terça-feira, 27 de abril de 2010

O Blog da Thanatos Faz Aniversário



Poucas pessoas percebem mas quando comemoramos o aniversário de alguém acabamos de alguma forma citando a morte. Ao desejarmos muitos anos de vida, a festa nos lembra que em algum momento o aniversariante não estará mais entre nós, ou, dia vai, dia vem, nós mesmos não poderemos estar mais em algum aniversário futuro. Calma, não estamos anunciando a morte desse blog mas sim avisando que estamos no ar há exatamente um ano. Portanto, vida longa para a Thanatos! Nesses 365 dias foram mais de 27.000 acessos e 164 postagens sobre algumas das perspectivas de discussão, estudo e pesquisa em tanatologia. Além disso, ampliamos nosso acervo na Biblioteca da Thanatos que conta agora com 71 dissertações e teses além de livros digitais e artigos científicos. Isso tudo nós fizemos porque temos prazer em produzir e disseminar o conhecimento. Não lhe cobramos nada por isso, não vendemos nenhum curso, não alugamos o nosso tempo. Estamos aqui trabalhando diuturnamente para mudar a danosa relação que hegemonicamente os seres humanos estão tendo com a morte, lutar pela disseminação da idéia de que a vida é um tesouro tão precioso que vale a pena viver intensamente até o fim. Para isso, é fundamental que a dignidade que lutamos para ter durante a vida esteja também presente na vivência da nossa morte. Estamos tão felizes que resolvemos fazer um concurso. É isso mesmo. O blog faz aniversário mas quem ganha o presente é você. Abaixo deixamos um "quiz" muito fácil para quem tem alguma leitura em tanatologia. Responda e encaminhe o resultado para o email do blog: thanatologia@gmail.com Os primeiros 20 internautas que acertarem corretamente todas as respostas receberão em suas casas um belo brinde. Fique tranquilo. Não mandaremos nenhum consórcio funerário mas algo muito interessante para quem tem o prazer de ampliar seus conhecimentos sobre tanatologia. Dessa forma, feliz aniversário para o blog da Thanatos e que todos nós possamos ter uma boa morte!
QUIZ
1) Em 1955 um antropólogo inglês publicou um influente artigo na Revista "Encounter" onde discutia uma polêmica teoria sobre a "Pornografia da Morte". Defendia a tese que, enquanto no período vitoriano a repressão sexual teve como uma de suas consequências a difusão da pornografia, fato similar ocorria na sociedade contemporânea devido ao afastamento da presença da morte na vida cotidiana, o que acabava caracterizando sua representação com imagens exageradas, grosseiras e sensacionalistas. O nome desse antropólogo era:
A) Robert Lowie
B) Ralph Linton
C) Edward Sapir
D) Geoffrey Gorer
E) Alfred Kroeber
2) Para Phillipe Ariès a idéia de "morte domada" significa:
A) Processo psicoterapêutico onde ansiedades e medos com relação a morte são atenuados pela associação da idéia da morte com aspectos positivos do viver
B) Representação típica da idade média onde a morte é mostrada como uma fera tendo ao lado dela um domador de animais
C) Figura recorrente da poética provençal onde a morte é comparada a uma mulher irada que precisa ser controlada
D) Metaforização onde a morte aparece como um esqueleto acorrentado pelo Arrcanjo Gabriel
E) Uma atitude coletiva e de familiaridade com a morte durante a idade média, caracterizada, entre outros elementos, pela extrema autonomia do moribundo.
3) Elizabeth Kubler-Ross notabilizou-se por estudos com pacientes fora de possibilidades terapêuticas. Qual das afirmativas abaixo sintetiza seu legado?
A) Importante psicóloga inglesa que estruturou as bases para uma psicologia da morte ao estudar o que pacientes idosos em clínicas de repouso pensavam a respeito de sua morte iminente
B) Socióloga americana que lançou as bases de uma pedagogia para a morte ao estudar as representações do morrer entre crianças internadas em enfermarias oncológicas e seus impactos nos processos de aprendizagem
C) Médica que ao estudar pacientes fora de possibilidades terapêuticas propôs uma classificação dos estágios que pessoas em vias de morrer atravessam.
D) Médica que instituiu as bases do que chamamos hoje de Cuidados Paliativos ao propor como devem funcionar os "Hospices" depois de sistematizar o sofrimento de pacientes agonizantes nos hospitais.
E) Assistente Social suiça, Kubler-Ross estabeleceu as nítidas diferenças existentes entre gêneros e faixas etárias no que tange ao enfrentamento da morte.
4) Muitas expressões caracterizam a idéia de morte. Uma delas é conhecida como "memento mori". Seu significado é:
A) Expressão que quer dizer "Momento da Morte". Na mitologia grega é o instante exato quando a morte acontece e a alma deixa o corpo para se dirigir ao hades
B) O significado da expressão é "Lembra-te da morte". Refere-se às representações visuais da morte na cultura ocidental no final da Idade Média com o objetivo de confrontar as pessoas com sua própria mortalidade.
C) Um conjunto de recursos artísticos com os quais os pintores desenhavam figuras que representavam a morte em situações cotidianas. Seu objetivo era mostrar o quanto a morte pode ser inesperada pois o significado da expressão é "morte repentina".
D) Parte dos sistemas teológicos cristãos que tem por objetivo explicar o que acontece depois que morremos. A expressão foi utilizada pela primeira vez por Orestes no século IV.
E) Célebre frase proferida pelos gladiadores romanos quando do início do combate. Seu significado é: "hora de morrer". Com o tempo transformou-se num brado de coragem durante as batalhas.
5) Recentemente foi aprovado o novo código de ética da medicina que visibilizou ainda mais a problemática da ORTOTANÁSIA. Que afirmativa abaixo define precisamente esta expressão?
A) Processo em que a vida do paciente é estendida sem contrapartida de qualidade de vida podendo representar alto risco de sofrimento psíquico e/ou físico para o moribundo e seus familiares.
B) Forma de suicídio assistido onde o paciente regula autonomamente o momento e a forma de sua morte. A expressão foi criada pelo Dr Kevorkian
C) Forma de morte onde os pacientes são abandonados a própria sorte com a suspensão dos cuidados adequados, expressão sinônima para "morte com sofrimento".
D) Uma importante etapa dos cuidados paliativos onde a família é estimulada a estar presente no momento em que a morte do paciente ocorre recebendo para isso intensa assistência espiritual
E) Significa "morte natural", não prolongar artificialmente a vida de pacientes fora de possibilidades terapêuticas permitindo a evolução natural do quadro, utilizando-se de medidas para controle da dor e implementação de conforto 
Boa Resolução!

