segunda-feira, 26 de julho de 2010

"A Dama e a Morte": Falando sobre o Morrer com Trabalhadores de Saúde (Erasmo Ruiz)





A morte é um tema que a primeira vista parece ser muito difícil de ser abordado. Duvidando dessa afirmativa, basta que você fale diretamente sobre o assunto num almoço de família. Será rapidamente convidado a mudar de assunto: "que conversa idiota é essa?", "tanta coisa para se conversar!"; "Isola, bate na madeira".
No trabalho em saúde, paradoxalmente, acontece fenômeno similar. As pessoas, apesar de muitas vezes lidarem com pacientes a beira da morte, agem como se nada estivesse acontecendo. A arte de fugir da morte é exercida na presença daqueles que vão morrer, seja numa conspiração silenciosa entre trabalhadores de saúde e familiares que impede a autonomia do paciente, seja pela incapacidade de se buscar novas instâncias e possibilidades de se lidar com a morte já que estaria consagrado o ethos de se lutar contra ela a qualquer preço: "enquanto houver vida há esperança!".
Mas enquanto houver vida, deve haver a dignidade de poder vive-la, com dor e sofrimento podendo ser atuados de forma adequada. Um primeiro passo para isso é falar sobre aquilo que ninguém quer falar. Avaliar os "ruídos", pensar nas possibilidades de se trabalhar de forma diferente. Não é esta a luta da Política Nacional de Humanização? Buscar novas formas de trabalho em saúde como uma condição fundamental para produzir em termos práticos o que se entenderia por trabalho humanizado? Assim, como humanizar o trabalho no entorno da morte.?
Caso você que esteja lendo este texto possa por algum momento refletir sobre esta questão, um primeiro passo seria asssistir esta animação espanhola de curta metragem que ganhou um Oscar esse ano. Ela pode servir para aquecer um debate entorno de questões sobre a morte e o morrer que acontecem no seu trabalho. Você deve estar se perguntando, por que um desenho ,animado, produto aparentemente feito para crianças, poderia ser usado para isso?
Bom, em primeiro lugar, essa animação está longe de ser algo infantil embora acredite que as crianças possam acha-la divertida, até porque toda a linguagem básica da animação está ali: ritmo, ação e uma boa história.
Uma senhora muito idosa relembra do marido já falecido. Adormece e morre serenamente. E lá está a morte a leva-la para os caminhos do além quando, repentinamente, algo parece sair errado. O médico a ressuscita! A partir dai é um frenesi alucinado, uma luta sem quartel entre a morte e os trabalhadores de saúde. Bom, vou parando por aqui pois não quero tirar o prazer de quem irá ver o desenho pela primeira vez. Mas inúmeras questões bioéticas podem ser trazidas a baila pelo desenho:
1) O Direito de Morrer com Dignidade
2) A Obstinação Terapêutica
3) O Tratamento Fútil
4) O Narcisismo do Trabalho em Saúde, em Particular de Alguns Médicos
5) Até Onde Podemos Atuar Terapeuticamente
6) A Problemática da Distanásia
Claro, muitas outras questões podem ser refletidas a partir dessa animação de apenas 8 minutos. Mas, depois de uma boa discussão os trabalhadores podem ser levados a pensar sobre o que acontece no serviço quando um paciente está morrendo e, posteriormente, quando a morte acontece. Mais especificamente, como a morte de pessoas estrutura processos de trabalho? Em que aspectos essas formas de se trabalhar geram gestos individuais e/ou coletivos que poderiam ser considerados desumanos? E uma pergunta que sempre cala fundo: caso o paciente que estivesse vivenciando a experiência da morte fosse alguém importante para mim, como julgaria o trabalho realizado pela equipe?
Deixo com vocês então o filme no  Youtube :




Eu costumo descer vídeos do youtube usando o Atube Catcher. Vocês podem baixa-lo aqui:
O programa é muito fácil de usar. Basta seguir as instruções postas no site e depois colocar o arquivo num pendrive e passar para todo mundo (um projetor pode tornar a tarefa mais com jeito de cinema)
Bom, como se dizia na Turma do Pernalonga: "Por enquanto é só pessoal"!

