terça-feira, 20 de dezembro de 2011

DEPOIS DO RETORNO DE SATURNO (Cristina de Oliveira)



Neste ano, entre meus trinta e completar trinta e um anos comecei a ver meus vinte e poucos anos com uma sensação diferente. Voltei aos espaços transformados da faculdade e vi que havia outras pessoas lá e me vi em algumas delas, com as mesmas roupas, com o mesmo brilho e percebi que tudo isso fora há muito tempo, outra vida, outra encarnação.



E voltei para casa com a sensação de estranheza própria de quem muda de mundo...
E um dia acordei na minha cama e eu estava num outro corpo, com outro rosto, com outras marcas....
E senti falta dos dez últimos anos quando não se tinha ainda o peso das perdas do percurso da vida e senti falta dos meus heróis, dos meus amigos imaginários e reais e senti falta da leveza da despreocupação de quem começa.
Pra alguns esse tempo passa mais cedo, pra alguns passa muito depois dos 30 anos, pra outros não chega nem mesmo a começar direito...
E me vi, de repente, sem mais permissão pra ter medo da vida, no ponto médio de uma ponte invisível com menos tempo pra errar e recomeçar...
E me vi dentro do peso da morte e imaginei a morte como apenas adormecer e descansar...
E então adormeço e descanso todos os dias na minha cama e desperto de novo em outro corpo...


Marília Campus Bello

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Morte: Como os pacientes, familiares e profissionais da saúde podem lidar e aceitar essa fase? (Tayrine Miranda Barbosa)






"A aceitação
da dor é o primeiro passo para suportá-la, caso contrário, o
pessimismo, a impaciência e a intolerância, poderão transformá-la
num fardo além de suas forças."



Ivan Teorilang











Ao ver o filme,
P.S Eu te Amo, deparamo-nos com uma jovem bonita, feliz e realizada
chamada Holly Kennedy

casada com o homem de sua vida Gerry. Porém, ele fica doente e
morre, deixando Holly em estado de choque. Antes de falecer, Gerry
deixa para sua amada uma série de cartas. Mensagens que surgem de
forma surpreendente, sempre assinadas da mesma forma: P.S. Eu te Amo.
A mãe de Holly e suas melhores amigas ficam preocupadas porque as
cartas mantêm Holly presa ao passado. Mas o fato é que as cartas
estão ajudando a aliviar sua dor e a guiá-la a uma nova vida.





O filme nos retrata
o espelho real da sociedade ao lidar com a morte como negação e não
aceitação. Holly não soube aceitar a morte de seu esposo. Os
profissionais de saúde e seus familiares estão preparados para a
aceitação da morte? É de suma importância um acompanhamento
psicológico com os familiares em todo o percurso da doença. Isso
refletirá para um melhor entendimento entre paciente, médico e
familiares, proporcionando assim que sejam descarregados os problemas
que poderão trazer malefícios para todos.










Posição
terapêutica





Falar em
tanatologia, ou seja, estudo da morte, é muitas vezes incômodo para
as pessoas. Não importa a cultura ou a religião, a maioria das
pessoas não se sente à vontade para falar sobre a morte.






 


Como na vida
passamos por alguns estágios, como por exemplo: nascemos, crescemos
e morremos, de acordo com a psiquiatra Elizabeth Kubler-Ross, uma
pessoa pode passar durante o processo de terminalidade pelos
seguintes estágios: negação e isolamento, ira, negociação,
depressão, aceitação e esperança. Também os familiares poderão
passar por esses estágios, sendo que, podem passar por todas as
fases ou ficar presos em algumas delas, no entanto, a que mais
prevalece é a de depressão e raiva.







A doença que poderá
levar a morte de uma pessoa próxima pode influenciar na vida
afetiva. Diante desse quadro de terminalidade, foram sistematizados e
implantados os cuidados paliativos, na qual essa prática está
voltada para o cuidador, quer seja ele um familiar ou um profissional
da saúde. No entanto, os cuidados paliativos também ajudam e
preparam tanto o paciente como seus familiares para a aceitação do
morrer. A importância de sua aproximação e uma boa comunicação
com o paciente quer seja no hospital ou em seu domicílio
influenciará para uma vivência menos angustiante para o paciente.
Evidentemente que, se o paciente for bem acolhido e amado por seus
familiares, suas necessidades físicas, sociais, econômicas,
espirituais e emocionais serão melhor atendidas.








Cabe aos
profissionais da saúde procurar promover, para cada indivíduo em
situação terminal, uma morte humanizada. O enfermo necessita de
atenção redobrada no sentido de ganhar mais afeto, apoio,
compreensão. No ambiente hospitalar dar-se a impressão de ser mais
confiável devido à tecnologia até para fazer algum procedimento.
No entanto, o enfermo pode preferir sentir o acolhimento de seus
familiares em seu próprio lar e se sentir mais aliviado
psiquicamente. Para tanto, é necessária a preparação dos
profissionais para que saibam lidar com a morte, incluindo sobretudo
o próprio sujeito nesse momento de sua vida.





























Referências



http://www.casadocuidar.org.br/site/pt/textos-on-line/29-cuidados-paliativos-e-comportamento-perante-a-morte.html



FIGUEIREDO,
Marco Tullio de Assis. A dor no doente fora dos recursos de cura e
seu controle por equipe multidisciplinar (Hospice). IN:
Coletânea
de textos sobre Cuidados Paliativos e Tanatologia
.
São Paulo: 2006.


GURGEL,
Wildoberto Batista. A morte como Questão Social. IN:
Barbarói.
Santa Cruz do Sul: n.27, jul./dez.2007.p.60-91.


Kübler-Ross
E. Sobre a morte e o morrer. São Paulo: Martins Fontes, 1996. 7ed.







domingo, 13 de novembro de 2011

A Enfermagem diante do contexto da morte (Grecy Oliveira)















O medo da morte
acompanha o ser humano desde o principio da vida, porém é uma
situação tão desagradável que é preferível não falar sobre o
assunto; com esse pensamento crescemos sem saber lidar com a partida
de seres queridos.








