos prontuários, ela não se deu por vencida. Foi em busca dos pacientes em estado mais grave. Começou gentilmente a abordar as pessoas sobre o assunto.
E qual não foi a surpresa ao perceber que boa parte das pessoas se sujeitava a fazer parte da pesquisa. Davam entrevistas na frente de estudantes, falavam abertamente sobre suas vidas. Estavam com tudo meio que entalado pois poucas pessoas ou ninguém queria conversar com elas sobre o que estava acontecendo.
O nome desta pesquisadora era Dra Elizabeth Kubler-Ross, famosa na literatura por ter descrito os estágios do morrer. Sempre enfatizou em seus trabalhos que é muito comum encontrar resistência nas equipes quando vai em busca de seus pacientes. Um dia encontrou um senhor muito idoso, muito vulnerável, caminhando em passos trôpegos pela enfermaria enquanto lia um artigo no jornal intitulado “Os Velhos Soldados não Morrem Jamais”. Perguntou-lhe se ele não tinha medo de ler o artigo ao que ele respondeu: “A senhora seria um dos médicos que não falam no assunto, mesmo sabendo que nada mais resta a fazer?”
Kubler-Ross
O trabalho de Elizabeth Kubler-Ross vai muito além da mera descrição de estágios frente a morte. Ela mesma enfatizava que sua noção de "estágio" deveria ser compreendida mais qualitativamente para não ´passar a falsa compreensão de que todas as pessoas passam por todos os estágios de maneira cartesiana e sistemática. Seu trabalho pioneiro encontrado em "Sobre a Morte e o Morrer" e muitos outros depois deste, é um convite a escuta daqueles que sofrem de uma forma mais ou menos sutil de segregação nos hospitais hoje em dia.
Basta que alguém seja declarado enfermo e, posteriormente, como moribundo, assistiremos a sua perda de liberdade e autonomia. Kubler-Hoss nos alertou que essas pessoas estão diante de nós e, o mais importante, não deixaram de ser pessoas. Grande parte do seu sofrimento emocional diante da morte e do morrer deriva nem tanto da percepção da morte em si, mas de sentirem-se literalmente abandonadas, sem alguém que as escute e possam ser instrumentos do exercício de sua autonomia. No campo da psiquiatria e da psicologia, abre novas possibilidades para o manejo daquele tipo de dor e sofrimento que não estão restritos às mazelas do corpo.
Vale a pena conferir a leitura. Para profissionais de saúde, é uma leitura tão importante quanto a de um atlas de anatomia...diria mesmo que as duas leituras se complementam. Na primeira, a morte se apresenta como categoria biológica que oferece o subsrato da matéria para que aprendamos a cartografia dos corpos vivos. Na segunda, lidamos com a verdadeira realidade dos corpos vivos mesmo que moribundos, portadora de singularidade e de vida que transcende em muito tudo o que um atlas pode nos oferecer.

domingo, 28 de março de 2010

A Morte como Espetáculo: A renovação da Paixão de Cristo (Ayala Gurgel)





O que a Paixão de Cristo e os Circos Romanos têm em comum? O mesmo que Bandeira 2 e Brasil Urgente também têm: um certo gosto pela morte como espetáculo.



Para autores como Guy Debord, a Sociedade do Espetáculo é uma estruturação recente da sociedade. No tocante à morte e ao morrer, isso não é verdade. Como também não é verdade que a morte tratada como um interdito ou uma pornografia seja típico das sociedades industriais. Há mais especutalirazação da morte e do morrer nas sociedades ociedentais do que pensam Ariès e Gorer.



No auge das sociedades romanas, quando os imperadores se auto-proclamavam deuses e incluíam seus nomes em calendários, ruas e províncias, em busca da imortalidade pela memória histórica, difundiu-se um gosto, no mínimo, macabro: os circos.



