terça-feira, 21 de setembro de 2010

Obviedade Cientificamente Comprovada: Morrer em Casa Produz Saúde (Erasmo Ruiz)



 




Como é que é? Morrer em casa produz saúde? Mas como se a pessoa morreru?
Na verdade, a morte de qualquer ser humano não é algo redutível apenas a sua individualidade. Pelo contrário, impacta de forma decisiva em toda a sua rede social.
Pesquisa realizada pelo Instituto de Câncer Dana-Farber nos Estados Unidos mostra que morrer em hospitais além de comprometer a qualidade de vida dos moribundos, é fator decisivo para determinar maior risco de problemas de saúde entre os parentes e amigos que acompanham o paciente em seu processo de morrer.
 Em casa os pacientes receberiam formas de cuidados que aliviariam mais os sintomas estando,portanto,protegidos de condutas médicas que mudem o foco de cuidados paliativos para tratamentos mais agressivos que ofereceriam falsas possibilidades de cura. Assim, podendo morrer de uma forma mais tranquila,o próprio processo do morrer influenciaria as condutas daqueles que ficam.
 O estudo mostrou que " apesar de a maioria dos pacientes preferir passar seus últimos dias de vida em casa, quase a metade (44%) acaba morrendo em um hospital. Além disso, 8% das mortes ocorrem na UTI, onde os pacientes são submetidos aos chamados procedimentos desproporcionais.
Durante seis anos, os pesquisadores acompanharam 342 pacientes e algum amigo ou familiar que o acompanhava. Desse total, 19 morreram em UTI e 137 em casa. Após realizar entrevistas antes, durante e depois da morte, os pesquisadores notaram que 21% dos familiares daqueles que morreram na UTI desenvolveram estresse pós-traumático. Por outro lado, esse distúrbio foi notado em apenas 4,4% dos familiares dos pacientes que morreram em casa."


FONTE DA NOTÍCIA: Clique aqui

domingo, 19 de setembro de 2010

Poemas Mortais à Mulher Amada: Tanatologia Poética com Baudelaire (Erasmo Ruiz)

                                 Túmulo de Baudelaire
Agora a conversa é de homem para homem. Em algum momento da vida, lá pelo final da adolescência você, apaixonado pela mulher da sua vida, simplesmente não sabia o que fazer  para resolver a questão.


Numa hora como essa recorre-se aos amigos mais experientes, ao pai ou ao irmão mais velho, livros de autoajuda são bem vindos, internet...as opções são variadas.


E as respostas também são: "declara-se a ela"; "convide-a para ir ao cinema, de preferência um filme romântico e depois diga tudo o que está sentindo"; "mande flores com um pacote de chocolates" etc. Claro, se você possui dotes poéticos acima das rimas de "amor" com "flor" pode ter sido aconselhado a fazer um poema.


Hoje em dia não passaria pela cabeça da maioria dos mortais ao tentar seduzir o amor da sua vida, falar em morte. Mas que coisa de mau gosto! Ora, amor é algo que em tese oporia-se a morte, pois fala de vida, de libido, de paixão e de intensidade.


Mas numa época onde a morte era vista com outros olhos, mais presente e visível, menos interdita. Numa época em que as explicações gerais iam perdendo espaço para outras que colocavam em dúvida as certezas de uma pós vida e da eternidade, cabia então chamar à razão  aquela pobre dama que mesmo diante dos desejos do corpo, negava seus amores ao suplicante poeta.


Assim, temos Baudelaire num gesto absolutamente sedutor...pelo menos nos idos de 1857:




Remorso póstumo


Quando fores dormir, ó bela tenebrosa,
Num negro mausoléu de mármores, e não
Tiveres por alcova e morada senão
Uma fossa profunda e uma tumba chuvosa;


Quando a pedra, oprimindo essa carne medrosa
E esses flancos sensuais de morna lassidão,
Impedir de querer e arfar teu coração
E teus pés de seguir a trilha aventurosa,


O túmulo, que tem um confidente em mim
- Porque o túmulo sempre há de entender o poeta _,
Na insônia sepulcral dessas noites sem fim,


Dir-te-á: "De que serviu, cortesã incompleta,
Não ter tido o que em vão choram os mortos sós?
_ E o verme te roerá como um remorso atroz.
(Charles Baudelaire,"Les Fleurs Du Mal", Tradução de Guilherme de Almeida)



Caro Leitor! Se sentires que sua amada seja sensível a tais argumentações, então use e abuse da genialidade de Baudelaire. Mas creio que estas aproximações poéticass sobre a morte no século XIX seriam meio que incompreendidas pela maioria das mulheres de hoje em dia.
Particularmente, acho a idéia do túmulo ser um confidente do poeta a pensar na morte em noites de insônia muito representativa dessa época em que a tuberculose graçava sem controle convidando ao lirismo das metáforas sobre o efêmero. E coittado do verme cheio de remorso devorando a intensa beleza daquelas carnes sem vida. Chego a pensar que se Bauldelaire continuasse o poema expressaria inveja do pobre verme!