Com o avanço da
tecnologia e com a certeza de um dever comprido por parte da família,
no que diz respeito ao âmbito da saúde podemos dizer que hoje em
dia as pessoas ‘’preferem” morrer em hospitais, ou seja nos
últimos minutos que antecedem a morte estão em um lugar e com
pessoas estranhas que as cercam naquele momento, este fato acontece
pela busca de cuidados específicos no leito da morte, diferente de
anos atrás em que as pessoas faleciam cercadas pelos seus entes
queridos em seu próprio lar.








Por conta desta mudança
os profissionais da saúde, em especial a equipe de Enfermagem, vê-se
diante de vários sentimentos de angústia, sinal de fracasso,
frustração, impotência, missão de um dever cumprido e muitas das
vezes emissor de uma má notícia. 








Os profissionais da
saúde já são taxados com desumanos, isso acontece pois a morte já
faz parte do cotidiano do âmbito hospitalar principalmente em
UTIs, por experiência própria posso observar que há um
despreparo por parte destes profissionais em lidar com a família
neste momento.








No
que diz respeito aos colegas da enfermagem podemos considera-los
como transmissores de uma má notícia ou uma ponte de elo entre os
médicos e a família ou ao próprio moribundo em vários casos recai
sobre eles o anuncio de uma notícia desagradável, por estarem em
contato permanente com o doente.








A enfermagem é uma
profissão vista para prestar cuidados ao doente e não para
realizar uma tarefa muitas das vezes difíceis o anuncio da morte, ou
se vê em uma situação de agonia do paciente no leito da morte e
sem saber o que fazer, pois existe submissão aos médicos, não
podendo realizar uma simples manobra que poderia salvar uma vida.


domingo, 6 de novembro de 2011

Dor x Esperança (Danielle Leite)










Leandro era um rapaz cujo os pais tinham acabado de se
separar. A mãe e as duas filhas foram morar no interior do Maranhão,
o pai com sua nova família permaneceu morando em São Luís.






A mãe recomeçou sua vida, em busca de dar o melhor
para seus filhos, Leandro então preferiu continuar morando em São
Luís para terminar seus estudos, na época vésperas de vestibular,
terceiro ano, foi morar na casa de uma tia. Mas sempre que podia
viajava para onde sua mãe até porque tinha muitos amigos na cidade
e era muito querido.




Era um rapaz muito divertido e adorava curtir a vida, às
vezes era muito inconseqüente. Sua mãe se chama Raimunda, ela se
preocupava muito com ele, principalmente quando tinha festas, shows
na cidade, pois Leandro sempre que estava na cidade ia e bebia muito,
não se preocupava que voltaria para casa pilotando a moto. Esta que
sua mãe com muito sacrifício comprou.




Um belo fim de semana Leandro liga para sua mãe
avisando que iria para onde ela, haveria no local um show do qual
todos os seus amigos já tinham o convidado. Ele chegou à cidade
logo pegou a moto e foi ao encontro dos amigos para conversar e
combinar sobre a festa de logo mais a noite.




A
noite chega, ele se arruma e a mãe pede com muita aflição para ele
se cuidar e não beber. Como todo adolescente acha que é exagero de
mãe. Ele passa na casa da namorada pega ela de moto e vai para a
praça da cidade encontrar os amigos para depois partirem juntos ao
local do show. Começaram a beber e depois foram para a festa. No
decorrer da mesma depois de muito beber Leandro discute com sua
namorada por ciúmes, ela sai e vai embora, ele começa tenta
provocar uma briga e é retirado do local pelos seguranças.




Ao
sair revoltado e em alta velocidade de moto, passou em uma avenida
movimentada da cidade e não parou. A moto caiu em um buraco ele
sacou e como estava sem capacete bateu com a cabeça em uma calçada.
Logo apareceu uma multidão e o levaram as pressas ao hospital da
cidade, mas logo despacharam para trazer para capital.




Ao
chegar aqui começou o sofrimento de sua mãe em ter que ver seu
filho lutar pela vida na UTI do Socorrão, vivendo através de
aparelhos, mas sempre confiante e com esperança que ele sairia
dessa. O fato chocou toda a cidade, ninguém conseguia acreditar que
um rapaz tão jovem, bonito e de boa família estava naquela
situação.




Enfim quase três meses se passaram até que certo dia
veio a noticia que ele havia falecido. Foi um desespero, Raimunda
quase enlouqueceu, sofreu muito, sua fisionomia era triste mesmo
depois de muitos anos do ocorrido. A cidade parou para sua despedida,
foi emocionante, todos sofreram com a família.




Hoje, após oito anos do ocorrido, já se pode observar
que a mãe está mais conformada e superou a depressão, mas ainda
sofre bastante quando fala dele. Sua filha mais nova teve um filho e
se chama Leandro em homenagem ao irmão, esse neto veio a preencher
um pouco do vazio que o filho deixou com sua ausência.




É
inexplicável esse fato, porque a gente sempre acha, ou prefere
acreditar que é uma coisa distante e que pode acontecer com todo
mundo menos conosco! È muito triste!

domingo, 30 de outubro de 2011

Lula, o Câncer e o SUS (Ayala Gurgel)






Já dizia Otto Lara Resende, "o mineiro é solidário no câncer". E isso, por incrível que pareça, foi uma máxima moral válida durante algum tempo nesse país, não só para os mineiros, mas para todos nós, os brasileiros. Disse "Foi", pois pelo menos é o que parece. Ela deixou de ser quando o personagem atingido pelo câncer é o ex-presidente dessa república, Luís Inácio "Lula" da Silva.