Nesses, homens se enfrentavam entre si ou enfrentavam feras até a morte. A morte estava bem ali, ao alcance da visão de todos e sob o polegar de um único homem. Um espetáculo que reuniam a todos, de cidadãos a plebeus, em busca da visão mais sanguinolenta, da morte mais espetacular, do corpo mais despedaçado e do sangue que jorrava mais longe.



Pediam e recebiam: dêem-nos um espetáculo que alimente a nossa ira e vontade de ver sangue...



A arena era o único local no qual a violência era permitida. A brutalidade reprimida dentro de todos podia ser estravasada nos gestos das feras humanas ou não humanas ou nos gritos da plateia... Tudo era muito bem pensado: a explosão de ira que não podia acontecer nas ruas, acontecia ali, sob controle do Estado. Ao final, todos retornavam à sua vida banal, purificados pelo sangue derramado, mansos como cordeiros.



A queda do império romano não foi suficiente para demolir o gosto pelos espetáculos sanguinolentos nem para as mortes mais bizarras. Em muitas culturas pós-romana se manteve o gosto por esse tipo de espetáculo: touradas, safaris, linchamentos... e a Paixão de Cristo.



Como tudo que passou pelo crivo da encarnação da fé, os espetáculos macabros precisaram também ser ressignificados para virarem cultura cristã. Por que matar tantos se a morte de um único inocente bastaria? E, se esse inocente fosse um deus, não seria muito mais espetacular? A morte de um deus, acompanhada dos requintes de crueldade e com muito sangue derramado, seria um espetáculo mais do que adorado: preencheria todas as expectativas dos desejos de crueldade dos romanos convertidos.



Mel Gibson não exagerou na sua Paixão de Cristo, ao contrário, captou muito bem o espírito original da saga, que a cada ano se repete, antes de todos voltarem para casa, satisfeitos e purificados porque canalizaram contra seu proṕrio deus toda a sua violência, satisfazendo os desejos mais secretos de se vingarem de tudo que os oprimem...



Não há nada de belo em ver uma pessoa ser surrada até a morte, muito menos em fazer disso um espetáculo, inclusive apresentável a crianças, quando não com a participação dessas. Como diria Heráclito, não fossem para os deuses esse espetáculo, consideraríamos a coisa mais horrenda e reprovada. Cadê o Ministério Público que não proíbe esse atentado contra a moral dos bons costumes (aliás, parece que confudem isso com bons costumes), ou pelo menos, a participação de crianças em ato tão violento?



A Paixão de Cristo, ou melhor, a Surra de Cristo, ou a Morte Espetacular de Cristo não é só um espetáculo que alimenta o gosto pela morte violenta, como também interdita formas saudáveis de se conviver com a dor e a morte. Nossos interditos vêm de longe e são muito arraigados no nosso imaginário...

sábado, 20 de março de 2010

Crônica de uma Morte Não Anunciada (Erasmo Ruiz)



Ela tinha 21 anos. Não me deterei no seu quadro diagnóstico, afinal, quando alguém morre, desperta em nós a alma da medicina legal: “Do que ela morreu?”, “Qual foi a doença?”. Isso tudo é rigorosamente inútil diante da dor e do sofrimento. Enfarto, AVC, Diabetes, Câncer de Estômago!? Saber do que morre as pessoas não as trazem de volta.


Com 21 anos, uma garota em gravidez de risco teve complicações. Morreu na UTI, num dia cheio de esperança quando o nordeste brasileiro espera que São José nos mande chuva, afinal, se não chover forte até o dia 19 de março, a colheita não será boa. A chuva veio, mas a jovem partiu, num momento em que a vida, a semelhança da chuva, deveria prometer esperança e não a morte.