Mas deixando o sarcasmo para lá. O poema é lindo! Mas essa beleza soa meio incompreensível para os dias de hoje. A maioria das pessoas sonha em seduzir com  ícones do consumo, com o espetáculo do frenesi da vida chafurdando nos significados rasteiros do oceano de mercadorias.


Interessante captar as nuances de uma epoca onde a morte junto com o mel, as flores e o arco-iris, fazia parte do construto de metáforas que na verdade eram artimanhas para a exaltação da vida!

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

"Fértil Cratera de Amor" - carta de adeus de uma mãe ao seu filho

Uma mãe, minha amiga, perdeu seu filho de uma forma trágica. A dor e o luto a inspiraram para escrever uma poesia com o intuito de homenagear o filho, que faria 28 anos, e ajudar a diminuir a dor das mães que venham a sentir a mesma dor pela qual ela passa: a morte prematura de um filho.



Elementos importantes para a elaboração do luto, como apego religioso e espiritualidade, sinceridade e espontaneidade nas palavras, independente de se expor nas mais diversas formas, forte carga emocional e pouca habilidade socila para lidar com a questão estão presentes no texto. Como a autora, espero que ele seja útil, mas, o mais importante, é esperar que as pessoas que passam por isso possam ser acolhidas e atendidas de uma forma mais humana e profissional.



Fértil Cratera de Amor


Querido filho,
Carne da minha carne,
Vida da minha vida,
Que saudade, meu amado!
Que saudade!
Querido, tenho sofrido e chorado tua ausência...
Sei que partiu, mas te sinto tão perto...
Tão dentro de mim...
Meus olhos não podem negar meu pranteado,
Mas meu coração não pode negar para ti que esse pranto é um lindo pranto na Paz, porquanto sou humana e divina, também!
Sofro em Cristo e com Cristo!
Querido, quero agradecer a Deus pelo presente que me ofertou durante esses vinte e sete amados anos...
Agradecer a Deus pelo anjo que dispôs na minha vida!
Tu foste e continua sendo este anjo amado de Deus!
A tua partida me levou à agonia do Monte das Oliveiras
A tua partida me levou ao abandono do Monte Calvário e lá, meu querido, eu bradei:
"Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?"
Mas lá, amado, eu também tive a oportunidade de dizer: Pai em tuas mãos eu entrego o espírito de meu filho, e o meu também!
Querido, compreendo que um servo não é maior que o seu Senhor, nem um servo é maior que sua senhora: Nossa Senhora!
E com ela permaneço aos pés da cruz, em pé, e não só com um, mas com muitos amados apóstolos de Cristo.
A tua partida; o emu nascimento espiritual!
Filho, sofri, morri, mas ressuscitei em Cristo, por ti!
A tua partida deixou em mim uma cratera que deveria ser preenchida tão somente por Deus!
E hoje, posso te dizer, meu amado, que o amor de Deus está jorrando dentro dessa fértil cratera de amor, deixada em mi por ti!
E quando ela transbordar de amor, então estarei como uma árvore frondosa, pronta para acolher os passarinhos nos seus galhos!
Um beijo, meu querido, minha carne, minha vida, meu amado espírito, no teu coração tão puro e meu!
Deus esteja com teu espírito. Amém!


Tua Nila

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Na companhia da Morte com Manuel Bandeira (Erasmo Ruiz)



Imagine-se muito jovem sabendo que é portador de uma doença praticamente incurável. Qual seria sua reação? Cair em profunda depressão? Pensar seriamente no suicídio? Optar por uma vida absolutamente desregrada disfarçada no eufemismo de "intensidade"?


Para nossa sorte, diante da possibilidade de morrer muito jovem, Manuel Bandeira, acometido pela tuberculose numa época exigua em terapêuticas, produziu algumas reflexões sobre a morte. Uma delas já foi comentada nesse blog (vide post aqui). Hoje retomo Bandeira em mais três poemas. Vamos ao primeiro:


Preparação para a Morte


A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
– Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.