O fato de o Lula ter desenvolvido um câncer - agora especulado pela mídia em todas as suas dimensões, da etiologia ao prognóstico, desenvolveu junto com ele uma relativização dessa norma moral. Se algum dia não foi incomum os inimigos políticos se abraçarem e praticarem o perdão mútuo quando um dos adversários se tornava moribundo, ou um dos lados dar por satisfeita a vitória quando o outro lado era tocado por alguma desgraça, especialmente o câncer. Se algum dia o Rei de Troia pode entrar no acampamento do inimigo para recolher o corpo do filho morto e ninguém o tocou, pois estava de luto. Se a doença por causas desconhecidas, como o câncer, teve um profundo poder de despertar solidariedade nas pessoas, hoje, isso certamente mudou.





Há uma reviravolta moral, ou talvez até mesmo de perturbação mental, que faz com que algumas pessoas aproveitem o momento nosológico para comemorarem uma punição divina, como a nêmesis dos gregos: aquele que não foi atingido pela justiça dos homens, será atingido pela justiça divina. Cito Erasmo Ruiz (no facebook): 


Uma
coisa é criticar o Lula por aquilo que você acredita que seu governo
tenha feito de errado ou deixado de fazer. Agora, se você está feliz
pelo fato dele estar com câncer na laringe...bem...creio que você está
precisando de mais tratamento do que ele. Uma mistura de psicoterapia
com princípios éticos cairia muito bem!


No entanto, não quero discutir aqui se Lula é merecedor - fruto de alguma nêmesis ou consequência dos hábitos de vida - de um câncer ou não, se ele fez ou não um bom governo, se foi ou não eleito pelos nordestinos, se tem ou não a possibilidade de ser eleito novamente, se devemos ser solidários ou não com ele pelo fato de ter câncer. Quero sim, discutir um único ponto: um discurso que ecoa:


"Lula deveria ser atendido pelo SUS".





Isso sim é intrigante, principalmente quando o significado mais comum para essa sentença é algo do tipo:





"Lula deveria ser atendido pelo SUS, para que possa ser penalizado".





Isso leva a equacionar "ser atendido pelo SUS" com "ser penalizado", e sugere que ter um câncer não é mais uma penalização, ou não é uma penalização suficiente, o que poderia dar um significado mais extensional à sentença como:


"Lula deveria ser atendido pelo SUS, para que possa ser penalizado, uma vez que ter câncer não é uma pena suficiente".





Esse Lula deve ter feito algo de muito errado para merecer tal pena. Mas, que penalização seria essa? O que significa "ser atendido pelo SUS"?





A princípio, não deve ser algo bom, pois li no perfil de vários profissionais do SUS uma confissão de sadismo que apregoa "ser atendido pelo SUS" como "ter seu sofrimento aumentado e sua dignidade prejudicada". O SUS não é uma entidade metafísica à parte das ações cotidianas de cada profissional, político, usuário que o compõe. O atendimento do SUS é aquele que os profissionais que nele trabalham ministram. Assim, quando leio essa confissão de sadismo, imagino que o SUS seja, realmente, um bom lugar para punir as pessoas.





Contudo, nem só de sadismo vivem as confissões acerca do SUS. Li, também no facebook, no perfil da Maria Goretti Maciel a seguinte declaração:


Que
coisa horrível essa de todo mundo comemorando a doença de uma pessoa!!!
Sei que o Lula neste momento precisa e muito de Cuidados Paliativos, o
que dificilmente terá. Câncer de cabeça e pescoço maltrata, mutila, dói e
faz sofrer!! E há serviços no SUS como o Hospital de Barretos ou o IMIP
no Recife que, entre outros, têm equipes muito competentes de CP e bom
tanto para o Câncer. Nestes, acho que o eterno presidente Lula seria
muito bem acolhido, tratado e paliado à altura, como desejamos para
todos os brasileiros e brasileiras que o lula ajudou a sair da linha da
miséria. Miséria são os maus sentimentos. Para estes não há tratamento
nem solução.


Isso quer dizer que o SUS pode ser também um lugar acolhedor, que respeita a dignidade do moribundo e alivia sua dor e sofrimento. E, como o SUS é feito por seus trabalhadores, do mesmo jeito que há esses sádicos assumidos, há também quem aposte na qualidade, na atenção, na solidariedade, no profissionalismo. Nessa perspectiva, "ser atendido pelo SUS" não pode ser compreendido como uma punição, mas como uma forma de acolhimento. A sentença ficaria assim:


"Lula deveria ser atendido pelo SUS, para que possa ser acolhido, uma vez que ter câncer traz muito sofrimento e precisa de tratamento adequado".


É essa postura que nós da Thanatos procuramos desenvolver. Não importa quem seja o moribundo, o vemos como um ser humano, portador de direitos e merecedor de nossas melhores habilidades e empenho no acolhimento de sua história, no alívio de sua dor e controle dos sintomas. Pois, sabemos que há coisas que não nos compete julgar, por mais que queiramos e estejamos inclinados a fazê-lo.





Com base nisso, também quero dizer, reforçando o que Maria Goretti Maciel disse:


Lula deveria ser atendido pelo SUS








Não Tenho Medo da Morte (Gilberto Gil)





Gilberto Gil nos ensina a diferença entre "morte" e "morrer" nessa inteligente página da música popular brasileira.









não tenho medo da morte

mas sim medo de morrer

qual seria a diferença

você há de perguntar

é que a morte já é depois

que eu deixar de respirar

morrer ainda é aqui

na vida, no sol, no ar

ainda pode haver dor

ou vontade de mijar

a morte já é depois

já não haverá ninguém

como eu aqui agora

pensando sobre o além

já não haverá o além

o além já será então

não terei pé nem cabeça

nem figado, nem pulmão

como poderei ter medo

se não terei coração?

não tenho medo da morte

mas medo de morrer, sim

a morte e depois de mim

mas quem vai morrer sou eu

o derradeiro ato meu

e eu terei de estar presente

assim como um presidente

dando posse ao sucessor

terei que morrer vivendo

sabendo que já me vou

então nesse instante sim

sofrerei quem sabe um choque

um piripaque, ou um baque

um calafrio ou um toque

coisas naturais da vida

como comer, caminhar

morrer de morte matada

morrer de morte morrida

quem sabe eu sinta saudade

como em qualquer despedida.

domingo, 23 de outubro de 2011

A Má-Notícia e o exercício ilegal da profissão (Ayala Gurgel)







Já destaquei aqui várias vezes que a comunicação de más-notícias não é uma tarefa fácil ou agradável para a maioria das pessoas. Quero destacar também que os comportamentos de fuga e esquiva que permeiam essa questão podem incorrer em erros morais e jurídicos prejudicando os pacientes e profissionais.