Tantas mortes acontecem no dia a dia, inclusa aquelas que contrariam nossas expectativas. Ingenuamente se pensa que a morte só visita os velhos ou quem já viveu alguma coisa e atrevidamente se aproxima dos 50 anos. Não se acredita que a morte visite os jovens...mas ela vem. Vem disfarçada em acidente de trânsito para fazer sua colheita na invulnerável classe média dona de planos de saúde, vem de bala antes dos vinte como agente do Serviço de Proteção ao Crédito do tráfico de drogas.



Naquela UTI a morte violou a esperança dos trabalhadores. Um misto de tristeza em amálgama estranho com a indiferença e a culpabilização parecia tomar conta de todos. “pobre moça”, “Tão Jovem”, “Mas isso sempre acontece”, “as pessoas ficam grávidas de qualquer jeito”, “Ninguém se previne”, “vamos deixar a tristeza de lado, pois tem mais gente pra cuidar”.



O espetáculo da vida deve seguir o seu curso. O leito inutilmente ocupado deve ceder seu espaço para quem dele precisa. O corpo que era cuidado agora é um problema. Precisamos nos desvencilhar desse entulho bioquímico que deseja voltar correndo para a natureza, desfazendo-se nos seus inúmeros elementos, produzindo desconforto físico e psicológico nos outros.



Para tal existem procedimentos que não vamos descrever minuciosamente. Basta dizer que o corpo se transforma num “pacote”, longe do olhar dos curiosos...literalmente longe, colocado num espaço apelidado de necrotério, um prédio com reboco caindo, com paredes caiadas, na companhia de tudo aquilo que é considerado inútil, aquela sucata hospitalar que os anos vão empilhando nas paredes. Em cima de uma maca ou de uma pedra, o corpo esfria e espera!



Mas já dizia a sabedoria do poeta que morremos várias mortes. Ela morreu com 21 anos, sozinha na companhia dos trabalhadores em meio aos bips da UTI. Sua família, daquela pobreza que flerta com a miséria, estava longe cuidando dos afazeres da vida, tudo muito singelo: “o que temos de fazer para comer amanhã?”. Deixar alguém no hospital era um luxo impensável, despesa que se desdobra em transporte, comida, tempo. Não era desafeto, era simplesmente a sobrevivência.



Quando alguém morre no hospital é um alvoroço. Muitas coisas se desdobram rapidamente. O objetivo final é se livrar daquele corpo. Os médicos querem fugir de dar a má notícia. As diligentes enfermeiras correm de um lado para o outro livrando o leito de sua carga inútil e colocando um candidato a sobrevivência em seu lugar. O morto agora precisa de documentos para sair do hospital. Precisa de serviços funerários. Precisa que o mundo saiba da sua nova condição. O que o hospital deve fazer?



Ele tem que entrar nesse esteio burocrático. Se o morto precisa de documentos, é necessário então que a família seja acionada. Mas, vejam só! Nossa jovem cometeu a descortesia de morrer num horário em que as assistentes sociais não se encontram mais no hospital. Naquele espaço as coisas só podem acontecer até as 18 horas. Como num passe de mágica, as questões sociais desaparecem então. Caso elas tenham o atrevimento de darem o ar de sua desgraça – afinal os seres humanos continuam passando fome e desespero depois das 18 horas – cabe ter a paciência de se esperar, esperar, esperar, afinal, Jesus jejuou 40 dias e passou tanto tempo sofrendo na cruz!

Mas os cadáveres são “impacientes”. Assim, um trabalhador é designado para ir em busca da documentação do morto. Existe apenas um detalhe, pequeno, quase insignificante nesse quadro que mistura tristeza com exigências burocráticas. A família ainda não sabe o que aconteceu. Não recebeu nenhum telefonema, até porque, para o espanto da classe média, existem milhões de pessoas que não tem telefone. Imaginemos então o quadro: um trabalhador de hospital, talvez o motorista de uma ambulância, chegará a casa de alguém que deixou a filha de 21 anos viva na UTI de um hospital para pedir os documentos da filha morta!