sábado, 24 de abril de 2010

Concurso sobre cemitérios (Heitor Amílcar)

Aberto o concurso de textos promovido pela Biblioteca Pública Municipal de Piracicaba/SP, tendo a arte cemiterial como temática. Trata-se de iniciativa bem interessante, também por dar eco a uma temática que ainda sofre preconceitos!
A Jacintha Editores, apoiadores de eventos culturais na cidade e região, publicou a matéria “Cemitério: cultura, história e arte”, justamente o nome do concurso.
O endereço do blog é http://jacinthaeditores.blogspot.com.

Código de Ética Médica e Cuidados Paliativos (Reportagem do G1)

O portal Globo trouxe uma excelente reportagem associando o novo código de ética médica e os cuidados paliativos. Esse blog recomenda o acesso à reportagem, que tem como título:

Novo Código de Ética define como dever do médico garantir 'morte digna'

Cuidados paliativos são voltados a pacientes sem perspectiva de cura. Código é válido para todo o país e entra em vigor na terça-feira (13).
Para ler na íntegra, acesse: http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL1564003-5605,00-NOVO+CODIGO+DE+ETICA+DEFINE+COMO+DEVER+DO+MEDICO+GARANTIR+MORTE+DIGNA.html

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Queixa de Defunto (Lima Barreto)