O poema possui uma notável beleza e profundidade. fala sobre o encantamento da vida, do que ela tem de mais arrebatadora, seu caráter aparentemente inexplicável, dai a idéa de que ela seja um milagre em todas as suas manifestações. Mas então o poeta nos apresenta a morte como algo que não é milagre. Talvez pelo fato dela ser onipresente e comum. Por que seria a morte adjetivada como "bendita"?


Para o poeta ela terminaria o milagre. Talvez devêssemos ser tomados pela angustia da iminência da morte para perceber este sentido em Bandeira. O milagre da vida pode se tornar sufocante se imerso na dor e no sofrimento. Um vellho que antevê a morte escreveria esse poema. mas dentro dele continua pulsando o jovem de "Penumotórax"




Pneumotórax


Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.

A vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Tosse, tosse, tosse.



Mandou chamar o médico:

- Diga trinta e três.

- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...

- Respire.



- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.

- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.



Do meu ponto de vista é esse Bandeira de "Pneumotórax" que estará presente até o fim de sua vida meio que fantasmático em quase todos os poemas sobre a morte. A preparação para a morte ainda muito jovem exigiu dele reflexões intensas sobre o viver e a constatação da impotência do se impedir a morte levou a construção de potência de vida.



Diante da ausência de possibilidades concretas de se intervir na tuberculose, restava pensar na morte e tocar um tango pode ser então o movimento da vida, sua intensidade, lubricidade e também tragédia. Asl etras dos tangos nos remetem invariavelente para estas três vertentes. Por consequência, é preciso viver o milagre:





Poemeto Erótico





Teu corpo claro e perfeito,

- Teu corpo de maravilha

Quero possuí-lo no leito

Estreito da redondilha...



Teu corpo é tudo o que cheira...

Rosa... flor de laranjeira...

Teu corpo branco e macio

É como um véu de noivado...



Teu corpo é pomo doirado...

Rosal queimado do estio,

Desfalecido em perfume...

Teu corpo é a brasa do lume...


Teu corpo é chama e flameja
Como à tarde os horizontes...
É puro como nas fontes
A água clara que serpeja,


Que em cantigas se derrama...
Volúpia de água e da chama...
A todo momento o vejo...
Teu corpo... a única ilha


No oceano do meu desejo...
Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa, flor de laranjeira...


Estar cheio de vida, ou, como nos mostra Bandeira em outro poema, "absorto em vida", pode nos fazer passar ao largo da morte pois a vida carece de total sentido apriori do próprio viver. O milagre da vida nos trai ao sinalizar que um dia ele termina.


Mas, ainda assim, viver significa aproveitar ou, então, se aproveitar da oportunidade miraculosa que é a vida. Afinal caro leitor, não somos milagres probabilísticos? Eu, você...todos nós somos medalhistas olímpicos de uma corrida de milhões de espermatozoides. Aproveitem o milagre enquanto ele pode ser desfrutado pois um dia a bendita morte ira por fim a ele.


Uma das melhores formas de aproiveitar o milagre da vida pode ser cultuar a maravilhosa poesia de Manuel Bandeira!















terça-feira, 14 de setembro de 2010

IV CONGRESSO INTERNACIONAL DE CUIDADOS PALIATIVOS - EDUCAR PARA PALIAR - CARTA DE INTENÇÕES

Reunir profissionais em evento presencial numa época em que a modernidade nos permite encontros virtuais, comunicação efetiva   por tantos outros meios e publicações possíveis, exige uma justificativa bem fundamentada.

Um Congresso não pode mais ser apenas um amontoado de conferências diversas em torno de um tema central ou de uma área de conhecimento.

Precisa ser um encontro resolutivo, um real acréscimo às nossas experiências, espaço de trocas de conhecimentos, de relacionamentos e de planejamento de estratégias para o crescimento de todos.

Neste sentido, ao eleger o tema Educar para Paliar a Academia Nacional de Cuidados Paliativos – ANCP tem muito clara a sua intenção.

Os Cuidados Paliativos no Brasil vivenciam um momento decisivo. Desde 2005, ano da criação da ANCP, têm experimentado uma grande divulgação, começam a tomar contornos de oficialidade e passam a ocupar espaço cativo em várias outras áreas do conhecimento t anto na área da saúde como no direito, no jornalismo, na arquitetura, filosofia, antropologia, artes e até na esfera legislativa. A verdade é que o tema está em pauta.

Surgem os diferentes interesses e o Brasil começa a acordar para a necessidade de implementar os Cuidados Paliativos nas redes públicas de saúde, em todos os hospitais sejam privados ou públicos e em todos os níveis de atendimento.