Existe nisso tudo um tom de absurdo! Algo que nos desalenta, mas que também deixa um grito engasgado na garganta! Basta que possamos nos ver na mesma situação, nem que seja apenas por um mísero segundo. Pois venham comigo. Não tenham medo de passar por essa experiência de dor e indignidade humana com pinceladas de barbárie e indiferença, um segundo apenas!



Nos dias de hoje é mais importante os documentos do morto do que zelar minimamente pela dor dos vivos! Sempre achei que a maneira como lidamos com nossos mortos nos diz muito sobre a forma como estamos lidando com os vivos. Vamos tocando a vida sob a égide da eficiência e racionalidade. Os mortos, de forma anárquica, subvertem todo nosso plano de vida. Não são mais consumidores, deixaram de ser coniventes com as normas sociais, não se importam mais com as convenções! Tornam-se lembretes de que algo vai errado nessa vida esvaziada de ritos e submissa aos desejos das atrizes da novela de TV ou de animais num zoológico cheio de câmeras em busca de um milhão e meio de reais.



Precisamos urgentemente humanizar a morte e o morrer sob pena de que o que ocorrer nas outras etapas do processo de atender e cuidar sejam representações frívolas de um teatro caricato. O raciocínio é simples: se humanizarmos a morte e o morrer, tarefa tida como mais árdua, então o restante será mais fácil. Manejaremos melhor a nossa dor, aprenderemos a viver melhor o encontro com a vida. Tomaremos então consciência plena de que não somos curadores, somos antes de tudo produtores da vida, algo tão precioso, posto que finito!

sexta-feira, 12 de março de 2010

Um Olhar sobre o Cotidiano da Desumanização da Morte: Relato de Experiência (Ariadna Simplício e Yara Monteiro*)



A gestação teve de ser interrompida ao quinto mês, em razão de uma infecção que atacou o feto e comprometia também a saúde da mãe. A genitora durante a gravidez havia perdido quantidade significativa de líquido amniótico, e naquela data essa quantidade havia chegado a zero. Sendo assim, a equipe médica responsável optou por estimular o parto. Foi assim que, por volta das 20 horas do dia 27 de Janeiro de 2010, a mãe foi encaminhada para a sala de parto, dando a luz a uma criança do sexo masculino, que nasceu com vida. Todavia, o menino faleceu menos de três horas depois. No dia seguinte, além da dor indescritível da perda do primeiro filho, os pais sofreram com a insensibilidade e com o máximo desrespeito à dignidade humana por parte da agente funerária que conduziu o processo de preparação para o sepultamento. A agente assumiu um postura grosseira ao não mostrar disposição para respeitar o tempo necessário para os procedimentos até o velório. Ainda no hospital, a funcionária fazia referência a uma outra criança também falecida e que tinha de ir buscar em uma outra Maternidade, sinalizando um atendimento “coisificado”, puramente comercial, não respeitando a dor e o momento da família enlutada. Durante todo o atendimento, a agente privilegiava o próprio tempo, desconsiderando ou rebaixando a um segundo plano o tempo da família. Contudo, foi convencida pelo avô do menino e por duas Assistentes Sociais, amigas da mãe do bebê falecido, que também estavam presentes na ocasião, a atender um caso por vez. Chegando à residência da família, onde parentes e amigos aguardavam a criança, a agente funerária, num primeiro momento, dificultou a retirada do caixão de dentro do veículo da empresa. Mesmo a família afirmando que não iria demorar, pois haviam preparado e esperado esse momento para a oração em nome da criança, A agente funerária resistiu, dizendo que, se a criança descesse, a família deveria aguardar enquanto iria buscar a outra criança. Daí, a agente abriu o porta malas do carro, retirou a tampa do caixão e expôs aos olhares curiosos de todos a criança morta, dizendo que o velório seria realizado ali e, caso o caixão saísse do carro, ela não iria esperar. “Senti que meu filho parecia uma fruta exposta em um desses carros que vendem frutas e param na porta da gente”, desabafou a mãe da criança. Nesse momento, para resguardar o sentido daquele momento e o sentimento da família, as Assistentes Sociais tiveram que intervir. O diálogo foi provocado no sentido de sensibilizar a referida técnica de que a própria especificidade dos serviços prestados por ela exige uma conduta diferente, um trato mais humanizado. Não estamos aqui indicando excessos de sentimentalismos, mas reiterando a necessidade de sensibilidade para lidar com sentimentos humanos em momento de sofrimento. Foi necessário acionar por telefone a gerência da funerária para que se deslocasse outra equipe para atender o outro caso, garantindo assim, o direito da família de realizar o velório. Durante a discussão, a agente chegou a argumentar que o convênio da Prefeitura com a funerária, estava com pagamento em atraso e que ela tinha outras demandas. Alegou até que o trânsito da cidade dificultava o seu trabalho. Mas, as Assistentes Sociais insistiram que as famílias não devem ser punidas, tomadas do seus direitos, ou agredidas em sua dignidade em virtude de qualquer que fosse a dificuldade com repasses de recurso da Prefeitura. Caso a funerária não dispusesse de condições operacionais de atender satisfatoriamente a demanda, deveria não assumir a responsabilidade de realizar um trabalho dessa natureza, que demanda, no mínimo, bom senso. Quem recorre ao beneficio do auxilio funeral recorre por necessidade e precisa ser respeitado integralmente em seu direito. Com certeza, um destes direitos é a vivência dos ritos para poder elaborar o luto! *Ariadna Simplício - É Assistente Social da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Infraestrutura de Fortaleza-CE (SEINF) e Mãe do Philipe. Contatos: ariadna_simplício@yahoo.com.br ou 85-8149-8900 - Yara Monteiro - Assistente Social da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Infraestrutura de Fortaleza-CE (SEINF); Aluna de Especialização em Saúde Pública (UECE); Membro do Grupo de Estutos Tanatológicos (GESTA), "irmã/madrinha" do Pedro Rafael. Contatos: yarinhaalmeida@hotmail.com ou 85-8834-8247/9659-0269