Lima Barreto publicou em 20 de março de 1920, na Careta, uma crônica intitulada Queixa de Defunto. O tema é um tipo específico de testamento: aquela que não deixa bens, mas a propria aprendizagem que a morte dessa pessoa pode revelar. Preconceitos e visões da época à parte, vale a pena ler. Ei-la na íntegra:
Antônio da Conceição, natural desta cidade, residente que foi em vida, na Boca do Mato, no Méier, onde acaba de morrer, por meios que não posso tomar público, mandou-me a carta abaixo que é endereçada ao prefeito. Ei-la:

"Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Doutor Prefeito do Distrito Federal. Sou um pobre homem que em vida nunca deu trabalho às autoridades públicas nem a elas fez reclamação alguma. Nunca exerci ou pretendi exercer isso que sé chama os direitos sagrados de cidadão. Nasci, vivi e morri modestamente, julgando sempre que o meu único dever era ser lustrador de móveis e admitir que os outros os tivessem para eu lustrar e eu não.
"Não fui republicano, não fui florianista, não fui custodista, não fui hermista, não me meti em greves, nem coisa alguma de reivindicações e revoltas, mas morri na santa paz do Senhor quase sem pecados e sem agonia.
"Toda a minha vida de privações e necessidades era guiada pela esperança de gozar depois de minha morte no sossego, uma calma de vida que não sou capaz de descrever, mas que pressenti pelo pensamento, graças à doutrinação das seções católicas dos jornais.
"Nunca fui ao espiritismo, nunca fui aos 'bíblias', nem a feiticeiros, e apesar de ter tido um filho que penou dez anos nas mãos dos médicos, nunca procurei macumbeiros nem médiuns.
"Vivi uma vida santa e obedecendo às prédicas do Padre André do Santuário do Sagrado Coração de Maria, em Todos os Santos, conquanto as não entendesse bem por serem pronunciadas com toda a eloqüência em galego ou vasconço.
"Segui-as, porém, com todo o rigor e humildade, e esperava gozar da mais dúlcida paz depois de minha morte. Morri afinal um dia destes. Não descrevo as cerimônias porque são muito conhecidas e os meus parentes e amigos deixaram-me sinceramente porque eu não deixava dinheiro algum. É bom meu caro Senhor Doutor Prefeito, viver na pobreza, mas muito melhor é morrer nela. Não se levam para a cova maldições dos parentes e amigos deserdados; só carregamos lamentações e bênçãos daqueles a quem não pagamos mais a casa.
"Foi o que aconteceu comigo e estava certo de ir direitinho para o Céu, quando, por culpa do Senhor e da Repartição que o Senhor dirige, tive que ir para o inferno penar alguns anos ainda.
"Embora a pena seja leve, eu me amolei, por não ter contribuído para ela de forma alguma. A culpa é da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro que não cumpre os seus deveres, calçando convenientemente as ruas. Vamos ver por quê. Tendo sido enterrado no cemitério de Inhaúma e vindo o meu enterro do Méier, o coche e o acompanhamento tiveram que atravessar em toda a extensão a rua José Bonifácio, em Todos os Santos.
"Esta rua foi calçada há perto de cinqüenta anos a macadame e nunca mais foi o seu calçamento substituído. Há caldeirões de todas as profundidades e largura, por ela afora. Dessa forma, um pobre defunto que vai dentro do caixão em cima de um coche que por ela rola, sofre o diabo. De uma feita um até, após um trambolhão do carro mortuário, saltou do esquife, vivinho da silva, tendo ressuscitado com o susto.
"Comigo não aconteceu isso, mas o balanço violento do coche, machucou-me muito e cheguei diante de São Pedro cheio de arranhaduras pelo corpo. O bom do velho santo interpelou-me logo:
"- Que diabo é isto? Você está todo machucado! Tinham-me dito que você era bem comportado - como é então que você arranjou isso? Brigou depois de morto?
"Expliquei-lhe, mas não me quis atender e mandou que me fosse purificar um pouco no inferno.
"Está aí como, meu caro Senhor Doutor Prefeito, ainda estou penando por sua culpa, embora tenha tido vida a mais santa possível. Sou, etc., etc."
Posso garantir a fidelidade da cópia e aguardar com paciência as providências da municipalidade.