Precisamos de uma política de Cuidados Paliativos que dê conta da dimensão e das diferenças deste país. As ações, no entanto, precisam ser coerentes, bem coordenadas e pautadas no melhor conhecimento científico da atualidade, para que não caiamos num retrocesso de conceitos e práticas equivocadas, que devem ter lugar apenas na história da desassistência e da má assistência ainda vivida pelas pessoas no final da vida.

Em recente publicação da World Aliance for Hospice and Palliative Care – WAHPCA – o Brasil ficou em 38% no ranking da qualidade d e morte entre 40 países estudados. Por sua vez, o New England journal of Medicine publicou artigo revolucionário em agosto de 2010 demonstrando cientificamente que a adesão precoce a programa de cuidado paliativo ajudou pacientes com determinado tipo de neoplasia de pulmão a viver mais e com melhor qualidade.

O Conselho Federal de Medicina – CFM se posiciona de forma favorável ao crescimento do Cuidado Paliativo ao criar uma câmara Técnica de Terminalidade da Vida e Cuidados Paliativos, elaborar a resolução 1805/06, incluir o Cuidado Paliativo de forma explícita e repetida na revisão do Código de Ética Médica e ao iniciar uma ampla discussão sobre a Diretiva Antecipada de Vontade.

A construção de uma política de Cuidados Paliativos racional, duradoura e consistente para o Brasil só será possível se de forma paralela e séria construirmos também um saber sólido nesta área. Eis a razão do Educar para Paliar.

De forma intencional os cursos p ré-Congresso serão ministrados pelas três entidades que ensinam Cuidados Palaitivos no Brasil: o Palliare, de Londrina, a Casa do cuidadr e o Instituto Paliar, ambos de São Paulo. As enfermeiras também prepararam um excelente curso sobre gerenciamento de enfermagem em Cuidados Paliaiivos.

O IV Congresso tem início com uma plenária sobre o EPEC–Brasil, uma proposta de promover educação à distância com qualidade e grande abrangência com conteúdo adaptado e direcionado ao Brasil. Ainda no primeiro dia, discutiremos programas de educação para a graduação na Medicina, Enfermagem e Psicologia. Nas duas sessões contaremos com a participação do Dr. Larry Librach, do Canadá, com larga experiência no ensino dos Cuidados Paliativos.

Em parceria com o CFM, ampliaremos a discussão sobre a diretiva antecipada de vontade, discutiremos temas controversos com especialistas de outras áreas, trocaremos experiências com outras especialidaes e áreas de conhecime nto, reuniremos experiências brasileiras de diferentes regiões para melhor integrar o Cuidado Paliativo no Brasil.

Na quinta feira, 7 de outubro haverá um encontro da Psicologia, na busca da definição do saber do psicólogo em Cuidado Palaitivo e, em seguida, um encontro entre profissionais da área psicossocial, no sentido de organizar suas atividades. O Cuidado Paliativo será discutido entre os profissionais como um Direito do Cidadão.

No segundo dia de Congresso as plenárias discutirão a assistência à Terminalidade e uma Política de Medicamentos, marcando a primeira sessão com o Dr Eduardo bruera, que dispensa apresentações.

Enquanto uma discussão sobre as ações paliativas na UTI acontece em parceria com a AMIB, os demais painéis do dia 8 discutem os Cuidados Paliativos em crianças e os problemas relacionados ao envelhecimento.

O segundo dia reunirá os profissionais da área de Reabilitação em torno de suas especificidades e organizaçã o. A Terapia Ocupacional já definiu uma área de atuação em Cuidados Palaitivos. Podemos evoluir em todas as outras áreas da saúde.

As trocas de experiências acontecerão com a presença de mais três importantes serviços no Brasil, de profissionais de Reabilitação e de profissionais gabaritados no emprego de psicofármacos.

Todos os dias, no primeiro horário do Congresso teremos três ou quatro sessões interativas denominadas de encontro com o Professor. Nesta modalidade os congressistas terão a oportunidade de encontro com dois professores numa determinada área de conhecimento para debaterem e tirarem dúvidas sobre a prática clínica e outros temas do dia-a dia. Esperamos proximidade e interatividade nestes encontros.

Na manhã do sábado, o Dr. Eduardo Bruera estará presente na plenária sobre Pesquisa em Cuidados Paliativos, junto com o Dr Henrique Parsons e Ricardo Tavares. A idéia é discutir linhas de pesquisa que podem ser importantes para o Brasil, neste momento.