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Em Discussão o "Testamento Vital" (Erasmo Ruiz)



Quando ouvimos dizer que alguém está fazendo um testamento logo nos vem à mente a imagem de uma pessoa já idosa que não tendo mais como contornar o problema da morte, lega seus bens materiais para quem fica, geralmente parentes próximos. O testamento é, dessa forma, um documento com nítido caráter jurídico e econômico. Aliás, quem já teve a oportunidade de ler um testamento passou por uma experiência tediosa precisando invocar um amigo advogado para entender aquele idioma ininteligível.
Mas em outros momentos históricos já foi diferente. Num passado não tão distante o testamento além de ter sua marca econômica possuía também um sentido ético e moral ao exortar aqueles que ficavam a buscarem determinadas regras de conduta, e mais, funcionava como uma extensa lista de pedidos do morto para que sua alma fosse cuidada no além (a partir de orações e outras obrigações religiosas) e a memória da identidade fosse preservada na terra (com ritualizações que lembrassem aniversários de morte e nascimento, somas que fossem destinadas a caridade para lembrar o morto etc etc).
Agora estamos entrando num novo momento. Em muitas situações existem flagrantes violações que atingem a dignidade humana das pessoas. Uma delas pode acontecer no processo de morrer quando fica patente que mesmo em casos onde o moribundo ainda tenha consciência e desfrute de suas capacidades mentais, tem sistematicamente sua vontade desrespeitada.
Pessoas que insistentemente sinalizam a vontade de morrer em casa acabam confinadas desnecessariamente a leitos de UTI ou na solidão de quartos hospitalares. Indivíduos fora de possibilidades terapêuticas que sinalizaram expressamente o desejo de não serem ressuscitados caso tivessem parada cárdiorrespiratória são trazidos de volta a vida para continuarem num mar revolto de sofrimento e dores desnecessárias. Indivíduos que poderiam desfrutar de últimos dias com algum nível de atividade física e mental acabam tendo sua morte apressada ou então estendem processo agônico devido a intervenções invasivas fúteis que só alimentam a obstinação terapêutica e o narcisismo de alguns profissionais. .
Nos dias 27 e 28 de agosto o Conselho Federal de Medicina estará promovendo um encontro entre médicos e juristas para discutirem o "Testamento Vital". Funcionaria mais ou menos da seguinte maneira. Enquanto está consciente o paciente irá determinar a redação de um documento na presença de testemunhas onde descreve quais devem ser os limites do seu tratamento para que possa morrer com dignidade. Dessa forma, o paciente legitima e legaliza o papel de sua autonomia pois em algum momento poderá não estar mais consciente quando decisões importantes que afetam sua existência podem ser tomadas. Mas, creiam-me. Não estaremos inventando nenhuma novidade. Como nos alerta Eliane Brum em interessante artigo na Revista Época , essa modalidade jurídica já existe nos Estados Unidos, alguns países europeus e aqui pertinho no Uruguai.
Até onde deve ir o exercício da nossa liberdade? Essa é uma pergunta que nos fazemos o tempo todo, particularmente nos momentos em que nossas liberdades são constrangidas. Responder a esta pergunta é a tarefa de uma vida toda e tentar construir no plano prático as respostas nos torna seres políticos. A vida só termina quando morremos. Mas nossa liberdade tende a morrer antes. Vida e liberdade são elementos tão importantes da existência que podem e devem caminhar sempre juntas...até o fim!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Romantismo e Morte: "O Brilho de Uma Paixão" (Erasmo Ruiz)

 