domingo, 18 de abril de 2010

Lei dos Cemitérios - Exploração da Morte ou Regulamentação Social? (Elba Mochel)



Em São Luís acaba de ser aprovada uma lei que trata de preservar, se não a aparência dos mortos, pelo menos, o lugar que lhe engoliu os restos. É a chamada Lei no cemitério. O projeto estabelece, entre outras, as seguintes regras: 1) a cobrança de taxa anual de manutenção dos jazigos limitada a 10% do salário mínimo, aí incluído o pagamento dos serviços de limpeza e conservação da área livre do cemitério e preservação dos jazigos contra a depredação ou furtos por deficiência de vigilância, cujo ônus caberá aos gestores. 3) A desapropriação dos restos mortais de cadáveres só será possível após dez anos do sepultamento e com prévia comunicação aos proprietários do jazigo. A relação dos cadáveres em vias de desapropriação deverá ser publicada em edital, com prazo mínimo de 30 dias para que seja regularizada a pendência financeira. Academias, conselhos e associações de classe poderão, dentro do prazo estabelecido, apresentar embargo, justificando a necessidade de proteção ao cadáver sepulto, com base em fatos e documentos históricos. Uma comissão especial julgará os embargos. 4) Os restos mortais do cadáver desapropriado deverão ser catalogados e acondicionados em material resistente, onde constem nome e datas do sepultamento e da desapropriação. Já a guarda dos restos mortais deverá ser feita em local adequado, não exposto e de acesso aos interessados. 5) O projeto determina ainda que a vigência dos contratos de terceirização não poderá exceder o prazo de cinco anos, após o qual haverá nova licitação. Perguntamos: essa lei não é mais uma forma de controle social sobre os corpos e uma forma de exploração comercial dos enlutados?

sábado, 17 de abril de 2010

A Fotografia Mortuária Não Morreu: Os "Viajantes" de Elizabeth Heyert (Erasmo Ruiz)



Sou fascinado pela fotografia mortuária. Nunca perdi meu tempo para tentar descobrir o porquê disso. Já dizem os psicanalistas de plantão que de uma forma ou de outra, todos nós temos algum fascínio pela morte. Talvez a fotografia, pelo seu poder de "congelar" a realidade, permita que nos aproximemos de qualquer evento, incluso aqueles que seriam mais amedrontadores, sem que estejamos efetivamente expostos a qualquer risco, um mecanismo parecido com o do parque de diversões.