Depois, O Dr. Bruera fará um encontro especial – uma sessão de 90 minutos para tirar dúvidas clínicas com médicos brasileiros. Enquanto isto as enfermeiras discutem o seu papel na construção dos Cuidados Paliativos.

Mas, o Congresso ainda nos reserva uma grata surpresa. A mesa Cuidado Paliativo e Sociedade será aberta à comunidade. E o tema será desta vez debatido entre pessoas que não são profissionais da área de saúde. Formadores de opinião como a presidente da ABRALE, Merula Steagal, a jornalista Thaís Itaqui e a grande atriz Glória Menezes se encontrarão para contar ao público suas vivências e expectativas.

Será o momento mais cidadão do Congresso. E marcará a nossa comemoração ao Dia Mundial de Cuidados Paliativos. Neste momento, todas as entidades que trabalham com voluntários serão convidadas. O grande auditório será aberto e será a nossa vez de, como bons paliativistas, ouvir. Ouvir o que sabe e o que q uer o brasileiro na assistência ao final da vida.

Tenhamos todos um bom e duradouro encontro.
Silvia Maria de Macedo Barbosa

Presidente da ANCP

Presidente do IV Congresso Internacional de Cuidados Paliativos

 

Dra. Maria Goretti Sales Maciel

Diretora Científica da ANCP

Presidente da Comissão Científica do IV Congresso Internacional de Cuidados Paliativos

 

Dr. Ricardo Tavares de Carvalho

Secretário Geral da ANCP

Presidente da Comissão Organizadora do IV Congresso Inernacional de Cuidados Paliativos

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

A THANATOS Está Mais Viva do que Nunca: Compartilhando Algumas Estatísticas deste Blog (Equipe da Thanatos)





Car@ Internauta!



A equipe da Thanatos vem orgulhosamente informar que nossa audiência está aumentando. Para breve a Globo talvez nos contrate para escrever uma novela sobre tanatologia. Brincadeirinha!!



O fato é que depois que mudamos a forma de apresentação do blog desde 13 de agosto, uma sexta-feira (supersticiosos de plantão contenham seus comentários), o número de acessos tem aumentado significativamente.



Antes dessa data estávamos com algo em torno de 40 acessos por dia. Para nós, rigorosos especialistas curiosos (para não dizer amadores) da construção de blogs, isso era um enorme salto. Agora, depois de algumas modificações que tornaram o blog mais bonito e amigável (com os ícones de compartilhamento para redes sociais abaixo de cada post), estamos com uma média de 170 acessos por dia.



Claro, dependemmos de vocês para isso. Ah, e o mais importante. Não ganhamos um centavo para cada click que você der. O que ganhamos na verdade tem um preço inestimável. Queremos que a discussão sobre a mudança radical nas formas de se lidar com a morte e o morrer seja cada vez mais difundida.Queremos que as pessoas percam a vergonha de discutir sobre um dos assuntos mais importantes da vida: a morte!



Queremos que todos e todas possam ter acesso ao que são os cuidados paliativos, seus princípios éticos e filosóficos bem como seus aspecos técnicos. Enfim, queremos ajudar a mudar os valores culturais no entorno da morte e que ainda fazem com que as pessoas, movidas pelas melhores intennções do muindo, exponham a si mesmas e seus entes queridos a formas terríveis de morrer.



Uma boa morte é possível! Ajude a difundir essa idéia. Caso você acesse nosso blog e ache interessante o post que esteja lendo, não seja tímido, divulgue para todo mundo, até para sua sogra!



Equipe da Thanatos

sábado, 11 de setembro de 2010

INCA Lança o Livro "Comunicação de Notícias Difíceis: Compartilhando Desafios na Atenção à Saúde (Erasmo Ruiz)







O Insituto Nacional do Câncer (INCA) está lançando mais uma importante publicação. A marcante ausência de disucssões no Brasil  sobre a temática da "má notícia" já tornaria a leitura desse livro obrigatória. Entretanto, ele apresenta outros conteúdos de fundamental importância  que orbitam a discussão da má notícia  como a problemática da "escuta sensível" , da "clínica ampliada" ou de como lidar com o processo de luto no trabalho em saúde entre outros. Abaixo transcrevo o início da apresrentação do livro. Ah, o mais importante. Como outras publicações do Ministério da Saúde e do INCA, o livro encontrra-se disponível online(link no final do post).