quinta-feira, 11 de março de 2010

Em Discussão o Morrer com Dignidade: Está Tramitando Projeto que Legaliza a Ortotanásia (Erasmo Ruiz)





Parece haver consenso de que na maioria dos serviços as práticas de saúde e cuidado precisam ser humanizadas, dai o impacto e adesão quase sempre provocados pelo discurso e processos disparados pela Política Nacional de Humanização (PNH).

Mas quando falamos da morte nos deparamos com um problema maior. Como os profissionais de saúde recebem uma formação que os habilita se tornarem terapeutas numa perspectiva instrumental, prática, objetivista e biomédica, quando se instala, a percepção de que "nada mais pode ser feito", os pacientes acabam sendo relegados a formas de (des)atenção e (des)cuidado. Ora são submetidos a práticas carcaterizadas por obstinação terapêutica, que os colocam diante da tortura bárbara da distanásia (quando a vida do moribundo é elastecida sem contrapartida de qiualidade de vida); ora são quase que abandonados na medida em que a equipe e cuidadores familiares esboçam ações de fuga da morte e do morrer por incapacidade psicossocial de lidar com as necessidades dos pacientes diante da finitude.

Entre muitas consequências trágicas, pacientes podem ser expostos a situações onde as dores físicas e psíquicas não sejam adequadamente manejadas e onde sua fala e necessidades não sejam minimamente satisfeitas, o que determina o processo de cacotanásia (literalmente uma "morte má", ruim, onde a pessoa fica imersa em sofrimento atroz e desnecessário).

Assim, é com alegria e satisfação que anunciamos estar tramitando no Congresso Nacional projeto de lei que intenta legalizar a prática da "Ortotanásia", uma morte mais natural e menos exposta aos ditames da obstinação terapêutica. Leiam com atenção a notícia abaixo retirada do sítio do Senado Federal.