Assim, no caso da fotografia mortuária, ela nos apresenta o cadáver, esse "maldito" objeto que a medicalização da sociedade tornou abjeto: uma entidade repleta de problemas higiênicos e que insiste em seguir a sua sina biológica de se desfazer e produzir odores terríveis e doenças contagiosas. Talvez estejamos diante da solução de um dos mistérios da fotografia mortuária. Ela cumpriria a capacidade de imobilizar simbolicamente a presença do morto, num momento em que o corpo ainda tem aquela aparência enganadora de que preservou a vida. Substituiu com eficácia o papel que era antes exercido pela máscara mortária. Cumpre portanto a tarefa de preservar a memória.
Logo após a invenção da fotografia veremos sua utilização de forma expressiva para registrar os mortos, mas não com o caráter de hoje em dia restrito a sua visibilidade jornalística, quando vemos os mortos das periferias, de todas as formas de marginalidade, sangrando profusamente nas páginas de jornais sensacionalistas.
No passado, a fotografia mortuária era expressão de um ritual afetivo. Mantinha viva a presença do morto e, ao mesmo tempo, prolongava os rituais fúnebres. Explicando melhor. O mundo do século XIX e do início do século XX não é um lugar com estradas de fácil percurso. Se alguém morresse muito distante, não conseguiríamos chegar a tempo para participar do velório e do sepultamento. A fotografia, portanto, registrava esse momento para que todos, de alguma forma, pudessem celebrar a memória. E a julgar pelas fotos que nos chegaram, elas são testemunhos inequívocos de que se lidava de uma forma diferente com a morte e o morrer. O fotógrafos faziam seu trabalho e deixavam registrados o nome de suas empresas para futuras empreitadas. E fotografias mortuárias colocadas em porta retratos sinalizam que essa imagem bem poderia ficar numa sala de estar ou ao pé de uma cama, sem necessariamente despertar sentimentos mais perturbadores do que a lembrança e a saudade.
Hoje em dia o exilamento da morte provocou uma menor visibilidade da fotografia mortuária dissociada da espetacularização da morte. Ainda assim, podemos encontrar trabalhos interessantes. Gostaria de destacar a obra da fotógrafa Elizabeth Heyert. Um dia, ela estava lendo o jornal quando viu um artigo falando sobre um diretor de funerária no Harlen em Nova York, que realizava cerimônias fúnebres no velho estilo dos negros batistas do sul dos Estados Unidos. Um dos aspectos desse estilo recomendava que os mortos deveriam estar muito bem apresentados para poderem chegar ao paraíso. E qual não foi a surpresa de Elizbeth ao constatar que isso era verdade!
Os mortos, a partir de necromaquiagem, pareciam estar vivos. Mas o que mais chamava a atenção era a forma como eram vestido: a mais bela roupa que pudesse sintetizar seu modo de viver. Foi assim que nasceu o projeto "Os Viajantes". Elizabeth selecionou as suas mais belas fotografias para compor ensaios que redundaram em exposições e na publicação de um livro. Para o gosto de hoje em dia - ele mesmo resultado de uma cultura que expurgou a morte de um contato mais direto e público - o trabalho de Elizabeth parece ser uma esquisitice sem tamanho, fruto de uma mente doentia.
Mas quando olhamos os mortos fotografados podemos ser levados a uma reflexão. Talvez se registrássemos nossos mortos, isso pudesse ser inspirador para a nossa vida. Nos lembrarmos com mais facilidade deles meio que presentificaria os bons e maus exemplos afinal, uma arte de morrer deveria estar intimamente ligada a uma arte de viver. Um dos principais legados dos mortos é pedagógico: podemos aprender com a vida que viveram o que pode ou não ser algo útil e bom para nossas vidas.
Ver um jovem vestido com a jaqueta do seu time preferido de basquete talvez sinalize para cada um de nós que não estamos investindo nosso tempo no lazer como deveríamos. Ver uma mulher idosa vestida como quem vai se apresentar num coral no céu pode também sinalizar que nunca é tarde para começar a fazer o que desejamos. Gostei tanto das fotos que planejo convidar Elizabeth para o meu enterro. Só espero estar um morto apresentável!
Para saber mais do trabalho de Elizabeth Heyert Acesse:

sábado, 3 de abril de 2010

Malhação do Judas: a outra face da espetacularização da morte



A malhação do Judas não tem nada de dogma. Não pertence, oficialmente, a nenhuma religião conhecida. E, embora esteja inserida, pela vontade dos homens, dentro dos rituais macabros da Semana Santa (especialmente, a Paixão e Morte de Cristo), acredito que mesmo aqueles que não gostaram do meu post anterior irão concordar comigo que se trata de um espetáculo macabro de muito mau gosto.



Ela é uma extensão do gosto pelo derramamento de sangue e espetacularização da morte que herdamos dos romanos. Digo dos romanos e não acrescento nenhuma outra cultura graças à linha temporal que pode, espontaneamente, ser traçada entre nós e eles nesse sentido. Além do mais, somos romanos na forma de interpretarmos o mundo e, até mesmo, recebermos as influências das outras culturas.



A tanatologia crítica - aquela que estuda a morte e o morrer sob a perspectiva cultural - não pode ignorar fenômenos como a malhação do Judas. Homens, mulheres e crianças são convidados (e incitados) a catalisarem sua ira contra um único indivíduo representado em um boneco (ou, como em algumas culturas, contra um animal ou uma pessoa - como é o caso da Filipinas). O objetivo varia de cultura e época. Em algumas, essa malhação representa o ódio que deveria ser cultuado contra os judeus, em outras, contra os ímpios, contra as mulheres etc. Hoje esse ódio se prolifera: contra políticos, personagens públicos, casos recentes de indignação popular, como os Nardoni... o importante é extravasar-se em ódio contra algo ou alguém que, acredita-se ou deseja-se, deveria ser trucidado. Ter uma morte espetacular.