Apresentação







Este livro foi escrito a muitas mãos. Quando dizemos isso, queremos destacar que essas mãos não se limitaram às dos autores dos artigos aqui apresentados. Na verdade, as mãos dos autores foram instrumentos para a voz de todos aqueles que direta ou indiretamente participaram da constituição e desenvolvimento deste projeto: médicos, enfermeiros, pacientes, assistentes sociais, psicólogos, psicanalistas, gestores, fnanciadores, incentivadores os mais diversos. De uma forma ou de outra, esta obra é constituída por suas histórias, sua relação com seus pacientes, com sua equipe, com seus cuidadores, em suma, com o Projeto. Alguns estão aqui nomeados (não necessariamente identifcados por razões óbvias), outros são citados em uma referência experiencial, vivencial, sem necessidade de registro nominal. Aliás, os registros nominais devem ser apenas complementos dos relatos das experiências pessoais dos profssionais e dos doentes que por eles foram tratados. A implicação desses muitos retrata a abrangência de uma experiência que foi se constituindo com uma característica que marca esse percurso de modo incisivo – a dimensão coletiva dessa experimentação. Todas as experiências aqui relatadas assim como as articulações teóricas delas decorrentes se passaram no campo do atendimento aos pacientes oncológicos. Não se limitaram, entretanto, a simples

relatos de “casos”, como será apresentado mais detalhadamente adiante. Foram a expressão daquilo que normalmente não encontra tempo e/ou lugar para ser dito.



A construção e a realização do projeto revelaram, assim, uma forte vertente instituinte. Essa vertente

legitima a criação de um espaço profssional, público, ainda que reservado, para o compartilhamento

das difculdades enfrentadas pelos profssionais nas situações-limite que se apresentam em sua prática



cotidiana de atenção às formas graves de adoecimento.Portanto, trata-se aqui de apresentar o relato da construção de uma experiência e de como as vidas de todos aqueles que citamos acima foram afetadas por ela. A leitura dos textos que compõem esta publicação evidencia com nitidez uma linha histórica que

vai desde os fundamentos que determinaram a concepção do projeto, passando pelo esforço despendido

para o estabelecimento de alianças com gestores e pela montagem de uma infra-estrutura adequada.

Ademais, descreve o processo de apropriação do arcabouço teórico que oferece sustentação ao projeto, à

sua execução e às elaborações dela decorrentes, culminando nos primeiros resultados práticos obtidos.

Como se poderá constatar, por meio da leitura dos artigos, assim como das produções de cada

um dos oito grupos, na Parte III, essa curta, mas intensa experiência soube abrir caminho para a

confguração de um campo de saberes e de práticas que há muito demandava reconhecimento.

O livro está organizado em três partes. Na Parte I - Introdução, estão os artigos dos coordenadores,

observadores convidados e colaboradores. Estes apresentam o histórico e a concepção geral do Projeto

e suas principais articulações com a Política Nacional de Saúde do Trabalhador, com a Política Nacional de

 Humanização e com os recursos do Centro de Simulação Realística do Hospital Albert Einstein. Ao

fnal, foram incluídas as observações do psicanalista convidado. Na Parte II - Percurso dos Grupos, estão

os artigos elaborados pelos coordenadores dos Grupos Balint-Paidéia, nos quais são desenvolvidos e

aprofundados os principais temas surgidos e trabalhados nos grupos. A Parte III - Produção dos Grupos,

transcreve as apresentações que foram levadas e discutidas por todos os participantes no Encontro de

Conclusões e Propostas realizado ao fnal do Projeto.



 Para descer o livro, clique AQUI

Mistanásia em hospitais brasileiros. Ajude a evitar (Ayala Gurgel)



Mistanásia, ou mystanásia, é a morte abandonada ou a "morte do rato" - uma vez que o moribundo é condenado a morrer como um "rato de esgoto" (mys). O termo, já bastante explorado por Pessini e Barchinfontaine, significa, basicamente, a morte de milhares de pessoas sem nenhuma assistência, jogada à própria sorte, em lixões, debaixo de pontes, nas ruas, em bueiros, e também em casa ou nos hospitais.



Nesse último, corredores lotados com moribundos e pacientes abandonados por amigos e familiares são a principal característica dessa forma de morte. Só em São Paulo, fora os centenas que ocupam os corredores e macas dos hospitais de urgência e emergência, são, atualmente, quase uma centena (79 pessoas) em completa situação de abandono por amigos ou familiares. Tratam-se dos chamados "esquecidos".