Quando ouvimos a expressão "romantismo" ou "romântico", os estereótipos nos remetem imediamente às visões das pessoas apaixoonadas, aqueles que não tem medo ou vergonha de expressar afetos e sentimentos, invariavelmente de maneira exagerada. Alguns podem remeter a memória às quase sempre enfadonhas aulas de literatura onde estudantes ficam tentando reter as sinópses que os professores reportam sobre livros e poemas de autores famosos que jamais lerão. Mas, estaríamos preparados para adentrar ao mundo do romantismo? Ou, melhor dizendo, o que seria expressar amor e afeto na sociedade burguesa na Europa Ocidental no primeiro quarto do século XIX? No mês passado assisti ao filme "Brilho de uma Paixão", da diretora neozelandesa Jane Campion (que cinéfilos remeterão imediatamente ao belo "O Piano"). Sai do cinema com a sensação de ter sido atropelado por um trem de êxtase e tristeza. Mas, antes de configurar meus sentimentos em relação ao filme, vamos a sua história. O filme fala do relacionamento de John Keats (poeta inglês) com Fanny Brawne. Num mundo onde as telenovelas ensinam adolescentes a engravidarem para "prenderem" os namorados, o filme marca a diferenciação básica da afetividade romântica, vivenciada como casta, quase platônica, com a aura da fatalidade de uma juventude que a qualquer momento será ceifada pela morte. A história dessa relação é narrada com ternura, emoldurada por belas paisagens mas sem cair no engodo dos clichês de filme de época que prendem os espectadores com eficientes direções de arte que escondem histórias vazias. Não há vilões ou uma trama que intenta separar a vida dos amantes, pelo contrário. É a fatalidade de uma sociedade marcada pelas péssimas condições sanitárias que transforma a tuberculose na doce musa, a morte no colo da mulher amada com vestes esvoaçantes nos convidando para as bodas definitivas. Os personagens não estão fazendo juras eternas nem o poeta declama poemas melosos para a sua amada. Na verdade, lutam desesperados para escaparem daquilo que sabem ser seu destino: a separação! Em parte, ela já está demarcada pelas convenções sociais pois o poeta não tem meios financeiros para desposar sua amada. Mas a pior separação é aquela determninada pela morte! O filme é de uma beleza plástica intensa.A trilha sonora, de estilo minimalista, está lá como uma boa moldura que nunca deve chamar muita atenção mas sim destacar nosso olhar em direção a pintura. No entanto, o público não está mais acostumado a essa forma de expressão artística, muito menos a maneira como esse amor, intenso e singelo, é tratado no filme. Ainda é preciso destacar Brown, melhor amigo do poeta que tenta preserva-lo da paixão de Fanny, direcionando-o ao aperfeiçoamento de sua arte. Não é o vilão da nossa estória. Pelo contrário. O que move seu gesto é o amor pela arte do poeta e a intuição de que a doença irá ceifa-lo mais cedo ou mais tarde...e como foi cedo. John Keats morre longe de sua amada aos 25 anos de idade. Boa parte de seus poemas foram mal recebidos pela crítica ainda durante a vida do autor. Só depois da sua morte puderam perceber a beleza de sua poesia. O embate de Brown e Fanny, com diálogos cheios de sarcasmo e ironia, é um dos pontos altos do filme. Um dos belos momentos é quando Fanny e Keats em seus quartos, separados apenas por uma parede, se "tocam" imaginado como seria viver a plenitude daquele amor. E ainda há a cena da despedida dos dois em que estão deitados na cama e que ela chega a insinuar a possibilidade de fazer amor com o poeta. Ele recusa! Esse era seu maior sacrifício. Não toca-la sexualmente era a forma de preserva-la para viver as possibilidades de um casamento. Para nossa mentalidade acostumada a ver cenas de sexo na sessão da tarde pode parecer algo muito estranho isso tudo, ainda assim, belo e intenso! A cena mais tocante é o momento em que Fanny recebe a notícia da morte de seu amado. Seu pranto é uma das coisas mais intensas que já vi numa tela de cinema. Nos transporta à dor do personagem, nos coloca no tempo congelado do filme. Essa percepção da morte, presente e intensa, talvez nos ajude a entender como poetas como Keats ou músicos como Schubert e Chopin, apesar de viverem tão pouco tempo, tiveram produções intensas não só em qualidade mas também em quantidade. No início da sessão em que estive havia mais ou menos 20 pessoas numa cinema que comportava 300 poltronas. No final do filme, 10 espectadores ainda permaneciam. Fiquei pensando no que havia determinado que tantos saíssem antes que o filme terminasse. Os risos que ouvi diante do choro de Fanny ao saber da morte do amado deu-me uma pista. Nossa sociedade não consegue conviver com a morte na sua expressão mais dolorosa representada pela perda e pelo amor que já se intui inconcluso. Precisamos do espetáculo dos evisceramentos dos filmes de terror, das horrendas mortes dos vilões ou do massacre de Jesus no filme de Mel Gibson. Aprendemos a rir com a morte na estética do cinema-espetáculo. Desamparados, a maioria de nós parece não ser mais capaz de expressar a emoção da dor. Nesse sentido, um amor romântico sem clichê é realmente um amor de morte, mas com carinho, ternura e até júbilo. Para assisitir a esse filme, desarme-se! Não queira um mero entretenimento, um escapismo dos problemas, um relaxamento das questões mal resolvidas. Talvez você fique sufocado com o grande alerta dos personagens. Eu fiquei engasgado pelas coisas que ainda não vivi. Como nos mostra Keats, pensar na morte nos leva a imaginar tudo o que não veremos e, talvez, dessa maneira, vamos vivendo cheios de esperança em fazer aquilo que a morte pode potencialmente nos furtar: SONETO Quando fico a pensar poder deixar de ser antes que a minha pena haja tudo traçado, antes que em algum livro ainda possa colher dos grãos que semeei o fruto sazonado; quando vejo na noite os astros a brilhar - vasto e obscuro Universo, impenetrável mundo! - quando penso que nunca hei de poder traçar sua imagem com arte e em sentido profundo; quando sinto a fugaz beleza de alguma hora que não verei jamais - como doce miragem – turva-se a minha mente, e a alma em silêncio chora um impulsivo amor. E a sós, me sinto à margem do imenso mundo, e anseio imergir a alma em nada até que a glória e o amor me dêem a hora sonhada! Que a vida possa então ser brilhante e intensa como a paixão do filme, como a poesia de Keats!