A nossa sociedade sempre escolhe seus judas. Aqueles contra os quais todos podemos manifestar nosso ódio que ninguém os defenderá. Ai desses! Atualmente, por exemplo, é bastante comum ouvimos críticas contra os ateus (que no meu entender não é uma opção ou convicção, mas a privação de um dom - ou se quiser, alguns dos seus efemismos: meme, gene etc) ou contra os pedófilos (que se trata de um transtorno de personalidade da preferência sexual, portanto uma doença mental, e não um crime) e os tratarmos como seres imorais, indignos de nossa convivência. Judas que merecem ser mortos com os mais sofisticados requintes de crueldade.



O que a malhação do Judas nos ensina em termos de aprendizado com a morte? Que ela deve ser espetacular? Qual a diferença da malhação do Judas e outro linchamento qualquer? O que ganhamos quando inserimos nossas crianças nesses rituais? O que tem a audiência dos programas televisivos que lucram em cima das mortes violentas e essa comemoração? O que queremos quando escolhemos pessoas, sejam por suas orientações sexuais, raça, cor da pele, formação genética ou saúde física ou mental para servirem de bode expiatório para a catarse do nosso ódio? O que ganhamos quando associamos isso a eventos religiosos?



Até onde vai o desejo dos homens de fazerem da sua vontade a vontade de todos, até mesmo a dos deuses?

sexta-feira, 2 de abril de 2010

A Paixão de Cristo e a Morte da Paixão (Erasmo Ruiz)