O site do uol traz uma matéria sobre eles:

http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/ultimas-noticias/2010/09/10/site-mostra-79-pacientes-esquecidos-em-hospitais-paulistas.jhtm



"Atualmente, há pelo menos 79 pessoas internadas em hospitais do Estado de São Paulo sem identificação e sem a companhia de um familiar ou amigo. Do total, 45 estão em hospitais da capital, quatro em Guarulhos, quatro em Santo André, seis em Mogi das Cruzes, uma em Arujá, uma em Santa Rita do Passa Quatro, uma em Campinas, uma em Osasco, uma em Botucatu, uma em Diadema, 11 em Ribeirão Preto, uma em Santos, uma na Praia Grande e uma em Várzea Paulista.

A Secretaria Estadual da Saúde disponibiliza em seu site (www.saude.sp.gov.br) um serviço para que os pacientes sem identificação possam ser encontrados por seus familiares. As fotos e dados desses pacientes são disponibilizados pelos hospitais. O serviço é gratuito e aberto para qualquer hospital, público ou particular.

Para colocar a foto de pacientes “esquecidos” no site, os hospitais precisam encaminhar um e-mail para naoidentificado@saude.sp.gov.br com os seguintes dados: nome do hospital, endereço do hospital, telefone do setor responsável, e-mail do setor responsável, nome completo do responsável, R.G. e C.P.F. do responsável, características físicas do paciente (sexo, cor da pele, dos cabelos, dos olhos, altura e peso), além da foto do paciente. As informações também podem ser enviadas à Secretaria pelo correio."



Outra matéria se encontra no blog Papo com o Leitor

http://wp.clicrbs.com.br/papocomoleitor/2009/12/page/3/



"Quando a repórter Camille Cardoso apresentou a sugestão de pauta, foi paixão à primeira vista. A reportagem contaria a história de pessoas que foram internadas para fazer tratamento contra doenças mentais e, com o passar do tempo, foram sendo esquecidas pelos familiares. Tanto que acabaram tendo que literalmente morar em hospitais, sob a tutela do poder público.

Um assunto delicado. Que exige tempo. E muito tato para conversar com pacientes, médicos e autoridades da área de saúde pública. Camille ficou cerca de uma semana debruçada sobre a pauta. Foi a São José, para conhecer a história de um joinvilense que vive na área da antiga Colônia Santana. Apurou, conversou, escreveu. A reportagem era uma das apostas da versão impressa de “AN” de domingo passado. Acabou perdendo espaço para o noticiário esportivo, que se impunha pela factualidade: o título do JEC na Copa SC, a apresentação da rodada decisiva da Série A, a análise do grupo do Brasil e dos seus possíveis caminhos na Copa da África.

Mas o assunto não podia esperar até o próximo domingo, porque nesta sexta-feira os personagens participam de um encontro em Joinville. Que merecerá a cobertura deste jornal. A decisão, então, foi publicar a reportagem na versão impressa de “AN” desta quinta-feira. As histórias humanas são tão impactantes que o assunto mereceu a moldura principal da capa. Um detalhe importante: até havia autorização para publicarmos os nomes reais dos pacientes, mas acabamos decidindo preservar suas identidades para evitar que sejam vítimas de preconceito ou constrangimento hoje ou no futuro.

Se você é nosso assinante, corra lá nas páginas 12 e 13. Se não é, aproveite que é cedo e vá até a banca ou ao jornaleiro mais próximo. Depois, conte pra gente o que achou."





É possível fazer algo: uma reforma tanatológica na saúde brasileira

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Exame Final, livro de Pauline W Chen (Ayala Gurgel)





No livro Final Exam, Pauline Chen se questiona e põe diante de nós a seguinte interrogação: Por que somos tão ruins em cuidar dos moribundos?



A solução que ela encontra: é preciso se colocar no lugar dos pacientes moribundos. Entendê-los a partir de suas próprias esperanças e medos. Os médicos aprendem a ver moribundos e corpos mortos como "eles" e não como "nós".





Para tanto, ela escreveu o livro Exame Final, dividido em três partes.





Na primeira, ela mostra o que considera o paradoxo essencial da medicina: a profissão para cuidar dos doentes que despersonaliza o morrer. Essa prática ocorre, especialmente nas disciplinas que ensinam a lidar com o corpo como se fosse uma máquina, cujo conhecimento minucioso e particionado é a coisa mais importante a ser apreendida.





A segunda parte é dedicada à preocupação questionadora se é possível uma medicina diferente. É possível mudar a maneira como os médicos lidam com os moribundos e com a morte? A resposta é que, se os médicos não conhecem seus pacientes e o que eles pensam e desejam acerca da morte, como poderão saber se mudaram ou não de atitude perante eles? Sua tese é a de que os médicos se tornaram cegos, tanto para suas próprias ansiedades sobre a morte como para a maneira que se tornaram insensíveis para lidar com a questão.