Lei no cemitério – exploração da morte (Elba Mochel)



Em São Luís está em tramitação projeto lei que estabelece, entre outras, as seguintes regras: 1) a cobrança de taxa anual de manutenção dos jazigos limitada a 10% do salário mínimo, aí incluído o pagamento dos serviços de limpeza e conservação da área livre do cemitério e preservação dos jazigos contra a depredação ou furtos por deficiência de vigilância, cujo ônus caberá aos gestores. 3) A desapropriação dos restos mortais de cadáveres só será possível após dez anos do sepultamento e com prévia comunicação aos proprietários do jazigo. A relação dos cadáveres em vias de desapropriação deverá ser publicada em edital, com prazo mínimo de 30 dias para que seja regularizada a pendência financeira. Academias, conselhos e associações de classe poderão, dentro do prazo estabelecido, apresentar embargo, justificando a necessidade de proteção ao cadáver sepulto, com base em fatos e documentos históricos. Uma comissão especial julgará os embargos. 5) O projeto determina ainda que a vigência dos contratos de terceirização não poderá exceder o prazo de cinco anos, após o qual haverá nova licitação.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Brasil é 38° em ranking de qualidade de morte (Ayala Gurgel)

A Economist Intelligence Unit divulgou  estudo que avalia a qualidade de morte em 40 países. 

O resultado deixou a Grã-Bretanha em primeiro lugar, seguida da Austrália e Nova Zelândia. O Brasil em 38, próximo da Índia (40ª), China (37ª) e Rússia (35ª). A principal razão para isso, segundo a revista, é a presença e qualidade de uma política de assistência paliativista nesses países.
A dignidade humana dos moribundos deixa de ser apenas uma bandeira de luta e passa a ser um indicativo moral da assistência à saúde de muitos países, não apenas como ação isolada, mas como política pública. Por isso, a pesquisa, encomendada pela Fundação Lien, uma organização não-governamental de Cingapura, analisou indicadores quantitativos - como taxas de expectativa de vida e de porcentagem do PIB gasta em saúde - e qualitativos - baseados na avaliação individual de cada país em quesitos como conscientização pública sobre serviços e tratamentos disponíveis a pessoas no fim de suas vidas e disponibilidade de remédios e de paliativos. De acordo com a Aliança Mundial de Cuidado Paliativo, mais de 100 milhões de pacientes e familiares precisam de acesso a tratamentos paliativos anualmente, mas apenas 8% os recebem.
No Brasil, por meio da Academia Nacional de Cuidados Paliativos, a defesa da dignidade humana dos moribundos e a formulação e implementação de políticas públicas de cuidados paliativos tem sido uma bandeira constante nas mais diversas frentes de atuação. Um movimento popular que cresce a cada dia porque acredita que a morte é o coroamento da vida: não há uma vida digna sem uma morte digna.

terça-feira, 13 de julho de 2010

A Morte de Férias (Thanatos)



Não habitamos um livro de Saramago, portanto, na vida real, a morte não sai de férias. Mas como estamos no campo da virtualidade, pelo menos nesse blog, a morte e seus administradores da Thanatos estão de ferias nesse mês de julho. Sendo assim, não estamos publicando com a assiduidade que gostamos já que, para um dia termos uma boa morte, há que se investir na vida tirando merecidas férias. Para aqueles que estejam agora curtindo as férias: lembrem-se da morte! A vida irá adquirir uma cor muito especial e intensa!