Um desses erros mais comuns acontece quando o profissional delega a outro o anúncio da má notícia, não importando a razão para isso.





Ora, a responsabilidade do anúncio do conteúdo de um diagnóstico é de responsabilidade do profissional que o fez. É seu dever anunciá-lo e um direito do paciente querer ou não sabê-lo, em quantidade e qualidade. Se o diagnóstico é médico, é dever do médico anunciá-lo, se da enfermagem, dever do enfermeiro, se social, do assistente social e assim sucessivamente.





Acontece, porém, que ao se esquivar de anunciar os resultados de um diagnóstico porque seu conteúdo pode gerar desconforto ou outra reação aversiva a si mesmo ou ao paciente e delegar essa função a outro, o profissional que assim procede incorre em erro ético e legal. Ele deixa, por um lado, de exercer a sua obrigação profissional para com o paciente de cuidar dele até o final, de cede-lhe as informações importantes e necessárias para o seu cuidado e, quando não, quebra do sigilo profissional. Contudo, o mais grave, é que esse profissional, ao delegar a outro uma tarefa sua, está permitindo de forma ativa a exercício ilegal de sua profissão.





Nenhum médico pode delegar ao assistente social a cirurgia que tem que fazer, contudo, delega a esse mesmo assistente ter que anunciar o resultado dos procedimentos - quando não saiu de acordo com o desejado.





Tomo o médico como exemplo porque é a variável mais comuns nesses casos, chegando a ter esse comportamento legitimado por algumas instituições de saúde que já institucionalizaram o assistente social ou o psicólogo como o responsável por esse anúncio. Contudo, nenhum profissional pode delegar a outro uma função sua. isso incorre em exercício ilegal da profissão e pode trazer muitas complicações, tanto para o profissional que o faz quanto para o paciente. E, em nenhuma hipótese, a instituição tem poder para desfazer essa cláusula pétria da ética profissional: cabe somente ao profissional responder por sua atuação profissional.




Esse protecionismo ao médico e ingenuidade de muitos gestores corrompe a noção de trabalho em equipe e torna resistente a mudança de paradigmas comportamentais dentro das ações de saúde mais pactuados com uma ética humanizadora.

domingo, 16 de outubro de 2011

A ausência e o medo do fim no filme Melancolia (Sarah de Sousa)



Melancholia é o novo filme do diretor Lars von Trier. Ele conta a história dos últimos dias antes de um Planeta chamado Melacolia colidir com a Terra.
Nesse tempo Justine (Kirsten Dunst), que celebra seu casamento com Michael (Alexander Skarsgård), vai ao longo da trama demostrando sua angústia de viver permeada por cenas de uma tristeza vaga que aos poucos a domina e a faz questionar a natureza da humanidade. Sua irmã Claire (Charlotte Gainsbourg) gosta de ter os fatos sobre seu controle, ao contrário de Justine que parece conformada, desenvolve um pavor do fim, a iminência da perda a faz entrar em fuga dos acontecimentos. Vários questionamentos vão surgindo na mente dos que assistem a película: como lidar como o medo da morte diante de uma ameaça eminente? É possível deixar, como Justine, que o sentimento de conservação nos abandone? A relação entre dois personagens com perspectivas diferentes trás um conflito chave: como se portar diante do fim?


Seria o medo que Claire possui o resultado de uma vida ‘’não vivida’’? Existirá algum ser humano que considere sua vida em plenitude ao ponto de esquecer tal temor?


O enredo se desenvolve com a visão da inevitabilidade e uma espécie de ‘’eu sabia’’ em Justine, toda sua melancolia é transformada em um sentimento de profecia quando o planeta parece cada vez mais próximo da Terra.


Claire vê tudo como o fim do  que conhece e pode controlar: seu filho, seu marido, sua irmã depressiva que necessita de seus cuidados. Compreender o que parecia inevitável estava além daquilo que permite para si.



O filme é provocante e termina com a certeza de não há escapatória, o mundo acabará e a humanidade terá seu final dramático.



Veja aqui o trailer de "Melancolia":













quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Meu Mundo É Hoje (Wilson Batista)





Em algumas oportunidades estaremos deixando aqui músicas que nos façam refletir sobre a vida e a morte. Vamos começar então com essa pérola de Wilson Batista na interpretação de Paulino da Viola.



Meu Mundo É Hoje





Eu sou assim

Quem quiser gostar de mim eu sou assim

Eu sou assim

Quem quiser gostar de mim eu sou assim



Meu mundo é hoje

Não existe amanhã pra mim

E sou assim

Assim morrerei um dia

Não levarei arrependimentos

Nem o peso da hipocrisia



Eu sou assim...



Meu mundo é hoje...



Tenho pena daqueles

Que se agacham até o chão

Enganando a si mesmos

Com dinheiro, posição

Nunca tomei parte

Desse enorme batalhão

Pois sei que além de flores

Nada mais vai no caixão



(Wilson Batista)

domingo, 9 de outubro de 2011

Claro Como o Dia – O’kelly fazendo da morte sua última empreitada (Adriana Mendonça)










Título: Claro Como o Dia


Subtítulo: Como a Certeza da
Morte Mudou a Minha Vida



Autor: Eugene O´Kelly


Tradução: Regina Lyra


Assunto: Biografia/Memória


Editora: Nova Fronteira


Data de Lançamento: 2006


















Com três tumores no cérebro, Eugene
O'Kelly, ex-presidente mundial da KPMG, usou as habilidades de
executivo para transformar a morte iminente numa experiência
positiva



















“O que você faria se soubesse
que seu tempo está acabando? Esta é uma história verdadeira.
Quando foi ao consultório médico no dia 24 de maio de 2005, o
executivo Eugene O´Kelly tinha uma agenda cheia de planos e
projetos, capazes de mantê-lo ocupado durante décadas. Menos de uma
semana depois, teve que reformular radicalmente essa agenda para um
período de cem dias: era o tempo que lhe restava de vida. O´Kelly
tinha câncer cerebral e morreu em setembro daquele ano.”