Na terceira e última parte do livro, Chen mostra que essa cegueira não é só do médico. Para ela, familiares e pacientes participam dessa "falta". Ela diz que eles partilham a crença de que estão em uma longa frente de batalha até as últimas horas preciosas da vida, acreditando que a cura é o único objetivo.Durante o final da vida, o Exame Final, predominam, dentro dessa formação, momentos de tortura, que muitas vezes causam tratamentos equivocados e não apenas sobre os outros, mas nos próprios médicos.





Ela conclui que, ironicamente, a promessa do século XIX de que o corpo não era apenas um repositório irracional da doença, mas uma máquina potencialmente reparável, biológica, tornou-se a maldição do vigésimo primeiro.





Nesse sentido, a autora reafirma aquela que é a principal tese de meus estudos em Tanatologia: saber lidar com a morte é tanto uma questão de dignidade humana quanto uma questão de saúde mental dos envolvidos (profissionais de saúde, moribundos e familiares).

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Busca da sabedoria de viver a própria morte com dignidade (Léo Pessini)





Nasce uma sabedoria baseada na reflexão, aceitação e assimilação do cuidado da vida humana no sofrimento do adeus final a partir de dois limites opostos: de um lado, a convicção profunda que brota das culturas das religiões de não matar ou abreviar a vida humana sofrida (eutanásia); de outro lado, a visão e o compromisso para não prolongar a dor, o sofrimento, a agonia, ou pura e simplesmente adiar a morte (distanásia, tratamento fútil, obstinação terapêutica). No não-matar e no não-agredir terapeuticamente está o amarás, isto é, o cuidado da dor e do sofrimento humanos, que em última instância aceita a morte e faz desta experiência o último momento de crescimento de vida, como revela todo o trabalho pioneiro da médica psiquiatra norte-americana, Elizabeth Kübler-Ross. É o ideal da ortotanásia.



Temos um grande desafio pela frente: precisamos aprender e vivenciar a dimensão do amor/cuidado para com o paciente em estado crítico, terminal, em estado vegetativo persistente ou do neonato concebido com sérias deficiências congênitas, sem exigir retorno, num contexto social em que tudo é medido pelo mérito, com a naturalidade e a gratuitidade com que se ama um bebê! Como fomos ajudados a nascer também precisamos ser ajudados a morrer. A solidariedade eficaz alia competência científica e humana a serviço da pessoa fragilizada. Isto é a garantia de dignidade no adeus à vida. Concluímos com um famoso adágio francês do século XV (atribuído por alguns ao médico Oliver Wendell Holmes) que, ao falar da missão da medicina, sintetiza de uma forma paradigmática com muita felicidade o ideal entrevisto ao longo deste trabalho em torno da distanásia. O objetivo último da medicina é "curar às vezes, aliviar frequentemente, confortar sempre". A implementação dessa visão na prática de cuidados na área da saúde vai garantir-nos a certeza de que poderemos, quando chegar o momento de dar adeus a este mundo, viver com dignidade a própria morte.

(PESSINI, L. Distanásia. São Paulo: São Camilo - Loyola, 2001, p.339)

sábado, 4 de setembro de 2010

Epistemologia fúnebre ou sobre a verdade da morte (Ayala Gurgel)







A verdade sobre a morte e o morrer não pode ser da mesma natureza que a verdade sobre outras realidades da vida. Essa afirmação é alardeada nos mais diversos discursos de base metafísica. A razão argumentativa é simples: as verdades científicas, ordinárias, fabulosas ou midiáticas estão envolvidas em dois processos, a coerência e a repetição. Por sua vez, a verdade do morrrer não pode ser aplicada por nenhum dos critérios conhecidos: ela não se presta à verificação, ao falsificacionismo ou mesmo aos testes de coerência e repetição, afinal, não conhecemos ninguém que possa ter sido expostos a variáveis testes empíricos para provar que morrer é desse ou de outro modo. A conclusão mais direta, contra a possibilidade de ser a morte uma grande mentira, é a de que a sua verdade é de outra natureza. Que natureza é essa? Digamos que a natureza da morte e do morrer, dentro dessa lógica de outro paradigma de verdade: a morte é algo que transcende a nossa capacidade cognoscente. Ela é verdadeira enquanto para ser incompreendida. Enquanto mistério sobre o qual tudo pode ser dito e nada pode ser afirmado, nem o discurso mais ateísta nem o mais crédulo.