É importante que nós trabalhadores de saúde, que acabamos,em maior ou menor grau, tendo que lidar com a morte de pacientes e mais, nós como seres humanos vulneráveis e mortais e que, portanto, estaremos e/ou estamos também vivenciando nossa própria finitude; nos apropriemos dessa discussão como ética e politicamente importante para o resgate da humanização dos cuidados no final da vida!

Notícia a seguir retirado de

http://www.senado.gov.br/agencia/verNoticia.aspx?codNoticia=99598&codAplicativo=2&codEditoria=2

Dois projetos de Camata sobre direitos de pacientes em fase terminal tramitam no Congresso Dois projetos do senador Gerson Camata (PMDB-ES) que tratam dos direitos de pacientes em fase terminal tramitam no Congresso, sendo que um já foi aprovado pelo Senado e remetido à Câmara e o outro ainda será votado na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ). O Projeto de Lei do Senado que define a ortotanásia como legal (PLS 116/00) está na Câmara dos Deputados. No Senado, foi aprovado com emendas pela CCJ, onde recebeu parecer do senador Augusto Botelho (PT-RR). Já o PLS 524/09, que dispõe sobre os direitos da pessoa em fase terminal e à tomada de decisões sobre limitação ou suspensão de procedimentos terapêuticos, ainda será relatado na CCJ. Ao acrescentar o artigo 136-A ao Código Penal (Decreto-Lei 2.848/40), o PLS 116/00 isenta de crime a ortotanásia. Segundo o projeto, não constitui crime, no âmbito dos cuidados paliativos aplicados a paciente terminal, deixar de usar meios desproporcionais e extraordinários em situação de morte iminente e inevitável, desde que haja consentimento do paciente ou, em sua impossibilidade, do cônjuge, companheiro, ascendente, descendente ou irmão. Para tanto, o PLS 116/00 determina que a situação de morte iminente deve ser atestada por dois médicos. No entanto, continuarão sendo considerados ilícitos os casos de omissão de meios terapêuticos ordinários e proporcionais devidos ao paciente terminal. A lei em que o projeto for transformado deverá entrar em vigor 180 dias após sua publicação. Direitos do Paciente O PLS 524/09 permite, caso haja manifestação favorável da pessoa em fase terminal de doença ou, na impossibilidade de sua manifestação, da sua família ou de representante legal, a limitação ou a suspensão, pelo médico, "de procedimentos desproporcionais ou extraordinários destinados a prolongar artificialmente a vida". Esse projeto foi elaborado pela Comissão de Bioética da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e acolhido por Camata, que o apresentou no Senado. De acordo com a proposta, a pessoa em fase terminal de doença tem direito, sem prejuízo de outros procedimentos terapêuticos que se mostrarem cabíveis, a cuidados paliativos e mitigadores do sofrimento, proporcionais e adequados à situação. Caso o paciente tenha se manifestado anteriormente, enquanto estava lúcido, contrário à limitação e suspensão dos procedimentos terapêuticos, os médicos deverão respeitar essa decisão. De acordo com o PLS 524/09, mesmo nos casos em que houver decisão pela limitação ou suspensão de procedimentos terapêuticos, a pessoa em fase terminal deverá continuar a receber todos os cuidados básicos necessários à manutenção de sua vida e dignidade. Deverá ainda contar com procedimentos que diminuam o sofrimento. Pelo projeto, fica também garantido ao enfermo direito ao conforto físico, social e espiritual e o direito à alta hospitalar. Para os efeitos das normas estabelecidas pelo PLS 524/09, o autor da matéria define o que é paciente em fase terminal, procedimentos paliativos e mitigadores de sofrimento, cuidados básicos e ordinários e procedimentos desproporcionais e extraordinários. Para Camata, os procedimentos terapêuticos instituídos nos casos de doenças incuráveis são, muitas vezes, infrutíferos, especialmente quando a morte é iminente e inevitável. O senador observa que a manutenção da vida, nessa situação, por meios artificiais, "pode representar sofrimento para o doente e para seus familiares e amigos". O senador disse que as leis brasileiras não dispõem sobre essa matéria, apenas proíbem a eutanásia, que é a morte decorrente de ato destinado a abreviar a vida do paciente. A Ortotanásia, segundo Camata, "é o deixar morrer em paz a que se refere a Declaração de 5 de maio de 1980, da Congregação para a Doutrina da Fé, do Vaticano".