Diante da morte anunciada, ele não
se desesperou. Ao contrário, considerou-se abençoado por poder
planejar em detalhes seus últimos meses. O curto prazo foi dado
quando Eugene era presidente de uma das maiores empresas de
consultoria do mundo, a KPMG. O fato de ter os dias contados não o
fez perder o hábito de planejar tudo, mas foi mudando sua maneira de
encarar a vida que conseguiu transformar seus últimos dias nos
melhores que já tinha vivido superando o peso da morte anunciada.








O plano de Eugene era utilizar do
seu poder e experiência em administração para planejar cada parte
da sua partida, desde se despedir de tudo até mesmo a criação
desse livro; "Meu projeto era transformar esse período numa
experiência positiva para todas as pessoas próximas, assim como
torná-lo os melhores dias da minha vida", escreveu O'Kelly.








Será que é mesmo possível lidar
com a morte de forma construtiva? Pode-se transformar esse período
terrível no melhor de sua vida? Perguntas essas contraditórias que
para alguém que vive hoje se escondendo do fantasma da morte pode
parecer impossível, mas para alguém como Eugene que estava
convivendo com a chegada “prematura” dessa visita “acidental”
não havia como ignorar. E a melhor escolha, talvez, foi a de
planejar da melhor forma possível. E assim foi feito.








O primeiro passo foi pedir
demissão da empresa, de forma onde a mesma não sofresse com o
distanciamento de um presidente tão talentoso. Eugene participou
diretamente do processo de escolha e adaptação do seu substituto. A
partir daí, planejou em uma folha de papel – com o rascunho já
distorcido pela dificuldade em escrever por conta dos tumores –
todas as tarefas a serem cumpridas nos 3 meses de vidas que poderiam
chegar. Dentre os afazeres estão o funeral (onde até a música foi
escolhida), despedida dos parentes e amigos. O plano era fazer de
cada momento vivido a partir daí fosse um “momento perfeito”, o
que o autor critica que deve ser plano de todos e não só daqueles
com a data final marcada. "Alguns amigos e colegas pareciam
ofendidos com  minha atitude pragmática, como se estivesse
negando a possibilidade de um milagre", escreveu ele em sua
autobiografia.









Esse livro aborda principalmente a
morte e o tempo e a forma como lidamos com ambos. A questão
principal apresentada é o fato de estarmos no hoje e não vivemos o
presente. Da mesma forma que o futuro é incerto pra alguém em
estado terminal, como O’Kelly, quanto é para um neonato. Com a
certeza da incerteza fazer com que seja vivido todos os dias da sua
vida. Nas páginas do livro registram-se os prazeres proporcionados
por essa descoberta e até mais do que isso, conta como Eugene se
sentiu orgulhoso ao levar a cabo seu projeto de transformar a morte
na última grande aventura de sua vida.





“Morrer é uma empreitada
difícil” (O’Kelly)













“O último capítulo do livro
teve que ser escrito pela mulher de Eugene O'Kelly, Corinne. Mais do
que ter criado um fundo para auxiliar pacientes com câncer, da
considera que a dedicação dos últimos dias do marido as pessoas
que mais gostava foi a prova de que de fez o melhor que podia.”


 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A (I)Mortalidade de Steve Jobs

O mundo está bem mais próximo do que no passado. Maravilhas da ficção científica fazem parte do nosso cotidiano. Vemos a imagem das pessoas que amamos nos telefones, e conversamos com elas. Nossos gostos e sensações são transmitidos a milhares de quilômetros. Tocamos nas telas dos computadores e eles nos obedecem. Carregamos nossos livros, músicas e fotos em dispositivos móveis do tamanho e diâmetro de um cartão de crédito. Mais recentemente, nossos computadores ficaram reduzidos a uma tela brilhante de cristal líquido: os “tablets”. Em tudo isso e mais um pouco, habita a alma de Steve Jobs.



Ontem Jobs saiu de cena. Tentou manter-se ativo até muito próximo de seu fim. Lutou durante anos contra um câncer. Morreu como todo mundo tem que morrer um dia. Mas estava longe de ser uma pessoa comum. Seus “brinquedos” invadiram nossa vida de tal forma que não nos damos conta da sua importância, tal a trivialidade de um jovem ouvindo seu Ipod ou de alguém usando um Iphone


Mas quero destacar dois pontos com relação a morte de Steve Jobs, afinal, meu olhar teima em pensar a morte boa parte do tempo...claro...cumpro a assertiva de Norbert Elias quando afirmava que “a morte é um problema dos vivos”. Não deixa assim de chamar a atenção como os admiradores de Steve tem deixado mensagens usando seus perfis nas redes sociais. Podemos dizer sem medo de cometer equívoco que milhares e milhares de pessoas estão enlutadas porque Steve Jobs morreu.








A internet tornou-se um veículo natural para que expressemos nossas paixões, indignações, inclinações políticas, condutas sexuais, interesses de consumo. Com a percepção e elaboração da morte não é diferente. Volta e meia nos perfis das redes nos deparamos com mensagens de luto, com pessoas que trocam suas fotos por sinalizações de suas perdas, colocando a velha faixa que ficava presa na lapela agora estendida virtualmente nas imagens e mensagens. Qual o objetivo? Talvez o mesmo de antes. Expressar coletivamente a dor e receber apoio por isso, diminuir a sensação de solidão que a morte provoca afinal, morrer é a ação solitária mais coletiva que existe no campo de nossa experiência prática.