A Paixão de Cristo e a Morte da Paixão
Inspirado e provocado pelo post de Ayala Gurgel bem como por certo perfil crítico e injusto que recebeu, resolvi escrever esse texto.
Desde a mais tenra infância fui exposto aos impactos estéticos da morte de Cristo. Assim, escrevo de um ponto de vista muito pessoal embora o "pessoal" aqui deva ser entendido num sentido histórico, qual seja, não podemos apartar com tanta facilidadee aquilo que é do indivíduo daquilo que é do mundo. Tudo forma um amálgama complexo, uma totalidade constituída pelas ações conccretas da minha identidade em interação dinâmica com o que os outros seres humanos nos inscrevem.
Assim, a história que move a paixão de Cristo se perde na mais remota antiguidade. Começa milhares de anos antes de Cristo nascer. É de certa forma contada pelos mitos sacrificiais e de ressurreição como de Osiris, ou de Abrão ao se dispor a sacrificar o próprio filho. A idéia de sacrifício permeia boa parte das religiões inclusa aquelas que não pagam tributo a uma origem Judaico-Cristã.Basta pensarmos, por exemplo, na punição de Prometeu ao fazer o bem aos homens
Mas quando falamos do episódio do Sacrifício de Jesus, falamos de uma história que nos toca de perto pois cada um de nós imerso na cultura ocidental somos o tempo todo bombardeados com seus elementos, de tudo aquilo que a história contém de belo e trágico, um efeito que pode ser mobilizador de boas ações ou justificador dos gestos mais bárbaros. Como um acontecimento que extrapolou seu sentido de verdade, é apropriado em cada momento histórico e em cada circunstância de cada período, de uma forma especial e interessada. Em nome do Sacrifício de Jesus ordens religiosas que minimizavam o sofrimento humano foram criadas. Em nome do sacrifício de Jesus cidades foram conquistadas e dizimadas.
Portanto, parece-me que a história do sacrifício de Cristo não traz um bem ou um mal imanente a própria história mas aquilo que identificamos como "mal" ou "bom" diz muito mais respeito a forma como essa história é apropriada. E, neste sentido, Ayala foi muito feliz ao paralelo que construiru entre a Paixão de Cristo e o Circo Romano. Parece que a paixáo se tranformou num espetáculo, diria mesmo que, muitas vezes, a idéia de espetáculo se transforma em sua literalidade, haja visto o exemplo da representação teatral a céu aberto que ocorre em Nova Jerusalem (sertão de Pernambuco) parece que se reproduz no mundo todo em escala comercial. Neste sentido, a sociedade mercantil esvazia gradativamente a Paixão de Cristo de seu significado sacro, submetendo-o ao seu sentido maiis profano: Como mercadoria que deve ser vendida e comprada. Há portanto um nexo entre a morte de Cristo como espetáculo e a transformação deste espetáculo em elemento de mercado.
Assim, quando somos crianças, encontramos uma realidade já posta. Nunca ocorreu-me questionar se tudo aquilo que via na TV, nas Igrejas, nos quadros, nas falas, nos discursos, nas procissões era verdade ou não. Essa realidade se apresenta a nós como ente paupável e praticamente inquestionável. E hoje em dia, a realidade da Paixão aparece decididamente associada ao mercado. O feriado, por exemplo, está muito mais mobilizado pela indústria do
turismo e não mais aproveitado para as cerimônias religiosas. Hoje a Paixão de Cristo se torna uma desculpa para que a classe média dê uma escapada para a praia e o proletariado possa acordar um pouco mais tarde.
Assim, devemos talvez nos voltarmos mais uma vez à sabedoria dos poetas. Questionar a verdade histórica ou mítica dos evangelhos é uma tarefa árdua para os historiadores, eles mesmos em parte "contaminados" pelo sentido místico da história que investigam pois mesmo aqueles que não acreditam, ao voltar seu olhar ao cristianismo, não estarão estudando um mito mas uma religião viva com todas as suas consequências de determinação simbólica. Existe um soneto em espanhol, de autoria anônima, talvez escrito na virada do século XVI para o XVII e que foi traduzido por Manoel Bandeira:
Não me move, meu Deus, para querer-te
O céu que me hás um dia prometido:
E nem me move o inferno tão temido
Para deixar por isso de ofender-te.
Tu me moves, Senhor, move-me o ver-te
Cravado nessa cruz e escarnecido.
Move-me no teu corpo tão ferido
Ver o suor de agonia que ele verte.
Moves-me ao teu amor de tal maneira,
Que a não haver o céu ainda te amara
E a não haver inferno te temera.
Nada me tens que dar porque te queira;
Que se o que ouso esperar não esperara,
O mesmo que te quero te quisera.
O que me fascina neste soneto é sua afirmativa mística eivada da dúvida. Afirma o céu e o inferno mas, ao emsmo tempo deixa espaço para questionar tudo isso. O que resta então? É o exemplo do acontecimento, é a expressao do Cristo humano sofrendo em nome de princípios e valores. Talvez essa seja a página esquecida da Paixão. O exemplo de se morrer por valores e o quanto determinadas falas ainda ofendem determinados princípios embasados na violência e na maleficência. O que o velho soneto nos acena é que, mesmo que o sentido mmístico da morte de Jesus não seja real, o exemplo deixado pelo martírio é algo que nos impacta e nos faz pensar sobre o sentido que damos a nossa própria vida.
Meu olhar agnóstico me leva então a buscar um sentido humano nesse Cristo, o que me aproxima muito do Evangelho de Marcos onde vemos um Cristo relutante e temeroso com o próprio sofrimento que prevê mas que, ao mesmo tempo, talvez seja necessário para afirmar o discurso do dar pão para quem tem fome e água para quem tem sede como uma verdade que se constroi na ação. Talvez nos sintamos capazes de fazer a mesma coisa se nos esquecermos um pouco da dimensãao mística e pensarmos que não precisamos ser um deus para construirmos uma sociedade mais ética e solidária. Proponho assim um resgate da dimensão humana da Paixão. Não se trata da glorificação da estética da violência e da morte mas sim da glorificação da estética do valor sacrificial do sentido do dever a ser cumprido, a tal ponto que encontramos um novo sentido de liberdade, Não foi isso que nos ensinou Montaigne? Saber morrer nos exime de qualquer sujeição e coação!