quinta-feira, 4 de março de 2010

Suicídio como Tema da Arte: a Fotografia de Daniela Edburg (Erasmo Ruiz)



Confesso que a primeira impressão dessas fotos foi muito negativa. Digamos que a maioria das pessoas interessadas por Tanatologia acaba meio que desenvolvendo uma certa estética pelo mórbido. Eu assumo este traço. Tenho interesse em pensar como a pessoas representam a morte e, neste sentido, a iconografia tanática pode oferecer objetos de estudo muito interessantes. As fronteiras entre o interesse racional e o afeto, já nos ensinava Max Weber, são muito tênues e interpenetrantes Mas, claro! Existem certos limites para mim. Por exemplo, tenho dficuldades em lidar com a idéia de que cadáveres possam ser objetos literais da arte. Mas isso existe e pode ser mais comum do que imaginaríamos (tratarei disso em outro post). A primeira vez que vi o trabalho da Fotógrafa Daniela Edburg fiquei ngativamente surpreendido. Afinal, como captar alguma forma de beleza a partir do suicídio? Ai reside o poder constestador das imagens de Daniela. Poderia haver algum glamour na morte? A princípio essa idéia não parece despropositada, afinal, somos expostos a ela praticamente todos os dias. Falo da estética da morte no cinema onde muitas vezes é mostrada como gesto heroico ou recurso que pune exemplarmente o vilão. Não é dessa morte que nos fala Daniela mas sim de belas mulheres que cometem suicídio. A partir de situaões dramatizadas (não são fotos reais mas situações teatralizadas), ela quer captar exatamente isso: a beleza esteticamente agradável associada a situações absolutamente grotescas. Mas não só isso. Vamos refletir um pouo sobre as imagens. Numa delas vemos uma bela mulher morta com olhos abertos e sangue escorrendo pela boca , a sua volta vários pedaços de chocolate. Noutra imagem uma mulher jovem jaz inerte sobre uma cadeira ilhada por milhares de biscoitos de chocolate. Por fim, uma bela mulher, que presumivelmente se matou com uma overdose de babitúricos, tem a sua volta piluals misturadas a confeitos de chocolate. O recado de Danila é sutil. Se ela retrata o suicídio de belas mulheres e, dessa forma, atrai nossos olhar para as fotos, ela na verdade fala é do nosso suicídio civilizatório, critica um modo de vida baseado num hedonismo a base de comida inustrializada, que nos estimula ao sedentarismo, a obesidade e a uma postura passiva diante da vida. Afinal de contas, quem de fato está cometendo suicídio. As modelos das fotos de Daniela Edburg ou nós mesmos? Agora olhe a imagem inicial do nosso post. Uma mulher é estrangulada por um monstro que sai de sua geladeira. A sua volta, toda forma de produtos industrializados. Uma sociedade que evita falar da morte vai matando seus componentes em nome dos interesses econômicos mediados pelo consumo. Vale tudo para tornar o preço do alimento competitivo, não importa as reações alérgicas que uma ou outra pssoa possa ter diante de alguma variedade transgênica de arroz ou milho. Pessoalmente não acredito no "fim do mundo" mas as imagens de Daniela nos convidam a pensar se não estamos fazendo o nosso próprio apocalipse!