Outra coisa que chama a atenção nas homenagens a Steve Jobs é como seus inventos agora passam a ser utilizados como veículos de expressão da dor e da celebração da memória. Em muitos lugares foram deixados Iphones e Ipads com a imagem de Jobs ornada com flores reais e mensagens de pesar. Em passado próximo, usávamos imagens esculpidas  do morto, depois desenhos ou fotos. Agora, estamos mesclando artefatos tecnológicos com símbolos tradicionais de pesar. Parece que algumas coisas mudam para permaneçam exaltando e satisfazendo as mesmas necessidades.








Mas quero destacar algo que passa desapercebido nas centenas de obituários de Jobs que teimam em destacar seu papel de gênio inventor e visionário mas que se omitem em conjecturar sobre os possíveis motivadores da tal genialidade de Jobs. Em 2005 Steve Jobs foi chamado para fazer um discurso na formatura de alunos da Universidade de Stanford. O discurso, (veja vídeo no final deste post), segue a linha tradicional dos discursos de formatura: fala de sacrifício, exorta os jovens a buscarem seus sonhos, compartilha da própria biografia como um fator motivador para quem vai começar a trilhar a própria estrada. Mas existe algo em sua fala que foge ao padrão. Em discursos de formatura não ouvimos ninguém falar sobre a morte. Pois foi justamente o que Jobs fez:


“Quando eu tinha 17 anos, eu li uma citação mais ou menos assim: “Se você viver cada dia como se fosse o último, algum dia provavelmente você vai acertar”. Aquilo me impressionou, e desde então, nos últimos 33 anos, eu tenho olhado no espelho cada manhã e perguntado a mim mesmo: “Se hoje fosse o último dia da minha vida, eu ia querer fazer o que eu vou fazer hoje?” E sempre que a resposta foi “Não” por vários dias seguidos, eu soube que eu tinha que mudar alguma coisa.


Aqui vemos o quanto pensar na morte parece meio que nos redirecionar para os sentidos que vamos dando ou construindo para nossas vidas. Trilhar a existência como se todo o dia fosse o último faz com que possamos nos questionar cotidianamente em busca de uma vida mais livre e plena, nos transforma em críticos mais severos do próprio caminho que vamos trilhando.


“Lembrar que eu logo vou estar morto é a ferramenta mais importante que eu já encontrei pra me ajudar a fazer grandes escolhas na vida. Porque quase tudo – toda a expectativa exterior, todo o orgulho, todo o medo de dificuldades ou falhas – estas coisas simplesmente somem em face da morte, deixando apenas o que é realmente importante. Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de achar que você tem algo a perder. Você já está nu. Não há razão para não seguir seu coração.


Impossível não pensar em Montaigne quando nos dizia que perder o medo da morte nos torna livre de toda a sujeição. Jobs alerta que diante da condição de finitude estamos nus. Com essa metáfora afirma nossa vulnerabildiade diante da vida e, se assim é, para que ter medo de coisas tão pequenas? Ter que morrer um dia deveria nos livrar do fardo das convenções. Elas simplesmente desaparecem diante de tudo o que a morte pode representar em nossas vidas pois lembrar diuturnamente que não mais estaremos aqui nos impulsiona a buscar as boas escolhas, percebendo o quanto o nosso tempo de fato é precioso!


“Ninguém quer morrer. Mesmo as pessoas que querem ir para o céu não querem morrer pra chegar lá. E mesmo assim, a morte é o destino que todos nós compartilhamos. Ninguém nunca escapou a ela. E é como deveria ser, porque a Morte é muito provavelmente a melhor invenção da Vida. É o agente de mudança da Vida. Ela tira o velho do caminho pra dar espaço pro novo. Por enquanto o novo são vocês, mas algum dia não muito distante, vocês gradualmente vão se tornar os velhos e sair do caminho. Me desculpe por ser tão dramático, mas é totalmente verdade. Seu tempo é limitado, então não gaste vivendo a vida de outra pessoa. Não caia na armadilha do dogma – que é viver com os resultados do pensamento de outra pessoa. Não deixe o ruído da opinião alheia sufocar sua voz interior. E mais importante, tenha coragem de seguir seu coração e sua intuição. Eles de alguma forma já sabem o que você realmente quer se tornar. Tudo o mais é secundário.”





Pessoas como Jobs sempre existiram. Outros virão. Mas talvez possamos ter encontrado um dos segredos que existe por detrás dos produtos tecnológicos que ele criou. O que está por trás da insistência, da perseverança? O que existe por trás da busca constante por excelência? Alguns diriam que pessoas como Jobs nunca deixam de ser crianças na medida em que ainda se vêem presos a uma forma de pensamento mágico que instila a fantasia e comete o atrevimento de torná-la em parte realidade. Mas, junto a essa “criança” existe algo mais. A morte, semelhante a lenda budista, pousava todos os dias nos ombros de Jobs e lhe perguntava se ele estava preparado para ouvir seu trinar. Como ele nos ensinou, isso pode ser o grande impulsionador não só para fazer tablets, mas também para sermos mais felizes! 







sábado, 1 de outubro de 2011

Quando a idade significa proximidade da morte: um tempo limitado de prazeres? (Adriana Mendonça)













A morte não é a mesma para todos. Na velhice
ela é mais próxima, pois ao passar pela infância, adolescência,
idade adulta e um pouco da terceira idade, só há um final. No dia
primeiro de outubro comemora-se o dia internacional das pessoas
idosas. Essa data foi criada pela ONU (Organização das Nações
Unidas), então venho aqui nesse dia, refletir um pouco sobre a morte
para essas pessoas.





Por que quando o tempo for seu inimigo e as
linhas de expressão dominar sua face e sua vitalidade não for como
você gostaria, tudo que restará será bons momentos na memória? A
velhice é o fim? Ficará apenas a esperar o fatídico dia?





A morte do idoso começa com a memória, por
ser uma das primeiras coisas que sonda a morte, e traz aquele sentimento
de distância, de uma vida se esvaindo como um espiral se fechando.
Esse espiral é um símbolo recorrente para falar da morte na
terceira idade, pois é o “caminho” desde o nascimento até o
momento do fim, quando a espiral vai fechando e o caminho se
esgotando.










E a capacidade de escolha é influenciada pela
idade avançada? Não necessariamente precisa disso. Porém, hoje,
percebe-se que isso acontece com mais frequência que o contrário.
Pergunte-se por qual motivo um idoso não pode fazer uma escolha tão
radical quanto à de um jovem? Pelo fato de estar à espera da morte?
A boa morte vem daqueles que possuem uma boa vida, morrer faz parte
do viver. Chega um tempo em que a escolha é pequena, por exemplo,
escolher entre uma sopa ou um iogurte, ao mesmo tempo em que a morte
é a escolha que não se pode ter e quanto mais próximo dela se
parece estar, mais as demais escolhas não possuem mais aquela
importância. 
















A pessoa idosa muitas vezes é mal interpretada como depressiva pelo
fato de se negar a fazer coisas que antes adorava fazer ou que fazia
muito bem. O processo de despedida que pode ser confundido com
depressão. O estabelecimento das despedidas começa com a escolha do
distanciamento devido principalmente a lembrança que o mesmo traz.
Embora pareça cruel é assim que acontece e deve ser entendido como
um processo natural, simples e que é gerenciável. O que era um
estímulo em época que era recém-nascido parece uma despedida na
velhice. A pessoa nova procura conhecer, procurar aprender, procurar
criar a lembrança porque um dia ela vai se distanciar e vai lembrar.






Pessoas que chegam a uma idade mais avançada
ainda têm a chance de perder um ente querido que “deveria”
falecer após ela. Fica aquela dúvida no idoso: “Por que ele e não
eu?”, aquele sentimento de culpa por ter vivido mais e ainda estar
vivo enquanto comparado com a jovialidade do que partiu. É preciso
de força pra conseguir enxugar as lágrimas da saudade que vem bem
mais acentuada para quem não a aceita. É mais do que o vazio da
ausência, é o vazio de uma vida inteira se reduzindo a memórias.
Então grande maioria se deixa morrer. 









Julga-se um tempo limitado de prazeres,
enquanto na realidade pode-se viver em qualquer idade, mesmo que as
lembranças estejam na frente dos olhos quase os cegando. E fica a
dúvida: O que é a morte? Apenas um desligar, um apagão? Outro
caminho? O fim de um sofrimento? O encontro com outro que já partiu?

 




quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Feliz Aniversário, Erasmo, e que a morte te encontre feliz!





Erasmo Miessa Ruiz aparece aqui, nesse blogue, como o tanatologista que mistura a frieza da morte ao calor do lúdico, o temor de deixarmos essa vida com a necessidade de sermos amparados até o fim. É o cara que faz projetos incluindo seus antepassados e sua prole, que reúne a atividade da docência com a de ser pai, marido e amigo... amigo de muitos. Ele não tem um milhão, nem nas redes sociais, mas tem alguns bem autênticos, o suficiente para levar o seu féretro até à cova onde fará morada eterna.

Por falar em morada eterna, esse quase frade franciscano, hoje deu mais um passo em sua direção: um ano a menos de vida. Esperemos e desejamos que ainda tenha muito a caminhar, e quando soprar as velas do bolo de aniversário, não esqueça que todos nós que fazemos a THANATOS estamos muito felizes em sermos seus comensais.

Felicidades

domingo, 25 de setembro de 2011

Crianças Cometem Suicídio: Dor e Morte em Escola Pública (Erasmo Ruiz)



Aconteceu esta semana. Um garoto de 10 anos em São Paulo disparou um tiro contra a professora em sala de aula para logo em seguida cometer suicídio com um tiro na cabeça. A noticia, impactante pelas suas circunstâncias, parece no entanto perder fôlego rapidamente na sua capacidade em manter a superexposição. Diferente do que aconteceu na escola de Realengo no Rio de Janeiro, existe uma aparente necessidade de se virar as páginas rapidamente.





No Rio de Janeiro tudo tornou-se "compreensível" na medida em que um assassino estaria claramente comprometido em suas capacidades mentais. Um séquito de especialistas deram entrevistas, escreveram artigos e prometem livros que lançarão mais luzes sobre o ocorrido. De norte a sul deste país, tivemos semanas e semanas de grandes especulações vendidas a peso de ouro aos patrocinadores que expunham seus produtos. Do Jornal Nacional aos programas "trash" de final de tarde, todos puderam abocanhar a parte de seu butim, transformando em mercadoria o sangue e a morte dos adolescentes de Realengo.



Mas e agora? Algo muito grave aconteceu. Uma criança de 10 anos dispara contra uma professora e depois comete suicídio, numa escola pública tida como modelo onde nada, absolutamente nada parece sugerir os motivos da tragédia: o menino não era vítima de "bullying", tinha boas notas, comportamento exemplar, era sociável, família comum. Ao tentarem esmiuçar a tragédia, nada aparece que funcione para "explicar" e assim ser um ansiolítico dos nossos medos e angústias.



Não havendo explicações fáceis cabe às mentes mais férteis buscar suas explicações, que podem passar dos mitos de possessão demoníaca para esta ou aquela teoria "psi" mais ou menos exótica. O fato é que a notícia foi perdendo fôlego. Acredito que o motivo principal é que o acontecimento em si quebra determinadas crenças e a maiorias de nós, imersos nas preocupações do cotidiano, não estamos muito dispostos a ter que lidar com as consequências.



Crianças de 10 anos não morrem...quem dera fosse verdade! Crianças de 10 anos não cometem suicídio...será? Queremos ter a confiança que deixamos nossos filhos em escolas que os protejam do vendaval que corre lá fora...é mesmo assim? Pessoas que seguem as regras e são super-socializadas estão imunes aos sofrimentos psíquicos....quem sabe?



Virem a página rapidamente. Deixem que o Jornal Nacional informe de maneira superficial e burocrática o que nos sufoca. Não nos aprofundemos. Por favor, não imaginem que isso tudo poderia estar acontecendo com seus filhos...até porque a maioria de nós não guarda armas em casa. Pensar nisso tudo pode comprometer o impulso de abrir conta naquele Banco ultra eficiente ou nos imobiliza no desejo de comprar um carro novo.



Renato Russo já nos avisou:





Estátuas e cofres e paredes pintadas

Ninguém sabe o que aconteceu.

Ela se jogou da janela do quinto andar

Nada é fácil de entender.
Dorme agora,

é só o vento lá fora.
Discutir crianças tentando matar professoras e depois cometendo suicídio não faz muito bem ao mercado. No fim das contas "nada é fácil de entender". Antes de "explicar" talvez fosse mais importante perceber que os tabus são tabus porque todos, absolutamente todos podem transgredi-los. Atitudes de desespero trágico talvez possam brotar dos muitos "silêncios" que habitam o coração de todos nós enquanto fazemos compras, pagamos contas e vamos meio entediados manejando as rotinas. Enquanto isso, "Pais e Filhos" matam e morrem sem perceberem que a vida pode renascer em meio as incertezas próprias do viver. Basta que possamos conversar um pouco mais.
Vivemos num mundo onde crianças tornaram-se capazes de matar e de se matarem em ambientes miticamente protegidos. Não serão programas televisivos indispostos em expor essa chaga que irão superar a dor e o sofrimento que uma tragédia como essa provoca. Alias, que essa dor possa se manter para superarmos os medos e compreender que temos também nossa parcela de responsabilidade pelos tiros no Realengo e agora pelo suicídio em São Paulo. 

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Luto Virtual (Paula K Portugal)














 

Para
expressar os sentimentos surgidos com a perda de um ente querido, os
usuários encontram nas redes sociais mais um espaço de desabafo.
Aqui vale fazer álbuns de foto em homenagem àqueles que já se
foram, e/ou trocar a imagem do perfil por símbolos do luto, como a
fita do luto ou a rosa negra, e pela foto do falecido.


Poemas
e trechos de musicas como
“Gostava
tanto de Você” de Tim Maia, também acabam sendo utilizados por
possuírem letras que se encaixam perfeitamente neste momento de
perda.


Nas mensagens postadas
pelos usuários percebe-se um turbilhão de emoções como, alivio
pelo parente ou amigo não estar mais sofrendo; esperança em um
paraíso e na existência de Deus; o enaltecimento do falecido, pois
como dizem, para ficar bom, basta morrer!; além de questionamento
como porque isso está acontecendo? Porque Deus levou aquela pessoa?


Todas estas manifestações
despertam uma rede de apoio e comoção de outros usuários, podendo
caracterizar-se assim como um pedido de apoio. São também um grito
de liberdade para o turbilhão de sentimentos despertados com o luto,
uma vez que o ciberespaço é um lugar sem limites para a expressão
daquilo que se sente, muitas vezes guarnecido pelo anonimato.

sábado, 17 de setembro de 2011

Por um fio: O liame da vida e da morte na mitologia (Dario Junior)



“Essa foi por pouco”, “por um triz”, “por um fio”, todas são expressões que encontramos corriqueiramente em nossa vida cotidiana, mas muitos falam e não percebem sobre o que estão falando. Quando falo que estou por um fio posso estar me referindo à fragilidade de um fio, mas porque falo exatamente a figura do fio? O que a faz ser tão recorrente? 
             Ao ser indagado sobre tais questões penso na fatalidade, a predestinação grega que remonta a figura da moira. Esta personagem mitológica que sofreu algumas alterações ao longo do tempo. Inicialmente era tida como uma entidade, o destino individual já traçado para cada um, sendo que cada vivente tinha a sua própria moira, daí provém à expressão: “cada um tem sua própria sorte”.



Impessoal e inflexível como o próprio processo de vida e morte a moîra representa uma lei que nem os próprios deuses podem transgredir, sem colocar em perigo a ordem do universo é ela que impede o deus de ajudar seu herói no momento em que ele corre perigo.


Em outros são apresentadas como três entidades distintas: Cloto (Nona), Láquesis (Décima) e Átropos (Morta), sendo cada uma responsável por uma função na ordem do mundo. Sendo estas as reais responsáveis por nossa vida sempre estar por um fio.
            
            A vida devemos a Cloto que é a fiandeira, ela é encarregada de fiar e puxar o fio de nossa vida. Láquesis é a sorteadora, sua função é enrolar o fio da vida e sortear aquele que deve ser entregue a Átropos, a inflexível, a que não volta atrás, aquela que tem o dever de cortar o fio da vida.
            
           No período mitológico não se tinha as concepções que temos sobre como se dá os processos de adoecimento, mas tinham a certeza que temos hoje, que todo ser nascente também deverá um dia morrer, ao passo que não cabe a nós, mortais, saber o momento em que Láquesis pegará o nosso fio.
           
          A incerteza enquanto a este momento é fundamental, embora, por vezes, a medicina tenha conseguido saber mais sobre os processos de adoecimento, tente esconder de Láquesis o fio correspondente a sua vida a deusa sempre o encontra e oferece-o a sua irmã. Mas, a incerteza de quanto tempo terá: de Cloto a 


          Átropos é que faz com que a vida tenha que ser vivida, como não sabe quando o momento chegará devemos preencher diversas tapeçarias com este fio, tomarmos cuidado com ele, mas que este cuidado não se reflita em medo de viver a própria vida. Láquesis não deve ser tida como a que leva a morte, mas como aquela que lhe lembra de que você é um ser finito e como tal deve viver uma boa vida, para quando sentir que seu fio foi entregue a Átropos, acolher a Thanátos em uma boa morte.